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sábado, 10 de agosto de 2024
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
Mário Cesariny
voz numa pedra
Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura
Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava
João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento
Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não
construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal
Mário Cesariny, Pena Capital
quarta-feira, 16 de março de 2016
Mário Cesariny: visto a esta luz
Visto a esta luz és um
porto de mar
como reverberos de
ondas onde havia mãos
rebocadores na brancura
dos braços
Constroem-te um ponte
que deverá cingir-te os
rins para sempre
O que há horrível no
teu corpo diurno
é a sua avareza de
palavras
és tu inutilmente
iluminado e quente
como um resto saído de
outras eras
que te fizeram carne e
se foram embora
porque verdade sem
erro certo verdadeiro
nada era noite bastante
para tocarmos melhor
as nossas mãos de
nautas navegando o espaço
os corpos um e dois do
navio de espelhos
filhos e filhas do
imponderável
de cabeça para baixo a ver a terra girar
Quero-te sempre como nã querer-te?
mas esta luz de sinopla
nas calças!
este interposto objecto
e o seu leve peso de
eternidade
Mário Cesariny
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Mário Cesariny: Discurso ao príncipe de Epaminondas, mancebo de grande futuro
Mário Cesariny: Discurso ao
príncipe de Epaminondas, mancebo de grande futuro
Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das
pequenas
das tuas antes que de quaisquer
outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras
ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um
nome estranho
depois as que crescendo penosamente
vestiste
a verdade do
pão a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem
acalanto nem estrela
depois as que ganhaste com o teu
sémen
onde a manhã ergue um espelho vazio
e uma criança chora entre nuvens e
abismos
depois as que hão-de pôr em cima do
teu retrato
quando lhes forneceres a grande
recordação
que todos esperam tanto porque a
esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral rasgando-nos os
pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas
brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem
chegada
mas um quadrado de fogo sobre as
nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim
das luzes
e um silêncio de morte à nossa
passagem
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Mário Cesariny.
in Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, (selecção, prefácio e notas de Natália Correia), Lisboa, Antígona / Frenesi, 2008, (5ª edição), p. 417.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Mário Cesariny
aeroporto
a mala que segue viagem
assim como o avião
têm a grande vantagem
de não terem coração
só formas amplas - metais
de uma brancura de praia -
dentro vão sonhos a mais
e é bom que a mala não caia
mala do sonho vais bem
assim deitada de lado
chega-te a roupa que tens
ou chamamos o criado?
ou chamamos o fantasma
da queda livre no espaço
verga do pássaro de aço
onde a poesia se espasma?
......................................
arte de inventar os personagens
Pomo-nos bem de pé, com os braços muito abertos
e olhos fitos na linha do horizonte
Depois chamamo-los docemente pelos seus nomes
e os personagens aparecem
Mário Cesariny - Manual de Prestidigitação.
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