quarta-feira, 30 de abril de 2014


Fernando Pessoa: Crónica Decorativa I

CRÓNICA DECORATIVA

        I

A circunstância humana de eu ter amigos fez com que ontem me acontecesse vir a conhecer o Dr. Boro, professor da Universidade de Tóquio. Surpreendeu-me a realidade quase evidente da sua presença. Nunca supus que um professor da Universidade de Tóquio fosse uma criatura, ou sequer cousa, real.
O Dr. Boro — sinto que me custa doutorá-lo — pareceu-me escandalosamente humano e parecido com gente. Vibrou um golpe, que me esforço por desviar de decisivo, nas minhas ideias sobre o que é o Japão. Trajava à europeia, e, como qualquer mero professor existente da Universidade de Lisboa, tinha o casaco por escovar. Ainda assim, por delicadeza, dei-me por ciente, durante duas horas, da sua presença próxima.
Preciso explicar que as minhas ideias do Japão, da sua flora e da fauna, dos seus habitantes humanos e das várias modalidades de vida que lhes são próprias, derivam de um estudo demorado de vários bules e chávenas. Eu por isso sempre julguei que um japonês ou uma japonesa tivesse apenas duas dimensões- e essa delicadeza para com o espaço deu-me uma afeição doentia por aquele país económico de realidade. O professor Boro é sólido, tem sombra — várias vezes fiz com que o meu olhar o verificasse — e além de falar e falar inglês, coloca ideias e soluções compreensíveis dentro das suas palavras. A circunstância de que as suas ideias não comportam nem novidade nem relevo apenas o aproxima dos professores europeus, pavorosamente europeus, que conheço.
Além disto o professor Boro tem movimento, desloca-se, não sei como, de um lado para o outro, o que, feito perante quem sempre teve o Japão por uma nação de quadro, parada e apenas real sobre transparência de louça, é requintadamente ordinário e desiludidor.
Falávamos de política internacional, da guerra europeia, e fizemos várias incursões pelos vários fenómenos literários característicos da nossa época. A ignorância que o professor Boro tinha de futurismo foi a única benzina para a nódoa da sua realidade moderna. Mas há algum professor de alguma Universidade da Europa que siga de perto os movimentos da arte contemporânea?
Dados os factos que venho explicando, compreende-se que eu fosse avaro de o interrogar sobre o Japão. Para quê? Ele era capaz de atirar para dentro da minha ignorância uma quantidade de cousas falsas. Quem sabe se ele se atreveria a insinuar pela conversa fora, como cousa normalmente acreditável, que no Japão há problemas económicos, dificuldades de vida para várias pessoas, cidades com lojas reais, campos com colheitas como as nossas, exércitos realmente parecidos com os da Europa e com execráveis aperfeiçoamentos científicos para guerras em verdade contemporâneas? Daqui ele não hesitaria talvez em me afirmar — com que cinismo nem eu meço — que no Japão os homens têm relações sexuais com as mulheres, que nascem crianças, que a gente de lá, em vez de estar sempre vestida como as figuras da louça japonesa, despe-se e veste-se como se fosse europeia. Por isso não tratámos do Japão. Perguntei ao professor se ele tinha tido uma boa viagem, e ele caiu em dizer-me que não — como se um estudioso como eu da porcelana nipónica pudesse admitir que há más viagens para os japoneses, que — delicioso povo! — nem sequer se dá ao trabalho de existir. As chávenas partem-se, não comportam tormentas. A frase «uma tempestade num copo de água» ou «numa chávena», como dizem outros, é puramente europeia.
Uma frase houve (casual, quero crer, no professor Boro) que me magoou mais do que outra.
Falávamos — eu, é claro, com o desprendimento com que se tratam estes assuntos feéricos — da influência dos mecanismos sobre a psicologia do operário, quando se sabe — claro está — que o operário não tem psicologia. E o professor referiu-se aos progressos industriais do Japão e acrescentou umas palavras, que me esforcei com metade de êxito para não ouvir, sobre (creio) movimentos operários no Japão e um fuzilamento (suponho) de não sei que chefe socialista. Eu há tempos — numa coluna sem dúvida humorística de um diário — vira em um telegrama de Tóquio constando qualquer cousa nesse tom; mas, além de não crer que de Tóquio se mandasse telegramas — visto Tóquio não ter mais do que duas dimensões —, ninguém que como eu tenha estudado a psicologia japonesa através das chávenas e dos pires admite progressos de qualquer espécie no Japão, indústrias japonesas, movimentos socialistas e chefes socialistas, ainda por cima fuzilados, como quaisquer europeus que vivem. Quem como eu conhece bem o Japão — o verdadeiro Japão, de porcelana e erros de desenho — compreende bem a incompatibilidade entre o progresso, indústria e socialismo, e a absoluta não existência daquele país. Socialistas japoneses! uma contradição flagrante, uma frase sem sentido, como «círculo quadrado»! Se nem o inexistente estivesse livre do socialismo! Aquelas figuras deliciosas, eternamente sentadas ao pé de casas do tamanho delas, à beira de lagos absurdos, de um azul impossível, aquém de montanhas totalmente irreais — essas maravilhosas figuras, com uma perfeita e patriótica individualidade japonesa, não pertencem decerto ao horroroso mundo onde se progride, e onde sobre o artista desabam a morbidez do produtivo e a barbárie do humanitário.
E vem querer tirar-me estas convicções o professor Boro, da Universidade de Tóquio! Não mas tira. Não é para ser enganado pela primeira realidade que se me atira aos olhos que eu tenho gasto minutos distensos na contemplação científica e estéril de bules e chávenas japonesas. O mais provável, a respeito deste Boro, é que nascesse em Lisboa e se chame José. Do Japão, ele? Nunca.
Se ao menos achei achei japonesa a sua cara? Absolutamente nada. Basta dizer que era real e existiu ali diante de mim, duas dolorosas horas, em plena ocupação inestética de todas as dimensões aproveitáveis (felizmente só três) do espaço autêntico. A sua cara parecia-se, é certo, com certas fotografias de «japoneses» que as ilustrações trouxeram há anos, e de vez em quando reincidindo trazem; mas toda a gente que sabe o que é o Japão por nunca lá ter ido, sabe de cor que aquilo não são japoneses. E, de mais a mais, essas ilustrações eram principalmente de generais, almirantes, e operações guerreiras. Ora é absolutamente impossível que no Japão haja generais, almirantes e guerra. Como, de resto, fotografar o Japão e os japoneses? A primeira cousa real que há no Japão é o facto de ele estar sempre longe de nós, estejamos nós onde estivermos. Não se pode lá ir, nem eles podem vir até nós. Concedo, se me forçarem a isso, que existam um Tóquio e um Iocoama. Mas isso não é no Japão, é apenas no Extremo Oriente.
O resto da minha vida, doravante, será escrupulosamente dedicado a esquecer o professor Boro e que ele — impronunciável absurdose sentou na cadeira que está agora, na realidade de madeira, defronte de mim. Considero doentio esse facto, alucinatório talvez, e entrego-me com assiduidade a não me lembrar dele mais. Um japonês verdadeiro aqui, a falar comigo, a dizer-me cousas que nem mesmo eram falsas ou contraditórias! Não. Ele chama-se José e é de Lisboa. Falo simbolicamente, é claro. Porque ele pode chamar-se Macwhisky e ser de Inverness. O que ele não era decerto era japonês, real, e possível visitante de Lisboa. Isso nunca. Desse modo não havia ciência, se o primeiro ocasional nos viesse negar o que os nossos estudos assíduos nos fizeram ver.
Professor Boro, da Universidade de Tóquio? De Tóquio? Universidade de Tóquio? Nada disso existe. Isso é uma ilusão. Os inferiores e cábulas de nós construíram, para se não desorientarem, um Japão à imagem e semelhança da Europa, desta triste Europa tão excessivamente real. Sonhadores! Alucinados!
Basta-me olhar para aquela bandeja, pegar cariciosamente com o olhar naquele serviço de chá. Depois venham falar-me em Japão existente, em Japão comercial, em Japão guerreiro! Não é para nada que, através de esforços consecutivos, a nossa época ganhou o duro nome de científica. Japoneses com vida real, com três dimensões, com uma pátria com paisagens de cores autênticas! Lérias para entretimento do povo, mas que a quem estudou não enganam...
1914
Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986
- 65.

