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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Rui Almeida


 Talvez a repetição de ilusões
Pudesse ser uma resposta certa
Para o inferno da insónia. Talvez
A despreocupação dos cegos
Resolvesse o problema da recusa
.
Do abandono da inocência. Vemos
Demasiado. Partilhamos com os loucos
O conhecimento nítido dos incêndios
A lavrar nas grandes encostas dentro
Do líquido dos nossos olhos. A dor
.
Com que o nosso corpo se abate é
Luminosa, tem uma superfície
Extensa e clara. Aqui a percepção
Dos ruídos invade tudo o que sentimos,
Temos nos ossos a reverberação
.
Da noite e a pele esticada a vibrar
Em permanência. Persistente, o ritmo
Da ansiedade de existirmos
Vergasta-nos, sem alívio e arranca,
De cada vez, mais um pouco de vida.
.
.

Rui Almeida in "Talvez a dúvida", Douda Correria, 2017.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Rui Almeida: Os que morrem cedo

  (...)

2. Luís Miguel Nava

Um cheiro forte a carne nasce
Nos lábios,
Contorna a voz viril da inocência
(«Como te chamas?»)
E repete a fortuna do ar
Na dormência do tacto.
(«tenho o dobro da idade
Das tuas mãos em mim»)

A ternura é quase tudo,
É uma roda a moer com o vento
Que nos assusta.

A ponta dos dedos
Torna-se estrangeira numa boca
Próxima do sexo onde tudo é branco,
Lugares de vidro e de ossos vazios,
Estéreis e sem segredos irredutíveis.
(«O que é a culpa
Se não a falta de chão»)

Rui Almeida, in Meditações sobre o Fim: Os últimos poemas, Lisboa, Hariemuj, 2012.