quarta-feira, 2 de abril de 2025

Ruy Belo: Algumas proposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração


Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo
in Homem de Palavra(s)  

Pintura: Gisel de Brito 

Alexandre O'Neill: O poema pouco original do medo

 

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
     (assim assim)
escriturários
     (muitos)
intelectuais
     (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

*

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos




O Portugal Futuro: Ruy Belo


O Portugal  futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
Portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a Espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o Portugal futuro

 

Linha d'água, Mário Cesariny.

terça-feira, 25 de março de 2025

João Melo: O que fazer diante do fim

 

Quando o fim assomar

à tua frente

como um monstro

de sete cabeças, catorze línguas

e milhões de braços pavorosos 


quando o fim ameaçar

levar-te na sua bocarra 

escancarada e sem fundo 


quando o fim te convencer 

que o outro lado do espelho 

é menos assustador do que aquilo que vês,


- Resiste!


Não temos outro mundo

para tornar mais humano...


João Melo. Quitad la rodilla de mi cuello (edição bilingue espanhol e português com tradução de Lauren Mendinueta) Libros del Aire: Cantabria, 2023.

sábado, 10 de agosto de 2024

Paulo Freire: Pedagogia da Esperança

O sonho pela humanização, cuja concretização é sempre processo, e sempre devir, passa pela ruptura das amarras reais, concretas, de ordem econômica, política, social, ideológica, etc., que nos estão condenando à desumanização. O sonho é assim uma exigência ou uma condição que se vem fazendo permanente na história que fazemos e que nos faz e refaz. Não sendo um a priori da história a natureza humana, que nela se vem constituindo, tem na vocação referida, uma de suas conotações.

É por isso que o opressor se desumaniza ao desumanizar o oprimido, não importa que coma bem, que se vista bem, que durma bem. Não seria possível desumanizar sem desumanizar-se tal a radicalidade social da vocação. Não sou se você não é, não sou , sobretudo, se proíbo você de ser.


Paulo Freire. Pedagogia da Esperança (um reencontro com a pedagogia do oprimido). Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2021. (pp. 137-138)


Mário Cesariny: Faz-me o favor


Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.


Mário Cesariny


Clarice Lispector: Se eu fosse eu

 Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir. 

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

(Clarice Lispector. A Descoberta do Mundo)

If I were another: Mahmoud Darwish



If I were another on the road, I would not have looked

back, I would have said what one traveler said

to another: Stranger! awaken

the guitar more! Delay our tomorrow so our road

may extend and space may widen for us, and we may get rescued

from our story together: you are so much yourself ... and I am

so much other than myself right here before you!


If I were another I would have belonged to the road,

neither you nor I would return. Awaken the guitar

and we might sense the unknown and the route that tempts

the traveler to test gravity. I am only

my steps, and you are both my compass and my chasm.

If I were another on the road, I would have

hidden my emotions in the suitcase, so my poem

would be of water, diaphanous, white,

abstract, and lightweight ... stronger than memory,

and weaker than dewdrops, and I would have said:

My identity is this expanse!


If I were another on the road, I would have said

to the guitar: Teach me an extra string!

Because the house is farther, and the road to it prettier—

that’s what my new song would say. Whenever

the road lengthens the meaning renews, and I become two

on this road: I ... and another!


Mahmoud Darwish, "If I Were Another", The Butterfly’s Burden. 


segunda-feira, 3 de junho de 2024

Um animal feliz entre outros


Amo o mundo como uma criança que ri

inteira e feliz e sem um dente da frente

e rio inteiro do mundo inteiro porque rir do mundo

 é amá-lo verdadeiramente 

e vê-lo verdadeiramente como ele é e pode ser.



Amo o mundo como uma criança que ri

Inteira como um dente de leão a espalhar-se

pelo campo todo para voltar a nascer outra vez 

em vários sítios diferentes ao mesmo tempo


e ser completo e inteiro em todo o lado e até ao fim


Amo o mundo como uma criança que ri

Feliz e inteira e sem um dente da frente.


Felicidade em Portugal


Felicidade em Portugal

Deixei maias à porta para te ver sorrir, 
Em todas as expressões e gestos do meu país:

País-Sede, País-canção, País Revolução.

A casa branca nau preta...
Felicidade em Portugal.