1ª publ. in O Raio , nº 12. Lisboa: 12-9-1914

Retirado de Arquivo Pessoa


D.H. Lawrence


Figos


A maneira correcta de comer um figo à mesa

É parti-Io em quatro, pegando no pedúnculo,

E abri-Io para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,

desabrochada em quatro espessas pétalas.


Depois põe-se de lado a casca

Que é como um cálice quadrissépalo,

E colhe-se a flor com os lábios.


Mas a maneira vulgar

É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.


Cada fruta tem o seu segredo.

O figo é uma fruta muito secreta.

Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:

Parece masculino.

Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é

uma fruta feminina.


Os italianos apelidam de figo os órgãos sexuais da fêmea:

A fenda, o yoni,

Magnífica via húmida que conduz ao centro.

Enredada,

Inflectida,

Florescendo toda para dentro com suas fibras matriciais;

Com um orifício apenas.


O figo, a ferradura, a flor da abóbora.

Símbolos.


Era uma flor que brotava para dentro, para a matriz;

Agora é uma fruta, a matriz madura.


Foi sempre um segredo.

E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre

secreta.


Nunca foi evidente, expandida num galho

Como outras flores, numa revelação de pétalas;

Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria veneziana

das flores da nespereira e da sorveira,

Taças de vinho pouco profundas em curtos caules túmidos,

Clara promessa do paraíso:

Ao espinheiro florido! À Revelação!

A corajosa, a aventurosa rosácea.


Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo,

A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta,

Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que afugenta as

próprias cabras;

Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher muçulmana,

A nudez oculta, a floração para sempre invisível,


Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas diante da luz;

Figo, fruta do mistério feminino, escondida e intima,

Fruta do Mediterrâneo com tua nudez coberta,

Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação, e maturação

Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos conseguem

devassar

Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras entregando

a alma.


Até que a gota da maturidade exsude,

E o ano chegue ao fim.


O figo guardou muito tempo o seu segredo.

Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda.

E o figo está completo, fechou-se o ano.


Assim morre o figo, revelando o carmesim através da fenda púrpura

Como uma ferida, a exposição do segredo à luz do dia.

Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o segredo.


Assim também morrem as mulheres.


Demasiado maduro, esgotou-se o ano,

O ano das nossas mulheres.

Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.

Foi desvendado o segredo.

E em breve tudo estará podre.


Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.


Quando no seu espírito Eva soube que estava nua

Coseu folhas de figueira para si e para o homem.

Sempre estivera nua,

Mas nunca se importara com isso antes da maçã da ciência.


Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira.

E desde então as mulheres não pararam de coser.

Agora bordam, não para esconder, mas para adornar o figo aberto.


Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito,

E não hão-de nunca deixar que o esqueçamos.


Agora, o segredo

Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos e escarlates

Que riem perante a indignação do Senhor.


Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres.

Muito tempo guardámos o nosso segredo.

Somos um figo maduro.

Deixa-nos abrir em afirmação.


Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam.

Os figos maduros não se ocultam.

Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas escarlates do Sul.

Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.

Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na

sua afirmação?

Quando os figos abertos se não ocultarem?



D.H. Lawrence (1885-1930)

terça-feira, 29 de abril de 2014


Roberto Bolaño: Playa (Conto)


