domingo, 9 de fevereiro de 2014

José Miguel Silva: O Atalante – Jean Vigo (1934)


No dia em que fomos ver O Atalante
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
sou tão estúpido.



José Miguel Silva, in Poemas com Cinema: Antologia organizada por Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010.

Pedro Mexia: Cinema Fechado

Cinema fechado, melancólico
o arrumador, portões
a cadeado, ruído abafado de matinés
fria a rua, de lado a lado, a cena
em cinemascope restaurado
mas a memória no negrume horizontal,
premeditado, das barras.


Pedro Mexia, in Poemas com Cinema: Antologia organizada por Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010.

Pedro Mexia: Rebel without a cause

Duas infâncias passaram
por mim: uma, no planetário,
com o espanto dos astros.

Outra, com Sal Mineo,
que no seu mundo ansioso
vislumbrou a eternidade.


Pedro Mexia, in Poemas com Cinema: Antologia organizada por Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Eduardo Leal: retrato a meia-luz

noite
como se a luz que resta
procurasse apenas
o brilho que guardaste
no instante breve
do olhar antes do sono
e das sombras
que dançam na tua pele

noite
e nós os dois
deitados lado a lado
num retrato a preto e branco
que a cor
(fora os teus olhos quando abertos)
apenas distrai o gesto

um livro na mão direita
que a outra mão
repousa suavemente
no negro dos teus cabelos

dormes no meu colo
e o embalo
é da ponta dos meus dedos
no intervalo prolongado das páginas por virar


Eduardo Leal, in Antologia da Cave: 25 Anos de Poesia no Pinguim Café, Apuro, Porto, 2013.

Tomás António Gonzaga

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
que viva de guardar alheio gado;
de tosco trato, de expressões grosseiras,
dos frios gelos e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta azeite;
das brancas ovelhinhas tiro o leite,
e mais as finas lãs, de que me visto,
Graças, Marília bela,
graças à minha estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte:
dos anos ainda não está cortado;
os pastores, que habitam este monte,
respeitam o poder do meu cajado.
Com tal destreza toco a sanfoninha,
que inveja até me tem o próprio Alceste:
ao som dela concerto a voz celeste
nem canto letra, que não seja minha.
Graças, Marília bela,
graças à minha estrela!

Mas tendo tantos dotes de ventura,
só apreço lhes dou, gentil pastora,
depois que o teu afecto me segura
que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
de um rebanho que cubra monte e prado:
porém, gentil pastora, o teu agrado
vale mais que um rebanho e mais que um trono.
Graças, Marília bela,
graças à minha estrela!

Os teus olhos espalham luz divina,
a quem a luz do sol em vão se atreve;
papoila ou rosa delicada e fina
te cobre as faces, que são cor da neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
teu lindo corpo bálsamo vapora.
ah! Não, não fez o céu, gentil pastora,
para glória de amor igual tesouro!
Graças, Marília bela,
graças à minha estrela!

Leve-me a sementeira muito embora
o rio, sobre os campos levantado;
acabe, acabe a peste matadora,
sem deixar uma rês, o nédio gado.
Já destes bens, Marília, não preciso
nem me cega a paixão, que o mundo arrasta;
para viver feliz, Marília, basta
que os olhos movas, e me dês um riso.
Graças Marília bela,
graças à minha estrela!

Tomás António Gonzaga (Porto, 1744, Moçambique, 1810).


Silva Porto, A Ceifa.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

César Aira


 (... ) Ya dije que el color y la textura de los gusanos era lo más llamativo en ellos. Fue lo que me dió la punta del ovillo de la explicacíon. Porque esse color, esse azul brillante tan peculiar, ya desde el primer momento me había hecho pensar en el color de la célula de Carlos Fuentes que me había traído la avispa… Aunque cuando lo vi en la célula no me evocó lo que me evocava ahora, al verlo extendido en vastas superficies ondulantes. Ahora compreendía que yo había visto ese color en outra parte, y lo había visto en el mismo día de la captura de la célula, una semana atrás. Adónde? En la corbata que lucía ese día Carlos Fuentes! Una espléndida corbata de seda natural  italiana, sobre una inmaculada camisa blanca … y el traje gris claro … (un recuerdo atraía al outro, hasta completar el cuadro ). Y la magnitude del error se me hacía patente com una evidencia horrenda. La avispa me había traído una célula de la corbata de Carlos Fuentes, no de su cuerpo ! Un gemido escapó de mis lábios:
- Avispa pelotuda y la reputísima madre que te parió!
- Eh? – Dijo Nelly sorprendida.
- No, no me hagas caso, yo me entendo.
En realidade no podía culparla. Toda la culpa era mía. Cómo iba a saber esse pobre instrumento clónico descartable donde terminaba el hombre y empezaba su ropa? Para ella era todo lo mismo, era todo Carlos Fuentes.


César Aira, El congresso de Literatura, Era, México D.F., 2004.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Francis Bacon

Se vou a um talho acho sempre surpreendente não estar ali eu em vez do animal

Francis Bacon.