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segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Agostinho Neto: Criar



Criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo 
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos

Criar criar 
sobre a profanação da floresta
sobre a fortaleza impúdica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar 
criar com os olhos secos

Criar criar 
gargalhadas sobre o escárnio da palmatória
coragem na ponta da bota do roceiro
força no esfrangalhado das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos

Criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre as lágrimas do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos

Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forca simuladas
criar
criar amor com os olhos secos.


Agostinho Neto. Poesia Angolana de Revolta (Antologia). Porto: paisagem Editora, 1975.




quinta-feira, 14 de março de 2013

NA PELE DO TAMBOR






As mãos violentas insidiosamente batem
no tambor africano
e a pele percutida solta-me tam-tams gritantes
de sombras atléticas
à luz vermelha do fogo de após trabalho

Esmago-me da pele batida do tambor africano
vibro em sanguinolentas deturpações de mim mesmo
à vontade das percussões alcoólicas
sobre a pele esticada do meu cérebro

Onde estou eu? quem sou eu?

Vibro no couro pelado do tambor festivo
em europas  sorridentes de farturas e turismo
sobre a fertilização do suor negro
nas áfricas renovadas do brilho firme do sol e da transformação
sedosa e explosiva do universo
dentro do movimento de mim mesmo na vibração ritmada
da pele cerebral do tambor africano
ritmada para o esforço de dançar a dança suave das palmeiras

Vibro
em africas humanas de sons festivos e confusões
(que línguas pronunciais em mim irmãos
que não vos entendo neste ritmo?)

Nunca me pensei tão pervertido
ó impureza criminosa dos séculos coloniais
(que história é essa da lebre e da tartaruga
que contas neste novo ritmo de fogueira
à noite
minha avozinha de pele negra de África?)

Mas não tão longe nem tão pervertido
quanto as vibrações
da pele do meu cérebro
esticada no tambor das minhas mãos
pela África humana

As mãos entrelaçadas sobre mim
em gozo de vida em gargalhadas em alegrias
de lagos libertados por amplo verdes
para os mares
dão-me o tom da minha áfrica
dos povos negros do continente que nasce
fora dos abismos escurecidos da negação
ao lado de ritmos de dedos congestionados
sobre a pele envelhecida do tambor
dentro do qual vivo e vibro e calmo:
AVANTE


Agostinho Neto