quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Murilo Mendes


Cantiga de Malazarte


Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.


Murilo Mendes.
Partilhado a partir de Jornal de Poesia

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Adrienne Rich


I guess you're not alone I fear you're alone
There's, of course, poetry:
awful bridge rising over naked air: I first
took it as just a continuation of the road:
"a masterpiece of engineering
praised, etc." then on the radio:
"incline too steep for ease of, etc."
Drove it nonetheless because I had to
this being how- So this is how
I find you: alive and more


Adrienne Rich. Fox. New York: Norton, 2001.


domingo, 4 de setembro de 2016

Nuno Morais


A verdade é que prefiro não saber,
Sentir pode ser a pior das ingerências.
Prefiro fazer-me escasso,
Não comparecer, calar-me,
Estar apenas por engano,
Ser ignorado, embora custe.
Também eu não pergunto,
Muito menos falo comigo próprio,
Ignoro-me, prefiro gatos e plantas.
O silêncio absorve a perda
Para que eu não seja absorvido por ela.
Saio de manhã, está sol,
Não tento o contacto, nenhum contacto,
Ou a manhã fugirá, espantada,
Como apenas mais um dos seus muitos pássaros.
Diria que a terra se sente vazia,
Passada a obsessão de florir,
De multiplicar, a sede perpétua
De desmesura. Talvez assine os corações.
Disseste que o teu tinha muitos quartos
E deduzo que o amor por mim
Seja apenas mais um hóspede,
Mas um amor nunca é apenas

Mais um hóspede.


Retirado de Nuno Rocha Morais

Nuno Morais


A lucidez é o acto de ver
Por entre o pó, a tosse, o lacrimejar;
Não há verdade,
O erro é construção
A sabedoria, desmoronamento.


Retirado de Nuno Rocha Morais

Nuno Morais


Deveria ser dado que morrêssemos
Com um amor ainda vivo em nós,
Como deveria ser dado a um pássaro
Morrer naturalmente em pleno voo.


Nuno Morais .Últimos Poemas. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2009.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Clarice Lispector


E de repente gemi alto, dessa vez ouvi meu gemido. É que como um pus subia à minha tona a minha mais verdadeira consistência – e eu sentia com susto e nojo que “eu ser” vinha de uma fonte muito anterior à humana e, com horros, muito maior que a humana.

Abria-se em mim, com uma lentidão de portas de pedra, abria-se em mim a larga vida do silêncio, a mesma que estava no sol parado, a mesma que estava na barata imobilizada. E que seria a mesma em mim! se eu tivesse coragem de abandonar… de abandonar meus sentimentos? Se eu tivesse coragem de abandonar a esperança.

Clarice Lispector. A Paixão segundo GH. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

Clarice Lispector


Sem um grito olhei a barata.
Vista de perto, a barata é um objeto de grande luxo. Uma noiva de pretas jóias. É toda rara, parece um único exemplar. Prendendo-a pelo meio do corpo com a porta do armário, eu isolara o único exemplar. O que aparecia dela era apenas a metade do corpo. O resto, o que não se via, podia ser enorme, e dividia-se por milhares de casas, atrás de coisas e armários. Eu, porém, não queria a parte que me coubera. Atrás da superfície de casas – aquelas jóias embaçadas andando de rojo?

Eu me sentia imunda como a Bíblia fala dos imundos. Por que foi que a bíblia se ocupou tanto dos imundos, e fez uma lista dos animais imundos e proibidos? Por que se, como os outros, também eles haviam sido criados? E por que o imundo era proibido? Eu fizera o ato proibido de tocar no que é imundo. 

Clarice Lispector. A Paixão segundo GH. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.