sábado, 6 de junho de 2015

Constantin Cavafy


Círios

Os dias do futuro estão em frente a nós
como uma longa fila de círios acesos.
Dourados, quentes, vivos, pequeninos círios.
Os dias do passado ficam para trás,
uma triste fileira de apagados círios:
ainda fumegantes os mais próximos,
os outros frios, derretidos, recurvados.
Não quero vê-los: essa imagem fere-me –
dói-me lembrar a luz que foi a deles.
Olho na frente os meus círios acesos.
Não quero voltar-me e ver, horrorizado,
quão rápida se amplia a fila escura,
como se multiplicam os que se apagaram.

Constantin Cavafy, 90 e mais quatro poemas, Coimbra, Centelha, 1986.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Clarice Lispector


É. Mas parece que chegou o instante de aceitar em cheio a misteriosa vida dos que um dia vão morrer. Tenho que começar por aceitar-me e não sentir o horror punitivo de cada vez que eu caio, pois quando eu caio a raça humana em mim também cai. Aceitar-me plenamente ? É uma violentação de minha vida. Cada mudança, cada projeto novo causa espanto: meu coração está espantado. É por isso que toda a minha palavra tem um coração onde circula sangue.


Clarice Lispector, Um Sopro de Vida (Pulsações), Lisboa, Relógio D’Água, 2012.

Clarice Lispector


Ângela, eu também fiz meu lar em ninho estranho e também obedeço à insistência da vida. Minha vida me quer escritor e então escrevo. Não é por escolha: é íntima ordem de comando.

Clarice Lispector, Um Sopro de Vida (Pulsações), Lisboa, Relógio D’Água, 2012.


terça-feira, 12 de maio de 2015

Maria Sousa


Podemos cantar uma canção os dois

podemos cantar um canção os dois
a valsa da matilde do waits
a voz do vinagre onde o álcool se transforma em som
algures no nosso oeste
cactos e bagaço
o blue valentine na kentucky avenue
uma lágrima numa longa
noite sem fim
porque esperamos?
não sei
juro que não sei sentada na berma
já tenho doses de noites a
mais
de esquinas e portas
de adeus em adeus
elas não suportam a separação
não choram mais porque secaram
i never talk to strangers
o som da cidade
fica restabelecido e já não tenho horas
o relógio parou
e eu fiz um gesto obsceno
e desapareci


Maria Sousa, in Cadernos de Poesia nº 3, Enfermaria 6, Lisboa, 2015.

Luís Quintais


Ecografia #3

É uma imagem do tempo
desenhando-se, flor, floração,
fértil sombra, alma.
Ecos desfiam o perfil
de Amélia, ombros,
dedos, olhos, encéfalo,
pétalas, sépalas,
sonhos.

Luís Quintais, in Cadernos de Poesia nº 3, Enfermaria 6, Lisboa, 2015.


Gonçalo Mira


 Tríptico
I
Fosses tu um rio e eu
um seixo
lançado por mãos hábeis
para te tocar a pele
uma vez
e outra e outra e outra.
E mergulhar em ti.
II
Ponho as mãos em concha
debaixo da torneira e penso:
Como seria bom que aqui estivesses
e a abrisses.
III


Fosses tu o mar
e eu pedra que submergisse em ti
brotando anéis concêntricos de pequenas vagas
como para te circunscrever
num abraço
inteiro.


Gonçal Mira, in Cadernos de Poesia nº 3, Enfermaria 6, Lisboa, 2015.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

António Pedro Ribeiro


 CONFEITARIA DA CASA

Na “Confeitaria da Casa”
Às cinco da tarde
O poeta pensa
Pensa que há dias
Em que vive noutro mundo
Um mundo fora da vida prática
Do útil
Do dinheiro
Tal como Platão e Aristóteles
O poeta despreza o dinheiro
Acha que a avidez do lucro
Destrói o homem
O poeta pensa
Num grande banquete gratuito
Onde os homens se sentam à mesa
E discutem filosofia e literatura
O poeta pensa em Sócrates e em Jesus
Na bondade, na vontade, na liberdade
O poeta tem tido visões, iluminações
Trilhou o seu próprio caminho
Rumo à noite
Rumo aos bares
E, de vez em quando,
Tem conversas que elevam
Conversas que falam
Da alma, do espírito
Da vida interior
Na “Confeitaria da Casa”
O poeta cansa-se do tédio
Da vida previsível
Que os homens levam
Dos inimigos da vida
Que não nos querem
Deixar viver
Acha-os imbecis
Porque não vêem a flor
Porque não vêem o amor
O poeta é um criador
Tem em si
O belo
O maravilhoso
A divindade
E dança
Ah! Como dança!


António Pedro Ribeiro