Dejé la heroína y volví a mi pueblo y empecé con el tratamiento de metadona que me suministraban en el ambulatorio y poca cosa más tenía que hacer salvo levantarme cada mañana y ver la tele y tratar de dormir por la noche, pero no podía, algo me impedía cerrar los ojos y descansar, y ésa era mi rutina, hasta que un día ya no pude más y me compré un trajebaño negro en una tienda del centro del pueblo y me fui a la playa, con el trajebaño puesto y una toalla y una revista, y puse mi toalla no demasiado cerca del agua y luego me estiré y estuve un rato pensando si darme un baño o no dármelo, se me ocurrían muchas razones para hacerlo, pero también se me ocurrían algunas razones para no hacerlo (los niños que se bañaban en la orilla, por ejemplo), así que al final se me pasó el tiempo y volví a casa, y a la mañana siguiente compré una crema de protección solar y me fui a la playa otra vez, y a eso de las 12 me marché al ambulatorio y me tomé mi dosis de metadona y saludé a algunas caras conocidas, ningún amigo o amiga, sólo caras conocidas de la cola de la metadona que se extrañaron de verme en trajebaño, pero yo como si nada, y luego volví caminando a la playa y esta vez me di el primer chapuzón e intenté nadar, aunque no pude, pero eso ya fue suficiente para mí, y al día siguiente volví a la playa y me volví a untar el cuerpo con protección solar y luego me quedé dormido sobre la arena, y cuando desperté me sentía muy descansado, y no me había quemado la espalda ni nada de nada, y así pasó una semana o tal vez dos semanas, no lo recuerdo, lo único cierto es que cada día yo estaba más moreno y aunque no hablaba con nadie cada día me sentía mejor, o diferente, que no es lo mismo pero que en mi caso se le parecía, y un día apareció en la playa una pareja de viejos, de eso me acuerdo con claridad, se veía que llevaban mucho tiempo juntos, ella era gorda, o rellenita, y debía de andar por los 70 años aproximadamente, y él era flaco, o más que flaco, un esqueleto que caminaba, yo creo que eso fue lo que me llamó la atención, porque por regla general apenas me fijaba en la gente que iba a la playa, pero en éstos me fijé y la causa fue la delgadez del tipo, lo vi y me asusté, coño, es la muerte que viene a por mí, pensé, pero no venía a por mí, sólo era un matrimonio viejo, él de unos 75 y ella de unos 70, o al revés, y ella parecía gozar de buena salud, y él hacía pinta de que iba a palmarla en cualquier momento o de que ése era su último verano, al principio, pasado el primer susto, me costó alejar mi mirada de la cara del viejo, de su calavera apenas recubierta por una delgada capa de piel, pero luego me acostumbré a mirarlos con disimulo, tirado en la arena, bocabajo, con la cara cubierta por los brazos, o desde el paseo, sentado en un banco frente a la playa, mientras fingía que me quitaba la arena del cuerpo, y me acuerdo que la vieja siempre llegaba a la playa con un parasol bajo cuya sombra se metía presurosa, sin bañador, aunque a veces la vi con bañador, pero más usualmente con un vestido de verano, muy amplio, que la hacía parecer menos gorda de lo que era, y bajo el parasol la vieja se pasaba las horas leyendo, llevaba un libro muy grueso, mientras el esqueleto que era su marido se tiraba sobre la arena, vestido únicamente con un trajebaño diminuto, casi un tanga, y absorbía el sol con una voracidad que a mí me traía recuerdos lejanos,de yonquis disfrutando inmóviles, de yonquis concentrados en lo que hacían, en lo único que podían hacer, y entonces a mí me dolía la cabeza y me iba de la playa, comía en el Paseo Marítimo, una tapa de anchoas y una cerveza, y después me ponía a fumar y a mirar la playa a través de los ventanales del bar, y luego volvía y allí seguía el viejo y la vieja, ella debajo de la sombrilla, él expuesto a los rayos del sol, y entonces, de manera irreflexiva, a mí me daban ganas de llorar y me metía en el agua y nadaba, y cuando ya me había alejado bastante de la orilla miraba el sol y me parecía extraño que estuviera allí, esa cosa grande y tan distinta de nosotros, y luego me ponía a nadar hasta la orilla (en dos ocasiones estuve a punto de ahogarme) y cuando llegaba me dejaba caer junto a mi toalla y me quedaba mucho rato respirando con dificultad, pero siempre mirando hacia donde estaban los viejos, y luego tal vez me quedaba dormido tirado en la arena, y cuando me despertaba la playa ya empezaba a desocuparse, pero los viejos