(Continuação)
Retomando “A Comunidade” - Desviamo-nos um pouco para
contextualizar, por um lado o carácter oracional e ainda metafísico da poesia
portuguesa de transição do século XIX para o século XX e por outro lado a
poesia completamente plástica do naturalismo de Cesário Verde – Estes dois casos
(em poesia) vão marcar definitivamente como vimos a psicologia e a estética da
geração de Orpheu que representa o modernismo português em praticamente toda a
sua extensão, mas também vai estar presente em “Comunidade”, na forma sob a qual o Erotismo se vai manifestar
nesta narrativa. Por um lado a espiritualidade e interioridade e por outro o
concretismo do exterior – Equilíbrio, impersonalidade, grande apuramento
estilístico e cuidado formal vão ser características que vamos encontrar em “Comunidade”: Exercício de
aperfeiçoamento estilístico.
O conto “Comunidade”
tem cinco personagens: O narrador auto diegético, o pai, a Irene, a mulher e os
três filhos: A Lina, O Zé e o Paulo Eduardo (O Paulinho). A ação passa-se
durante a noite, um lapso curto da noite em que o narrador está desperto e vê a
família que dorme (toda na mesma cama pequena), a ação poderia resumir-se
perfeitamente às considerações que o escritor faz enquanto observa a sua
família a dormir. Neste lapso de tempo em que ele está vigilante e comtempla a
família que ele descreve como “A minha
pequena tribo” – “A minha pequena tribo dorme”. O Narrador relata-nos a
contemplação plena que faz desse momento, momento que agradece e bendiz. O
espaço reduzido, a cama que Luiz Pacheco refere como uma jangada a qual ele, o
pai (responsável pela sobrevivência da tribo) deve guiar. A cama-jangada
alegoriza a união familiar – o destino incerto desta comunidade e o medo
consciente da dissolução da mesma. Desta família comtemplada enquanto dorme, a
pequena tribo que Luiz Pacheco caracteriza também como “Um bicho poderoso, uma
massa animal tentacular e voraz, adormecida agora lançando em redor as suas
pernas e braços” – conjunto humano animalizado neste bicho (que respira por
várias bocas) animalizada num único ser – o que denota esse desejo supremo de
união. União material da família. Luís Pacheco como o observador desta sua
tribo que dorme é um dos elementos desta Comunidade, talvez o Elemento Central
– Porque é aquele que os guia: considerando-se o condutor da Cama Jangada:
alegoria esta que Luiz Pacheco expõe claramente no início do conto, denunciando
até a sua criação fácil
“A cama é
larga, de madeira, alta, gingona, parece uma jangada. Eu comparo-a a uma
jangada, onde vamos nós cinco, cercados de noite, de ventos, de ondas
caprichosas, perigos desconhecidos. É uma imagem literária, esta, da cama
jangada; a literatura, a quem muito sofregamente lê, dá isto: comparações para
tudo, referências imprevistas, casos, tipos, situações paralelas que já houve
ou foram inventadas, uma outra vida ou realidade como a nossa de todos os dias
… Não ajuda a viver, é certo, porque nada ajuda a viver; antes a figurar-se”.
A Tribo, a Comunidade, este bicho poderoso que dorme
inofensivo, observado e registado por Luís Pacheco (figurativamente o condutor
desta cama jangada) – Este conto no seu espaço restringe-se unicamente à cama.
Luiz Pacheco narra os movimentos quotidianos do “dormir em família”
“Estendo o pé
e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morena; viro-me para o
lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e
suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos,
pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de
bebé, com um tufo de penujem preta no cimo da careca, a moleirinha latejante;
respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos, suor uns
com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados
num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo
sangue girando”
De uma forma mimética, precisa, pormenorizada e objetiva
é descrito cada um destes movimentos, alguns deles (os movimentos)
involuntários do corpo que adormece ou dorme já. (Podemos ver uma primeira
forma de sedução na zona de fronteira entre a vigília e o sono -a família, a
pequena tribo está nesta fronteira- o escritor está completamente do lado da
vigília / Esta primeira sedução (a da zona de fonteira), a vigília e o
deixar-se guiar pelo sono concilia-se com a segunda e fundamental: a do contato
dos corpos num espaço reduzido. O narrador descreve-nos esta forma de Prazer –
Nesse sentido “Comunidade” é um epigrama plenamente sensitivo deste contato: um
epigrama visual, olfativo, auditivo, gustativo e sobretudo tátil – Se a família
dorme e a luz é diminuta ou praticamente inexistente, o tato é o sentido pelo
qual o escritor vai sentir a família e ter noção deste prazer, momento de
prazer que se sabe perene. As sinestesias de “Comunidade” dão-nos a imagem da
comunhão plena do contato dos corpos que se querem um só, que se sabem um só e
que por isso mesmo a energia, a respiração, o calor, o sangue circula entre
todos “respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos, suor
uns com os outros, uns pelos outros”, mais do que uma ligação dos corpos há a
consciência plena da união (em que o mesmo sangue gira) “por este poderoso
animal” – O tato absorve as sensações térmicas, o calor dos corpos, o suor, o
roçar da pele “uns nos outros / uns pelos outros”, a respiração, o bafo, a
transpiração do frio, o cruzar contínuo dos braços e das pernas / adequação e
entrada no sono.
