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segunda-feira, 3 de junho de 2024

Um animal feliz entre outros


Amo o mundo como uma criança que ri

inteira e feliz e sem um dente da frente

e rio inteiro do mundo inteiro porque rir do mundo

 é amá-lo verdadeiramente 

e vê-lo verdadeiramente como ele é e pode ser.



Amo o mundo como uma criança que ri

Inteira como um dente de leão a espalhar-se

pelo campo todo para voltar a nascer outra vez 

em vários sítios diferentes ao mesmo tempo


e ser completo e inteiro em todo o lado e até ao fim


Amo o mundo como uma criança que ri

Feliz e inteira e sem um dente da frente.


Felicidade em Portugal


Felicidade em Portugal

Deixei maias à porta para te ver sorrir, 
Em todas as expressões e gestos do meu país:

País-Sede, País-canção, País Revolução.

A casa branca nau preta...
Felicidade em Portugal.

País até ao coração do boi a pulsar no ponto mais alto do Pico, 
País de espuma a arder de ponta a ponta
As Linhas das costas seguras pontilhadas de faróis
Sede e luz de barco (suor sal e sol nas tuas costas)
País até à medula. Gorduroso e amanteigado 
como um queijo da serra. 
Coração de Varina a Arder dentro dos CTT.
País-Mãe, País-Barco, País-pião! 
País corrimento das estrelas
Entrelaçado na nossa voz, 
País Avós que estão no céu a cuidar de nós 
País Moinho de rodar e receber!
País a Criar! País de abraçar! País a Transver!
Moinho de Imagens Novas!
Rosa de Todas Cores
País Sino, País Lápis, País Sebenta!
Vozes Novas e Imagens Novas Venham Todas para o meu país! 

País Barco de papel no fundo de um poço
Viagem circular e completa à volta de nós próprios
E toda a esperança material e líquida e necessária - 
Porque a esperança é necessária e poética e material

País Todo:
Felicidade em Portugal.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

E Depois?

E depois?

Queria contar-lhe a história do burro que foi à lua. Mas queria contar rápido, em pouco tempo, seria por breves atalhos, o primeiro burro a chegar à lua. Chegaria num foguetão e depois adormeceríamos com o sorriso de uma missão comprida, com um ponto final a pautar mais um dia preenchido de altos e baixos. Mas as crianças não se deixam enganar, raramente gostam de finais felizes, que são mais uma fantasia de adultos. Na verdade as crianças não gostam de pontos finais e para que a história não acabe põe pontos de interrogação em tudo, pontos de interrogação de várias entoações e cores, para  que a história não termine nunca, uma cegonha numa torre fica com um ponto de interrogação no cimo da sua cabeça, um telefone, uma estrela, um sapo, tudo encimado com a entoação perfeita de uma pergunta feita por uma criança; por isso talvez só elas saibam, com uma certeza interrogativa, que na verdade as verdadeiras histórias não têm fim. E todas elas cabem dentro de si, (aninhadas, ouriçadas e pequeninas), como um novelo feito de uma luz finíssima, uma luz de espuma e espanto e ouro, e que puxada devagar com os dedos por uma ponta nunca mais chegaria ao fim. 
Para nos encher continuamente de surpresa as crianças sabem que aquilo que, no fim de cada história, parece um ponto final, é na verdade apenas um ponto de luz que vibra, uma semente recheada de futuro.  E os pontos  finais começam a falar baixinho; ao coração de cada criança do mundo cada ponto final diz: “Leva-me pela mão a casa da minha avó”, “quero comer marmelada”, “Conta-me mais sobre o lobo”, “Podemos ir pelo caminho mais longo?”. Cabe-nos então levar a história pela mão para onde ela quer que a levemos, ou que seja ela a levar-nos a nós, como pequenos irmãos de mãos dadas, as histórias abraçam-se e quando se tocam umas nas outras tornam-se infinitas, como uma grande nuvem de estorninhos ou uma grande história mãe, feita com a voz de todos nós e a voz dos que nos seguirão.  Porque as histórias não têm fim, o meu coração enche-se de felicidade só de imaginar... O que aconteceria ao burro?  E a cada ramo em curvas da sua história? Agora mesmo está no cimo de uma montanha ao lado de um moinho; e é bom ser um burro lado de um moinho em cima de uma montanha e ser um moinho com um burro ao lado mais a montanha que lhes serve de chão e ser isso tudo ao mesmo tempo é também o começo de uma história que está sempre no presente: como quando o molho das rabanadas se cristaliza em ponto de açúcar, assim se sentia o burro enquanto descia a montanha. Muito, muito feliz, como um burro pode ser. O burro mais feliz do mundo descia a montanha, muito devagar, porque há tempo de lá chegar. O caminho tem muitas curvas e devemos sujar-nos o caminho todo. Isso é também o coração da história: devemos sujar-nos porque o caminho é uma aprendizagem. E depois?  ... A pergunta impõe uma nova respiração. Uma respiração segura ... ... ... E quando respiramos ouvimos. Devemos, quando contamos uma história, parar várias vezes: ouvir a nossa respiração e o coração de quem está à nossa frente. Ouvir o nosso coração         a bater no coração de quem nos ouve, dizer: “Olá liberdade!” muito baixinho ao coração de cada ser que nos que está à nossa frente; só assim a história pode nascer, que é a única forma possível de ela continuar, e talvez sejam já dois burros a descer a montanha por um caminho de terra e  cheio de curvas, e nunca chegar  à lua é só o centro exato da história, porque as verdadeiras histórias estão sempre no meio e não  têm passado nem futuro, nem começo nem fim nem pressa. As verdadeiras histórias estão sempre no presente. Por exemplo, agora, neste exato momento, os dois burros descem a montanha e a certa altura aparece um foguetão e a avó de um astronauta que gosta muito de marmelada. ...  E depois? ... ... 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ode Solar


