segunda-feira, 4 de maio de 2015

Carla Diacov

queria sondar o excêntrico intocável através do sangue da fulaninha
queria procriar e queria trucidar com a pressa do passo
lembra?
andávamos
sem a nós nos encontrar
ai meu amor que não chega
ai a melancolia no fundo do prato, anjo  

aquieta essa boca
amanhã alguém morre no samba


Carla Diacov, Amanhã alguém morre no Samba, Lisboa, Douda Correria, 2015.

Carla Diacov

outros experimentos falharam
chorar e seguir com a língua o caminho da lágrima
ralar o cotovelo e seguir com a língua o caminho da gota de sangue
ejacular e seguir com a língua
seguir o fio de sol
feito os trevos do antigamente no jardim
aqui
desde tanto
uma rua vazia e japonesa
minha cabeça é pior que o diabo
pior que o diabo que enfio entre as tábuas
as tábuas
desde que tanto cheguei aqui
é o diabo
melhor que seja
digo
a cor que isso vai tomando
sei que estou viva porque me vejo nos olhos do diabo
sei que respiro
porque o tenho tomando meu hálito
sei nada dos meus medos
porque sua cabeça linda, vermelha, tríplice
guarda noturno sonâmbulo diário crepuscular
ninguém meu amorninguém como nós conhece o sol*
meu diabo
às barbas do meu diabo
suas orelhas amplas
suas marcas nas minhas paredes
nasci para ser umidade cor de concupiscência
pensei
me visto de alçapão e choro
mas estou pelada
mas estou calva
estou feia e fútil
basta
basta quando que sou o alçapão
sou possuída e inquilina
céus
eu sou o alçapão
espia:
o diabo é minha carne pênsil.
* Sebastião Alba


Carla Diacov, Amanhã alguém morre no Samba, Lisboa, Douda Correria, 2015.

domingo, 19 de abril de 2015

Eugénio de Andrade

XXIII. A uma cerejeira em flor

Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira,
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja:
sentir o tempo, fibra a fibra,

a tecer o coração de uma cereja. 


Eugénio de Andrade, Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos, Os Amantes Sem Dinheiro, Porto, Limiar,1978.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

