Conferência,
Mesa Redonda: Literatura y Viaje 15 de Outubro 2012
CELE,
UNAM
As Viagens na Minha
Terra foram escritas em 1846. Desde logo, a
obra foi um sucesso de vendas com sucessivas reedições que rapidamente se
esgotaram. O acolhimento do público foi marcante, podemos dizer que para isso contribuiu
o carácter amplo e global deste livro. Um sentido Abarcador. Vontade de dizer
tudo que é a ambição Romântica semelhante à de Goethe que foi uma influência
decisiva para Garrett que estudou alemão para o ler no original – Ambição
revelada e assumida, quando nos diz no segundo capítulo: “Nesta minha viagem Tejo arriba está simbolizada a marcha do nosso
progresso humano”…“A crónica do passado, a história do presente, o programa do
futuro” - Ironia que se alia ao humor
também quando se refere ao livro como “A minha Odisseia” – humor amplo se
pensarmos que a distância de Lisboa a Santarém não será mais que 80
quilómetros.
Se
Goethe não pode ser considerado romântico ou pelo menos unicamente romântico,
Almeida Garrett também não. Sendo um profundo conhecedor do melhor que se
produziu dentro deste movimento, foi principalmente um crítico aos abusos do
mesmo. Denunciou falsidades e excessos de sentimentalismos e o que há de falso
dentro do literário (Nas viagens na minha Terra crítica abertamente Victor Hugo
e Charles Dickens), apesar de mais à frente elogiar Victor Hugo muito
abertamente. Corrige e expõe as
correções do seu pensamento ao leitor num diálogo intenso que mantém sobre a
forma de evocações diretas, quer através de perguntas retóricas ou outros
recursos de interpolação. Mais do que respeitado, o leitor das Viagens sente-se presente, embora que
dentro do ângulo do autor e aqui uma possível viagem: a despersonalização e a
impersonalidade. Isto pode parecer paradoxal como quase tudo nesta obra do
autor que é considerado o iniciador do Romantismo em Portugal apesar de
referir: “Romântico, livrai-me de o ser”.
As
Viagens na minha Terra narram uma viagem real que o autor fez de Lisboa a
Santarém. Nesta viagem, que hoje em dia seria relativamente curta, o autor usou
diferentes tipos de transporte: barco, em trajeto pelo rio; mula, cavalo ou
liteira no transporte por terra. O autor descreve a rota, os pequenos acidentes
de percurso, as pessoas com que se cruzam no caminho, as estalagens, os cafés
de província, vai estabelecendo considerações estéticas sobre os locais – Podia
ser neste sentido um livro de viagens (Um roteiro turístico à semelhança dos
que Stendhal fez para algumas cidades italianas e que se tornaram autênticos
êxitos de vendas). Aqui o escritor visto: não como produtor de ficção, mas como
aquele que pela sua forte capacidade de narrar e descrever, pode apelar mais
facilmente o leitor a conhecer melhor uma determinada geografia – O escritor
guia turístico. Aqui auxiliado por um estilo jornalístico e de crónica (É de
recordar que Almeida Garrett colaborou com diversos periódicos e que exerceu
jornalismo durante muito tempo de forma intensa)
A
viagem real é o motor deste romance, uma viagem curta mas extremamente
simbólica à cidade de Santarém. Cidade vital na fundação da nacionalidade
portuguesa e que Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal escolhe para capital.
Viagens ao epicentro de um passado (para Almeida Garrett glorioso) que se
prolonga pelo Renascimento e que agora é o símbolo máximo da sua deceção com o
seu tempo. Um século XIX de grandes expectativas na Revolução liberal, de
crença no individuo e de um progresso que apesar de se cumprir, agudiza
desigualdades em vez de as anular.– as ruínas de Santarém, como a manifestação
máxima da deceção do escritor com o tempo atual e da sua nostalgia para com o
passado: o seu e o da pátria. Aqui está presente o carácter nacionalista das
“Viagens”. Mas a “Nação” sempre vista como se o fosse de fora – através das
analogias com outros contextos estrangeiros – aqui a forte influência do
viajante exilado, o escritor Almeida Garrett forçado ao exílio político antes
das guerras liberais – Que compara por exemplo o Café do Cartaxo (um pequeno
café de Província de uma cidade quase rural aos cafés dos boulevards de Paris).