seguían allí, ella con su novela bajo la sombrilla y él bocarriba, en la zona sin sombra, con los ojos cerrados y una expresión rara en su calavera, como si sintiera cada segundo que pasaba y lo disfrutara, aunque los rayos del sol fueran débiles, aunque el sol ya estuviera al otro lado de los edificios de la primera línea de mar, al otro lado de las colinas, pero eso a él parecía no importarle, y entonces, en el momento de despertarme yo lo miraba y miraba el sol, y a veces sentía en la espalda un ligero dolor, como si aquella tarde me hubiera quemado más de la cuenta, y luego los miraba a ellos y luego me levantaba, me ponía la toalla como capa y me iba a sentar en uno de los bancos del Paseo Marítimo, en donde fingía quitarme la arena que no tenía de las piernas, y desde allí, desde esa altura, la visión de la pareja era distinta, me decía a mí mismo que tal vez él no estuviera a punto de morir, me decía a mí mismo que el tiempo tal vez no existía tal como yo creía que existía, reflexionaba sobre el tiempo mientras la lejanía del sol alargaba las sombras de los edificios, y luego me iba a casa y me daba una ducha y miraba mi espalda roja, una espalda que no parecía mía sino de otro tipo, un tipo al que aún tardaría muchos años en conocer, y luego encendía la tele y veía programas que no entendía en absoluto, hasta que me quedaba dormido en el sillón, y al día siguiente vuelta a lo mismo, la playa, el ambulatorio, otra vez la playa, los viejos, una rutina que a veces interrumpía la aparición de otros seres que aparecían en la playa, una mujer, por ejemplo, que siempre estaba de pie, que jamás se recostaba en la arena, que iba vestida con la parte de abajo de un bikini y con una camiseta azul, y que cuando entraba en el mar sólo se mojaba hasta las rodillas, y que leía un libro, como la vieja, pero estaba mujer lo leía de pie, y a veces se agachaba, aunque de una manera muy rara, y cogía una botella de pepsi de litro y medio y bebía, de pie, claro, y luego dejaba la botella sobre la toalla, que no sé para qué la había traído si no se tendía nunca sobre ella y tampoco se metía en el agua, y a veces esta mujer me daba miedo, me parecía excesivamente rara, pero la mayoría de las veces sólo me daba pena, y también vi otras cosas extrañas, en la playa siempre pasan cosas así, tal vez porque es el único sitio en donde todos estamos medio desnudos, pero que no tenían demasiada importancia, una vez creí ver a un ex yonqui como yo, mientras caminaba por la orilla, sentado en un montículo de arena con un niño de meses sobre las piernas, y otra vez vi a unas chicas rusas, tres chicas rusas, que probablemente eran putas y que hablaban, las tres, por un teléfono móvil y se reían, pero la verdad es que lo que más me interesaba era la pareja de viejos, en parte porque tenía la impresión de que el viejo se iba a morir en cualquier instante, y cuando pensaba esto, o cuando me daba cuenta de que estaba pensando esto, el resultado era que se me ocurrían ideas disparatadas, como que tras la muerte del viejo iba a ocurrir un maremoto, el pueblo destruido por una ola gigantesca, o como que iba a ponerse a temblar, un terremoto de gran magnitud que haría desaparecer el pueblo entero en medio de una ola de polvo, y cuando pensaba lo que acabo de decir ocultaba la cabeza entre las manos y me ponía a llorar, y mientras lloraba soñaba (o imaginaba) que era de noche, digamos las tres de la mañana, y que yo salía de mi casa y me iba a la playa, y en la playa encontraba al viejo tendido sobre la arena, y en el cielo, junto a las otras estrellas, pero más cerca de la Tierra que las otras estrellas, brillaba un sol negro, un enorme sol negro y silencioso, y yo bajaba a la playa y me tendía también sobre la arena, las dos únicas personas en la playa éramos el viejo y yo, y cuando volvía a abrir los ojos me daba cuenta de que las putas rusas y la chica que siempre estaba de pie y el ex yonqui con el niño en brazos me contemplaban con curiosidad, preguntándose acaso quién podía ser aquel tipo tan raro, el tipo que tenía los hombros y la espalda quemados, y hasta la vieja me observaba desde la frescura de su sombrilla, interrumpida la lectura de su libro interminable por unos segundos, preguntándose tal vez quién era aquel joven que lloraba en silencio, un joven de 35 años que no tenía nada, pero que estaba recobrando la voluntad y el valor y que sabía que aún iba a vivir un tiempo más. 