OS BEIJOS QUE VAIS DAR



À Gisel

Na entrada e na saída do metro, nas carruagens, rápidos, longos, os beijos que vais dar na praia, na montanha, no carro, as mãos que vais dar, rápidos, longos, o Sol que tantas vezes se vai ver a ele próprio nos teus olhos, os beijos no elevador, no carro, na faculdade, que vais dar, as mãos rápidas, os braços que te vão abraçar, os sinos passados, fotografias, as torres que vais subir, os espelhos todos em que te vais ver, segura, extremamente segura, linda, feia, obcecada, feliz, vazia, cheia, gorda, magra, dando-lhe as costas, experimentando vestidos, feliz, sentindo que a vida é um mergulho, dando a volta, que não há tempo, que há muito tempo, extremamente feliz, a euforia, o tédio, o que vais ver e dar, os sonhos abandonados, os sonhos realizados, a salitre depois do mergulho, o sol que vai ficar sempre dentro de ti e que tantas vezes se vai ver ao espelho em ti — e dentro, a corrente de vida segura, a felicidade extrema, a felicidade-mergulho ou a felicidade-estrela, as portas que vais abrir, a vida com todas as suas pegadas, dias vazios, dias citrinos, dias de chumbo, de calor ou de frio — mas dias de ganhar sempre e ganhar sempre contra ninguém, vais sentir neve nos olhos, neve nos pés, abraços nos polos, abraços no centro, um olhar para cima que te vai libertar, sentir-te protegida, abraçada, ter recordações que te vão magoar, que te vão fazer mais forte, que vais ter que esquecer, os beijos que vais dar — no metro, rápidos na subida do autocarro, atrás, dentro, fora dos prédios, a chuva e o vento que te vai bater, todas as cores que vais vestir, todas as formas que vais tocar, sentir, modelar, guiar e ser guiada, pela estrela ou como estrela. Mas pensa, guarda e mantém, em todos os momentos, que está sempre ao teu lado o Capitão Soninho, ao lado de todos os beijos e de todas as páginas que vais virar, marcar, reler, saltar rápido, comer — páginas, capítulos marcados, sublinhados, limpos, abandonados, livros que vais esquecer numa paragem, num autocarro, ou que vais querer incendiar, poemas que vais deixar em sítios a que não voltas — acidentes voluntários ou involuntários, conquistas, perdas que não existem, ajustes — páginas rápidas, demoradas, relidas, reescritas, apagadas, riscadas, escritas nas margens, escritas no fundo, escritas por cima: sempre escritas por cima com o privilégio de renovar, em várias cores e fundos. Em muitos espelhos te vais sentir desejada, sozinha, cheia, desejada com mais força, um diadema verde, o cabelo liso, puxado para trás, apanhado, comprido, curto, pintado, frisado nos dias de verão e a mudança percetível e palpável na libido do planeta que sempre gira sem que nos demos conta enquanto mudam ainda mais rápido as linhas da tua mão, a cada nascimento e decisão — endireitar umas, fortalecer outras, encaminhar, orientar — encaminhar com mais força a vitória, que se for verdadeira, nunca aceitará que haja um único homem derrotado. E em todas elas vais sentir o Capitão Soninho ao teu lado, a dar-te a segurança quando mais precisares de segurança e a dar-te o sono quando quiseres dormir, a vigília quando mais precisares dela. Calor, segurança e milagres quando deles precisares. Sempre, o Capitão, com a estrela debaixo do braço, nos caminhos, túneis, autoestradas, carris, funiculares, elétricos, desertos, decisões, Caminho enfim: num único símbolo resumido; em todo ele, em todos eles, o Capitão ao teu lado com a estrela debaixo do braço e nos seus olhos refletidos os beijos que vais dar — enquanto o Sol se vê a si mesmo, em nova e maior escala, como quem nada nos teus olhos, vindo em raios rápidos outra vez enquanto dormes. Escrevo rápido contigo no colo.


                                                 Nuno Brito

segunda-feira, 30 de março de 2015

FUTURA-TE



Habito a possibilidade, uma casa mais ampla do que a prosa
Emily Dickinson


É um Movimento, sim, porque tudo está em movimento e parar é sempre impossível
Acreditamos na Potência … uma semente de trigo será pão (um matar a fome já futuro e elementar) – uma abelha traz um girassol (futuro) uma vida traz outra vida e um marinheiro são sempre dois marinheiros (Haja mar ou não)
Um Movimento de quê? Literário, artístico, interartístico, para-artístico, real, sim, sempre REAL, porque tudo é Real – hiper-real, neorreal, Surreal, infrarreal, neo-neo-neo-real, Mas sempre REAL – E esta obsessão pela realidade (por mais que queiramos fugir dela)
Quanto à orientação sexual do movimento – Heterossexual e Homossexual e Infra-sexual e Bissexual e Metrossexual e ultrasexual - sempre Muito Sexual, poderíamos dizer que é simplesmente Sexual-Sexual

