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domingo, 17 de agosto de 2014



O mundo não existe, o mundo é a luz.

Raúl Brandão, Os Pescadores (1923).


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Raúl Brandão (sobre Guerra Junqueiro)

Março de 1904

Veio a Lisboa acompanhar, por solidariedade, os lavradores do Douro o poeta
Guerra Junqueiro. É outro homem, que perdeu talvez em exterioridades mas ganhou em
funda emoção. Tendo-se-lhe um dia deparado universais interrogações no caminho;
tendo encontrado frente a frente, ao meio da vida, ideias abaladoras, que só o homem de
génio pode encarar sem o pavor e o deslumbramento que o grande mistério comunica –
as raízes do universo –, ele mudou de rumo, tão simplesmente como se praticasse o acto
mais banal da existência. Sendo já um dos maiores poetas da Europa – quis ser também
um santo... Durante anos procurou como Fausto o segredo da Vida no fundo dos
laboratórios. E noutra fase do seu espírito decorativo, tendo entrevisto, pelo poder do
génio, novas veredas a tentar, seguiu-as, fazendo experiências que a ciência de hoje
plenamente confirma.
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Guerra Junqueiro está na mesma: alguns fios brancos a mais na grande barba de
santo, começo de calva amarelada no alto da cabeça, chapéu baixo, uma simplicidade de
trajo que vai bem com a simplicidade verdadeira ou fictícia da sua alma. E sobre isto os
olhos terríveis que nos fitam e nos adivinham até ao fundo. A conversa é prodígio que
evoca, ilumina, toca em todos os problemas da vida, dando-lhes uma grandeza e novos
aspectos que entontecem.
Fala-se a propósito dum livro, e ele diz, não palidamente, nem decerto com as
inexactidões com que reproduzo, o seguinte:
– É um livro interessante. O autor conseguiu deixar faiar a parte de inconsciente
que cada um de nós traz consigo... Porque, meu amigo, a porção do infinito que cabe a
cada homem é exactamente a mesma. O camiseiro ali defronte e um homem de génio
têm na alma idêntico quinhão. Somente, o camiseiro não consegue encontrá-la nem
pode exteriorizá-la. Porquê? Porque só pensa em camisas. O homem é o universo
reduzido... Que cada um pudesse deixar-se narrar – e teríamos a mais maravilhosa
história do Mundo.
E como incidentemente se refira à ciência, ei-lo que se desvia por outro
esplêndido caminho:
– As últimas descobertas modificaram completamente a ciência. Fm um
terremoto. E eu entrevi isto mesmo: há anos que chegara ao seguinte resultado: –
radiação universal e desassociação dos átomos. Fiz experiências, que me deram
resultados incompletos, procurei homens de ciência, que não me quiseram atender. Um
dia vim de propósito a Lisboa falar a Sousa Martins e expus-lhe as minhas teorias.
Ouviu-me... Quando me fui embora, encolheu decerto os ombros. E, no entanto,
passados anos, vejo confirmado experimentalmente tudo o que eu previra... Que quer?...
Faltavam-me, como compreende, os meios de verificação. Precisava de factos.
Cala-se um momento e depois continua:
– Hei-de publicar, depois da Oração à Luz, que sai brevemente, uma série de
memórias com os resultados dessas experiências. A vida – é o Amor e a Dor. Procurar
as suas leis, eis tudo. Seguir-se-á a minha teoria filosófica. Adivinhei todo este
terremoto que se deu n1timamente na ciência. Hoje, a matéria não existe: já a definem –
associação de energias. Que é feito dos materialistas? A ciência futura será portanto o
estudo de energias. Por último publicarei uma introdução à ciência, visto não poder
escrever essa obra: seria a revisão dos trabalhos de Spencer – a tarefa de toda uma vida.
– E tem muitos documentos?
– Tenho tudo pronto. Necessito apenas de encontrar a forma precisa, a forma
matemática, para exprimir as minhas ideias.
Incansável. É de ferro. Pequeno e mirrado, passeia horas e horas a conversar...
Não conversa – monologa.


                                                       Raúl Brandão, Memórias Vol. I.

sábado, 10 de maio de 2014

Raúl Brandão: Memórias

Janeiro de 1915

Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões.
Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é
eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore
sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro
tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra. Não sei
– nem me importo – se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu ser
agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este espectáculo desabalado da
vida. Isso me basta. Isso me enche: levo-o para a cova, para remoer durante séculos e
séculos, até ao juízo final. Nunca fui homem de acção e ainda bem para mim: tive mais
horas perdidas... Fugi sempre dos fantasmas agitados, que me metem medo. Os homens
que mais me interessaram na existência foram outros: foram, por exemplo, D. João da
Câmara, poeta e santo, Corrêa de Oliveira, um chapéu alto e nervos, nascido para
cantar, Columbano e a sua arte exclusiva, e alguns desgraçados que mal sabiam
exprimir-se. Conheci muitos ignorados e felizes. Meio doidos e atónitos. O Nápoles
ainda hoje dorme sobre a mesma rima de jornais?... Outro andava roto e dava tudo aos
pobres. O homem é tanto melhor quanto maior quinhão de sonho lhe coube em sorte.
De dor também.
A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada... De tudo o
que se passou comigo só conservo a memória intacta de dois ou três rápidos minutos.
Esses, sim! Teimam, reluzem lá no fundo e inebriam-me, como um pouco de água fria
embacia o copo. Só de pequeno retenho impressões ião nítidas como na primeira hora
ouço hoje como ontem os passos de meu pai quando chegava a casa; vejo sempre diante
dos meus olhos a mancha azul-ferrete das hidrângeas que enchiam o canteiro da parede.
O resto esvai-se como fumo. Até as figuras dos mortos, por mais esforços que faça,
cada vez se afastam mais de mim... Algumas sensações, ternura, cor, e pouco mais.
Tinta. Pequenas coisas frívolas, o calor do ninho, e sempre dois traços na retina, o
cabedelo de oiro, a outra-banda verde... Passou depois por mim o tropel da vida e da
morte, assisti a muitos factos históricos, e essas impressões vão-se desvanecidas. Ao
contrário, este facto trivial ainda hoje o recordo com a mesma vibração a morte daquela
laranjeira que, de velha e tonta, deu flor no Inverno em que secou. O resto usa-se hora a

hora e todos os dias se apaga. Todos os dias morre.

Raúl Brandão, Memórias Vol. I.