Mostrar mensagens com a etiqueta José Miguel Silva. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Miguel Silva. Mostrar todas as mensagens

domingo, 9 de fevereiro de 2014

José Miguel Silva: O Atalante – Jean Vigo (1934)


No dia em que fomos ver O Atalante
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
sou tão estúpido.



José Miguel Silva, in Poemas com Cinema: Antologia organizada por Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

José Miguel Silva: O Rapaz de cabelo Verde - Joseph Losey (1948)


O rapaz de cabelo verde era eu, em finais de setenta,
a fugir por entre silvas e valados, quando a turba
dos chacais acometia as minhas pernas de pardal,
e só de bicicleta me tirava eu de apuros, pois
as pedras, os apupos, as polés insistiam em mostrar-me
elementos capitais de filosofia política.

Pedalava sobre lágrimas, de volta para os braços
do meu sangue, trepava para o muro do quintal
e de lá esconjurava os assassinos: filhos de uma puta!

Anos depois - que alegria já não ser o mais 
cobarde, ser a mão que traz o pau, a bofetada;
e rir entre os iguais, no renque dos ungidos:
o primeiro cigarro, o exame dos colhões - que sorte
ver as lágrimas cair e não serem minhas.

José Miguel Silva, in Poemas com Cinema, org. de Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010.