segunda-feira, 12 de junho de 2017

Maria João Cantinho: Antes disso havia a sombra



Antes disso havia a sombra
o pai a dormir a sesta
e o rumor do mar ao fundo,
talvez me falseie a imagem,
mas esse azul atlântico
a arder no vento, essa luz
única, a céu aberto
e tudo tão lento
porque o tempo não tinha distracções
nem se deixava comer por rigores
de trabalho ou de vida emprestada.

Nesse tempo eram as casas habitadas
e os sonhos lentos
as sombras da noite,
a confundir-se com os ramos das árvores,
alguns sonhos não se abatem nem morrem
são raízes que se fincam no corpo
cartografias improváveis, secretas,
e, quando galopa o silêncio,
descem até nós, chamam-nos
e arrastam-nos pelos cabelos.

Antes disso era esse azul atlântico
a crescer na tarde.


Maria João Cantinho in "Do Ínfimo". Coisas de Ler Edições, 2016, p 33.

sábado, 10 de junho de 2017

António Ramos Rosa: Viagem através duma nebulosa


Noite
rã oblíqua
ó toda olhos à flor da névoa
o trilo move-se perde-se repete-se pisca como a estrelinha
o hálito da lua
orienta-me numa nebulosa
de constelações tranquilas

Que aéreo e estático silêncio
harmonia de pálpebras e pupilas
a redondez das estrelas foi feita pelas minhas mãos navegadoras
a poalha cintilante e fluída
dos céus
corre no meu sangue
ondas e barcas contradançam
substituem-se umas às outras

Os grandes animais silenciosos da terra
Sonham com um pássaro de barro
A memória reencontra o seu palácio de homens
A torre emerge do menino

Além mais para além
que calma de navios
sobre um porto sem nome sobre um cais
qualquer
transporto por contágio o sonha da rapariga
à janela do mundo

O adolescente que fui encontra a sua noiva
que sortilégio de mãos e tranquila voz antiga
de inexplorados sonhos
que confiança interplanetária
me leva para além dos contactos visíveis
chego ao limite onde a aurora ainda dorme

Os rios torceram-me todas as hesitações
as montanhas reacenderam toda a minha coragem
sobre ventres de grávidas fêmeas silenciosas
retomei o gosto de distribuir meus sonhos
nova moeda de futuros seres
os lisos cavalos da bruma
lançam-me a rosa do seu bafo escuro
é bem o cheiro da madrugada

Sobre todos os mortos de que me nutro em segredo
desenha-se a rapariga da revolta do sol
a tradição de seus braços
é uma carícia de futuro
presente sangrando em cada poro
17 milhões de mortos comprovam a grávida linha ascensional

Todos os jovens mortos
Correm no fogo candente das tuas veias consteladas
ó eterna rapariga
o rumor que faz a amizade
através dos países submersos
o sussurro claro germinando da descoberta incessante
eis o ritmo do teu coração

Dia a dia o teu grávido ventre se estende planície
dia a dia os homens te forjam na consciência renovando-se
dormes agora
a tua cabeleira de horizontes
o fulvo ondear do teu corpo de bandeira
acena-nos um novo passo em cada espera forçada
as sombras do martírio as mil e uma moscas do carnaval pútrido
em vão tentam sugar o cadáver que resiste
o cadáver que resiste
não chegam a formar a sombra que oculta o esplendor
que ressalta em cada face humilde

O arsenal do estupro lento
as orquestras dos caos
os benfeitores dos monstros
em vão tentam amortecer o dinamismo da paisagem
as máquinas delicadas dos turistas
acenam bom senso
em vão

A redondez das estrelas
é um apelo às minhas mãos
as minhas mãos navegadoras correm em arrepios teu corpo em formação

Deito-me no horizonte

tudo se faz mais claro

Fernando Guimarães


1.

Desenho com este poema uma árvore. Estas são
as raízes. Mas o poema nascerá livre e diferente.

2.

No interior do pólen, sob o nosso desejo
a palavra permanece imóvel, sem tocar
os lábios. Habitará apenas a memoria.

3.

Talvez esta seja a nudez do teu corpo,
ou a linha das ondas enquanto recordamos
a tarde que ficou junto das grandes árvores,
o sol, os frescos barcos que passam nos teus olhos



Fernando Guimarães, Os habitantes do amor.