quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Murilo Mendes: Canção do Exílio


Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
 

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!

Murilo Mendes

 Pré-história


Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.



Murilo Mendes.

Murilo Mendes


Cantiga de Malazarte


Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.


Murilo Mendes.
Partilhado a partir de Jornal de Poesia

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Adrienne Rich


I guess you're not alone I fear you're alone
There's, of course, poetry:
awful bridge rising over naked air: I first
took it as just a continuation of the road:
"a masterpiece of engineering
praised, etc." then on the radio:
"incline too steep for ease of, etc."
Drove it nonetheless because I had to
this being how- So this is how
I find you: alive and more


Adrienne Rich. Fox. New York: Norton, 2001.


domingo, 4 de setembro de 2016

Nuno Morais


A verdade é que prefiro não saber,
Sentir pode ser a pior das ingerências.
Prefiro fazer-me escasso,
Não comparecer, calar-me,
Estar apenas por engano,
Ser ignorado, embora custe.
Também eu não pergunto,
Muito menos falo comigo próprio,
Ignoro-me, prefiro gatos e plantas.
O silêncio absorve a perda
Para que eu não seja absorvido por ela.
Saio de manhã, está sol,
Não tento o contacto, nenhum contacto,
Ou a manhã fugirá, espantada,
Como apenas mais um dos seus muitos pássaros.
Diria que a terra se sente vazia,
Passada a obsessão de florir,
De multiplicar, a sede perpétua
De desmesura. Talvez assine os corações.
Disseste que o teu tinha muitos quartos
E deduzo que o amor por mim
Seja apenas mais um hóspede,
Mas um amor nunca é apenas

Mais um hóspede.


Retirado de Nuno Rocha Morais

Nuno Morais


A lucidez é o acto de ver
Por entre o pó, a tosse, o lacrimejar;
Não há verdade,
O erro é construção
A sabedoria, desmoronamento.


Retirado de Nuno Rocha Morais

Nuno Morais


Deveria ser dado que morrêssemos
Com um amor ainda vivo em nós,
Como deveria ser dado a um pássaro
Morrer naturalmente em pleno voo.


Nuno Morais .Últimos Poemas. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2009.