quinta-feira, 6 de março de 2014

Emily Dickinson


657


Habito na possibilidade -
Uma casa mais bela do que a prosa –
Com mais janelas –
E portas - maiores

Salas como Cedros –
Que o Olhar não alcança –
E como Tecto Imperecível
Os limites do Céu –

Visitantes – os mais belos –
Ocupação – Esta –
Abrir ao máximo as minhas Mãos finas
Para colher o paraíso -


Emily Dickinson – tradução de Nuno Júdice.

Luiz Pacheco: Coro dos Cornudos

XXVI

Melhor que a mulher é o vinho
que faz esquecer a mulher...
que faz dum amor já velhinho
ressurgir novo prazer.


Finale, muito católico

XXVII


Asiim termina o Lamento
pois recordar é sofrer.
Ama e fode. É bom sustento!
E por nós reza um pater.


Luiz Pacheco in "Coro dos Cornudos" - Contraponto.

Jaime Sabines: Después de todo

Después de todo -pero después de todo-
sólo se trata de acostarse juntos,
se trata de la carne,
de los cuerpos desnudos,
lámpara de la muerte en el mundo.

Gloria degollada, sobreviviente
del tiempo sordomudo,
mezquina paga de los que mueren juntos.

A la miseria del placer, eternidad,
condenaste la búsqueda, al injusto
fracaso encadenaste sed,
clavaste el corazón a un muro.

Se trata de mi cuerpo al que bendigo,
contra el que lucho,
el que ha de darme todo
en un silencio robusto
y el que se muere y mata a menudo.

Soledad, márcame con tu pie desnudo,
aprieta mi corazón como las uvas
y lléname la boca con su licor maduro.


José Tolentino Mendonça: A Estrada Branca

Atravessei contigo a minuciosa tarde 
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

José Tolentino Mendonça, A Estrada Branca, Lisboa, Assírio & Alvim, 2005.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Ode canção