Tu que tudo unes
Arde dentro de mim até ao fundo.
Enche o meu coração de sol, de vida e de esperança.
Sopra na minha alma o teu fogo mais perfeito
Deus, montanha, rapariga, roupa estendida ao sol
que os meus olhos vejam a tua perfeição em toda a parte
que o meu coração se encha de ti.



Como um pássaro
Uma boca
Um incêndio
o amor vencerá sobre todas as coisas.



Nas têmporas da égua que corre
na pedra que se parte no sul
no coração do ouriço que bate rente ao chão
no ouro, na prata, na cerâmica sigilata
na semente da ideia mais pura
no fim de cada canção
A palavra liberdade a arder
no coração de tudo aquilo que cai
como uma coisa que se sopra para nascer
em muitos sítios diferentes ao mesmo tempo
uma fotografia velha, o fim de uma tarde de verão
Uma ideia de esperança, um dente de leão
Tudo isso com início e com fim
material, pequeno, irredutível, sem nome e sem posse,
com a sua própria contradição, o seu caminho plural,
Tudo isso eu amo até ao fundo:
Pegadas quentes de duas lobas sobre o gelo
nomes de dois amantes numa ponte;
Respiração quente de um recém-nascido que dorme
Amor que lhe contorna a nuca,
húmidas respirações num carro de Luanda
coração desenhado no cimento,
Cadeado - símbolo de quê?
humanidade em marcha, eternidade solar
nuclear, nascente, segura,
Como uma âncora.
Tudo isso eu amo profundamente até ao fundo:
Conto sem conto, conto com conto, canção
e o alfabeto, e os números e as estações, e as cores e as formas,
Arde dentro de mim como o nascimento de uma árvore
Que agora mesmo enterra as suas raízes até ao fundo
Solar potência de cada um.
Solar nascimento e mudança de cada um.

Agora mesmo um pássaro gordo pousa em frente à porta,
e acredito na humanidade até arrebentar.


Uma menina atravessa os campos de trigo.
As espigas estremecem com o vento quente do sul.
O silêncio antigo do sol entre cada pulsação do coração.
conta um segredo de luz e espuma – ouve bem -
um ninho que guarda ovos minúsculos -
a rebentar por todos os lados,
as correntes fundas e quentes de um rio que se adentra no mar.