E reparemos que a entrada / mergulho no Sono é por
natureza a quebra da sexualidade, o impedimento da realização do ato sexual
pelos amantes (porque dormem com os filhos) – Abre-se um campo novo de prazer
que já não passa pela satisfação sexual. A união do corpo dos amantes cruzados
com os corpos dos filhos criam esta interrupção, limitam o prazer genital (e
reintroduzem o Abraço),sempre a primeira manifestação erótica.
Aqui quero recordar que o Abraço dos Amantes assume muitas vezes a passagem
para o prazer genital / O abraço é interrompido em detrimento da satisfação
completa dos impulsos sexuais / e satisfeitos estes impulsos há o regresso ao
“Abraço”, ao lugar do descanso / contemplação e satisfação plena – É neste
momento que está a tribo, a descrição da “Comunidade”, alegorizando um Abraço
Único e em Expansão - Este contínuo roçar da pele, dos hálitos, da transpiração
(que nos mostram que é impossível – tocando num corpo de se saber qual é)
reforçam a União que nos abre a dimensão do “Erotismo do Sagrado” (de que nos
fala Bataille) e ainda o “Erotismo da Alma” que se manifestam pela continuidade
do ser e a anulação da individualidade, do ser descontínuo que seria cada corpo
descrito individualmente.
Gostaria de citar aqui um verso da poeta argentina Leonor
Silvestri que nos diz “A Pele não é um
limite, a Pele é um começo” – Este verso (ainda que o esteja a isolar do
conjunto da obra desta poeta) sintetiza a força com que as sinestesias de
“Comunidade” nos dão entrada à União, Continuidade e Expansão deste Ser (que o
escritor ama: a sua família – que literalmente não consegue comtemplar fora de
si /A zona de contacto dos corpos, do roçar da pele e do cruzar das pernas e
braços é “não uma margem ou fronteira” (ou seja Limite e Demarcação com outro
corpo, outra pele) mas um Começo / É no Contacto (físico, carnal e na
circulação das energias por todos que Este Ser Contínuo (A COMUNIDADE), Começa
e se Expande, Inicia e Flui.
“A pele não é
um limite, A pele é um Começo” –
O escritor tem consciência deste “Começo” / Reparemos que não há espaço (a cama
é pequena e são cinco) literalmente os corpos estão unidos. “Respiram uns pelos
outros” uma vez que não há o corpo isolado. Na alegoria deste corpo único (Sem
Limites) em que não se pode reconhecer nenhum dos seres que o compõe. Nesta
Comunidade não há literalmente espaços vazios. Na cama-jangada a família
move-se, entra no sono como um ser contínuo – Esta falta de espaço em que
acreditamos não haver nem um palmo do colchão ou dos lençóis por ocupar – onde
não haja a presença humana da “pequena tribo” remete-nos por oposição para o
grande ensaio de Giovanni Papini: “O
Diabo” – Nele Giovanni Papini vai nos dar um panorama amplo das crenças no
Diabo nas diferentes culturas e tempos ao longo da história da Humanidade. Mas
Giovanni Papini vai-nos introduzir claramente a ideia de que o “Diabo” ao longo
dos tempos (manifestado de tantas formas, por tantos nomes em culturas e tempos
tão distintos) vai ser considerado literalmente nas primeiras civilizações que
o referem como “Aquele que divide” – O que pode ser visto também como “aquele
que aparta, aquele que isola, aquele que cria espaços vazios onde não há
ocupação de vida, comunicação ou contacto. À figura do Diabo não era aliada uma
carga moral, mas sim apenas esta noção (da divisão) Em “Comunidade” este espaço
vazio (não existe literalmente) e manifesta-se também por isso globalmente o
“Erotismo da Alma” e o “Erotismo Sagrado” que Georges Bataille nos descreveu.
União Plena, Comunhão Total e Continuidade Absoluta do Ser – Fortalecimento da
União e Expansão contínua da “Comunidade” onde numa corrente circular de
energia e prazer contínuo não cabe a sequência “Corpo-Espaço-Corpo” mas sim o ser contínuo, descrito como o corpo
contínuo (plenamente satisfeito na partilha deste núcleo familiar), que leva
Luiz Pacheco a referir um pouco à frente “o frio não entra connosco”. O corpo
concordante com as suas próprias ideias, o corpo sincero – “O Corpo do Prazer.”