A memória foge para dentro dos casulos negros,
 mergulha ao fim da tarde, para dentro do vulcão
……………………………………………………………………………….
mergulha para dentro do espelho
a ser moldado pelas mãos quentes de um futuro artesão etrusco.
 enrola as cidades marítimas,
as futuras e as do passado:
 as que já foram queimadas pelos vulcões, inundadas pelo mar,
 levadas por tornados, abandonadas pelo último habitante.
Fuma-as em mortalha de prata:
 condensadas, cilíndricas, marítimas na espera:
  apressa o fim da história para dentro dos pulmões,
 para dentro do coração, para começar uma nova.
 Em novelo contínuo, renasço a cada perda,
 a cada segundo com o mapa do coração no bolso:
os vasos sanguíneos, as pequenas articulações,
o pulsar terno, a respiração segura:
traí o tempo por um incesto maior;
mãos, pernas, braços entrelaçados,
gente a entrar no metro, gente a sair do metro,
a mesma pulsação forte, segura;
em cada esquina recomeça a história da humanidade,
 toda em febre contínua, em novelo contínuo:
 reescreve-se pelo suor, por todos os poros:
mergulho nela, nado nela, folheio-a rápido:
 é impossível não sentir culpa enquanto se folheia,
nas pontas dos dedos, a história toda,
gente com gente dentro,
com os seus calções apertados,
 saias, botas, cio, uniformes de trabalho,
 pequenos sinos de bronze dentro dos pulmões;
a espera é cilíndrica como uma cuba, a culpa é cilíndrica como uma cuba,
e a mais perversa medusa com o seu bikini vermelho pesa o fundo do mar numa balança equilibrada:
 não há coisas equilibradas, só a morte é equilibrada mas
 não passa de um evento como andar de bicicleta;
 com o seu bikini vermelho pesa o fundo do mar,
com o seu bikini vermelho fuma o fundo do mar,
enrola as cidades marítimas futuras,
as da costa da Líbia, as da costa de Córsega,
 leva consigo a memória dos camponeses,
está no cio das baleias, no seu leite gordo e espesso,
 está dentro dos cactos, na alucinação dos cactos:
traí o tempo por um farol, pela memória mais pura e salgada,
pela memória de um farol que rega as violetas cheias de sol líquido no caule, uma memória que arde, que chove, que sua, que transpira, que chora,
que limpa as escadas, que vai ao hipermercado, que apanha navios,
 que queima navios, que uiva, que fode, que se queima com gasolina a si própria a cada segundo,
uma memória no subsídio de desemprego que corta as suas pontas para crescerem novas e com mais força, uma memória que pinga:
 a história toda, bebo-a de cada ser humano, contínua a sua corrente,
 a respiração ofegante; tenho um pacto com o futuro, com tudo o que flui, escorre-nos quente dentro dos pulsos, entra-nos no coração;
com todas as suas artérias –
o sol a pingar para dentro da sombra dos gatos,
 dobram os sinos link,
 dentro do peito, link link link,
com o seu bikini vermelho enrola as cidades, todas elas santas e descalças,
com os seus muros a derreterem,
com o seu tempo a deformar-se em sinos de fumo
 com as suas vielas e praças a derreterem, com as suas antenas de prata,
 com os cafés cheios de gente e de libido,
 só o riso é deus, só ele molda verdadeiramente a cara,
tudo o resto é prosa e a prosa não vale mais do que fazer rir uma criança,
 pôr a andar um moinho de vento, regar os girassóis:
 tenho um casulo negro no lugar do coração e
 Deus deu-me unicamente a hipérbole, única salvação,
 uma casa maior com uma clarabóia grande,
 a memória rega-se a si própria de gasolina e incendeia-se na noite quente,
arde nos fios dourados e é em tudo rede contínua e febre.
A sombra dos lírios vem-se dentro das baleias, arde no pulso,
o farol entra dentro de mim com o seu cio cor de laranja ao fim da tarde,
 o interior do farol possui-me com a sua memória salgada,
 em rede, vem-se dentro de mim, mergulha dentro de mim.
Nado dentro dele, braços aflitos em prosa, todos,
 dentro da boca passa um rio,
no fundo do lago estão as chaves dos diários dos ditadores mortos.
Quem escreve o fim da história mais não faz do que a começar,
 todas elas em novelo contínuo uma obra nunca é acabada apenas abandonada, toda a história universal,
 apanha o metro, dentro de cada célula, a correr nos fios de cabelos,
 quente, a pulsar, toda ela dou-ta condensada:
em letra uncial uma ode escrita a fluorescente na mortalha de prata –
Ode que foge, contínua para dentro dos pulmões.
Toda a história universal dou-ta fluida num abraço.

Nuno Brito.


Uma rapariga comia cerejas, descalça na praia, e as ondas vinham e levavam os caroços. E no fundo do mar os caroços davam cerejeiras. E no cimo, com os pés molhados e salgados, a rapariga comia cerejas numa praia perto de Nagasaki. Um cogumelo de fogo e fumo formou-se no ar e o mar contraiu-se com as cerejeiras no fundo. E a sombra da rapariga continuou a comer a sombra das cerejas: E as sombras dos pára-quedis­tas desceram, fluorescentes sobre a tarde roxa: e a sombra roxa recheou de susto os pescadores; todos eles com ametistas nos bol­sos mergulhavam no mar dourado do fim da tarde.


Mais tarde Mina cantaria Nagasaki Blues. A música no fundo era um mambo mal tocado.

Nuno Brito, Creme de la Creme, Porto, Planeta Vivo, 2011.


De vez em quando uma língua de mármore entra no Aleixo, por entre as nuvens, e leva uma criança: Se a língua quiser leva duas crianças, se lhe der vontade a língua tira três ou quatro grupos de meninos aos pais e desaparece. Os pais vão à Segu­rança Social e a língua não devolve as crianças: E os pais pedem à língua uma segunda oportunidade; que vão tratar da vida, ter rendimentos: A língua recolhe-se para dentro do edifí­cio burocrata e volta sem trazer nada.





Nuno Brito, Créme de la Creme, Porto, Planeta Vivo, 2011.