Tu que és montanha
e cimento e conjunto de limões,
enche-nos da tua vida pura e continua,
do teu riso, do rompimento
que cada semente traz consigo
da ressurreição de cada passo


Tu que tudo unes
Arde dentro de nós até ao fundo
Como uma coisa que se sopra para nascer
Como uma coisa com início e com fim:
Pequena. Material. Honesta.
Irredutível.
Como uma coisa que não para de nascer...


Nuno Brito.

O Desenhador de Sóis. II. (Nascente)


A vida trabalha impessoal, quente, honesta. A mais honesta. O Coração da Baleia, o Coração do Cavalo, o elétrico Coração do Pirilampo. A Vida trabalha com os seus fogos. Podemos falar com deus enquanto a vida trabalha com os seus fogos. É uma explosão de luz dentro de cada célula (Nascente). Mãos, braços, dedos, cabelos, pontas acesas de vida. Como o baixar a cabeça de um remador, vamos juntos em direção à nascente de tudo. Remamos com sinceridade. O céu está claro, branco, brilhante. E dizemos com sinceridade:
 A minha cara é de todo o mundo, a luz que bate na minha cara é a mesma que bate em todos, e esta luz pulsa, segura, viva como uma canção muito antiga; o poderoso silêncio do sol dobrado no meu coração (Nascente). O potente silêncio do sol a arder no meu coração. Inteiro, Invencível, Eterno. Somos tantos homens e mulheres com as suas mãos quentes. O fogo na linha da vida como uma certeza antiga. Desenhamos uma luz que é também caminho e vamos juntos em direção à nascente de tudo. Se a vida é um jogo, ela só nos permite a vitória, e essa vontade de rir, tão profunda e quente, de todas as coisas. Ela é colossal e gigante e bela. Agora mesmo um louva-a-deus na nossa janela. Perguntamo-nos se ele vai mudar de pele, se ele criou aí o seu ninho, se vai ter um filho? É verde e quando vira a cabeça para nós parece um extraterrestre. É belo. Leva três dias ali. Penso na fonte de tudo, penso com amor na fonte de tudo e bendigo o bem deste caminho. Comunico um batimento antigo (uma chama tão perfeita), um estremecimento de prazer. A mensagem que quero deixar é tão pura que todas as células se riam, todas elas vibram, todas elas cruzam os seus fogos. A nascente jorra, múltipla, sincera, infinita. Viva, a nascente flui o seu prazer puro, a sua vibração eterna. Penso nessa fonte, no doce nascimento do sol. No louva-a-deus que nos olha com uma sabedoria mineral, uma sabedoria de árvore que pode mover os seus ramos, devagar, extremamente devagar. As suas patas compridas, o seu lento virar da cabeça perfeito. De agora em diante movemo-nos rápidos, em ondas, e vemos tudo mergulhado em sonho. A nossa vida inteira é uma onda (assim nos deve ver o louva-a-deus) assim nos deve ver um girassol com o seu levantar a cabeça paciente de remador antigo. De agora em diante seremos felizes como o centro de um girassol, a sua seiva quente, doseada, prolongada e vital; como o leite gordo de baleia. De agora em diante a nossa sabedoria (de louva-a-deus) será esse virar a cabeça seguro e humilde como o centro de um cacto. De agora em diante o nosso corpo virará as suas patas para o céu e os nossos olhos espelharão algo grande, colossal e perfeito como estas montanhas ao fim da tarde.


Nuno Brito .

O Desenhador de Sóis V.


Uma abelha traz um girassol (futuro),
uma vida traz outra vida
e um marinheiro são sempre dois marinheiros.
Talvez toda a poesia queira só dizer como tudo é outra coisa,
e todas as sementes
tragam só o seu regresso ao sol
talvez usemos um só símbolo
para dizer como tudo está vivo,
Talvez os poemas sobre barcos sejam, de longe, os mais honestos.


Nuno Brito.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Não te esqueças


De levar o melhor de cada um,
a potência plural de cada um,
o olhar mais sincero de cada um
quem te salvou,
quem olhaste nos olhos,
quem amaste profundamente
quem amas profundamente
com toda a luz do teu coração.

