sábado, 10 de junho de 2017

Fernando Guimarães


1.

Desenho com este poema uma árvore. Estas são
as raízes. Mas o poema nascerá livre e diferente.

2.

No interior do pólen, sob o nosso desejo
a palavra permanece imóvel, sem tocar
os lábios. Habitará apenas a memoria.

3.

Talvez esta seja a nudez do teu corpo,
ou a linha das ondas enquanto recordamos
a tarde que ficou junto das grandes árvores,
o sol, os frescos barcos que passam nos teus olhos



Fernando Guimarães, Os habitantes do amor.

Ana Hatherly: A palavra poética em metáfora de obsidiana


A obsidiana é um vidro vulcânico
negro como a antracite, o ónix, o azeviche.
Antes de ser vidro, porém, foi lava ardente
pedra líquida
vómito das profundezas
válvula de escapa
massa de bolo cru
concha de pedra que estala
revelando o seu recheio
que escorre ácido e fétido
como tumor que arrebenta.
Explusão de estupenda cor
jacto feérico, pirotécnico
solta estrelas vivas
fogo de oiro
que cintilia contra o céu que ferve
raivoso ao contacto com o mar
Quando por fim arrefece e se transforma em cinza
a obsidiana concentra-se
e do nada faz o seu diamante.
                                                                                   

Ana Hatherly, O Pavão Negro. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Ana Hatherly: As palavras aproximam


As palavras aproximam:
prendem-soltam
são montanhas de espuma
que se faz-desfaz
na areia da fala

Soltam freios
abrem clareiras no medo
fazem pausa na aflição

Ou então não
                       matam
            afogam
                       separam definitivamente

Amando muito muito
ficamos sem palavras


Ana Hatherly. O pavão negro. Lisboa: Assírio e Alvim, 2003.

Rui Almeida


 Talvez a repetição de ilusões
Pudesse ser uma resposta certa
Para o inferno da insónia. Talvez
A despreocupação dos cegos
Resolvesse o problema da recusa
.
Do abandono da inocência. Vemos
Demasiado. Partilhamos com os loucos
O conhecimento nítido dos incêndios
A lavrar nas grandes encostas dentro
Do líquido dos nossos olhos. A dor
.
Com que o nosso corpo se abate é
Luminosa, tem uma superfície
Extensa e clara. Aqui a percepção
Dos ruídos invade tudo o que sentimos,
Temos nos ossos a reverberação
.
Da noite e a pele esticada a vibrar
Em permanência. Persistente, o ritmo
Da ansiedade de existirmos
Vergasta-nos, sem alívio e arranca,
De cada vez, mais um pouco de vida.
.
.

Rui Almeida in "Talvez a dúvida", Douda Correria, 2017.