 Roberto Bolaño

terça-feira, 22 de abril de 2014

Vitorino Nemésio: A Vida e Tempo


Com alma, ideias, tempo, luta
Componho um homem, sou sujeito:
Penso-me livre numa gruta
Como pretérito imperfeito.

De era se faz o meu futuro,
Será será o meu passado
Como da hera se faz muro
Mais que de pedra levantado.

Se horas a nada levam tudo,
Nada nasceu, tudo é que é,
Haja ou não haja Sartre e o mudo
Deus Tudo-Nada havido em fé.

Que ele e Deus mesmo no absoluto
Ser contestado, tão essente
Que se faz Deus na voz que escuto,
Mesmo que o negue, e me desmente.

31-07-1959

Vitorino Nemésio, (O Verbo e a Morte).

Daniel Jonas: Nó


Do ventre da baleia ergui meu grito:
Senhor! (dizer teu nome só é bom),
Em fé, em fé o digo, mesmo com
Um coração pesado e contrito
Que és de tudo verdade e não mito,
O coração do amor, de todo o dom,
Conquanto seja raro o bem e o bom
E toda a luz aqui me falhe, és grito
Que chama toda a chama de esperança
E acorda a luz que resta à réstia eterna,
Conquanto viva o mártir na espelunca
Da vida (quem espera amiúde alcança)…:
Possa o nazireu preso na cisterna
Sofrer de ser só tarde mas não nunca.

Daniel Jonas, in «Nó». Assírio & Alvim 


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Joaquim Namorado

 Edital

Foi afixado
nos locais do costume
que É PROIBIDO MENDIGAR.

Logo mão que se descobre
Escreveu a tinta por baixo
MAS NÃO É PROIBIDO SER POBRE.

Joaquim Namorado, (A Poesia Necessária). 



Vitorino Nemésio

Pão Nosso

 Deus deu esta manhã trigo aos moinhos,
Cortava o pão ainda uma faca bota.
Da música dos ninhos não se ouvia uma nota.

Que o pão cortado não deve
Coisa aérea alterar:
Flores, aves, tudo isso é leve
E suor do rosto é pesar.

Pão nosso, quanto mais duro
Mais a água gosto tem.
Linho branco, pinho escuro:
Assim é que sabe bem.


Vitorino Nemésio, (Nem toda a Noite a Vida)

Vitorino Nemésio


 32.

O sol fechou o dia
Sem mão nem chave;
A pouca luz que havia
Deu-a para uma ave.

Então a ave selou
Com seu sono seu ninho,
E a terra toda amou
Na casa do passarinho.

Um ovo é como uma chave,
Mas só abre a vida às penas.
Apetece ser ave,
Ter as mágoas pequenas.


Vitorino Nemésio, (Eu, Comovido a Oeste)

sexta-feira, 18 de abril de 2014

R. W. Emerson


 Cada novo acto da experiência individual lança uma luz sobre o que fizeram os grandes conjuntos humanos e as crises do individuo fazem referência às crises nacionais.
(…)
Tudo o que Shakespeare diz ao Rei, o rapaz que o lê numa esquina crê que é aplicável a si mesmo.
(…)
O homem devia ver que pode viver toda a história na sua própria pessoa.
(…)
Vivenciamos continuamente os factos mais destacados da História da Humanidade na nossa experiência individual, no sítio e momento exacto em que nos encontramos. Não há propriamente História, mas só Biografia.
(…)
Devemos ver em nós mesmos a razão necessária de todos os factos.