Não te esqueças de te sentar no lugar mais improvável,
por exemplo:
em frente de uma repartição no domingo, às três horas da tarde
na berma de uma autoestrada, no meio de um estádio vazio,
a meio do trajeto para tua casa,
de te sentares na berma,
de pôr as mãos no joelho
de respirar profundamente;
de não esperar nada de ti nem de ninguém -
de esperar tudo - absolutamente tudo – de ti e de toda a gente.
De aproximar uma folha dos olhos.
De imaginar o mar prateado
de comer a dobrada mais fria,
de fazer festas a um cão malhado:
e Arder. Arder. Arder.

Que amanhã dez mil borboletas vão chegar a Michoacan,
que para os gregos humanidade era um verbo,
que tudo é caminho e perder-se faz também parte do caminho,
que virar certas páginas é um incêndio
que este é um poema para a vida
que os animais não choram -
que os animais não riem -
que és um animal privilegiado
que afinal os animais choram e os animais riem
e que tens de esquecer tudo novamente
e aprender tudo outro vez a cada segundo que passa,
que uma pessoa é uma coisa que arde,
que madura, que ri, que se sustenta dentro de um fio,
que agora mesmo alguém cai abruptamente,
que uma estrela do mar é virtualmente eterna
e pode nunca morrer –
 que um poema pode nunca morrer -
que um poema nunca morre – que na verdade (e talvez virtualmente)
 morremos a cada segundo (com um relógio no pulso)
que agora mesmo, no centro da América, uma mãe decide não respirar,
dançar por dentro, nascer novamente,
que, devagar, um caracol sobe um muro branco numa aldeia da Sicília
que um homem começa a sua marcha,
que nada se detém quando um homem começa a sua marcha,
que um continente pulsa,
 que só podemos ver com os olhos dos outros.

Não te esqueças de perder uma chave,
de chegar atrasado a todos os compromissos,
de te sentar a meio do teu percurso,
no lugar mais inesperado, na hora mais inesperada,

De respirar fundo
De arder...

                        Não te esqueças.

Nuno Brito.


quinta-feira, 23 de junho de 2016

A fazer hoje.


(Variação sobre Eluard)

Escrever um poema sobre a liberdade e vê-lo arder.
Vivo.
Como uma mãe.
Escrever no centro do coração que o amor é o homem inacabado.

Respirar.
Respirar.
Respirar.

Pedir pouco.
tão pouco...
quase nada.

Olhar de frente o sol.
Agradecer.

Olhar de frente a estrela mais pequena.
Agradecer.

Ver um caracol subir um vaso, uma planta, comer uma folha, abandonar a sua casa.
Agradecer que se tem família, agradecer que se tem amigos,
Olhar uma flor roxa fechar-se na noite.
Empurrar a minha filha no baloiço.
Dizer-lhe que nunca tenha medo.
Abraçar a Ale.
Tomar um café quente.

Pedir pouco.
Tão pouco.
Quase nada.
  
Nuno Brito.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O Desenhador de Sóis XX


O poema ensina o seu coração, o seu batimento, ele é muitas cidades a arderem em desejo; há no centro do poema um sol que irradia para todos os lados, uma afirmação de vida, uma múltipla fonte de luz. As palavras são centros de vibração, elas tocam-se, expandem-se em ondas, elas são estrelas em pleno nascimento, em nascimento continuo, cada olhar sobre elas as faz renascer. O poema é uma constelação que faz acender a linguagem, que a faz viver; A constelação que é o poema faz nascer a palavra a cada segundo, a cada batimento do coração a palavra é nova, ela tem novo sopro, ela é uma nova afirmação de vida, uma nova fonte, uma nova onda expansiva, a cada batimento do coração do poema surge um novo acendimento, (muitas cidades a arderem em desejo), a estação de serviço em mercúrio, o olhar da minha filha. Cada novo olhar sobre o poema cria um novo nascimento, uma aceleração diferente: eu acelero o poema quando o olho, eu o faço nascer. O poema é um animal invencível, ele é a vitória da linguagem. Quando eu afirmo:

O poema ensina o seu coração
e o seu coração é um céu azul.

