Mostrar mensagens com a etiqueta Maria Velho da Costa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maria Velho da Costa. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Novas Cartas Portuguesas

Segunda Carta II

Conto-vos, entretanto, a história da mãe dos animais, mito de uma tribo de índios da América do Norte – e que paixões nostálgicas e sem remédio terão inventado os índios nas suas reservas, morrendo aos poucos e os seus poços de petróleo, às vezes, e seus fatos usados pelos hippies, e sua paixão agressiva, agora, na prisão de Alcatraz. – Mãe dos animais foi a mulher abandonada pela sua tribo, que se dispunha a fazer uma migração difícil, na altura em que ela paria; a mulher ficou para sempre errandonos bosques, ensanguentada e medonha, Mãe dos Animais, protegendo-os dos caçadores; e o caçador que a veja, com o susto tem uma erecção, e a Mãe dos Animais viola então o caçador, concedendo-lhe a seguir um sucesso infalível na caça.

E lembro-me ainda, bastante mal, da história do homem que encontrou uma semente debaixo da presa se um javali, e plantando a semente dela nasceu um coqueiro; e tendo o homem ferido a sua mão, o seu sangue caiu sobre a flor, e da flor ensanguentada nasceu uma rapariga, que foi dançar à praça pública, onde os homens da aldeia a mataram, tendo-a enterrado no sítio onde dançava; a deusa que protegia aquela gente retirou-se então para trás das estrelas, e passou a recusar o seu auxílio. Lembro-me apenas destas coisas, sem nomes nem detalhes, mas lembro aquilo que me interessa, sem dúvida e pergunto-me se a Mãe dos Animais se vinga protegendo os animais, violando os caçadores ou dando a este sucesso infalível na caça; e pergunto-me quem destruiu a rapariga que dançava, se aqueles que a mataram, se o outro que dizia tê-la gerado do seu sangue numa flor. Pergunto-me, enfim, sendo a força-paixão da Mãe dos Animais o seu errar pelo tempo, qual o seu exercício protegendo os animais, se nostalgia do mundo ou vingança aos homens, violando os caçadores, se vingança ao mundo ou nostalgia dos homens, dando sucesso na caça, de si ou para si; sendo a dança a paixão da rapariga, contra quem ou quê. Será desnecessário acrescentar que o meu exercício é o da vingança; que quem está ferido não se recolha, antes despeje o seu sangue no mundo. Porque o objeto da paixão é mesmo pretexto, pretexto para nele ou através dele, definirmos, e em que sentido, o nosso diálogo com o resto.

BARRENO, Maria Isabel; HORTA, Maria Teresa; COSTA, Maria Velho da – Novas Cartas Portuguesas. Lisboa: Dom Quixote,2010.




domingo, 22 de janeiro de 2012

Maria Velho da Costa

Rambo, porque ela falou e riu e estão na orla de um lugar com gente, acaso calor e comida, abana a cauda. Trota há muitas horas, ligado a ela pela mão da trela e por isso não tem frio nem cansaço. Myra tem. Cansaço, fome e frio, apesar da parka branca comprida com capuz, que foi prenda do tempo das delícias. O frio é fome de uma coisa quente, diz ao cão. O corpo existe de dentro para fora, e a alma, circunvalações e convulsões, da cabeça e das tripas. As tripas na alma, é o que faz o crime e castigo. À senhora Macbeth foi isso que aconteceu. Subiram-lhe as vísceras às mãos, numa sangueira que ninguém via.
Falas demais disse-lhe Rambo a tentar rodopiar os grossos quadris...
 Na parede da entrada da taberna, um quadro a giz, Oje à pipis. Nos pratos dos homens, pedacinhos de ossos, moelas, torresmos de toucinho, palitos roídos da comoção tribal. Nas mesas, cervejas, copos de tinto vazios. Nas paredes cartazes tauromáquicos carcomidos, andorinhas e pratos de barro, resmas de alho e cebola, chouriços e farinheiras pendidas, de plástico.
Déja vu, pensou Myra para o cão, quantos já vistos.
E o cão, abanando a cauda sempre, disse,
Deixa, são humanos, que outro bem há? E comem carne.


Maria Velho da Costa, Myra, Assírio & Alvim.