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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Eça de Queirós: A Correspondência de Fradique Mendes

Se tivéssemos tempo de ir À China ou a Ceilão V. toparia com o mesmo fenómeno no budismo. Dentro dessa religião foi elaborada a mais alta das metafísicas, a mais nobre das morais: mas em todas as raças em que ele penetrou, nas bárbaras ou nas cultas, nas hordas do Nepal ou no mandarinato chinês, ele consistiu sempre para as multidões em ritos, cerimónias, práticas – as mais conhecidas das quais é o «moinho de rezar». V. nunca lidou com este moinho? É lamentavelmente parecido com o «moinho de café»: em todos os países budistas V. o verá colocado nas ruas das cidades, nas encruzilhadas do campo, para que o devoto ao passar, dando duas voltas à manivela, possa fazer chocalhar dentro as orações escritas e comunicar com Buda que por esse ato de cortesia transcendente «lhe ficará grato e lhe aumentará os seus bens».

QUEIRÓS, Eça de (1999), A Correspondência de Fradique Mendes, Lisboa, Livros do Brasil.


Eça de Queirós: A Correspondência de Fradique Mendes

Depois de ler a carta, Fradique Mendes abriu os braços, num gesto desolado e risonho, implorando a misericórdia de Vidigal. Tratava-se como sempre, da alfândega, fonte perene das suas amarguras! Agora tinha lá encalhado um caixote, contendo uma múmia egípcia…
- Uma múmia? ...
Sim, perfeitamente, uma múmia histórica, o corpo verídico e venerável de Pentaour, escriba ritual do templo de Amnon em Tebas, o cronista de Ramsés II. Mandara-o vir de Paris para dar a uma senhora da Legação de Inglaterra, Lady Ross, sua amiga e Atenas, que em plena frescura e plena ventura, colecionava antiguidades funerárias do Egipto e da Assíria… Mas, apesar de esforços sagazes, não conseguia arrancar o defunto letrado aos armazéns da alfândega – que ele enchera de confusão e de horror. Logo na primeira tarde quando Pentaour desembarcara, enfaixado dentro do seu caixão, a Alfândega, aterrada, aviou a polícia. Depois calmadas as desconfianças de um crime, surgira uma insuperável dificuldade: que artigo de pauta se poderia aplicar ao cadáver de um hierogramata do tempo de Ramsés? Ele, Fradique, sugerira o artigo que taxa o arenque fumado. Realmente, no fundo, o que é um arenque defumado senão a múmia, sem ligaduras e sem inscrições, de um arenque que viveu? Ter sido peixe ou escriba nada importava para os efeitos fiscais. O que a Alfândega via diante de si era o corpo de uma criatura , outrora palpitante, hoje secada ao fumeiro. Se ela em vida nadava num cardume nas ondas do mar do Norte, ou se, nas margens do Nilo, há quatro mil anos, arrolava as reses de Amnon e comentava os «capítulos de fim de dia» - não era certamente da conta dos Poderes Públicos. Isto parecia-lhe lógico. Todavia as autoridades da Alfândega continuavam a hesitar, coçando o queixo, diante do cofre sarapintado que encerrava tanto saber e tanta piedade! E agora naquela carta os amigos Pintos Bastos aconselhavam, como mais nacional e mais rápido, que se arrancasse um «empenho» do Ministério da Fazenda, para fazer sair sem direitos o corpo augusto do escriba de Ramsés. Ora este empenho, quem melhor para o alcançar que Marcos – esteio da Regeneração e seu cronista musical?

QUEIRÓS, Eça de (1999), A Correspondência de Fradique Mendes, Lisboa, Livros do Brasil.