Eu digo que esse coração é um núcleo que acende tudo o que o rodeia; o poema não pergunta o que é o fogo, ele afirma, ele cria uma comunidade, ele une, ele não para nunca de unir. As constelações comunicam, acendem-se, dançam, cruzam os seus fogos, a sua dança pode ser perfeita e - por essa mesma possibilidade - ela é já perfeita. O animal invencível é a possibilidade mesma da vida, a afirmação mesma da vida. Se o poema nasce em frente a um promontório com Safo ou se ele nasce no meio da rua com Cesário Verde, o que os une é esse nascimento, o mesmo batimento que implica diferentes vibrações, o mesmo início, que implica diferentes processos. O poema ensina a cair no chão ou ensina a rir dessa queda, o poema ensina a ver o outro mas também a ser sempre outro, doutra forma diríamos: o poema faz nascer, o poema faz brotar, o poema multiplica ângulos e nisso é tão humilde como uma raiz ou um semente que leva a vida no seu interior e que só necessita um pouco de água, um pouco de terra, um pouco de luz, uma comunicação (que é também assonância e conversa) da natureza. Tudo aqui é soma, tudo aqui é mudança, acrescento, comunicação, comunhão; união enfim, é disso que falamos quando falamos de poesia, de um abraço com uma geração intemporal, de um abraço com Orfeu, de um abraço com Diógenes; este é o contacto que a poesia inaugura, um gesto que se pretende infinito, um mergulho, um abraço, nisso a poesia parece-se muito ao ato de nadar, de atravessar, de romper, quando escrevo um poema atravesso o teu peito a nada e isso é a minha comunhão, o momento de erguer a cabeça e continuar a olhar o chão, aquele momento de acendimento que se dá antes das grandes viagens. O poema antecede a viagem. Ele dá-se num mergulho de luz, num momento de celebração, de encontro (com o todo e com o mínimo), com a flor que rompe o asfalto, com um mundo que se afirma quando o afirmamos. Este é o mundo, resta celebrá-lo, bendizê-lo, elevá-lo, acendê-lo, esse é o momento poético, o momento de criação de ênfase.

Nuno Brito.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O Desenhador de Sóis: O meu coração

O Desenhador de Sóis: O meu coração

O meu coração é um boi que atravessa este campo quente com seus olhos húmidos
mais as moscas que o picam de cada lado das orelhas,
é uma aguarela de criança com os seus traços seguros
Que deixou pequenos restos de areia, terra e alguns pelos de pincel
no centro do sol - O meu coração é uma memória do sol em cada célula,
 uma vontade de rir, Tão quente e tão quente - de tudo e de tudo…


O meu coração é um campo de girassóis,
Um pintor de olhos grandes que desenha caminhos a lápis de cor,
as fontes, o feno, o guarda-rios mais a sua família feliz
e um grande sol central no meio da cartolina,
por ele bebo a jorros, com os olhos todos:
Com a vida inteira.

O meu coração é uma criança que tira catotas do nariz
E tem no bolso o lenço mais sujo e mais seco que o avô lhe deu
O meu coração é só meu coração e não tem iniciais nem nome nem roupa,
E bombeia a música para todo o lado como qualquer coração feliz
E dança e brinca e agora mesmo ele é uma enchente de nós todos.
O meu coração é das cores mais quentes, das cores do fogo,
Nele se beijam as memórias mais doces e os faroleiros descansam
Depois de dar luz a tantos barcos na noite mais longa do ano.

Olha então de frente a nascente disto tudo e enche-se de luz,
sou então um animal feliz e abro muitos livros;
deixo tudo sublinhado: as casas, as ruas, as paisagens
os policias, os cães policias, o que as pessoas dizem e contam,
os segredos e os que os guardam,
O meu coração deixa a vida toda sublinhada a marcador fluorescente,
E escreve em todas as margens, e apaga e reescreve e completa e une,
e deita-se ao fim da noite para descansar, completo e cheio como um pôr do sol,
saciado e feliz como um vento quente que faz tremer as folhas lá em cima
e nasce e nasce e nasce ainda a cada instante.


