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quarta-feira, 30 de abril de 2014
Fernando Pessoa: Crónica Decorativa I
CRÓNICA DECORATIVA
I
A circunstância humana
de eu ter amigos fez com que ontem me acontecesse vir a conhecer o Dr. Boro,
professor da Universidade de Tóquio. Surpreendeu-me a realidade quase evidente
da sua presença. Nunca supus que um professor da Universidade de Tóquio fosse
uma criatura, ou sequer cousa, real.
O Dr. Boro — sinto que
me custa doutorá-lo — pareceu-me escandalosamente humano e parecido com gente.
Vibrou um golpe, que me esforço por desviar de decisivo, nas minhas ideias
sobre o que é o Japão. Trajava à europeia, e, como qualquer mero professor
existente da Universidade de Lisboa, tinha o casaco por escovar. Ainda assim,
por delicadeza, dei-me por ciente, durante duas horas, da sua presença próxima.
Preciso explicar que as
minhas ideias do Japão, da sua flora e da fauna, dos seus habitantes humanos e
das várias modalidades de vida que lhes são próprias, derivam de um estudo
demorado de vários bules e chávenas. Eu por isso sempre julguei que um japonês
ou uma japonesa tivesse apenas duas dimensões- e essa delicadeza para com o
espaço deu-me uma afeição doentia por aquele país económico de realidade. O
professor Boro é sólido, tem sombra — várias vezes fiz com que o meu olhar o
verificasse — e além de falar e falar inglês, coloca ideias e soluções
compreensíveis dentro das suas palavras. A circunstância de que as suas ideias
não comportam nem novidade nem relevo apenas o aproxima dos professores
europeus, pavorosamente europeus, que conheço.
Além disto o professor
Boro tem movimento, desloca-se, não sei como, de um lado para o outro, o que,
feito perante quem sempre teve o Japão por uma nação de quadro, parada e apenas
real sobre transparência de louça, é requintadamente ordinário e desiludidor.
Falávamos de política
internacional, da guerra europeia, e fizemos várias incursões pelos vários
fenómenos literários característicos da nossa época. A ignorância que o
professor Boro tinha de futurismo foi a única benzina para a nódoa da sua
realidade moderna. Mas há algum professor de alguma Universidade da Europa que
siga de perto os movimentos da arte contemporânea?
Dados os factos que
venho explicando, compreende-se que eu fosse avaro de o interrogar sobre o
Japão. Para quê? Ele era capaz de atirar para dentro da minha ignorância uma
quantidade de cousas falsas. Quem sabe se ele se atreveria a insinuar pela
conversa fora, como cousa normalmente acreditável, que no Japão há problemas
económicos, dificuldades de vida para várias pessoas, cidades com lojas reais,
campos com colheitas como as nossas, exércitos realmente parecidos com os da
Europa e com execráveis aperfeiçoamentos científicos para guerras em verdade
contemporâneas? Daqui ele não hesitaria talvez em me afirmar — com que cinismo
nem eu meço — que no Japão os homens têm relações sexuais com as mulheres, que
nascem crianças, que a gente de lá, em vez de estar sempre vestida como as
figuras da louça japonesa, despe-se e veste-se como se fosse europeia. Por isso
não tratámos do Japão. Perguntei ao professor se ele tinha tido uma boa viagem,
e ele caiu em dizer-me que não — como se um estudioso como eu da porcelana
nipónica pudesse admitir que há más viagens para os japoneses, que — delicioso
povo! — nem sequer se dá ao trabalho de existir. As chávenas partem-se, não
comportam tormentas. A frase «uma tempestade num copo de água» ou «numa
chávena», como dizem outros, é puramente europeia.
Uma frase houve (casual,
quero crer, no professor Boro) que me magoou mais do que outra.
Falávamos — eu, é claro,
com o desprendimento com que se tratam estes assuntos feéricos — da influência
dos mecanismos sobre a psicologia do operário, quando se sabe — claro está —
que o operário não tem psicologia. E o professor referiu-se aos progressos
industriais do Japão e acrescentou umas palavras, que me esforcei com metade de
êxito para não ouvir, sobre (creio) movimentos operários no Japão e um
fuzilamento (suponho) de não sei que chefe socialista. Eu há tempos — numa
coluna sem dúvida humorística de um diário — vira em um telegrama de Tóquio
constando qualquer cousa nesse tom; mas, além de não crer que de Tóquio se
mandasse telegramas — visto Tóquio não ter mais do que duas dimensões —,
ninguém que como eu tenha estudado a psicologia japonesa através das chávenas e
dos pires admite progressos de qualquer espécie no Japão, indústrias japonesas,
movimentos socialistas e chefes socialistas, ainda por cima fuzilados, como
quaisquer europeus que vivem. Quem como eu conhece bem o Japão — o verdadeiro
Japão, de porcelana e erros de desenho — compreende bem a incompatibilidade
entre o progresso, indústria e socialismo, e a absoluta não existência daquele
país. Socialistas japoneses! uma contradição flagrante, uma frase sem sentido,
como «círculo quadrado»! Se nem o inexistente estivesse livre do socialismo!
