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domingo, 22 de janeiro de 2012

Ana Paula Inácio

A ti,

leitor implícito não representado
a quem chamarei Jorge
pela confusão a que se permite com George
fonia de um país maior
e ainda distante
- a distância revela um amor mais límpido -
pergunto
como ressoam as frases dos meus versos
e que resposta dás
às minhas perguntas
sabes Jorge
quantas manhãs tem um dia
ou quantas noites
ou será que já tás deitado
e o meu mail
encontra o teu ecrã desligado
ou será que tens o coração em on
ou entristecido de
dor ou tédio
risca o que não interessar
e preenche a cheio
(desculpa o pleonasmo)
o traço descontínuo


                                                  Ana Paula Inácio, 2010-2011, Averno.



quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Rosa Maria Martelo


Ar

O bico da tesoura a levantar ligeiramente
a pele. E o ar da manhã. Todas as manhãs a
amanhecerem assim. «Um pouco dentro
de mais», poderá alguém dizer, talvez
pensando em sangue, ou carne viva. Mas
não é isso. A tesoura é aqui apenas uma
imagem, não serve para cortar, nem perfurar,
não deixa à vista mais nada que uma leve
sensação de atrito, já muito destilada:
uma porta aberta pela manhã - e o ar
muito fresco ainda, quase húmido. Sei que
ver é uma maneira de ser visto. Não uma
ferida, mas um estar a descoberto, e nem
sequer muito fundo, porque não há fundo.
Antes uma certa transparência da matéria,
sob a qual o sangue corre como fora corre
um rio.



A Porta de Duchamp, Averno.