segunda-feira, 25 de julho de 2016

Oswald de Andrade

Congonhas do campo

Há um hotel novo que se chama York
E lá em cima na palma da mão da montanha
A igreja no círculo arquitetónico dos Passos
Painéis quadros imagens
A religiosidade no sossego do sol
Tudo puro como o aleijadinho

Um carro de boi canta como um órgão


ANDRADE, Oswald de. Poesias Reunidas. São Paulo: Difusão Europeia do livro, 1966.

Oswald de Andrade

Alerta

Lá vem o lança-chamas
Pega a garrafa de gasolina
Atira
Eles querem matar todo amor
Corromper o pólo
Estancar a sede que eu tenho doutro ser
Vem do flanco, de lado
Por cima, por trás
Atira
Atira
Resiste
Defende
De pé
De pé
De pé
O futuro será de toda a humanidade.



Oswald de Andrade. Obras completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Ângelo de Lima


Pára-me de repente o Pensamento...
— Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
— Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento
— Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
— Pára... e Fica... e Demora-se um Momento....
Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E Mergulha na Noute, Escura e Fria
Um Olhar d’Aço, que na Noute explora...
— Mas a Espora da dor seu flanco estria...
— E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!



Ângelo de Lima. Poesias Completas. Lisboa: Assírio & Alvim, 1991.

domingo, 3 de julho de 2016

Leonardo Fróes: Mulheres de milho


Milhares de mulheres de milho
brotam do meu olho calado como espigas
fortes. No ar elas se endireitam

como folhudas criaturas carnosas
que ao vento se transmudam, de fêmeas,
em formosos penachos machos.

Acho graça na cruza; penso nisso
que é ser mulher a passo
de, sob a vertigem solar, virar confusa

hibridação. Abro-me. Brinco
de me dar. Rapto-me e opto-me
como se eu mesmo fosse me comer inteiro

enquanto as coisas simplesmente nascem.

Leonardo Fróes, partilhado a partir de Modo de Usar

quinta-feira, 23 de junho de 2016

O Desenhador de Sóis XXII.


Falarei do Sol
De um milagre que vai acontecer a cada segundo dentro do teu peito
Falarei do sol – Falarei Sempre do Sol.
Do início dos teus ombros, de faróis, de meninos
Que desenham nas suas sebentas a linha da costa
Dos seus dedos pequeninos, do milagre dos seus dedos pequeninos
Falarei de uma Cartografia imaginária do paraíso,
Que nos coube entre mãos, falarei de sebentas perdidas,
De olhares cruzados, de túneis, de estradas
Falarei do sol, falarei sempre do sol
com os dentes tortos, com os olhos estrábicos
Com mãos tão seguras, falarei do sol;

Falarei sempre do Sol.


Nuno Brito

sábado, 18 de junho de 2016

Emily Dickinson

Vou dizer-te como nasceu o Sol –
Uma Fita de cada vez –
Os Campanários nadando em Ametista –
As Notícias correndo como Esquilos –
Os Montes desatando os seus Chapéus –
As Tristes-Pias – começando a cantar –
E eu dizendo baixinho, para mim –
«Há-de ter sido o Sol!»
Mas como ele se pôs – isso não sei –
Parecia ser um degrau carmesim
Que meninos e meninas de Amarelo
Estivessem a subir e a subir –
Até que chegando ao outro lado,
Um pastor todo vestido de cinzento –
Erguesse suave as trancas da noitinha –
E levasse consigo o seu rebanho –

Emily Dickinson. Duzentos Poemas. Lisboa: Relógio D’Água, 2014.

Tradução de Ana Luísa Amaral.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O Desenhador de Sóis XX


O poema ensina o seu coração, o seu batimento, ele é muitas cidades a arderem em desejo; há no centro do poema um sol que irradia para todos os lados, uma afirmação de vida, uma múltipla fonte de luz. As palavras são centros de vibração, elas tocam-se, expandem-se em ondas, elas são estrelas em pleno nascimento, em nascimento continuo, cada olhar sobre elas as faz renascer. O poema é uma constelação que faz acender a linguagem, que a faz viver; A constelação que é o poema faz nascer a palavra a cada segundo, a cada batimento do coração a palavra é nova, ela tem novo sopro, ela é uma nova afirmação de vida, uma nova fonte, uma nova onda expansiva, a cada batimento do coração do poema surge um novo acendimento, (muitas cidades a arderem em desejo), a estação de serviço em mercúrio, o olhar da minha filha. Cada novo olhar sobre o poema cria um novo nascimento, uma aceleração diferente: eu acelero o poema quando o olho, eu o faço nascer. O poema é um animal invencível, ele é a vitória da linguagem. Quando eu afirmo:

O poema ensina o seu coração
e o seu coração é um céu azul.

Eu digo que esse coração é um núcleo que acende tudo o que o rodeia; o poema não pergunta o que é o fogo, ele afirma, ele cria uma comunidade, ele une, ele não para nunca de unir. As constelações comunicam, acendem-se, dançam, cruzam os seus fogos, a sua dança pode ser perfeita e - por essa mesma possibilidade - ela é já perfeita. O animal invencível é a possibilidade mesma da vida, a afirmação mesma da vida. Se o poema nasce em frente a um promontório com Safo ou se ele nasce no meio da rua com Cesário Verde, o que os une é esse nascimento, o mesmo batimento que implica diferentes vibrações, o mesmo início, que implica diferentes processos. O poema ensina a cair no chão ou ensina a rir dessa queda, o poema ensina a ver o outro mas também a ser sempre outro, doutra forma diríamos: o poema faz nascer, o poema faz brotar, o poema multiplica ângulos e nisso é tão humilde como uma raiz ou um semente que leva a vida no seu interior e que só necessita um pouco de água, um pouco de terra, um pouco de luz, uma comunicação (que é também assonância e conversa) da natureza. Tudo aqui é soma, tudo aqui é mudança, acrescento, comunicação, comunhão; união enfim, é disso que falamos quando falamos de poesia, de um abraço com uma geração intemporal, de um abraço com Orfeu, de um abraço com Diógenes; este é o contacto que a poesia inaugura, um gesto que se pretende infinito, um mergulho, um abraço, nisso a poesia parece-se muito ao ato de nadar, de atravessar, de romper, quando escrevo um poema atravesso o teu peito a nada e isso é a minha comunhão, o momento de erguer a cabeça e continuar a olhar o chão, aquele momento de acendimento que se dá antes das grandes viagens. O poema antecede a viagem. Ele dá-se num mergulho de luz, num momento de celebração, de encontro (com o todo e com o mínimo), com a flor que rompe o asfalto, com um mundo que se afirma quando o afirmamos. Este é o mundo, resta celebrá-lo, bendizê-lo, elevá-lo, acendê-lo, esse é o momento poético, o momento de criação de ênfase.

Nuno Brito.