O narrador descreve-nos impessoalmente este mundo
contínuo através de sinestesias e imagens de grande intensidade, de quiasmos
(momentos sensoriais de difícil descrição), que Luíz Pacheco nos oferece com
toda a nitidez e vitalidade para nos descrever o pulsar único da “Comunidade”
animada pela corrente contínua e pela transmissão circular de energia: O Amor
como Potência – O Escritor Luiz Pacheco completamente vigilante (com todos os
sentidos alerta) como a “Pedra de Bolonha” que absorve as radiações e energias
durante o dia, guardando esta energia para irradiá-la à noite, iluminando-se
ela quando já não há luz – Absorção e Criação como uma esponja de luz. É
completamente Nova esta forma de Erotismo que Luiz Pacheco introduz na
Literatura Portuguesa: manifesta-se não diretamente pelo ato sexual ou pela
busca consciente ou inconsciente da união sexual mas sim na sua zona de
contacto com o sono, o ato de dormir, as movimentações inconscientes, os
gestos, as procuras do corpo com busca no ato de dormir. O Prazer Erótico pela
entrega ao descanso em Comunidade. A Cama jangada leva a pequena tribo pela
noite (o exterior, noite onde há espaço, noite que simboliza um futuro
desconhecido para este Núcleo Familiar). O prazer deste contato é também o
prazer da descrição deste contato: O prazer do Texto, que Roland Barthes
descreve desta forma: “O Prazer da
escrita começa quando o meu corpo segue
as suas próprias ideias, porque o meu corpo não tem as mesmas ideias que eu” – O corpo dotado de uma vontade
própria, desejos próprios e acima de tudo ideias próprias, que muitas vezes
estão em desequilíbrio com as ideias da mente. Ao corpo podíamos atribuir como
uma das ideias a satisfação plena das necessidades (a sexualidade / o sono),
dois pólos opostos, a entrega ao desejo e o fim único de satisfação do desejo,
nesse sentido o corpo agradece, Luiz Pacheco
agradece o contacto, o simples contacto, agradece a união com este
núcleo, bendiz este momento e o corpo realiza as suas próprias ideias que o
narrador deixa impressas como cristalizações (momentos descritivos de grande
intensidade) – Os corpos adequam-se, criam novas posições numa linguagem
erotizada do corpo em zona de contacto (entre a vigília e o descanso). O corpo
entrega-se através do tato,a Sensação Maior em “Comunidade” ao Sublime e à
Continuidade onde o medo da morte / quebra da comunidade é como um elemento de
aglutinação.
A simples entrega ao sono é completamente erotizada por
Luiz Pacheco revelando o confronto entre as pulsões vitais mais extremas e a
simples entrega inerte ao descanso, à interrupção da vigília – o corpo segue
agora as suas próprias ideias e a sua sede de contacto (A pele como um começo)
absorvidos os estímulos que chegam a ela pelo tato.
Por alguns traços biográficos semelhantes, Luiz Pacheco é
algumas vezes denominado o Jean Genet Português. A mesma postura assumida de
“Libertino”, a bissexualidade, a presença do alcoolismo e a seleção temática
dos contos ou narrativas breves, género preferido de ambos. Muitos outros
traços comuns se poderiam encontrar entre o autor da “Comunidade” e o autor de “Santa
Maria de Las Flores”. Para além do estilo os dois praticaram muitas vezes
uma literatura sexualizada, que pela descrição sintética do ato sexual (dentro
da homossexualidade) produziu algum choque no tempo em que foram escritas.
Considerados textos que atentavam à moral pública sendo considerados como
literatura pornográfica. É o caso do último conto dos “Exercícios de Estilo”: “O Libertino passeia por Braga, a
Idolátrica, o seu esplendor” ou ainda de “O Caso do Sonâmbulo Chupista”. Os “Exercícios de Estilo” são um campo de experimentação ampla, tanto
temática como estilística, em que um narrador impessoal se deixa espelhar
completamente, como vimos no início. Coexistem também em “Exercícios de Estilo”
diferentes tipos de erotismo, diferentes formas pelas quais ele se mostra e
aparece. Dei maior relevo assumidamente a “Comunidade”
por considerar que traz à literatura, pelas características que vimos
anteriormente, um Erotismo Amplo e em muitas formas completamente Novo em que a
Satisfação e o Prazer se dá sem a necessidade dos impulsos e desequilíbrios do
corpo e interceta plenamente as três dimensões que Bataille considera para o
Erotismo: “a do corpo, a da alma e a do sagrado”. As cadências destes contactos
remetem-nos para uma poética corporal que absorve plenamente a sua matéria da
Realidade Sensível – O Sono Erótico abre-nos um novo campo do erótico. Gostaria
neste ponto de recordar alguns traços biográficos do escritor Luiz Pacheco. A
escassez de recursos económicos deste núcleo familiar (aliado ao comportamento
promíscuo e ao vício patológico do álcool) fizeram com que o medo,que vou
denominar aqui simplesmente de MEDO DA MORTE – que é de uma forma mais
abrangente, o medo face à dissolução deste corpo único (que representaria
portanto uma morte) fosse uma presença contínua (que crescia paralelamente ao
prazer da união). Este medo expressava-se concretamente na possibilidade de a
“Segurança Social” retirar literalmente as crianças da posse dos pais. Uma
possibilidade latente que foi realmente concretizada. Os dois amantes, os dois
pais são forçados a ceder dois filhos para adoção depois de várias pressões,
avisos, promessas e recuos. A família “na cama jangada” vê a sua permanência em
conjunto impossibilitada – Noção da Morte que ultrapassa então o medo. Gera-se
nesta família um clima de incerteza contínuo. É nesse contexto que Luiz Pacheco
escreve o conto “O caso das criancinhas
desaparecidas” um dos textos centrais de “Exercícios de Estilo”.
