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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Rosa Maria Martelo

A última cor

«Venenoso escuro» disse a criança
Ao mergulhar na água o pincel sujo de tinta.

Aviso, sinal, apocalipse, rio sem futuro,
Pequeno muro onde cor nenhuma
Fechava a toda a luz um copo de água.



Rosa Maria Martelo, Matéria, Lisboa, Averno, 2014.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Rosa Maria Martelo. Azuis


I.
 Não sei se o fio do horizonte separa ou junta dois azuis. Faz rimar azul com azul, mas é talvez falsa, essa rima. O finito e o infinito, e ao meio uma só linha a cerzir azul com azul: céu e mar não rimam, e no entanto haverá rima mais perfeita? O mar, e depois dele o outro azul (que às vezes parece negro), assim por esta ordem. Ou é apenas falsa rima, a esconder, noite com noite, uma outra noite maior e mais dispersa?

(...)

Rosa Maria Martelo, Matéria, Lisboa, Averno, 2014.

Rosa Maria Martelo. Constelações

Houve sempre coisas magníficas
e muitas até de trazer no bolso
como a chama do isqueiro
pronta a refazer-se em luz e fogo aceso.
E apenas direi toda a verdade se disser
ter tido sempre ao alcance da mão
a perfeição: as cores dos frutos, um ovo
ruídos como os que fazem os ralos
na espessura do calor ou uma tesoura grande
em mesa de madeira. Havia, de verão, o vento leste,
e castanhas entre fumos ao fundo de uma rua
no inverno. Tudo isto, sim,
e ainda existe. Na parede, a cada risco
sobe pelos anos a altura dos meus filhos.
E havia dizer: também pensas assim? E os olhos
frágeis onde uns aos outros mais amamos,
que é no desamparo de nos sabermos sempre tão perto 
da tristeza, tão perto de um cão, ou de seres mais altivos,
como os gatos esquivos por causa disso, bichos.
Havia fazer de conta que não era isto,
Que não se via a inteireza crua disto.
Mas era quando mais assim que a vida cintilava
nos reflexos do fogo. Como um vidro antigo lavado agora,
brilha o que nos faz amar como morder, como morrer
de repente fulminados por afinal tudo ser grande,
demasiado grande sobre as nossas cabeças, e rente ao chão.
Abriram-nos a porta e o sorriso, chover, estar sol, haver
um grande temporal, cair granizo, a rua toda branca
lá em baixo. E o vento. Isto, e outras vezes, sempre,
aquele vaso que persiste em flores vermelhas cada ano,
janelas abertas, a cortina a esvoaçar vista da rua
como se as casas pudessem afinal voar,
as mãos pequenas das crianças
em volta do pescoço, o movimento dos cabelos. E a luz.
E o esquecimento, que salva do horror
e nos deixa acordar sem o passado, a história comprida
do aviltamento, o absurdo de haver injustiça nisto.
E a morte, única razão de nos querermos
para sempre, eternamente vivos.


Rosa Maria Martelo, Matéria, Lisboa, Averno, 2014.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Rosa Maria Martelo. Transporte

em
chamas

setas, facas de muitos gumes
por mais dilacerar, cortar, rasgar
assim se tem falado do amor. A ferida em flor
disseste, a morte, a morte! em arroubo e transporte
o mais correr do sangue a esvair-se em lentidão: antítese a fogo
frio, tremor e clamor, voz chamando sem nenhum ruído, o chão
ardido em lume repentino, as mãos em voo a nada,    e quase perto
     se infinito.
Assim teremos dito, pelos séculos, todos, muitas vezes repetindo
tempo sobre tempo, um depois de outro, êxtase e lamento
e num momento tudo – e depois, a vinda
e o avesso

por figuras:

o pobre imaginar
que inteiros nos levasse inteiro

e dele não haver regresso
ou desenlace

  
Rosa Maria Martelo, Matéria, Lisboa, Averno, 2014.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Rosa Maria Martelo


Ar

O bico da tesoura a levantar ligeiramente
a pele. E o ar da manhã. Todas as manhãs a
amanhecerem assim. «Um pouco dentro
de mais», poderá alguém dizer, talvez
pensando em sangue, ou carne viva. Mas
não é isso. A tesoura é aqui apenas uma
imagem, não serve para cortar, nem perfurar,
não deixa à vista mais nada que uma leve
sensação de atrito, já muito destilada:
uma porta aberta pela manhã - e o ar
muito fresco ainda, quase húmido. Sei que
ver é uma maneira de ser visto. Não uma
ferida, mas um estar a descoberto, e nem
sequer muito fundo, porque não há fundo.
Antes uma certa transparência da matéria,
sob a qual o sangue corre como fora corre
um rio.



A Porta de Duchamp, Averno.