País até ao coração do boi a pulsar no ponto mais alto do Pico, 
País de espuma a arder de ponta a ponta
As Linhas das costas seguras pontilhadas de faróis
Sede e luz de barco (suor sal e sol nas tuas costas)
País até à medula. Gorduroso e amanteigado 
como um queijo da serra. 
Coração de Varina a Arder dentro dos CTT.
País-Mãe, País-Barco, País-pião! 
País corrimento das estrelas
Entrelaçado na nossa voz, 
País Avós que estão no céu a cuidar de nós 
País Moinho de rodar e receber!
País a Criar! País de abraçar! País a Transver!
Moinho de Imagens Novas!
Rosa de Todas Cores
País Sino, País Lápis, País Sebenta!
Vozes Novas e Imagens Novas Venham Todas para o meu país! 

País Barco de papel no fundo de um poço
Viagem circular e completa à volta de nós próprios
E toda a esperança material e líquida e necessária - 
Porque a esperança é necessária e poética e material

País Todo:
Felicidade em Portugal.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

E Depois?

E depois?

Queria contar-lhe a história do burro que foi à lua. Mas queria contar rápido, em pouco tempo, seria por breves atalhos, o primeiro burro a chegar à lua. Chegaria num foguetão e depois adormeceríamos com o sorriso de uma missão comprida, com um ponto final a pautar mais um dia preenchido de altos e baixos. Mas as crianças não se deixam enganar, raramente gostam de finais felizes, que são mais uma fantasia de adultos. Na verdade as crianças não gostam de pontos finais e para que a história não acabe põe pontos de interrogação em tudo, pontos de interrogação de várias entoações e cores, para  que a história não termine nunca, uma cegonha numa torre fica com um ponto de interrogação no cimo da sua cabeça, um telefone, uma estrela, um sapo, tudo encimado com a entoação perfeita de uma pergunta feita por uma criança; por isso talvez só elas saibam, com uma certeza interrogativa, que na verdade as verdadeiras histórias não têm fim. E todas elas cabem dentro de si, (aninhadas, ouriçadas e pequeninas), como um novelo feito de uma luz finíssima, uma luz de espuma e espanto e ouro, e que puxada devagar com os dedos por uma ponta nunca mais chegaria ao fim. 
Para nos encher continuamente de surpresa as crianças sabem que aquilo que, no fim de cada história, parece um ponto final, é na verdade apenas um ponto de luz que vibra, uma semente recheada de futuro.  E os pontos  finais começam a falar baixinho; ao coração de cada criança do mundo cada ponto final diz: “Leva-me pela mão a casa da minha avó”, “quero comer marmelada”, “Conta-me mais sobre o lobo”, “Podemos ir pelo caminho mais longo?”. Cabe-nos então levar a história pela mão para onde ela quer que a levemos, ou que seja ela a levar-nos a nós, como pequenos irmãos de mãos dadas, as histórias abraçam-se e quando se tocam umas nas outras tornam-se infinitas, como uma grande nuvem de estorninhos ou uma grande história mãe, feita com a voz de todos nós e a voz dos que nos seguirão.  Porque as histórias não têm fim, o meu coração enche-se de felicidade só de imaginar... O que aconteceria ao burro?  E a cada ramo em curvas da sua história? Agora mesmo está no cimo de uma montanha ao lado de um moinho; e é bom ser um burro lado de um moinho em cima de uma montanha e ser um moinho com um burro ao lado mais a montanha que lhes serve de chão e ser isso tudo ao mesmo tempo é também o começo de uma história que está sempre no presente: como quando o molho das rabanadas se cristaliza em ponto de açúcar, assim se sentia o burro enquanto descia a montanha. Muito, muito feliz, como um burro pode ser. O burro mais feliz do mundo descia a montanha, muito devagar, porque há tempo de lá chegar. O caminho tem muitas curvas e devemos sujar-nos o caminho todo. Isso é também o coração da história: devemos sujar-nos porque o caminho é uma aprendizagem. E depois?  ... A pergunta impõe uma nova respiração. Uma respiração segura ... ... ... E quando respiramos ouvimos. Devemos, quando contamos uma história, parar várias vezes: ouvir a nossa respiração e o coração de quem está à nossa frente. Ouvir o nosso coração         a bater no coração de quem nos ouve, dizer: “Olá liberdade!” muito baixinho ao coração de cada ser que nos que está à nossa frente; só assim a história pode nascer, que é a única forma possível de ela continuar, e talvez sejam já dois burros a descer a montanha por um caminho de terra e  cheio de curvas, e nunca chegar  à lua é só o centro exato da história, porque as verdadeiras histórias estão sempre no meio e não  têm passado nem futuro, nem começo nem fim nem pressa. As verdadeiras histórias estão sempre no presente. Por exemplo, agora, neste exato momento, os dois burros descem a montanha e a certa altura aparece um foguetão e a avó de um astronauta que gosta muito de marmelada. ...  E depois? ... ... 