Este conto fala-nos diretamente de um dos maiores dramas
pessoais de Luiz Pacheco, a perda dos filhos e a dor que ela provoca. Primeiro
pela falta crua dos seus filhos e segundo pelos seus sentimentos de culpa em
relação a esta perda. Sentimento de perda sempre eminente e sentimento de culpa
omnipresente na vida do autor logo refletido e manifestado de várias formas na
obra. Omnipresente no interface entre a realidade do escritor e a sua criação
literária (através deste espelho duplo – Completamente Sincero - que referimos
no início: e se funda e permanece no seu estilo impessoal). Em “O caso das
criancinhas desaparecidas” o autor começa por descrever a cidade das Caldas da
Rainha, uma cidade piscatória do interior do país onde ele viveu a maior parte
do tempo. Esta cidade possui um pequeno lago artificial que se encontra num
jardim. Na narrativa o autor introduz-nos elementos de literatura fantástica ao
referir que há uma passagem subaquática neste lago que faz ligação com o mar (o
oceano Atlântico), e é neste jardim que as crianças brincam (as da sua pequena
tribo) as crianças vão para o lago e
nadam nele, vão a nadar debaixo de água e nunca mais aparecem porque seguem
pelo canal subaquático em direção ao mar. Não aparecendo nunca mais “as meninas transformam-se em sereias e os
rapazes em rochas modeladas e em duros querubins”. Esta passagem oculta e
“Imaginária” leva os seus filhos em
direção ao oceano [Escuro, frio, lugar de perda e desencontro, de futuros
imprevisíveis] “alegoriza a sua impotência perante a perda concreta dos filhos
por falta de meios de subsistência” que para Luiz Pacheco representam o seu sentimento
de culpa máximo, por se considerar ele mesmo incapaz de assumir a
responsabilidade total de manter o núcleo familiar unido.
A erotização do sono comunitário manifesta-nos a Zona de Plena Segurança e Conforto que é a entrada no sono desta
comunidade, mas também a entrada numa zona desconhecida. A perceção do tempo é
materializada através das seguintes imagens “Aposto
no futuro, amigos, no futuro que são eles” referindo-se aos filhos ou ainda referindo-se a uma semente “surgindo lentamente da terra” diz-nos
“pensará [ela] no futuro? Ou o futuro é ela que ali está a crescer?». Tanto
a semente como os filhos são descritos como futuro materializado, orgânico,
tempo, expetativa e sugestão que se pode apalpar, sentir e novamente aqui na sedução destas imagens o
tato é o sentido fundamental do texto “Comunidade”, também nesta animalização
do tempo. A mulher, os filhos, as sementes, os amigos como “Futuro” que no
momento de escrita Luiz Pacheco nos diz (passo a citar) [Estou] “Tocando com as mãos, tão perto! A carne que
me continua”: este corpo representa a sua continuidade.Volto a citar: “O Supremo Bem que me preocupa são eles, os
bambinos, a minha imortalidade, frágil, incerta, tão precisada agora de mim” .
O escritor refere esta sua “Imortalidade” como a sua projeção (na sua pequena
tribo que o continua) transpondo o seu corpo e vida nesta vida contínua que
inaugura a Possibilidade do ser que ele habita agora, habitando a sua família
(Uma casa mais ampla). Refiro-me ao verso da Poeta Emilly Dickinson “Habito a Possibilidade, uma Casa mais Ampla
do que a Prosa”. Esta Casa mais Ampla que é a casa da Possibilidade é
frequentemente vista como a Poesia (um género mais amplo do que a Prosa). Mas
esta Possibilidade pode representar mais do que um género ou um estilo de vida
aliado ao literário. A Casa mais Ampla pode ser vista no Campo da Literatura e
sobretudo na Manifestação Erótica através dela, uma casa em que o Erotismo é
nos apresentado de uma forma nova. Luiz Pacheco abre com “Comunidade” a porta desta Casa mais Ampla – “Eles, os bambinos” – “A
Minha Imortalidade” que volta a ser reforçada nesta passagem “Sinto obscuramente … que sou o elo de uma
cadeia eterna”. Nesta passagem vemos o escritor assumir o seu desejo de
máxima impersonalidade. Ele é um “elo”, um “veículo” ou “elemento de ligação”
que permite a continuidade e expansão deste ser continuo. A cama jangada que
leva pela noite “A Comunidade”, a pequena tribo à qual o escritor pertence.
O medo da dissolução da “Comunidade”, o “rebanho
provisório” que o escritor descreve abre-nos a consciência da perenidade,
introduz concretamente o medo da morte deste ser contínuo, frágil e perecível,
da obstrução física da Comunidade, ou seja da Separação.
“Em Toda a
cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade
que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a
morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme”.
Este medo concreto que o autor descreve ao tomar
consciencia de que foi apenas um elemento aglutinador de uma cadeia eterna, mas
também enquanto humano, um criador. Numa linguagem quase messiânica refere: “Do meu espaldar senhorial contemplo o
rebanho provisório que inventei, patriarca e profeta do meu próprio futuro.”
Na frase com que Bataille inicia a introdução à sua obra
“El Erotismo” ele esboça uma definição inicial que durante todo o livro vai
tratar de analisar. Ele diz-nos “El erotismo es la aprobación de la vida hasta en la muerte”. A morte com o medo concreto que ela implica é um dos elementos
centrais do Erotismo em que a “dor psicológica” está plenamente introduzida no
Prazer (ora interrompendo-o, ora fortalecendo-o – Reforçando a Contemplação do
Momento)
Tese explorada ao máximo por Geoges Bataille em que Eros
seria impossível sem Thanatos (O Deus da Morte). Aprovação da vida que é
celebração (através da escrita), contemplação, agradecimento e bendição como
vimos no início. É este carácter oracional que quero salientar como um reforço
da dimensão erótica no texto “Comunidade”.
“Comunidade” termina de uma forma profética:
“E no riso do meu Paulocas uma ironia contente
me desperta, babada em leite e ternura. Somos puros. Sabemos e cumprimos. Bem
aventurados somos e vós, também,
SE SABEIS
ESTAS COISAS; BEM-AVENTURADOS SEREIS SE AS PRATICARDES.”