Nuno Brito



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O Desenhador de Sóis


I.

Quero-te enquanto corrente de vida ininterrompida, corrente de vida contínua, o olhar líquido que abraça, o abraço mais quente do sul, essas pegadas que deixaste ao sair da ilha, ao fechar a porta. Quero-te enquanto porta aberta que tem o mesmo nome que o meu pai, as mesmas pegadas de saída, ali onde poderia ser areia, mesmo que só para escrever no cimento uma pegada fresca, um nome desenhado com uma chave, um coração - sempre um coração entre dois nomes - e qualquer data de qualquer século só para nos tornar mais palpáveis - o número da turma, o nome da escola - Dizer os amigos imortais seria um pleonasmo desnecessário. Imaginei hoje uma voz que me enchesse o coração e o meu coração encheu-se de luz. Ele hoje está cheio: é impossível apagar, riscar, parcelar, interromper uma vida. O caminho não é a lápis, nem a vida é uma corda ou fio, porque nada disto se parte a meio, nada disto se detém meu amor.


II.

Escrevo como quem desenha sóis que sabe de cor na memória. Depois de fechar os olhos a luz é perfeita.


III.

 Só aceito no humano o que aquece - o que verdadeiramente aquece - olho para cima e esqueço como um desenhador de sóis, quando fecho os olhos as ondas vêm limpar a minha memória. Hoje nasci algumas vezes e o meu batimento é seguro como estas montanhas ao fim da tarde.



domingo, 20 de dezembro de 2015

Os poemas sobre barcos


Talvez os textos mais perfeitos do nosso tempo estejam a ser escritos na nossa língua e falem do sepultamento dos navios, talvez só possamos falar sobre barcos, de países inteiros que se sentam à volta de uma mesa, de bandeiras que se abraçam.

Talvez só possamos falar de barcos numa cama, nas traseiras de um livro, com o Livro de Cesário Verde como mastro, vela e capitão do olhar, Guardador de Rebanhos todo sublinhado a verde - A minha pátria é a língua portuguesa e a minha família é o meu país – e talvez não haja Portugal, mas sim uma mistura ignóbil de "estrangeiros do interior" a governar-nos e a estropiar-nos o resto do que somos. (Pessoa, Carta a um herói estúpido) - Talvez esteja apenas cruel, frenético, exigente e não querer ver mais sofrimento em nenhuma cara do meu país seja a minha bandeira: bandeira imaterial de cor nenhuma, haste completa, cheia pelo vento quente como uma saia que abana lá em cima. Essa eu abano, com essa eu celebro, a essa eu bebo, essa eu abraço no tempo certo e não deixo cair.

domingo, 10 de maio de 2015

O pastor alemão


I.

O pastor alemão veio morar para o centro
onde a releitura do ódio parece a releitura do amor
trouxe na viagem e na língua ainda o sabor das lágrimas de Heidi
elas nunca tocaram o chão —
a meio da queda ele bebia-as
como um limite, doces e citrinas, sabiam a gin tónico com muito limão
o caminho em direção ao centro, a carreira de professor que ensina as estações
o medo vem a seguir ao outono e o desejo a seguir ao inverno
mas os ciclos são interiores: como as estações
a meio da queda o frio congela as lágrimas,
são agora flocos de neve que caem dos olhos de Heidi, parecem estrelas
cobrem os soldadinhos de chumbo de um manto branco.

II.

Despe Sebald… alguém
não é homem nem mulher
— porque os géneros mentem —
a sua cara é feita de traição,
de traição os nervos, o contorno do queixo,
o contorno das orelhas,
de traição os nervos,
o viso, a expressão,
de traição também o vento quente que lhe bate na cara.
Tem um derrame nos olhos por ter visto de mais,
e em todos os glóbulos a febre — vermelha e branca,
branca e branca, como a ficha dos homens que fugiram —
desenha a lápis um fundo onde morar
na expressão um afogamento interior.
Desaparece como personagem, Heidi
no lugar dela, uma memória que acende os olhos
o derrame do centro
para onde a memória foi morar
ele ou ela disfarçada de noite, porque os géneros mentem,
congela na descida,
o cair decidido no chão, rotundo,
os nervos coloridos disfarçados de noite.
  
