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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Renata Correia Botelho


é sempre a mesma curva
cega, neste troço de pedra lascada,
não há como escapar
às primeiras chuvas
ao piso escorregadio dos olhos,
despiste, falésia mortal,
o coração não entende
sinais vermelhos.

Renata Correia Botelho, in  Telhados de Vidro nº 2, p. 39, Averno, Lisboa, Maio 2004.

Partilhado a partir de As Folhas Ardem, de Manuel Margarido.

Renata Correia Botelho


viste que os dias não passavam
disto, e viste bem. desse lado
do céu, tens o melhor miradouro
sobre a madrugada. se encontrares
o pintainho que sepultámos,
em segredo e lágrimas, no
quintal das tias, pede-lhe o
arco da sua asa nas noites de lua nova.
remete-me, quando puderes,
pacotes de chuva miúda, gosto
de a ver decalcar a terra, fundir-se
com as sementes de milho
no canto da achadinha.
entretanto, vou montando o
telescópio, com as instruções
que me deste. põe-te à vista
e combinamos um gelado a
meio caminho,
à hora da infância.

Renata Correia Botelho, Avulsos por causa, Lisboa, Língua Morta, 2010.