Esta “ironia contente” que há no riso de uma criança é
fortalecida com o elemento épico e sagrado dos Bem-aventurados, dos Benditos
que são os que vivem em União.
A narração na terceira pessoa do plural com que o texto
termina manifesta a extensão máxima da impersonalidade do escritor. A bendição
é extendida “a vós” como refere o narrador. Tom Profético e Sagrado que traz a
este conto não só elementos do Sagrado mas aproxima esta narrativa do hino ou
Cântico Sagrado. Celebrada e bendita a Comunhão é o Amor que é cantado.
Gostaria de mostrar este diálogo Amplo de Comunidade na
sua fronteira com um aforismo de Cioran que nos diz “Rebentar de riso no pleno gemido do acto sexual, dois segundos antes do
orgasmo - única maneira de desafiar as prescrições do sangue, as solenidades da
biologia”. Este aforismo de E.M. Cioran que pertence ao livro [Silogismos
de la Amargura] introduz-nos a mensagem de um erotismo do corpo completamente
mesclado com um erotismo da alma. O fim do acto sexual (o momento do orgasmo) –
um ato biológico e primário de prazer aliado a uma das mais altas manifestações
da alma humana, o riso (um outro prazer).
Cioran refere-nos esta impossibilidade do encontro
simultâneo destas duas manifestações no
corpo humano – Que acontecendo desafiariam todas as prescrições biológicas.
De uma forma alegórica Cioran refere o Erotismo como o
Prazer do corpo e o Prazer da Alma, aquilo a que Octávio Paz vai chamar a Chama
Dupla. O Amor e o Desejo: O Erotismo Pleno. Celebrado em “Comunidade”. Atentemos
nestas duas zonas de fronteira: O sono e a vigília; e a de “O fim de um corpo e
o início de outro” /é a margem que é cantada, o contacto pleno dos corpos na
completa falta de espaço. Nesse Sentido “Comunidade” pode ser vista como um
“Hino” ou “Cântico Sagrado” – Ritual Narrativo e Oração de Celebração da VIDA
em que o amor é Cantado através do seu lado mais Sincero.
É então esta “Chama Dupla” que é celebrada.
NOVAS CARTAS
PORTUGUESAS
Foi em Lisboa, em Maio de 1971 que Maria Isabel Barreno,
Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa decidiram escrever um livro a seis
mãos, sob o título: “ Novas Cartas Portuguesas”. Em 1972 a obra estava acabada e nesse mesmo
ano foi publicada.
Na decisão das três autoras de escreverem as “Novas
Cartas Portuguesas” estava o acordo de que deveriam partir de um texto inicial
concreto “As Cartas Portuguesas” texto
de Mariana Alcoforado, uma jovem monja portuguesa do século XVII enclausurada
num mosteiro da cidade de Beja. “As Cartas Portuguesas” como mais tarde ficaram
conhecidas eram um conjunto de cinco cartas de amor que Maria Alcoforado
escreveu a um oficial militar francês, que viveu por algum tempo em Beja,
conhecido por Marquês de Chamilly. Este oficial militar pertencente à Nobreza
Francesa encontrava-se em Portugal integrado num corpo expedicionário do
exército francês, enviado para auxiliar as tropas portuguesas no período da
guerra da Regeneração que opunha Portugal e Espanha. A divulgação do conjunto
das cinco cartas como texto único foi feita com a publicação em França das Lettres Portugaises, publicadas
anonimamente por Claude Barbin em 1669. Estas “Cartas Portuguesas” apresentadas
também como uma tradução anónima de cinco cartas de amor endereçadas pela jovem
monja Mariana Alcoforado ao general francês.
No século XVII as Cartas Portuguesas tiveram uma grande
projeção por toda a Europa. A autoria das cartas era então polémica. Sujeitas a
constantes traduções e reedições em várias línguas, as cartas de Mariana
Alcoforado seriam, mais de trezentos anos depois, o hipotexto e ponto de
partida para as “Novas Cartas Portuguesas”, hipertexto da obra de Maria
Alcoforado.
Para entendermos com maior profundidade o impacto das
“Novas Cartas Portuguesas” detenhamo-nos um pouco neste texto matricial que são
as Cartas de Mariana Alcoforado. “As
Cartas Portuguesas”, como um conjunto unitário foram classificadas como um
romance epistolar. Mais relevante do que saber a verdade sobre a sua autoria
foi o facto da figura de Mariana Alcoforado passar de uma sombra textual
anónima para uma identidade pessoal, familiar e nacional que a configurou como
símbolo nacionalmente representativo da feminilidade, e aos olhos dos
portugueses, da identidade nacional em geral. Tal como ocorre em muitas
publicações de autoria parcialmente ou totalmente desconhecida, as “Cartas portuguesas” adquiriram um
simbolismo unitário. Neste caso concreto à volta do tema do amor e paixão
feminina, da proibição da união amorosa às monjas em clausura católica, da
entrega e arrebatamento passional de uma jovem obrigada a praticar desde a
adolescência a clausura. Nesse sentido Maria Alcoforado seria o estéreótipo da
mulher abandonada, submissa e da completa entrega e arrebatamento passional.
Simbolismo unitário em que a busca pela certeza da autenticidade autoral perde
completamente a sua importância.