III.

Puseram uns patins no pónei branco
e empurram-no para cima do lago congelado
os seus movimentos numa dança de susto,
o arfar do potro, o medo preso aos tendões
uma respiração nervosa diz-lhe que sobreviva —
o sangue a correr rápido
com o chão a fugir-lhe por baixo das patas,
o espectador era só um: Toda a Gente.
O desenho que ficou no gelo, as marcas dos patins,
da tração, do espasmo, da dança dos reflexos,
as asas de uma borboleta
no meio de um livro
o último leitor fecha-o,
noutra página um trevo de quatro folhas,
outros amuletos ainda
ganham vida dentro da Montanha Mágica.

IV.

Se nas mãos o mensageiro traz uma vela acesa
e se o mensageiro sofre de insensibilidade motora,
não dá conta que ela lhe queima as mãos
e de arder todo o mensageiro se faz nova mensagem
a expressão feita de muitas somas,
uma sede de novo, foi toda para os olhos,
desenha a linha da vida, o lápis, o pulso, o traço seguro
o fotógrafo da realidade pousa a máquina, sinal de abandono
tem só agora a retina e no branco da parte de trás dos olhos,
as duas asas da borboleta, invertidas,
afogadas na representação da órbita
o colecionador desta realidade faz uma nova cartografia do espaço,
 mas tem de ser ágil, a terra treme e muda muito rápido,
surgem novas penínsulas, novas ilhas, novos medos onde antes era terra,
e ao cartógrafo são exigidos reflexos rápidos,
porque também o mapa lhe foge por baixo das mãos.
o pulso seguro desenha a terra que treme
só a velocidade lhe é permitida, como salvação e nela
a releitura do ódio parece-se com a releitura do amor.
Talvez por isso ele tenha ido morar para o centro.

V.

De todos os frutos se destila o esquecimento
de todos os medos se destila a Crença —
os dentes alinhados transmitem coragem
os nervos tão seguros, os braços a remarem
por canais que abrimos e não se fecham
dos teus olhos destilo uma vontade nova,
todo o desejo, toda a viagem em nova anatomia
a rasgar o universo à escala humana.
A minha obsessão por braços, destilo das tuas mãos o caminho.
Da tua sede a minha sede, da tua língua a minha vigília.


VI.

Na anatomia a minha obsessão por braços
na geografia a minha obsessão por penínsulas:
aquilo que entra
e depois dos braços, as mãos, e depois os dedos
extremidades, pontas que recebem e dão, por isso perecíveis, vulneráveis.
E depois penínsulas cada vez mais finas e estreitas,
paredões, finíssimas línguas de areia que entram pelo mar:
parecem dedos, os faróis,
pescadores solitários com a lancheira ao lado, namorados
aqui nas pontas recebe-se e leva-se para o centro
ali um caminho ou uma artéria fina
em direção ao coração,
ao núcleo
ele pede a sensação que as pontas lhes dão.
As flores roxas fecham-se à noite e as flores amarelas fecham-se à noite.


VII.

Os soldadinhos de chumbo que o pastor alemão deixou no chão
cobertos pelo manto branco da neve que continua ainda a cair
o frio foi todo morar para dentro, nos ossos, nas pontas dos dedos.

Não é só a máquina que filtra mas também os olhos
deles nevam as lágrimas ou as estrelas
e elas voltam a subir para desenhar as nuvens do fundo,
também da queda se faz subida:
já não vertical, mas um espalhar-se contínuo infiltra-se em todo o lado.

Não sei de que ângulo a vi partir
subia
branca era a montanha
um moinho no cimo, um novelo dentro do moinho
um cão a guardar o moinho, um pastor alemão
a cauda a abanar assim que a viu, o riso foi todo para os homens
o resto da natureza ajuda a desenhá-lo
o que vi na tua cara
mais Deus que qualquer outra coisa
mais Criador do que tudo o branco cruza o branco.
Alguém me perguntou: de que falamos desde que nos conhecemos?
Os faróis parecem dedos.

Nuno Brito.