Ralph Waldo Emerson, História in Ensaios Escolhidos (1841).



Shane MacGowan: Rainy Night in Soho: (The Pogues)



I've been loving you a long time
Down all the years, down all the days
And I've cried for all your troubles
Smiled at your funny little ways
We watched our friends grow up together
And we saw them as they fell
Some of them fell into Heaven
Some of them fell into Hell

I took shelter from a shower
And I stepped into your arms
On a rainy night in Soho
The wind was whistling all its charms
I sang you all my sorrows
You told me all your joys
Whatever happened to that old song
To all those little girls and boys

Sometimes I wake up in the morning
The gingerlady by my bed
Covered in a cloak of silence
I hear you talking in my head
I'm not singing for the future
I'm not dreaming of the past
I'm not talking of the first time
I never think about the last

Now the song is nearly over
We may never find out what it means
Still there's a light I hold before me
You're the measure of my dreams
The measure of my dreams

domingo, 13 de abril de 2014

Inês Fonseca Santos

Por muito que

…como se correr perigo não fosse talvez a minha mais profunda razão de vida

Ruy Belo


Como se correr perigo não fosse talvez
a minha mais profunda incapacidade

(por muito que os significantes possam significar)

escrevo melhor nos sítios onde o papel se desfaz
durante o mergulho
no banho
à chuva

num dilúvio, sei, teria escrito apenas

isto

Inês Foneca Santos, in Revista Correntes de Escrita, 2014.

Plínio, o Jovem


Nunca li um livro tão mau que não me permitira tirar o mínimo proveito dele.
                                                                                                       Plínio, o Jovem.

Citado a partir de Tristan Shandy - Laurence Sterne

Laurence Sterne: Tristan Shandy


Ao Muito Honorável Mr. Pitt

Senhor:
Jamais pobre embrião de autor de uma dedicatória depositou menos esperanças na sua das que eu depositei na minha; porque lhe escrevo num canto afastado do reino, numa casita retirada onde vivo consagrado a combater sem trégua e com alegria os achaques da doença e outros males da vida, pois estou plenamente convencido de que cada vez que um homem sorri, - e com maior motivo se ri, acrescenta algo a este Fragmento de Vida.
Humildemente vos rogo, Senhor, que honreis este livro, tomando-lho, - (não baixo a vossa proteção, - que ele sozinho se irá proteger, mas) – mas para levá-lo para o campo; e se chega aos meus ouvidos que ele o fez sorrir, ou se penso, que em algum momento, ele vos fez poupar um pouco de sofrimento – me considerarei feliz como um ministro de estado; - talvez mais feliz do que todos aqueles que conheço de palestras ou de conferências.


Laurence Sterne, Vida e Opiniões de Tristan Shandy. Volume I (1750)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Bertolt Brecht: Sobre o pobre B.B.


1.
Eu, Bertolt Brecht, sou dos bosques negros.
A minha mãe levou-me às cidades
estando ainda no seu ventre. E o frio dos bosques
vai acompanhar-me até à morte.

2.
Na cidade de asfalto estou como em casa. Desde
            o princípio
fui provido de todos os viáticos:
De jornais. E tabaco. E aguardente.
Desconfiado e preguiçoso, sinto-me, no final, contente

3.
Sou amigável com a gente. Ponho
um chapéu segundo o seu costume.
Digo: são bestas com um cheiro muito especial.
E digo: não importa, também eu sou.

4.
Pelas manhãs nos sofás vazios
sinto um par de mulheres,
despreocupado contemplo-as e digo-lhes:
aqui têm alguém em quem podem confiar.

5.
Ao anoitecer reúno-me com os homens,
Todos nos tratamos de gentleman.
Eles põe os seus pés sobre as mesas.
E dizem: As coisas vão melhorar. E eu não pergunto: «Quando?»

(…)


Bertolt Brecht, Poesia (1918-1933).


domingo, 6 de abril de 2014

Paulo Leminski

Invernáculo

Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quem sabe maldigo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

Dor elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

Paulo Leminski


António Botto: Balofas carnes de balofas tetas

Balofas carnes de
balofas tetas
caem aos montões
em duas mamas pretas
chocalhos velhos a
bater na pança
e a puta dança.

Flácidas bimbas sem
expressão nem graça
restos mortais de uma
cusada escassa
a quem do cu só lhe
ficou cagança
e a puta dança.

A ver se caça com
disfarce um chato
coça na cona e vai
rompendo o fato
até que o chato
de morder se cansa
e a puta dança.