A prova disso é o incrível número de edições traduzidas
em outras línguas em que as “Cartas Portuguesas” aparecem sem a identificação
da autora “na portada ou na contraportada”, Aparecendo muitas vezes sem
qualquer introdução histórica ou prefácio que contextualize estas dúvidas em
relação à autenticidade do autor, o título surge muitas vezes simplesmente como
“Cartas de amor de una monja portuguesa”.
A divulgação destas cartas teve um grande impacto
inicial. Corriam as traduções dentro da Nobreza francesa. A Projeção
internacional das cartas portuguesas coincidia com as discussões à volta da sua
autenticidade. O filósofo Rousseau defendia que, pelo elevado arrebatamento
passional, era impossível que estas cartas tivessem sido escritas por uma
mulher.
O mistério em relação à autoria iriam marcar muito a
postura das três autoras das “Novas Cartas Portuguesas”, uma vez que procuraram
recriar também a mesma Força do Anonimato presente no texto matricial de
Mariana Alcorofado. Ficava assim recriado o mesmo peso simbólico duma forma
dupla, o tema da condição feminina e a dúvida em relação à autoria (expressa no
último caso, de uma forma diferente).
Tendo sido um livro escrito a seis mãos, nunca nenhuma
das autoras confessou a autoria de um fragmento ou excerto da obra. União no
processo de escrita literária e União através do anonimato. Desta forma as três
autoras procuraram reproduzir e expandir a força do anonimato desestabilizando
as noções fixas de autoria e de autoridade. Questionavam assim a rigidez e uma
certa perversão que existe no domínio do Direito de propriedade intelectual. Em
“Novas Cartas Portuguesas” é elaborado um exercício pleno de despersonalização
e alteridade em que é desmistificado e desvalorizado o domínio do autor
enquanto entidade concreta. A força deste anonimato concorre também para
reforçar o caráter subversivo do livro.
Subversivo em vários domínios. A elevada carga erótica
deste livro levou a que logo após a sua edição em Abril de 1972 o livro tivesse
sido apreendido pela polícia política.
As “Novas Cartas Portuguesas” foram publicadas pela
editora “Estúdios Cor” dirigida então por Natália Correia, uma das prinicipais
representantes, enquanto escritora e investigadora da literatura erótica, do
movimento feminista em Portugal.
Recordemos que,
tal como referi no início, Portugal era então governado por um sistema
repressivo e autoritário do regime fascista do Estado Novo. O impacto deste
livro vai ser por isso mesmo potenciado a uma escala sem precedentes. Em Abril
de 1972 Natália Correia, enquanto editora das “Novas Cartas Portuguesas” foi
pressionada pela censura a realizar vários cortes na publicação mas decidiu , contra
todas as pressões da pré-censura, publicar o livro na íntegra. Três dias depois do lançamento todos os
exemplares da primeira edição foram recolhidos e destruídos pela censura. Foi
levantado um processo judicial às três autoras por terem escrito, mediante
prévia combinação, um livro que nas próprias palavras do processo jurídico era
de “Conteúdo insanavelmente pornográfico e atentava contra a moral pública”.
Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel
Barreno foram interrogadas isoladamente.
Nos interrogatórios elaborados pela Polícia Política os censores procuraram
descobrir qual das autoras tinha escrito as partes consideradas de maior
atentado à moral. As três autoras recusaram-se a dizer - Recusa que se mantem
até hoje e reforça o carácter unitário desta escrita a três mãos.
A preserverança no carácter unitário da autoria das
“Novas Cartas Portuguesas” foi um elemento favorável às três. Unidas (as três)
conseguiram estabelecer uma defesa contra o processo de censura, que um autor
isolado não conseguiria.
Dispomos de muitos testemunhos de interrogatórios feitos
a escritores ao longo de todo o regime fascista em Portugal. Sabemos da
violência física e psicológica que era utilizada e de todos os métodos
conjuntos que pressionavam num alto grau os autores a confessar os crimes pelos
quais eram acusados.
Não dispomos de dados relativos aos inquéritos a que as
três autoras das “Novas Cartas Portuguesas” foram expostas isoladamente, aos
tipos de pressão e aos mecanismos utlizados pela polícia política. O facto é
que apesar da tentativa da polícia política por as separar, o conjunto unitário
ganhou força.
Em 25 de Outubro de 1973 realizou-se o julgamento das
três autoras. O processo seguiu e , após sucessivos adiamentos,foi interrompido
apenas com a revolução do 25 de Abril de 1974 que derrubou um dos regimes
fascistas de maior duração a nível mundial. A revolução de 1974 instaurou
definitivamente a democracia em Portugal. No mesmo dia da revolução as
instalações da PIDE (Polícia política do regime) e da Direção Geral de Censura
foram ocupadas pelos militares, e estas duas instituições abulidas
definitivamente de Portugal. O processo jurídico contra as autoras, que ficou
conhecido como “O caso das três Marias” ficou assim interrompido e “As Novas
Cartas Portuguesas” passaram a ser livremente divulgadas. A livre circulação
desta obra permitiu a sua ampla projeção. Logo após a revolução, a obra foi
imediatamente traduzida em vários países obtendo uma grande projeção
internacional com grande repercursão junto de figuras ligadas ao feminismo
internacional e ao mundo literário em geral.
