sábado, 7 de maio de 2016

Emily Dickinson: I dwell in Possibility


I dwell in Possibility – 
A fairer House than Prose – 
More numerous of Windows – 
Superior – for Doors – 

Of Chambers as the Cedars – 
Impregnable of eye – 
And for an everlasting Roof 
The Gambrels of the Sky – 

Of Visitors – the fairest – 
For Occupation – This – 
The spreading wide my narrow Hands 
To gather Paradise –


Emily Dickinson 


domingo, 24 de abril de 2016

William Shakespeare

SONETO 47


Há uma união entre o que vejo e sinto,
E o bem que cada coisa verte de uma em outra:
Quando meus olhos anseiam por um olhar,
Ou o coração apaixonado, brando, a suspirar,
Meus olhos celebram a imagem do meu amor,
E, diante do banquete, se rende a minha emoção;
Em outro tempo, meus olhos se aninham ao sentimento,
E se unem aos seus pensamentos amorosos:
Então, seja por tua imagem ou pelo meu amor,
Estás, mesmo distante, sempre comigo;
Pois não corres mais do que meus pensamentos,
E estou sempre com eles, e eles, contigo;
Ou, se adormecem, a tua imagem à minha frente
Desperta meu amor para a alegria dos olhos e do coração.

William Shakespeare.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Mário de Andrade


Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o èxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
Um colar...
Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"
Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burgês!... 



Mário de Andrade, Pauliceia Desvairada (1922).

domingo, 10 de abril de 2016

Yeats: A drinking song

Wine comes in at the mouth
And love comes in at the eye;
That's all we shall know for truth
Before we grow old and die.
I lift the glass to my mouth,
I look at you, and I sigh. 


William Butler Yeats

quarta-feira, 30 de março de 2016

Abgar Renault


A Beleza da Vida na Alegria da Manhã

Eu corria sobre a areia, com os pés nus,
A areia faiscava.
Na claridade da manhã,
As árvores eram mais verdes e felizes
Eu corria sobre a areia, com os pés nus.

Penetrava-me as veias a beleza da vida.
O sol ria no alto.
Dentro e fora de mim
floriam ritmos desconhecidos.
Penetrava-me as veias a beleza da vida.

Era como se eu nascesse naquele dia.
A luz embriagava-me.
Tudo parecia novo,
e feito pelas mãos de um deus risonho:
Era como se eu nascesse naquele dia.



Abgar Renault.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Mário Cesariny: visto a esta luz



Visto a esta luz és um porto de mar
como reverberos de ondas onde havia mãos
rebocadores na brancura dos braços

Constroem-te um ponte
que deverá cingir-te os rins para sempre

O que há horrível no teu corpo diurno
é a sua avareza de palavras
és tu inutilmente iluminado e quente
como um resto saído de outras eras
que te fizeram carne e se foram embora
porque verdade sem erro   certo   verdadeiro
nada era noite bastante para tocarmos melhor
as nossas mãos de nautas navegando o espaço
os corpos um e dois do navio de espelhos
filhos e filhas do imponderável
de cabeça para   baixo a ver a terra girar

Quero-te sempre   como nã querer-te?
mas esta luz de sinopla nas calças!
este interposto objecto
e o seu leve peso de eternidade


                   Mário Cesariny

quarta-feira, 9 de março de 2016

Fernando Merlo


A sus venas


Estos cauces que ves amoratados
y de amarillo cieno revestidos
eran la flor azul de los sentidos
que hoy descubre  sus pétalos ajados

Besos verdes de aguja en todos lados
hieren la trabazón de los tejidos
y denuncian los brazos resentidos
la enigmática piel de los drogados

Las que llevaban vida y alimento
son tibias cobras de veneno breve
blanco caballo con la sien de nieve

Trotando corazón y pensamiento
que por las aguas de la sangre vierte
con rápido caudal la lenta muerte


Fernando Merlo.