segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Rúben Darío


De Otoño


Yo sé que hay quienes dicen: ¿por qué no canta ahora 
con aquella locura armoniosa de antaño? 
Ésos no ven la obra profunda de la hora, 
la labor del minuto y el prodigio del año. 

Yo, pobre árbol, produje, al amor de la brisa, 
cuando empecé a crecer, un vago y dulce son. 
Pasó ya el tiempo de la juvenil sonrisa: 
¡dejad al huracán mover mi corazón!



Rúben Darío.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

José Tolentino Mendonça


Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?


José Tolentino Mendonça 

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Adília Lopes


Um quadro de Rubens

Vi-me comoprimida
num ajuntagente
ora eu só suporto pessoas à distância
de preferência com uma mesa de permeio
acontece que uma mulher foi projectada
para cima de mim com um cigarro aceso
há pessoas que vão para ajuntagentes
fumar cigarros!
ora eu temo as queimaduras
muito por sua vez caí por cima de uma mulher
que era um sex symbol depois
de sofrer uma homotetia de razão
superior a 1
há pessoas que vão para ajuntagentes
com dez alcinhas!
era o caso do sex symbol
o vestido tinha três alcinhas
de cada lado
e o soutien alças em duplicado
se caio para baixo passam-me por cima
a única saída é sair por cima
disse de mim para mim
as pessoas do ajuntagente
reparei eu então
eram feitas aos degraus
comecei a subir pelo que
estava mais perto
era uma mulher
dei por isso quando começou
a gritar
a menos que fosse
um contratenor
mas alguém teve a mesma ideia
que eu
e começou a subir por mim acima
ora eu sou intocável
agora já nem consigo
dizer nada de mim para mim
o de mim para mim acabou
não há lugar para mim
num quadro de Rubens


Adília Lopes, Obra.

Adília Lopes

Os poemas que escrevo
são moinhos
que andam ao contrário
as águas que moem
os moinhos
que andam ao contrário
são as águas passadas



Adília Lopes, Obra.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Alberto Pimenta


Dantes
Os vendedores
De fruta
Cereais
Plantas e peixe
Estendiam a mercadoria
Nas tendas
Do mercado
E depois iam
Visitar-se uns aos outros
E cumprimentar-se
Desejando
Mutuamente
Um bom negócio.
Uns e outros
Não tinham
O mesmo culto,
Mas sabiam
Que existir
Depende sempre dum contrato.
Agora
Aos sábados
Têm as costas voltadas
Uns para os outros,
Nos olhos
Lê-se-lhes a desconfiança e
A uni-los,
Circulam entre eles
Os cães
Vadios.


Alberto Pimenta, Partilhado a partir de Poems from the Portuguese.


Ruy Belo

Tarde Interior

Vem ao meu pátio ver crescer a sombra
ó cheia de dois olhos minha amiga
Olha-me olha-me como quem chove
conicamente sobre
um coração deposto
do corpo que o cercava

No ulmeiro do caminho
vegetal comentador do nosso amor
a folha tímida não partiu ainda
e ameaça encher a tarde toda
Cubra-te ela a fronte
quando morrer aquém dos pássaros

Repousa minha amiga as mãos
sobre o lugar onde estiveram as palavras
e que os gestos
arredondem um templo para a luz
que dos olhos despedes

Já nos pesa nos pés a sombra

e pomos-lhe por cima o pensamento


Ruy Belo. Todos os Poemas I. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.

Ruy Belo

Segunda Infância

À tua palavra me acolho lá onde
o dia começa e o corpo nos renasce
Regresso recém-nascido ao teu regaço
minha mais funda infância meu paul
Voltam de novo as folhas para as árvores
e nunca as lágrimas deixaram os olhos
Nem houve céus forrados sobre as horas
nem míseras ideias de cotim
despovoaram alegres tardes de pássaros
O sol continua a ser o único
acontecimento importante da rua
Eu passo mas não peço às árvores
coração para além dos frutos
Tu és ainda o maior dos mares
e embrulho-me na voz com que desdobras
o inumerável número dos dias


Ruy Belo. Todos os Poemas I. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.