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Art Objects: Jeanette Winterson



The earth is not flat and neither is reality. Reality is continuous, multiple, simultaneous, complex, abundant and partly invisible. The imagination alone can fathom this and it reveals its fathomings through art.
The reality of art is the reality of the imagination.

Jeanette Winterson. Art [Objects]. New York: Alfred A. Knopf, 1996.

 


sábado, 18 de novembro de 2023

Messenger: Mary Oliver

My work is loving the world.

Here the sunflowers, there the hummingbird-

Equal seekers of sweetness.

Here the quickening yeast; there the blue plums.

Here the clam deep in the speckled sand.


Are my boots old? Is my coat torn?

Am I no longer young, and still not half-perfect? Let me

Keep my mind on what matters,

Which is my work,


Which is mostly standing still and learning to be astonished.

The phoebe, the delphinium.

The sheep in the pasture, and the pasture.

Which is mostly rejoicing, since all the ingredients are here,


Which is gratitude, to be given a mind and a heart

And these body-clothes,

A mouth with which to give shouts of joy

To the moth and the wren, to the sleepy dug-up clam,

Telling them all, over and over, how it is

That we live forever.


Mary Oliver.


Emily Dickinson


To the faithful absence is condensed presence.

 To the others—

but there are no others



Emily Dickinson. Letters to Susan Dickinson.

Eu, o Povo: Mutimati Barnabé João



Eu, o Povo

Conheço a força da terra que rebenta a granada do grão

Fiz desta força um amigo fiel.

 

O vento sopra com força

A água corre com força

O fogo arde com força

 

Nos meus braços que vão crescer vou estender panos de vela

Para agarrar o vento e levar a força do vento à Produção.

As minhas mãos vão crescer até fazerem pás de roda

Para agarrar a força da água e pô-la na Produção.

Os meus pulmões vão crescer soprando na forja do coração

Para agarrar a força do fogo na Produção.

 

Eu, o Povo

Vou aprender a lutar do lado da Natureza

Vou ser camarada de armas dos quatro elementos.

A tática colonialista é deixar o Povo ao natural

Fazendo do Povo um inimigo da Natureza.

 

Eu, o Povo Moçambicano

Vou conhecer as minhas Grandes Forças todas.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Três Poemas de Afectos em Ré Menor. Maria Fernanda Morais.




No fundo dos mais belos olhos

eu vislumbro o redondo planeta

mãos que se abrem e deixam nascer

em cada falange um poeta

no fundo dos mais belos olhos

as balas serão palavras

e armas serão canetas

apontadas por poetas

no fundo dos mais belos olhos

não há medo nem terror

as letras são inocentes

cada verso uma flor


***


Dei um beijo

A um beija-flor

Pôs a flor na lapela 

Voou e fugiu de mim

Desgostosa eu chorei

Desamparada caí

Outra ave abraçou-me

Beijou-me o bem-te-vi!

Se virem duas aves felizes por aí a esvoaçar, a dar às asas pelo ar,

somos nós, vamos para Taipus-de-Fora!


***


Partilhemos o canto das aves

nas sombras dos jacarandás

o antes e o depois

do verão e do inverno

o meu abraço terno

aos plantadores das árvores

troncos plenos de flor

que nos dão o colorido

ao cego e ao mendigo

perdidos 

de amor 


Maria Fernanda Morais. Afectos em Ré Menor. A Casa do Livro, Janeiro de 2022.


quinta-feira, 29 de setembro de 2022

When I am among trees: Mary Oliver



When I am among the trees,

especially the willows and the honey locust,

equally the beech, the oaks and the pines,

they give off such hints of gladness.

I would almost say that they save me, and daily.


I am so distant from the hope of myself,

in which I have goodness, and discernment,

and never hurry through the world

but walk slowly, and bow often.


Around me the trees stir in their leaves

and call out, “Stay awhile.”

The light flows from their branches.


And they call again, “It’s simple,” they say,

“and you too have come

into the world to do this, to go easy, to be filled

with light, and to shine.”




Mary Oliver.


Construção: Ondjaki


construção da casa [e do interior da casa]

construção de uma fogueira [e do fogo, e da chama, e das cinzas]

construção de uma pessoa [do embrião aos livros]

construção do amor

construção da sensibilidade [desde os poros até à música]

construção de uma ideia [passando pelo que o outro disse]

construção do poema [e do sentir do poema]


[há qualquer coisa de «des» na palavra construção]


desconstrução do preconceito

desconstrução da miséria

desconstrução do medo

desconstrução da rigidez

desconstrução do inchaço do ego

desconstrução simples [como exercício]

desconstrução do poema [para um renascer dele]


construção é uma palavra

que causa suor

ao ser pronunciada.


penso que esse seja um suor bonito.


Ondjaki.