quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Tânia Tomé

Moçambique

Quando me sento descalça
sobre o sapato do menino pobre
que me enche o pé
muito mais que outro qualquer
me lembro que existir
não é sozinha
é com toda gente.
E me lembro
que tenho de embebedar-me de ti
Moçambique
Porque tenho saudades de mim



segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Agostinho Neto: Criar



Criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo 
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos

Criar criar 
sobre a profanação da floresta
sobre a fortaleza impúdica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar 
criar com os olhos secos

Criar criar 
gargalhadas sobre o escárnio da palmatória
coragem na ponta da bota do roceiro
força no esfrangalhado das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos

Criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre as lágrimas do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos

Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forca simuladas
criar
criar amor com os olhos secos.


Agostinho Neto. Poesia Angolana de Revolta (Antologia). Porto: paisagem Editora, 1975.




sábado, 12 de setembro de 2020

Jacques Prévert: Bairro Livre


Pus o boné na gaiola
saí com o pássaro na cabeça
E então
já não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
já não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bem
desculpe julguei que se fazia
disse o comandante
Não há de quê toda a gente pode enganar-se
disse o pássaro.

Jacques Prévert. em Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Porto: Edições ASA, 2003.




quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Jorge de Lima: Poema do Cristão

Porque o sangue de Cristo

jorrou sobre os meus olhos,

a minha visão é universal

e tem dimensões que ninguém sabe.

Os milênios passados e os futuros

não me aturdem porque nasço e nascerei,

porque sou uno com todas as criaturas,

com todos os seres, com todas as coisas,

que eu decomponho e absorvo com os sentidos,

e compreendo com a inteligência

transfigurada em Cristo.

Tenho os movimentos alargados.

Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;

sou velhíssimo e apenas nasci ontem,

estou molhado dos limos primitivos,

e ao mesmo tempo ressoo as trombetas finais,

compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,

tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.

Posso enxugar com um simples aceno

o choro de todos os irmãos distantes.

Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.

Chamo todos os mendigos para comer comigo,

e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.

Não há escuridão mais para mim.

Opero transfusões de luz nos seres opacos,

posso mutilar-me e reproduzir meus membros como as estrelas-do-mar,

porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,

e creio na vida eterna, amém.

E, tendo a vida eterna, posso transgredir leis naturais:

a minha passagem é esperada nas estradas,

venho e irei como uma profecia,

sou espontâneo com a intuição e a Fé.

Sou rápido como a resposta do Mestre,

sou inconsútil como a sua túnica,

sou numeroso como a sua Igreja,

tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita,

todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais,

e sobre os ombros A conduzo

através de toda a escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos.

E tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:

ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega, peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado, tenho mantos de púrpura, e de estamenha, sou burríssimo como São Cristóvão, e sapientíssimo como Santo Tomás. E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para todos os séculos, louco de Deus, amém!

E, sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem e a medida;

sou a balança, a criação, a obediência;

sou o arrependimento, sou a humildade;

sou o autor da paixão e morte de Jesus;

sou a culpa de tudo.

Nada sou.

 

 

Jorge de Lima. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1997.

Kate Tempest: People's faces

 


Hugo Williams: Um dique

 

A minha mãe chama-me,

um som familiar, de duas notas,

que atravessa os campos

e me encontra aqui

de joelhos num regato,

os braços metidos em lama até aos cotovelos.

 

Regresso

E tento explicar

O que estive a fazer este tempo todo

Tão longe de casa.

“A fazer diques?”, vai ela perguntar.

“Ou a fazer poemas sobre fazer diques?”


Hugo Williams.