Aquelas figuras deliciosas, eternamente sentadas ao pé de casas do tamanho
delas, à beira de lagos absurdos, de um azul impossível, aquém de montanhas
totalmente irreais — essas maravilhosas figuras, com uma perfeita e patriótica
individualidade japonesa, não pertencem decerto ao horroroso mundo onde se progride,
e onde sobre o artista desabam a morbidez do produtivo e a barbárie do
humanitário.
E vem querer tirar-me
estas convicções o professor Boro, da Universidade de Tóquio! Não mas tira. Não
é para ser enganado pela primeira realidade que se me atira aos olhos que eu
tenho gasto minutos distensos na contemplação científica e estéril de bules e
chávenas japonesas. O mais provável, a respeito deste Boro, é que nascesse em
Lisboa e se chame José. Do Japão, ele? Nunca.
Se ao menos achei achei
japonesa a sua cara? Absolutamente nada. Basta dizer que era real e existiu ali
diante de mim, duas dolorosas horas, em plena ocupação inestética de todas as
dimensões aproveitáveis (felizmente só três) do espaço autêntico. A sua cara
parecia-se, é certo, com certas fotografias de «japoneses» que as ilustrações
trouxeram há anos, e de vez em quando reincidindo trazem; mas toda a gente que
sabe o que é o Japão por nunca lá ter ido, sabe de cor que aquilo não são
japoneses. E, de mais a mais, essas ilustrações eram principalmente de
generais, almirantes, e operações guerreiras. Ora é absolutamente impossível
que no Japão haja generais, almirantes e guerra. Como, de resto, fotografar o
Japão e os japoneses? A primeira cousa real que há no Japão é o facto de ele
estar sempre longe de nós, estejamos nós onde estivermos. Não se pode lá ir,
nem eles podem vir até nós. Concedo, se me forçarem a isso, que existam um
Tóquio e um Iocoama. Mas isso não é no Japão, é apenas no Extremo Oriente.
O resto da minha vida,
doravante, será escrupulosamente dedicado a esquecer o professor Boro e que ele
— impronunciável absurdose sentou na cadeira que está agora, na realidade de
madeira, defronte de mim. Considero doentio esse facto, alucinatório talvez, e
entrego-me com assiduidade a não me lembrar dele mais. Um japonês verdadeiro
aqui, a falar comigo, a dizer-me cousas que nem mesmo eram falsas ou
contraditórias! Não. Ele chama-se José e é de Lisboa. Falo simbolicamente, é
claro. Porque ele pode chamar-se Macwhisky e ser de Inverness. O que ele não
era decerto era japonês, real, e possível visitante de Lisboa. Isso nunca.
Desse modo não havia ciência, se o primeiro ocasional nos viesse negar o que os
nossos estudos assíduos nos fizeram ver.
Professor Boro, da
Universidade de Tóquio? De Tóquio? Universidade de Tóquio? Nada disso existe.
Isso é uma ilusão. Os inferiores e cábulas de nós construíram, para se não
desorientarem, um Japão à imagem e semelhança da Europa, desta triste Europa
tão excessivamente real. Sonhadores! Alucinados!
Basta-me olhar para aquela bandeja, pegar
cariciosamente com o olhar naquele serviço de chá. Depois venham falar-me em
Japão existente, em Japão comercial, em Japão guerreiro! Não é para nada que,
através de esforços consecutivos, a nossa época ganhou o duro nome de científica.
Japoneses com vida real, com três dimensões, com uma pátria com paisagens de
cores autênticas! Lérias para entretimento do povo, mas que a quem estudou não
enganam...
1914
Ficção e Teatro. Fernando
Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins:
Europa-América, 1986
- 65.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
O Guardador de Rebanhos
I.
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.
Alberto Caeiro,
quarta-feira, 12 de junho de 2013
O Guardador de Rebanhos
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.
Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Maria José, Fernando Pessoa
A CARTA DA CORCUNDA PARA O SERRALHEIRO
Senhor António:
O senhor nunca há-de ver esta carta, nem eu a hei-de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor não me desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.
O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gosta das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo [sic] não vou procurar saber.
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre se riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.
Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isto, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.
Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonha de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar por que é que estive distraída.
Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.
Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é não como tinha vontade de ser.
O senhor que anda de um lado para o outro não calcula qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.
Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe puder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.
A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não sou mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vê, valha-me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!), o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida. Aí tem e estou toda a chorar.
MARIA JOSÉ
Prosa Íntima e de Autoconhecimento
Fernando Pessoa
Senhor António:
O senhor nunca há-de ver esta carta, nem eu a hei-de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor não me desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.
O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gosta das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo [sic] não vou procurar saber.
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre se riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.
Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isto, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.
Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonha de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar por que é que estive distraída.
Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.
Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é não como tinha vontade de ser.
O senhor que anda de um lado para o outro não calcula qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.
Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe puder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.
A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não sou mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vê, valha-me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!), o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida. Aí tem e estou toda a chorar.
MARIA JOSÉ
Prosa Íntima e de Autoconhecimento
Fernando Pessoa
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