segunda-feira, 11 de maio de 2015

António Pedro Ribeiro


 CONFEITARIA DA CASA

Na “Confeitaria da Casa”
Às cinco da tarde
O poeta pensa
Pensa que há dias
Em que vive noutro mundo
Um mundo fora da vida prática
Do útil
Do dinheiro
Tal como Platão e Aristóteles
O poeta despreza o dinheiro
Acha que a avidez do lucro
Destrói o homem
O poeta pensa
Num grande banquete gratuito
Onde os homens se sentam à mesa
E discutem filosofia e literatura
O poeta pensa em Sócrates e em Jesus
Na bondade, na vontade, na liberdade
O poeta tem tido visões, iluminações
Trilhou o seu próprio caminho
Rumo à noite
Rumo aos bares
E, de vez em quando,
Tem conversas que elevam
Conversas que falam
Da alma, do espírito
Da vida interior
Na “Confeitaria da Casa”
O poeta cansa-se do tédio
Da vida previsível
Que os homens levam
Dos inimigos da vida
Que não nos querem
Deixar viver
Acha-os imbecis
Porque não vêem a flor
Porque não vêem o amor
O poeta é um criador
Tem em si
O belo
O maravilhoso
A divindade
E dança
Ah! Como dança!


António Pedro Ribeiro

domingo, 10 de maio de 2015

Ode que ferve


Vários comboios se descarrilam dentro do meu peito, várzea à noite com muitos pirilampos acesos:

fervem e cruzam-se todas as linhas –

uma pirâmide de olhares cruzados em fogo, muitas rotundas, auto-estradas, viadutos,

linhas de metro, passa estridente um comboio a alta velocidade, bebo toda a cidade

e caio rotundo no chão -

sinto o suor de todos, o doce espasmo de uma jovem etrusca e todo o

Sol a incendiar-te o sorriso: fizemos um pacto com ele, com a vida com o futuro
(Comboio estranho que derrete) fizemos um pacto com tudo que fluí, as linhas
entrelaçaram-se, sinto a tua pulsação no meu peito e beijo-te os pulsos, a ansiedade

nervosa da cidade, o doce espasmo das borboletas e a Contracção de cada recém-nascido que parte –
A febre recheia a cidade –

O peito cheio de praças e cidades inteiras por dentro, viadutos, túneis, contigo em cada

esquina, dentro de cada café – com o pôr-do-sol dentro dos pul-sos – a injectar o sol
líquido no peito, não há mais caminho para trás – tenho a tua sede de futuro, são seis e
vinte da manhã e a cidade acorda e adormece ao mesmo tempo

– Sinto o calor de todos

os que aquecem – A cidade a subir-me pela espinha dorsal, como uma nuvem branca,
quando te abraço faço um pacto com a Vida

………………………………………………

A cidade chama por nós e faz nós dentro de nós, tudo flui a uma velocidade frenética e todos os poetas futu-ristas, italianos, russos, franceses, portugueses, espanhóis levantam a cortina pesada da noite à velocidade do dia – enchem os teus olhos de sol – bebo por eles toda a cidade, todos eles sabem quanto te amo (cidade industrial, ceroulas, pastor alemão, civilização assustada, seringas e preservativos no chão, cave com vários fundos húmidos) a boca cheia de vidros – lambo-te o peito, os pulsos, os dentes, a língua (uma abelha na auto-estrada) o relógio de sol funciona à noite – se formos rápidos e seguirmos o dia – quando se patina sobre gelo fino a velocidade é a única salvação – e aqui cito todos os que não disseram a frase porque a sabem
e sabem que o tempo corre – Sinto todo o desconforto dos cães à toa antes de serem atropelados estou nas mãos dos fabricantes de carros que atropelam os cães, nas mãos dos operários, nos muros contra os quais urinam, os operários com as suas mãos – com a linha da vida a arder até ao pulso, e no fim do dia as mesmas mãos com a linha da vida a arder, ou várias linhas que se cruzam, a segurar o pulso da mulher, a acordá-la, a segurar o pulso de todas as mulheres dos ope-rários – preciso tanto de calor – sou a sede, a raiva, o medo, a Vontade líquida de estar dentro de ti, sou líquido e fervo por ti dentro, amo os teus olhos, a tua boca, os teus dentes, os teus pulsos, os teus medos as tuas inseguranças, as tuas dúvidas, os teus tornozelos, a tua saliva, a tua língua, os teus olhos, a tua boca, os teus dentes, amo os teus braços, as tuas mãos, braços, pernas, pés, e atravesso a peito a tua nuca quente, o teu peito a nado, sou líquido – vejo pelos teus olhos – todos – beijo-te os tornozelos, se penso em escrever um poema sobre o fogo lembro-me da bombeira voluntária de vinte e um anos que morreu a combater os fogos – con-tinuamos a subir – são 6:35 da manhã e a cidade acorda por ti adentro,



Vejo por trás de ti Por trás de nós Por dentro de nós,                                                                                   

a cidade acorda: o sol dos teus olhos a injectar-me no peito uma Vontade Nova – Em tudo Nova – Amo tudo o que ferve a noite láctea que te atravessa o peito de Calor Ode que ferve e liga pelo skype, nado por ti adentro.



 Nuno Brito

sexta-feira, 8 de maio de 2015

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Carla Diacov

queria sondar o excêntrico intocável através do sangue da fulaninha
queria procriar e queria trucidar com a pressa do passo
lembra?
andávamos
sem a nós nos encontrar
ai meu amor que não chega
ai a melancolia no fundo do prato, anjo  

aquieta essa boca
amanhã alguém morre no samba


Carla Diacov, Amanhã alguém morre no Samba, Lisboa, Douda Correria, 2015.

