domingo, 16 de outubro de 2016

Jorge de Lima: O grande desastre aéreo de ontem

para Cândido Portinari

Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.


Jorge de Lima
[Poesia completa, 1, 1980.]

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Rúben Darío: Alma Mía


Alma mía, perdura en tu idea divina;
todo está bajo el signo de un destino supremo;
sigue en tu rumbo, sigue hasta el ocaso extremo
por el camino que hacia la Esfinge te encamina.
Corta la flor al paso, deja la dura espina;
en el río de oro lleva a compás el remo;
saluda el rudo arado del rudo Triptolemo,
y sigue como un dios que sus sueños destina…
Y sigue como un dios que la dicha estimula,
y mientras la retórica del pájaro te adula
y los astros del cielo te acompañan, y los

ramos de la Esperanza surgen primaverales,
atraviesa impertérrita por el bosque de males
sin temer las serpientes; y sigue, como un dios

Rúben Darío, Prosas Profanas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Robert Frost: The Pasture


  I'm going out to clean the pasture spring; 
I'll only stop to rake the leaves away 
(And wait to watch the water clear, I may): 
I sha'n't be gone long.—You come too. 

I'm going out to fetch the little calf 
That's standing by the mother. It's so young, 
It totters when she licks it with her tongue. 
I sha'n't be gone long.—You come too.


Robert Frost.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Ângelo de Lima: Olhos de Lobas


Teus olhos lembram círios
Acesos n'um cemitério...
Dr. Rogério de Barros

Têm um fulgor estranho singular
Os teus olhos febris... Incendiados!...

Como os Clarões Finais... - Exaustinados
Dos restos dos archotes, desdeixados...
— Nas criptas d'um Jazigo Tumular!...

— Como a Luz que na Noute Misteriosa
— Fantástica - Fulgisse nas Ogivas
Das Janelas de Estranho Mausoléu!...

— Mausoléu, das Saudades do Ideal!...

— Oh Saudades... Oh Luz Transcendental!
— Oh memórias saudosas do Ido ao Céu!...

— Oh Pérpetuas Febris!... - Oh Sempre Vivas!...
— Oh Luz do Olhar das Lobas Amorosas!... 




quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Manoel de Barros: O apanhador de desperdícios


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros. 

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Manoel de Barros: Prefácio


Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.
Manoel de Barros. Concerto a céu aberto para solo de aves. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.  

Adrienne Rich

Boundary

What has happened here will do
To bite the living world in two,
Half for me and half for you.
Here at least I fix a line
Severing the world’s design
Too small to hold both yours and mine.
There’s enormity in a hair
Enough to lead men not to share
Narrow confines of a sphere
But put an ocean or a fence
Between two opposite intents.
A hair would span the difference.


Adrienne Rich. Selected Poems. London:  The Hogarth Press,  1967.