Logo após a instauração do processo, levado a cabo pelo
estado português e ainda antes da Revolução de Abril gerou-se uma grande onda
de solidariedade por parte da comunidade literária e intelectual portuguesa e
estrangeira. O processo foi seguido por uma autêntica febre em que foram
realizados protestos, marchas e manifestações que rapidamente adquiriram uma
dimensão inimaginável, desde logo com a cobertura do julgamento feita pelos
meios de comunicação internacional. Algumas manifestações foram cobertas pela
cadeia televisiva CNN e o caso foi seguido exaustivamente pelos jornais Le
Monde, Times, New York Times, Nouvel Observateur, L’Express entre muitos outros
adquirindo uma projeção global. Foram levadas a cabo várias manifestações
feministas em várias embaixadas de Portugal no estrangeiro.
Autoras como Simone de Beauvoir, Marguerite Duras,
Christine Rochefort e Doris Lessing defenderam públicamente a obra em artigos e
entrevistas, tornando pública a sua adesão ao caso. Foram várias as ações,
protestos e moblizações internacionais
de apoio às autoras das “Novas Cartas Portuguesas” que fizeram com que o
caso fosse votado em Junho de 1973 numa Conferência da National Organization
for Woman (NOW) realizada em Boston como a Primeira Causa Feminista
Internacional. “As Novas Cartas Portuguesas” passaram a ser desde aí e
sobretudo com a contribuição decisiva da Revolução de Abril, mais do que um
livro, uma causa: Uma Causa Internacional, considerada ainda antes da revolução
militar a Principal Causa Feminista Internacional. Fenómeno e Causa (motor de
mobilização não só em torno do movimento feminista, mas acima de tudo do
movimento de resistência política contra o regime opressor). No campo da
resistência e luta política através da criação literária, nas “Novas Cartas
Portuguesas” estão tratados alguns dos temas políticos dos tempos finais da
ditadura, um deles é o da guerra colonial em África que absorvia por completo a
sociedade portuguesa, provocando a partida forçada dos jovens para a frente de
guerra em Ángola, Moçambique e Guiné Bissau. Uma guerra que se arrastava há
mais de 13 anos e que pelo elevado número de feridos, mortos e desaparecidos
provocou uma autêntica fragmentação social e um desequilíbrio constante que o
regime fascista prolongava. O tema das famílias separadas, desajustadas e com
um crescimento anómalo é tratado a par de temas como a emigração massiça de
portugueses para França, Suiça e Alemanha, que levava famílias inteiras para
fora do país, ou para fugir à guerra, ou para fugir a uma situação económica de
grande estagnação e a um regime extremamente opressivo que isolava cada vez
mais o país internacionalmente.
Revelamos aqui a amplitude temática das “Novas Cartas”
onde a preocupaçao da literatura como um Compromisso Social é levada em todas
as suas dimensões. Compromisso Social e de mobilização parcialmente anónima que
se manifesta na principal causa feminista dos inícios dos anos 70. Mas outros
temas são focados em jeito de crítica à sociade portuguesa de então: como o
enquadramento institucional da família católica a par do estatuto social e
legal das mulheres.
A nível formal “As
novas Cartas Portuguesas” são constituídas por 120 textos onde se
entrecruzam géneros como cartas, poemas, textos narrativos, ensaios, relatórios
e citações isoladas: textos escritos coletivamente por três autoras que,
contudo, não os assinam individualmente, problematizando e esbatendo as noções
de autoria e de género literário.
Ainda nos anos 90, muitos dos artigos escritos sobre“As
Novas Cartas” consideravam-no um “Documento Histórico” o que salienta ainda
mais a procura da crítica destas três autoras pela reprodução mimética de
situações opressivas a par da exposição e representação de relações sexuais
descritas com grande intensidade.
Ao contrário do texto matriz de Soror Mariana Alcoforado,
as “Novas Cartas Portuguesas” como um hipertexto deste, não vão ser apenas
“cartas” nem meramente um romance epistolar, embora este género seja uma
constante no livro. Não poderá também ser considerado meramente um “romance”
embora o trama principal se focalize na
vida de Soror Mariana Alcoforado (exata ou imaginária através de sucessivas
recriações em que Mariana Alcoforado aparece em tempos e espaços distintos,
revitalizada algumas vezes como algúem do século XX). Não é também um conjunto
de poemas, embora em poesia se converta toda a realidade retratada. Os géneros
cruzados introduzem várias assimetrias e descontinuidades no discurso que muitas
vezes nos aparece fragmentado. “As Novas Cartas Portuguesas” assumem assim a
entrada num vasto campo de experimentação de géneros e de linguagem que resiste
à catalogação.
Em relação aos temas “As Novas Cartas Portuguesas”
ultrapassam em amplitude o tema do arrebatamento passional que percorre todo o
texto matriz do século XVII . As cinco cartas de Soror Mariana Alcoforado são
potencializadas como ponto de partida a aceções mais globais em que a Força do
Anonimato (de uma escrita em conjunto) reforça o sentimento de luta coletiva,
resistência e reevindicação da igualdade pela igualdade sem o tradicional
recurso ao “Suposto Poder que um nome pode ter”. A luta anónima pressupõe uma
união silenciosa, uma união que se protege no anonimato e fortalece com esse
mesmo anonimato.
Em Literatura deixa de ter sentido a Propriedade
intelectual quando ela quer apenas transmitir uma contribuição universal (por
pequena que seja). Nesta obra a contribuição é a entrega à Causa social do
Feminismo e a luta humana contra o que socialmente há de inumano, levado a um
ponto máximo pelos abusos do poder político.