Movimento – e para onde vai? Para onde o levarem os que nele estão, e para onde o levares tu quando nele entrares e aqueles que tu convides a entrar, queremos pessoas, contacto, pessoas que saibam que só se é imortal enquanto se vive e que saibam que:
Os nomes não legitimam
As pessoas legitimam
As pessoas assinam os seus trabalhos com nomes – mas devem ser os seus trabalhos e essas pessoas que os legitimem lhe deem valor e não os seus nomes.
Quem os recebe deve ser livre para lhes dar valor ou para não acreditar neles.
Futura-te é uma assinatura.
As pessoas das diferentes áreas que quiserem fazer dele parte – Devem assinar os seus trabalhos (Literatura, Artes Plásticas, Cine-video, Música … Intervenção Política, Investigação Científica nas distintas disciplinas, ensaios, artigos de opinião, ou seja Produção Humana … Vida Condensada, sempre perene, algo que passa de umas pessoas para outras pessoas, de umas vidas para outras Vidas, somos Comunicação – não queremos filtros, não vamos filtrar e não queremos ser filtrados – somos uma espécie de Anonymous que não percebem assim tanto de informática – não podemos entrar no site da Casa Branca, não podemos infiltrarmo-nos no sistema bancário do Liechtenstein, não conseguimos provocar um apagão no Dallas ou fazer que a Letónia fique sem internet durante dois meses) mas também somos piratas – tudo o que fazemos assinamos com “Futura-te”
Uma assinatura coletiva que pretende trazer uma mensagem, uma assinatura anónima (porque nela queremos que entrem muitos, se possível todos)
Queremos perder o controlo daquilo que criamos (passa-se sempre com quem cria alguma coisa – um filho, um ideal político, por isso vamos perder o controlo e ainda bem, assim o queremos
Temos noção que se as pessoas (de todas as áreas) assinarem os seus trabalhos com “Futura-te” estarão a fazer uma cedência – publicarão trabalhos que não serão reconhecidos como seus, perderão o controlo deles, e queremos que eles próprios um dia os confundam com outros trabalhos de outras pessoas do movimento

Queremos um movimento internacional e já temos um movimento internacional
Mas queremos um movimento mais internacional porque sabemos que as fronteiras também são espaços – uma fronteira também é um país, um país que faz fronteira com dois estados, mesmo que uma fronteira seja uma linha simbólica, ou um rio, ou uma montanha (fronteira natural) ou um muro (fronteira militar) não deixa de ter o seu espaço. Vivemos nele, nutrimo-nos do contacto.
A Propriedade intelectual deixou de ter razão de ser, sabemos os males e perversidades que delas derivam (mas não somos fundamentalistas) É importante muitas vezes assinar o nome.
Mas sabemos que uma assinatura coletiva (Nas mais diversas áreas da sociedade vai produzir trabalhos mais autênticos e que se afastam dos artificialismos que a defesa de um nome ou a procura incessante de um estilo próprio – outra vez a defesa do nome – provocam.
Não queremos que as pessoas abdicam do seu estilo, apenas temos a noção que quando as pessoas usam um nome, muitas vezes seguram-se a ele, balançam num fio. Ficam obcecadas com o fio. Com a ideia que os outros têm de nós
Mas será que num mundo em que se cortam os clitóris às mulheres para que elas não tenham prazer, se continuam a cortar línguas a pessoas que bateram com a língua nos dentes, se pratica a tortura do pó talco, se urina na boca de afegãos mortos e se pratica a tortura do pó talco, será que neste Mundo valerá alguma coisa pensarmos naquilo que pensam de nós
Acreditamos que para o Mundo acabar terá ainda que Começar
Nós Gostamos do Mundo e queremos um Mundo Melhor, o erro é a nossa casa, os nossos amigos a nossa pátria, temos muita sede e continuamos à procura, Queremos-te.

FUTURA-TE, 2012.

domingo, 29 de março de 2015

Jack Kerouac

They rushed down the street together,digging everything in the early way they had, which later became so much sadder and perceptive and blank. But then they danced down the streets like dingledodies, and I shambled after as I've been doing all my life after people who interest me, because the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop and everybody goes "Awww!" What did they call such young people in Goethe's Germany? Wanting dearly to learn how to write like Carlo, the first thing you know, Dean was attacking him with a great amorous soul such as only a con-man can have. "Now, Carlo, let me speak-here's what Fm saying ..." I didn't see them for about two weeks, during which time they cemented their relationship to fiendish allday-allnight-talk proportions.


Jack Kerouac, On the Road.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Yvette K. Centeno: O Monte


Anoitecer suave
no topo das colinas

calam-se os pássaros
as lebres e os coelhos
aninham-se nas tocas

sai um morcego
a mordiscar romãs

os gatos sorrateiros
saltam entre os telhados
em busca de algum ninho
ou de algum rato

luar de Agosto

lá em baixo na estrada
conversam os namorados

Yvette K. Centeno