Na
viagem a Santarém, que constituí o primeiro nível narrativo deste romance, o
narrador (viajante que em tudo se confunde com Almeida Garrett) introduz-nos um
segundo nível narrativo: o trama, a novela propiamente dita: “A História da menina dos Rouxinóis” que
é a história de Carlos e Joaninha, as duas personagens principais. O narrador, escritor
e viajante ao passar pelo Vale de Santarém vê uma casa com uma janela. Refere
que “se enamora com a janela juntamente com o leitor” – A partir desta janela o
narrador, encantado deixa-se guiar pela imaginação, que expõe num diálogo com o
leitor – Primeiro imagina uma mulher atrás da sua janela, usando o condicional
para reforçar que o seu pensamento é fluído mas imaginário e nesta exposição da
construção da novela diante do leitor e num aparente e ficcional diálogo com
ele, introduzir-nos no segundo nível narrativo: guiar-nos até ao trama,
primeiro a partir da criação de uma personagem feminina: “se fosse uma mulher o quadro seria perfeito” – esta que está atrás
da janela, a descrição física vai sendo corrigida – a personagem Joaninha surge
da visão apaixonada da janela – um exercício que apela para uma imaginação
infantil e inocente. Sobretudo um exercício apaixonado. A criação do trama
revelado muito ao jeito de “Névoa” de
Miguel de Unamuno – Também nas “Viagens
na Minha Terra” o narrador que criou o trama depara-se com as personagens
que criou num momento de cruzamento entre os dois níveis narrativos – Na
metalepse, as personagens tornadas duplamente reais num jogo de espelhos que
muito depois se tornou típico. Viagens dentro de níveis narrativos e do
cruzamento entre eles e aqui o narrador como aquele que guia o leitor, depois
de o fazer perder, tal como Unamuno (o autor não só como aquele que conta a
história, mas como aquele que experimenta as possibilidades de criação de uma
novela, como num laboratório ficcional ao jeito do que faria mais tarde Jorge
Luís Borges ou Italo Calvino) e aqui o trama propiamente dito perde aparentemente
importância por estar unicamente inserido em algo maior. O trama, a novela
propiamente dita, é contado em apenas 12 capítulos, quando “As Viagens na Minha Terra” têm um total de 49 capítulos. Os
últimos cinco capítulos são a correspondência de Carlos a Joaninha – que
inserem aqui um terceiro nível narrativo “ A história de Carlos e Joaninha” contada
dentro do nível narrativo da viagem propiamente dita que o narrador faz de
Lisboa a Santarém e onde aproveita para estabelecer considerações de todo o
tipo: em jeito de divagações várias sobre muitos temas: Política, Sociedade,
História (a de Portugal e a do Mundo) Arte, Filosofia e sobretudo Literatura –
através do diálogo com vários autores, não só os românticos, mas de todos os
períodos, como Dante John Milton, Cervantes, Shakespeare e sobretudo Camões –
Mais que dialogo fluído uma corrente de pensamento objetiva, num correr rápido
da literatura universal – uma viagem pela intertextualidade.
Viagem
ampla, feita de muitas viagens por todos os temas –fluidez absoluta de tema
para tema ligando as considerações ao
segundo nível narrativo: o trama. Conseguindo-o fazer nunca de forma
brusca, mas através de ligações subtis que unem os dois níveis. O trama, “A
história de Carlos e Joaninha” intercalada entre a viagem do narrador e as
considerações dele sobre os diversos temas. O narrador (que em tudo se confunde
com o próprio Almeida Garrett) um homem com uma vida de grande amplitude:
escritor, resistente político, soldado, jornalista, boémio e mais tarde depois
do triunfo da revolução liberal: político quer em Portugal quer no estrangeiro
como embaixador. Vivências amplas que Almeida Garrett expões através das
considerações e dos momentos de divagação: as diversas viagens numa obra que
ele refere querer: “Palpitante de atualidade” quando diz “… quero que esta minha obra seja palpitante de
atualidade” A vontade então de resumir todas as transformações do seu
tempo, a Marcha do Progresso Humano – Todo um século em mudanças rápidas, um
século que ele personifica e em qual se vê espelhado: um século, o XIX de
grandes convulsões e mudanças, de rupturas, de crenças e deceções, retratadas e
amplificadas de forma fluída e contraditória nestas viagens: ao mesmo tempo uma
e múltipla – viagens globais quando a deslocação geográfica é quase irrisória,
viagem pelo interioridade do escritor, divagativo, contraditória como a
natureza humana e o século personificado: a natureza humana impossível de
isolar num lapso de tempo e a consciência dessa impossibilidade. Também da
impossibilidade de descrever os sentimentos humanos: de resumir a consciência
humana sem cair na contradição – aceitar apenas ela como possível e em toda a
fluidez duma viagem múltipla Almeida Garrett espelha-se, corrige-se, mostra-se
como escritor e humano. A quantidade de informação e de estímulos pode parecer
uma avalanche e então acontece ao leitor, não o imaginário, com que Almeida
Garrett dialoga, mas o leitor real, que têm o livro à frente – a desistência
que fala Roland Barthes – o momento em que o leitor levanta a cabeça, abandona
a leitura, o levantar da cabeça, um necessitar de respirar, vir à superfície e
necessitar voltar a mergulhar na avalanche. O levantar a cabeça do leitor – a
necessidade de respirar com a mente cada vez mais ativa (passou-me muitas vezes
a mim com este livro que Jacinto do Prado Coelho considera o início do
modernismo português – Habitualmente vemos esta datação para o caso português
40 anos mais tarde com o surgimento da geração de Orfeu – E bem que podemos ver
já “Nas Viagens na Minha Terra” um prenúncio da modernidade. Paradoxal, Amplo,
Global. Uma desordem aparente – Assumida, mas uma desordem controlada que no
final se pode assumir, tal como o autor refere no capítulo X: “Uma história simples e singela, sinceramente
contada e sem pretensão”.
Uma
verdadeira viagem múltipla – Ampla e em todas as direções. Sincera, e daí a
força do título, que pela sua simplicidade nos confunde, passando desapercebido
o plural e a abrangência honesta deste livro: “Viagens na minha Terra”.
Nuno Brito, 2012.