Carla Diacov

outros experimentos falharam
chorar e seguir com a língua o caminho da lágrima
ralar o cotovelo e seguir com a língua o caminho da gota de sangue
ejacular e seguir com a língua
seguir o fio de sol
feito os trevos do antigamente no jardim
aqui
desde tanto
uma rua vazia e japonesa
minha cabeça é pior que o diabo
pior que o diabo que enfio entre as tábuas
as tábuas
desde que tanto cheguei aqui
é o diabo
melhor que seja
digo
a cor que isso vai tomando
sei que estou viva porque me vejo nos olhos do diabo
sei que respiro
porque o tenho tomando meu hálito
sei nada dos meus medos
porque sua cabeça linda, vermelha, tríplice
guarda noturno sonâmbulo diário crepuscular
ninguém meu amorninguém como nós conhece o sol*
meu diabo
às barbas do meu diabo
suas orelhas amplas
suas marcas nas minhas paredes
nasci para ser umidade cor de concupiscência
pensei
me visto de alçapão e choro
mas estou pelada
mas estou calva
estou feia e fútil
basta
basta quando que sou o alçapão
sou possuída e inquilina
céus
eu sou o alçapão
espia:
o diabo é minha carne pênsil.
* Sebastião Alba


Carla Diacov, Amanhã alguém morre no Samba, Lisboa, Douda Correria, 2015.

domingo, 19 de abril de 2015

Eugénio de Andrade

XXIII. A uma cerejeira em flor

Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira,
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja:
sentir o tempo, fibra a fibra,

a tecer o coração de uma cereja. 


Eugénio de Andrade, Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos, Os Amantes Sem Dinheiro, Porto, Limiar,1978.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

OS BEIJOS QUE VAIS DAR



À Gisel

Na entrada e na saída do metro, nas carruagens, rápidos, longos, os beijos que vais dar na praia, na montanha, no carro, as mãos que vais dar, rápidos, longos, o Sol que tantas vezes se vai ver a ele próprio nos teus olhos, os beijos no elevador, no carro, na faculdade, que vais dar, as mãos rápidas, os braços que te vão abraçar, os sinos passados, fotografias, as torres que vais subir, os espelhos todos em que te vais ver, segura, extremamente segura, linda, feia, obcecada, feliz, vazia, cheia, gorda, magra, dando-lhe as costas, experimentando vestidos, feliz, sentindo que a vida é um mergulho, dando a volta, que não há tempo, que há muito tempo, extremamente feliz, a euforia, o tédio, o que vais ver e dar, os sonhos abandonados, os sonhos realizados, a salitre depois do mergulho, o sol que vai ficar sempre dentro de ti e que tantas vezes se vai ver ao espelho em ti — e dentro, a corrente de vida segura, a felicidade extrema, a felicidade-mergulho ou a felicidade-estrela, as portas que vais abrir, a vida com todas as suas pegadas, dias vazios, dias citrinos, dias de chumbo, de calor ou de frio — mas dias de ganhar sempre e ganhar sempre contra ninguém, vais sentir neve nos olhos, neve nos pés, abraços nos polos, abraços no centro, um olhar para cima que te vai libertar, sentir-te protegida, abraçada, ter recordações que te vão magoar, que te vão fazer mais forte, que vais ter que esquecer, os beijos que vais dar — no metro, rápidos na subida do autocarro, atrás, dentro, fora dos prédios, a chuva e o vento que te vai bater, todas as cores que vais vestir, todas as formas que vais tocar, sentir, modelar, guiar e ser guiada, pela estrela ou como estrela. Mas pensa, guarda e mantém, em todos os momentos, que está sempre ao teu lado o Capitão Soninho, ao lado de todos os beijos e de todas as páginas que vais virar, marcar, reler, saltar rápido, comer — páginas, capítulos marcados, sublinhados, limpos, abandonados, livros que vais esquecer numa paragem, num autocarro, ou que vais querer incendiar, poemas que vais deixar em sítios a que não voltas — acidentes voluntários ou involuntários, conquistas, perdas que não existem, ajustes — páginas rápidas, demoradas, relidas, reescritas, apagadas, riscadas, escritas nas margens, escritas no fundo, escritas por cima: sempre escritas por cima com o privilégio de renovar, em várias cores e fundos. Em muitos espelhos te vais sentir desejada, sozinha, cheia, desejada com mais força, um diadema verde, o cabelo liso, puxado para trás, apanhado, comprido, curto, pintado, frisado nos dias de verão e a mudança percetível e palpável na libido do planeta que sempre gira sem que nos demos conta enquanto mudam ainda mais rápido as linhas da tua mão, a cada nascimento e decisão — endireitar umas, fortalecer outras, encaminhar, orientar — encaminhar com mais força a vitória, que se for verdadeira, nunca aceitará que haja um único homem derrotado. E em todas elas vais sentir o Capitão Soninho ao teu lado, a dar-te a segurança quando mais precisares de segurança e a dar-te o sono quando quiseres dormir, a vigília quando mais precisares dela. Calor, segurança e milagres quando deles precisares. Sempre, o Capitão, com a estrela debaixo do braço, nos caminhos, túneis, autoestradas, carris, funiculares, elétricos, desertos, decisões, Caminho enfim: num único símbolo resumido; em todo ele, em todos eles, o Capitão ao teu lado com a estrela debaixo do braço e nos seus olhos refletidos os beijos que vais dar — enquanto o Sol se vê a si mesmo, em nova e maior escala, como quem nada nos teus olhos, vindo em raios rápidos outra vez enquanto dormes. Escrevo rápido contigo no colo.


                                                 Nuno Brito