Nesta aceção, vimos a denúncia da guerra colonial, do
sistema judicial, da emigração, da violência e da situação da mulher. Neste
último ponto “As Novas Cartas Portuguesas”
colocam em questão todo o corpo significativo que socialmente, de uma forma
genérica, se atribui aos diferentes sexos e, tal como refere Ana Luisa Amaral,
fazem explicar as dicotomias em que assentam as identidades e papéis sexuais.
Desmontam processos de Construção Social à volta dos papéis sexuais. Dou como
exemplo duas passagens da obra:
“Mariana, no
convento quer ir, chega o cavaleiro e Maria pede-lhe boleia - leva-me até além,
até dentro de mim própria. Mais adiante diz o cavaleiro: deixo-te aqui”
Ou no texto “Segunda
Carta II” em que é narrado sob a forma do cruzamento entre o mito e a
fábula a história da “Mãe dos Animais”. Nesta carta recorrem a processos
típicos da narrativa de tradição oral, entre eles a omissão dos artigos. Passo
a citar:
“Mãe dos
animais foi a mulher abandonada pela sua tribo, que se dispunha a fazer uma
migração difícil, na altura em que ela paria; a mulher ficou para sempre
errando nos bosques, ensanguentada e medonha, Mãe dos Animais, protegendo-os
dos caçadores; e o caçador que a veja, com o susto, tem uma ereçãoo, e a Mãe
dos Animais viola então o caçador, concedendo-lhe a seguir um sucesso infalível
na caça”
No sentido do
colocar em jogo os papéis sexuais e as questões de género “As Novas Cartas
Portuguesas” podem ser vistas à luz das mais recentes teorias feministas como a
teoria Queer. E aqui a sua atualidade
completa, a marca de originalidade que a torna imtemporal.
No contato com outros textos, a transtextualidade desta
obra vai ser uma das suas características: não só na comunicação direta com o
texto matricial de Mariana Alcoforado mas pelo diálogo aberto com a literatura
portuguesa e estrangeira sobretudo do século XX, feita através de muitas
referências mais ou menos explícitas.
A Clausura de Mariana Alcoforado no Mosteiro em Beja é
transposta nas “Novas Cartas Portuguesas” para a opressão do Estado fascista e
a opressão ativa ou passiva face à mulher. Haverá uma alusão através das
sensações a imagens de uma carga erótica de grande vitalidade. Em que a sexualidade
é algumas vezes representada com violência
De uma forma direta e concreta, o arrebatamento passional
e a elevada carga erótica estão em Novas Cartas Portuguesas ao serviço de uma
Causa. A causa social que é o feminismo como luta humana.
Para concluír gostaria de dizer que as duas obras
apresentadas neste estudo: “Os Exercícios de Estilo” onde vimos com mais
particular incidência o texto “Comunidade” e as “Novas Cartas Portuguesas”
foram publicadas ainda no período de vigência da ditadura que serviu de pano de
fundo (ainda que um pouco negro) a estes dois textos. Apenas um ano separou
estas duas publicações.
Escolhi estas duas obras porque nelas o erotismo se
manifesta de formas muito diferentes e servem interesses diferentes. No
primeiro caso para mostrar o sentimento de união e comunhão com o núcleo
familiar, completo, abarcador. No segundo para servir uma causa, ativa, o
erotismo (plenamente do corpo) onde a afetividade não entra, serve a causa
feminista, a contestação política (a luta contra os abusos de um sistema
Patriarcal que é opressor).
Nos dois casos a dimensão literária entrecruza-se com o
erotismo mais do que através do tema e forma pelo qual se manifesta, pela
constante presença ao serviço de múltiplas causas. Sendo também ele, o
Erotismo, uma causa, um móvil e uma constante.
Quero aqui reforçar um elemento aglutinador das duas
obras: a sua completa e permanente alteridade. O eclipsar do sujeito que
escreve está presente em “Comunidade” através da despersonalização e procura
contínua da união e nas “Novas Cartas Portuguesas” através da força do
anonimato. Manifestações de ocultamento do “eu” que amplificam um campo
sugestivo e neste ocultamento impessoal uma nova sedução e desvio: Um Erotismo
Amplo.
BIBLIOGRAFIA:
BARRENO, Maria Isabel; HORTA, Maria Teresa; COSTA, Maria Velho da (2010), Novas Cartas Portuguesas: Edição anotada, (Organização de Ana Luísa
Amaral), Lisboa, Edições Dom
Quixote.
BARTHES, Roland (1997), O
prazer do texto, Lisboa, Edições 70.
BATAILLE, Georges (1985), L’érotisme, Paris, Éditions de Minuit.
JUNQUEIRO, Guerra (1997), Oração
ao Pão - Oração à Luz, Porto, Lello Editores.
PACHECO, Luiz (2007), Comunidade,
Lisboa, Almedina.
PAPINI, Giovanni (1978), O
Diabo, Lisboa, Livros do Brasil.
PESSOA, Fernando (1999), Crítica,
Ensaios, Artigos e Entrevistas, Lisboa, Assírio & Alvim.
TEIXEIRA, Marcelo (2012), História(s)
do Estado Novo: As palavras, os fatos, Lisboa, Parsifal.
VERDE, Cesário (1986), O
Livro de Cesário Verde, Lisboa, Círculo de Leitores.
Nuno Brito, 2013.