António Botto

Eugénio de Andrade

MATÉRIA SOLAR

5.
Claro que os desejas, esses corpos
onde o tempo não enterrou ainda
os cornos fundos – não é o desejo
o amigo mais íntimo do sol?
Que os desejas, como se cada um
deles fosse o último, último corpo
que o teu corpo tivesse para amar.

13.
Aqui me tens, conivente com o sol
neste incêndio do corpo até ao fim:
as mãos tão ávidas no seu voo,
a boca que se esquece no teu peito
de envelhecer e sabe ainda recusar.

18.
Eu amei esses lugares
onde o sol
secretamente se deixava acariciar.

Onde passaram lábios,
Onde as mãos correram inocentes,
O silêncio queima.

Amei como quem rompe a pedra,
ou se perde
na vagarosa floração do ar.

25.
Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.


28.
Dormíamos nus
 no interior dos frutos.

É o que temos: sono
e a estiagem subitamente
até ao fim.

Amargos.

Pela humidade descia-se
às fontes – lembro-me.
Dos lábios.

46.
Olha. Já nem sei de meus dedos
roídos de desejo, tocava-te a camisa,
desapertava um botão,
adivinhava-te o peito cor de trigo,
de pombo bravo, dizia eu,
o verão quase no fim,
o vento nos pinheiros, a chuva
pressentia-se nos flancos,
a noite, não tardaria a noite,
eu amava o amor, essa lepra.

Eugénio de Andrade – Matéria Solar (1980).

As Estrelas Suicidas de Tule

“Os segredos contam-se melhor debaixo de água.”

Foi com Maria Puig, a hermafrodita, que comecei a
ouvir tango. Primeiro orquestras ligeiras, depois Gardel. Na
altura, ela fazia a sua tese de mestrado sobre Tristan Shandy.
Preparava também, em conjunto com um musicólogo e um
fotógrafo, a obra O Tango Durante a Segunda Grande Guerra.
Era uma encomenda de um dos maiores grupos editoriais
franceses.
No centro da sua sala havia um velho gramofone que
tocava repetidamente a Munequita de Paris. Outras vezes
Nagasaki blues de Mina.
Eu sentava-me no sofá e lia O que é a Literatura de
Sartre, ou uma revista sobre tatuagens. Ela ia mudar a agulha,
eu continuava no sofá. Um dia vi, no espelho do seu
quarto de banho, uma frase curta, escrita a baton. Dizia só:
Um reich de leite– A caligrafia pareceu-me sexy, e a frase
escrita muito devagar e com um pulso seguro. Não achei
estranho a frase não ter verbo, não ser uma oração, mas
apenas uma espécie de complemento incompleto: De quê? –
Perguntei-lhe – ela sorriu e voltou a colocar a agulha no
começo da música.
Mostrou-me no mail algumas fotos que tinha recebido
para ilustrar um dos capítulos da obra. Pessoas a dançarem
em grandes salões europeus e americanos. Cadilacs com
casais abraçados fora ou dentro dos carros.

Um Reich de leite?
O quê?
Como era o leite?
“disse que era gordo”

Mostrou-me um texto seu, dividido em cinco partes. Explicou-
me que fazia parte de um projecto que tinha para uma
novela fragmentada.

1.
Fizemos amor durante muito tempo: Eu, um homem ou
uma mulher; e ela, uma mulher ou um homem. Os nossos
sexos eram uma sugestão e pareciam uma corrente tropical.
Não eram os orgasmos que levantavam a alma, mas o calor e
a respiração – e a Munequita de Paris – no auge de um
orgasmo múltiplo de uma estrela suicida com baton a mais.
Éramos essa estrela reflectida no espelho barroco de um
submarino. Levantei-me e abri a boneca russa, dentro estava
outra boneca, abri a outra boneca, e abri outra e outra e
todas as bonecas que estavam dentro das outras como
memórias tripartidas. A última boneca abri-a com a boca e
sei que isso o excitou. Dentro da boneca estava uma mortalha.
A mortalha tinha escrito um poema de Walser. Era inédito,
como qualquer acto humano. Ele enrolou nela um
bocado de tabaco negro e ficou com atenção ao fumo. Disse
duas ou três coisas sobre a perenidade, o gesto humano, não
sei o quê sobre África. Foi até junto do gramofone e pôs a
música do começo.

2.
Imaginei um país neutro com todos os seus leiteiros a levarem
as bilhas nos caminhos de terra. Os leiteiros a cantarem
que – O seu país não se mete em confusões – Imaginei o
país neutro com o seu povo trabalhador que semeia os campos
de trigo e que colhe o trigo e do trigo faz farinha, e com
farinha faz o pão que alimenta o povo: Dos operários aos
ladrões, dos antiquários aos guardas florestais. Imaginei
todos os seus bosques recheados de prostitutas. Imaginei-as
a enrolar o preservativo no toalhete. A passarem o toalhete
no rabinho dos impotentes para que o seu orgasmo seja em
tudo pujante e nacional. Imaginei todos os pedófilos do meu
país a olharem para o mar, a verem-no masturbar-se nas
pernas salgadas das meninas, em ondas cordeirinho, que
umas vezes trazem búzios e conchas pequenas. E que, de
vez em quando, trazem estrelas e outras vezes não trazem
estrelas.

