terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Adília Lopes

Os poemas que escrevo
são moinhos
que andam ao contrário
as águas que moem
os moinhos
que andam ao contrário
são as águas passadas



Adília Lopes, Obra.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Alberto Pimenta


Dantes
Os vendedores
De fruta
Cereais
Plantas e peixe
Estendiam a mercadoria
Nas tendas
Do mercado
E depois iam
Visitar-se uns aos outros
E cumprimentar-se
Desejando
Mutuamente
Um bom negócio.
Uns e outros
Não tinham
O mesmo culto,
Mas sabiam
Que existir
Depende sempre dum contrato.
Agora
Aos sábados
Têm as costas voltadas
Uns para os outros,
Nos olhos
Lê-se-lhes a desconfiança e
A uni-los,
Circulam entre eles
Os cães
Vadios.


Alberto Pimenta, Partilhado a partir de Poems from the Portuguese.


Ruy Belo

Tarde Interior

Vem ao meu pátio ver crescer a sombra
ó cheia de dois olhos minha amiga
Olha-me olha-me como quem chove
conicamente sobre
um coração deposto
do corpo que o cercava

No ulmeiro do caminho
vegetal comentador do nosso amor
a folha tímida não partiu ainda
e ameaça encher a tarde toda
Cubra-te ela a fronte
quando morrer aquém dos pássaros

Repousa minha amiga as mãos
sobre o lugar onde estiveram as palavras
e que os gestos
arredondem um templo para a luz
que dos olhos despedes

Já nos pesa nos pés a sombra

e pomos-lhe por cima o pensamento


Ruy Belo. Todos os Poemas I. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.

Ruy Belo

Segunda Infância

À tua palavra me acolho lá onde
o dia começa e o corpo nos renasce
Regresso recém-nascido ao teu regaço
minha mais funda infância meu paul
Voltam de novo as folhas para as árvores
e nunca as lágrimas deixaram os olhos
Nem houve céus forrados sobre as horas
nem míseras ideias de cotim
despovoaram alegres tardes de pássaros
O sol continua a ser o único
acontecimento importante da rua
Eu passo mas não peço às árvores
coração para além dos frutos
Tu és ainda o maior dos mares
e embrulho-me na voz com que desdobras
o inumerável número dos dias


Ruy Belo. Todos os Poemas I. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.

Ruy Belo

Poema Quotidiano

É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
Para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo

Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
Apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a trata-lo por vizinho
Por este andar… Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
Ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
Aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?

Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro



Ruy Belo. Todos os Poemas I. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Prece Navajo

Caminhar em Beleza


Hoje eu saio a caminhar...
tudo que é desnecessário vou deixando para trás
serei assim, como eu era antes,
sinto uma brisa suave refresca-me todo o corpo
sinto que o meu corpo é todo feito de luz
e a felicidade acompanha sempre o meu caminhar
Nada poderá impedir-me de caminhar na beleza
Enquanto caminho assim...
vejo a beleza diante de mim
vejo a beleza atrás de mim
vejo a beleza abaixo de mim
vejo beleza acima de mim
vejo a beleza dentro de mim
vejo a beleza ao meu redor
Belas são as minhas palavras
Eu sei que posso caminhar na beleza durante todo o dia
Através das temporadas retornando para casa,
na beleza eu posso caminhar
Na trilha marcada com os grãos de pólen,
na beleza eu posso caminhar
Com o orvalho molhando os meus pés,
na beleza eu posso caminhar
Com a beleza diante de mim, eu posso caminhar
Com a beleza atrás de mim, eu posso caminhar
Com a beleza abaixo de mim, eu posso caminhar
Com a beleza acima de mim, eu posso caminhar
Com a beleza ao meu redor, eu posso caminhar
Com a beleza dentro de mim, eu posso caminhar
e mesmo com o passar dos anos
num rastro de beleza, estarei sempre a caminhar
vivendo uma nova vida, na beleza irei sempre caminhar

Caminho sempre na Beleza
e a beleza torna-se o meu caminho
Minhas palavras são belas
e meu caminhar também


Prece Navajo.


Angélica Freitas

rilke shake

salta um rilke shake
com amor & ovomaltine
quando passo a noite insone
e não há nada que ilumine
eu peço um rilke shake
e como um toasted blake
sunny side para cima
quando estou triste
& sozinha enquanto
o amor não cega
bebo um rilke shake
e roço um toasted blake
na epiderme da manteiga

nada bate um rilke shake
no quesito anti-heartache
nada supera a batida
de um rilke com sorvete
por mais que você se deite
se deleite e se divirta
tem noites que a lua é fraca
as estrelas somem no piche
e aí quando não há cigarro
não há cerveja que preste
eu peço um rilke shake
engulo um toasted blake
e danço que nem dervixe

Partilhado a partir de Modo de Usar.