domingo, 13 de abril de 2014

Laurence Sterne: Tristan Shandy


Ao Muito Honorável Mr. Pitt

Senhor:
Jamais pobre embrião de autor de uma dedicatória depositou menos esperanças na sua das que eu depositei na minha; porque lhe escrevo num canto afastado do reino, numa casita retirada onde vivo consagrado a combater sem trégua e com alegria os achaques da doença e outros males da vida, pois estou plenamente convencido de que cada vez que um homem sorri, - e com maior motivo se ri, acrescenta algo a este Fragmento de Vida.
Humildemente vos rogo, Senhor, que honreis este livro, tomando-lho, - (não baixo a vossa proteção, - que ele sozinho se irá proteger, mas) – mas para levá-lo para o campo; e se chega aos meus ouvidos que ele o fez sorrir, ou se penso, que em algum momento, ele vos fez poupar um pouco de sofrimento – me considerarei feliz como um ministro de estado; - talvez mais feliz do que todos aqueles que conheço de palestras ou de conferências.


Laurence Sterne, Vida e Opiniões de Tristan Shandy. Volume I (1750)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Bertolt Brecht: Sobre o pobre B.B.


1.
Eu, Bertolt Brecht, sou dos bosques negros.
A minha mãe levou-me às cidades
estando ainda no seu ventre. E o frio dos bosques
vai acompanhar-me até à morte.

2.
Na cidade de asfalto estou como em casa. Desde
            o princípio
fui provido de todos os viáticos:
De jornais. E tabaco. E aguardente.
Desconfiado e preguiçoso, sinto-me, no final, contente

3.
Sou amigável com a gente. Ponho
um chapéu segundo o seu costume.
Digo: são bestas com um cheiro muito especial.
E digo: não importa, também eu sou.

4.
Pelas manhãs nos sofás vazios
sinto um par de mulheres,
despreocupado contemplo-as e digo-lhes:
aqui têm alguém em quem podem confiar.

5.
Ao anoitecer reúno-me com os homens,
Todos nos tratamos de gentleman.
Eles põe os seus pés sobre as mesas.
E dizem: As coisas vão melhorar. E eu não pergunto: «Quando?»

(…)


Bertolt Brecht, Poesia (1918-1933).


domingo, 6 de abril de 2014

Paulo Leminski

Invernáculo

Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quem sabe maldigo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

Dor elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

Paulo Leminski


António Botto: Balofas carnes de balofas tetas

Balofas carnes de
balofas tetas
caem aos montões
em duas mamas pretas
chocalhos velhos a
bater na pança
e a puta dança.

Flácidas bimbas sem
expressão nem graça
restos mortais de uma
cusada escassa
a quem do cu só lhe
ficou cagança
e a puta dança.

A ver se caça com
disfarce um chato
coça na cona e vai
rompendo o fato
até que o chato
de morder se cansa
e a puta dança.

António Botto

Eugénio de Andrade

MATÉRIA SOLAR

5.
Claro que os desejas, esses corpos
onde o tempo não enterrou ainda
os cornos fundos – não é o desejo
o amigo mais íntimo do sol?
Que os desejas, como se cada um
deles fosse o último, último corpo
que o teu corpo tivesse para amar.

13.
Aqui me tens, conivente com o sol
neste incêndio do corpo até ao fim:
as mãos tão ávidas no seu voo,
a boca que se esquece no teu peito
de envelhecer e sabe ainda recusar.

18.
Eu amei esses lugares
onde o sol
secretamente se deixava acariciar.

Onde passaram lábios,
Onde as mãos correram inocentes,
O silêncio queima.

Amei como quem rompe a pedra,
ou se perde
na vagarosa floração do ar.

25.
Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.


28.
Dormíamos nus
 no interior dos frutos.

É o que temos: sono
e a estiagem subitamente
até ao fim.

Amargos.

Pela humidade descia-se
às fontes – lembro-me.
Dos lábios.

46.
Olha. Já nem sei de meus dedos
roídos de desejo, tocava-te a camisa,
desapertava um botão,
adivinhava-te o peito cor de trigo,
de pombo bravo, dizia eu,
o verão quase no fim,
o vento nos pinheiros, a chuva
pressentia-se nos flancos,
a noite, não tardaria a noite,
eu amava o amor, essa lepra.

Eugénio de Andrade – Matéria Solar (1980).

Grande Angular


I.

 Quis ser realizador de cinema mudo
e captar a
câmara negra, o registo quente e  solar:
do teu sorriso, monólito aceso de obsidiana e
 voo perfeito,  captar  num ângulo Múltiplo um abraço e
tudo que é gente e Sobe
 ser só ângulo de encontro e perda,  tudo o  que queima, derrete  e chove


Sonho de borboleta africana, pirilampo e urso polar;
Concerto de muitos sinos e do Chile inteiro no fundo do mar,
unir os sonhos por novelos de espuma
Recheá-los de tudo o que está por fundir,
Ser a Gente que veio e a Gente que há-de vir

II.

Unir dois sonhos numa grande angular
Induzir a Pluto que se torne gente e só vontade de errar,
Comboio que acende e passa a fronteira
Comboio com todas as pontas acesas, só Desejo de Abraçar...



Nuno Brito.

Luca Argel: Susie and de Merman


Os gregos antigos e os nativos americanos não sabiam, mas deram o mesmo nome à Ursa Maior.    
(Desculpe se te dou notícias velhas)  
A constelação sequer parece com um urso, parece?  
Não, não parece.  
Não deveríamos acreditar tanto nesse tipo de milagre.  
Aos franceses parecia uma caçarola, aos nórdicos a carruagem de Odin, aos egípcios um  
carro de boi.  
(E o que mais você viu na vida foram milagres)  
Qual a diferença?  
Bom, a mim parece um joystick com fio.  
Posso configurá-lo:  
-Prima Dubhe para fazê-la girar sobre o próprio eixo.  
-Prima Merak para fazê-la adormecer.  
-Prima Megrez para fazê-la redistribuir a temperatura.  
-Prima Alioth para fazê-la recordar conversas antigas.  
-Prima Benetnasch para fazê-la trocar de anéis.  
-Prima Phecda para para trazê-la para perto se estiver longe e para longe se estiver perto.  
-Prima Mizar para fazê-la despertar em duas tentativas.      
-Prima Alcor para fazê-la respirar mais devagar.    
(Desculpe se não lhe dou notícia alguma)  
Não há o que se fazer com elas - mas o que mesmo você pretendia fazer com uma notícia?  
Eu já não me chateio mais com esse tipo de coisa.  
Agora peço ao carteiro que deixe sempre a minha correspondência no café ao lado.  
Digo-te uma frase que ouvi: "Não há duas pessoas no mundo que comam da mesma
maneira".  
Digo-te uma coisa que lembro: o ritmo de um número de telefone.  
E que os cavalos marinhos também não se lembram de  seus próprios nomes se eles tiverem
mais de três sílabas.    


Luca Argel, retirado de Enfermaria 6