3.
Os funcionários internaram a rainha na ilha de Cápri. Aí a
rainha chorava cal viva porque morrera o seu amigo. Uma
lenda antiga dos pescadores do golfo de Nápoles explicava
que, na impossibilidade da rainha chorar algo líquido, as
estrelas-do-mar começaram a aparecer em grande número
nas praias entre Herculano e Nápoles. De manhã todos
encontravam as praias cheias de estrelas-do-mar. Noutras
manhãs encontravam as praias cheias de soldados. O mesmo
fenómeno se passava na Normandia.

4.
Eram grupos de meninos e meninas que encontravam as
estrelas-do-mar, e as viravam ao contrário para lamber a
parte branca e adocicada que era o seu choro: Um líquido
espesso, como o sémen dos cavalos-marinhos. Um choro
que parecia leite gordo e doce com muita nata como o leite
das baleias. As meninas metiam as pontas das estrelas nos
ouvidos e ouviam as histórias da Rainha internada em Cápri:
Estávamos no início da guerra.

5.
Era uma espécie de leite, mas não era leite, era segredo
líquido e quente de uma rainha. O leite sabia também a
outras histórias mal contadas. Porque as estrelas-do-mar
sabiam muitas histórias sobre a emigração ilegal de África
para as Canárias. Muitas vezes espreitavam a boca roxa, com
os lábios grossos de um nigeriano inchado pela água, que se
tinha deixado ir ao fundo. Mas não é só isso que as faz chorar.
Sabem também boas histórias sobre a guerra que contam
aos meninos que as descobrem pela manhã. Uma delas
é a de um capitão de um submarino francês que em 1940
desceu ao fundo do mar do Norte para uma missão de
defesa da costa. Desligou o radar e forrou o tecto do submarino
com papel celofane azul celeste. Colou nele muitas
estrelinhas que picotou de uma cartolina dourada. Depois de
forrado o tecto do submarino, o capitão pediu que lhe
metessem no seu interior um espelho barroco. Dois tripulantes
trouxeram-no para o centro. Mais tarde os dois
tripulantes embebedaram-se, o capitão ajeitou a agulha do
gramofone e começou a ouvir a Munequita de Paris.
Morreu numa espécie de guerra privada. Todos esses segredos
tornavam o choro das estrelas mais espesso, gordo e
saboroso, como se fosse leite condensado:
memórias de guerra que as raparigas de Cápri lambiam ou
usavam como gel no cabelo para seduzir, com o seu cabelo
curto, um ou outro amigo de quem gostavam mais.


Nuno Brito, Créme de la Créme, Porto, Planeta Vivo, 2011.

Luca Argel: Susie and de Merman


Os gregos antigos e os nativos americanos não sabiam, mas deram o mesmo nome à Ursa Maior.    
(Desculpe se te dou notícias velhas)  
A constelação sequer parece com um urso, parece?  
Não, não parece.  
Não deveríamos acreditar tanto nesse tipo de milagre.  
Aos franceses parecia uma caçarola, aos nórdicos a carruagem de Odin, aos egípcios um  
carro de boi.  
(E o que mais você viu na vida foram milagres)  
Qual a diferença?  
Bom, a mim parece um joystick com fio.  
Posso configurá-lo:  
-Prima Dubhe para fazê-la girar sobre o próprio eixo.  
-Prima Merak para fazê-la adormecer.  
-Prima Megrez para fazê-la redistribuir a temperatura.  
-Prima Alioth para fazê-la recordar conversas antigas.  
-Prima Benetnasch para fazê-la trocar de anéis.  
-Prima Phecda para para trazê-la para perto se estiver longe e para longe se estiver perto.  
-Prima Mizar para fazê-la despertar em duas tentativas.      
-Prima Alcor para fazê-la respirar mais devagar.    
(Desculpe se não lhe dou notícia alguma)  
Não há o que se fazer com elas - mas o que mesmo você pretendia fazer com uma notícia?  
Eu já não me chateio mais com esse tipo de coisa.  
Agora peço ao carteiro que deixe sempre a minha correspondência no café ao lado.  
Digo-te uma frase que ouvi: "Não há duas pessoas no mundo que comam da mesma
maneira".  
Digo-te uma coisa que lembro: o ritmo de um número de telefone.  
E que os cavalos marinhos também não se lembram de  seus próprios nomes se eles tiverem
mais de três sílabas.    


Luca Argel, retirado de Enfermaria 6