sábado, 22 de agosto de 2015

Diego Moraes

Você disse que sonhos é como fazer musculação
Você disse que Vou à Bahia leva crase
Você disse que queria adotar um cachorrinho e fazer Teatro
         [de Rua em São Paulo
Você disse que Roberto Piva era o poeta mais lindo do mundo
Você disse tantas coisas bacanas quando eu tava fudido
Você disse que eu sairia dessa e levou livros e cigarros quando
         [eu tava internado naquela clinica para drogados
Você foi minha garota e foi foda ver seu sorriso de mãos dadas
         [com outro cara
Sempre fico sem jeito com o meu passado
Nessas horas eu queria ser invisível ou ter asas.



Diego Moraes, partilhado a partir de Modo de Usar.


José Manuel Teixeira da Silva

MIRADOUROS

As mães levam os filhos pela mão
mostram as ruas, os pequenos comércios
apontam o mar, planícies
outros campos muito rasos

Alcançam depois as paragens mais altas
conduzem-nos para o extremo dos caminhos
abordam os abismos, a placidez
Guardam os seus olhos em segredo
usam de serena violência
que volte tudo um dia apenas como sonhos

Acende-se o rastilho de miradouros na cidade
 chapas de sol longamente trocadas  
um código de clarões que aproxima
as coisas que não vemos
Quando a luz em si decai
aparece a grande nitidez
vem chamar vultos para a noite

As mães trespassam o labirinto
dessa teia, por nós cegos
pontas soltas que enleiam viandantes
afastam-nos para sempre
Há dias em que perguntam

de que mais vasto miradouro nos saberá alguém

onde o lugar que seja o mesmo olhar?



José Manuel Teixeira da Silva, O Lugar que Muda o Lugar, Lisboa, Língua Morta, 2013.

Partilhado a partir de Amadeu Baptista  

Pedro Craveiro: Ensaio sobre ele


we must love one another or die
w. h. auden

so only one life can't be enough
para esperar o teu regresso
(qual penélope, qual quê)

numa casa sem telhado
pergunto-me o que fazer com o frasco
de nescafé, a tua caneta da sorte,
os teus dentes de leite, o teu postal
dos jardins de butchart, do katmandu,
o teu petit larousse,
                        os teus óculos

dói-me o corpo todo e esta cidade
nada mais me trouxe do que uma dúzia
de charros numa noite perdida:
i should learn to look at
an empty sky and feel its total
dark sublime, though this might
take me a little time
não há muito a fazer, my dear.


aguardar é tudo por agora
tecer, adiar um dia de desordem
e acreditar que a vista para o pátio
é o teu tapete de chegada



Partilhado a partir de Enfermaria6.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Rosalina Marshall


ALTAS MADRUGADAS FRIAS

os dois amantes não sabem o que é ter família

param num café qualquer
capuletos escondem-se atrás das árvores
um dia as árvores morrerão também
e a noite furiosa
em passos largos
tomará a avenida da república
e na passadeira
esperaremos que tudo passe


Rosalina Marshall, Manucure, Lages do Pico: Companhia das Ilhas, 1ª edição, 2013, p. 14.

Partilhado a partir de meia-noitetodo o dia.

Rosalina Marshall

VELOZ FAÚLHA ATMOSFÉRICA


atrás dos comboios que passam
não fica nada
o ar que lá estava
lá fica
porta invisível
eternamente chiando

Rosalina Marshall, partilhado a partir de Bibliotecário de Babel.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Allen Ginsberg


A supermarket in California



What thoughts I have of you tonight, Walt Whitman, for I walked down the
streets under the trees with a headache self-conscious looking at the full moon.

In my hungry fatigue, and shopping for images, I went into the neon fruit
supermarket, dreaming of your enumerations!
What peaches and what penumbras! Whole families shopping at night! Aisles
full of husbands! Wives in the avocados, babies in the tomatoes! --- and you,
Garcia Lorca, what were you doing down by the watermelons?
I saw you, Walt Whitman, childless, lonely old grubber, poking among the
meats in the refrigerator and eyeing the grocery boys.
I heard you asking questions of each: Who killed the pork chops? What price
bananas? Are you my Angel?
I wandered in and out of the brilliant stacks of cans following you, and
followed in my imagination by the store detective.
We strode down the open corridors together in our solitary fancy tasting
artichokes, possessing every frozen delicacy, and never passing the cashier.
Where are we going, Walt Whitman? The doors close in an hour. Which way does
your beard point tonight?
(I touch your book and dream of our odyssey in the supermarket and feel
absurd.)
Will we walk all night through solitary streets? The trees add shade to
shade, lights out in the houses, we'll both be lonely.
Will we stroll dreaming of the lost America of love past blue automobiles in
driveways, home to our silent cottage?
Ah, dear father, graybeard, lonely old courage-teacher, what America did you
have when Charon quit poling his ferry and you got out on a smoking bank and
stood watching the boat disappear on the black waters of Lethe?

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Maria Sousa


despi devagar o calor de dizer o teu nome
no silêncio do quarto
o aconchego de se ainda voltasses
abre-se em palavras surdas
depois de improviso percorro a solidão
ao espelho
como se, ao olhar muito, te visse
preso na pele dos dedos
inacabado e à deriva nos meus olhos


Maria Sousa, Exercícios para endurecimento de lágrimas, Lisboa, Língua Morta, 2010.