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sábado, 22 de março de 2014

Maria Quintans: A Pata da Cabra

2.

que farás com o medo quando a pecha de roeres as unhas te trans­formar num animal canhoto, contemplativo de trinta anos menos ainda com sono e uma cabra determinada a lamber os nomes intei­ros negados pelos teus dedos de unha grande a açambarcar o poeta que devagar desce a escada de um degrau único? um quinto andar de tortura na memória individual da dor.
que farás com o medo quando a língua se retorcer na boca e a pala­vra for um rasto de sangue vivo, muito vivo na jaula do arroz-doce da tua cozinha francesa?


Maria Quintans, A pata da cabra, Lisboa, Cama de Gato, 2014.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Maria Quintans: a poesia

estremece quando limita a eternidade e põe as mamas de fora
com a mão direita a segurar o sorriso.
acomoda-se debaixo de uma ventoinha imobilizada pelo cheiro horizontal do sexo
e respira
respira confiante no triunfo das pedras num compromisso de sague.
é um peixe entre os galhos de um reflexo e move-se, na dança da cera
a derreter a vida,
                                                                        Maldita febre com o  terço nos dentes.
pensa-se garantida nas feridas que abre por dentro dos braços enredados de linho,
nunca é capaz
nunca é verdade
nunca é própria
tosse convulsa de um sobreiro desaparecido.
ainda há tempo.
                                                                                                          comecemos.

partícula de mosca no nariz do cão.
ão ão ão.
não se sabe se é uma caixa de música.


in Cintilações da Sombra: Antologia Poética (Coordenação de Victor Oliveira Mateus), Núcleo de Artes e Letras de Fafe, Ed. Labirinto.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Poema como se fosse o quinto


quando chove e os relâmpagos se esforçam num arrepio de
angústia, os homens todos são carroças a puxar lágrimas
muito tristes e chuvas muito frias.

nesse tempo diz-se que a terra se vira dentro dos edifícios
e a emoção se repara na imortalidade do silêncio. aí, somos
todos os outros que já foram nossos sem nunca
renunciarem

e o sábio calar-se-à

e o monge habituar-se-à

e qualquer pessoa muito ruidosa se entediará de fadiga.


                                                        Maria Quintans, O Silêncio, ed. hariemuj - 2013




terça-feira, 6 de setembro de 2011

Maria Quintans

a noite morde-me o tímpano

mãe

e sempre a tua mão me liga ao rosto

mãe

a tua pele é o meu cheiro

mãe

a porta é um jardim sem fim

mãe

e os dedos a constelação dos teus olhos


mãe
minha