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sexta-feira, 27 de março de 2015

Vasco Graça Moura: num barco no rio

num barco no rio,
num barco subindo
o rio te peço
que amanhã não vás,
que não vás embora
deste rio minho,
que não te separes
do rasto do barco,
dessa ágil espuma,
do vento a passar
pelos teus cabelos
e do sol na cara,
nem de mim que te olho
nos olhos, pedindo.
há gente nas margens?
haverá, não sei.
há velas, motores,
arvoredos, ilhas?
há esquiadores?
pedregulhos, perigos,
sombras da boega?
é forte a corrente?
sei lá. sei que peço
fiques mais um dia
e não quero, não,
que te vás embora.


Vasco Graça Moura, O caderno da casa das nuvens, 2010.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Vasco Graça Moura: princípio do prazer

à sua volta os pombos cor de lava
nos arabescos pretos do basalto
e gente, muita gente que passava
e se detinha a olhá-la em sobressalto

no seu olhar havia uma promessa 
nos seus quadris dançava um desafio
num relance de barco mas sem pressa
que fosse ao sol-poente pelo rio

trazia nos cabelos um perfume
a derramar-se em praias de alabastro
e um brilho mais sombrio quase lume
de fogo-fátuo a coroar um mastro

seu porte altivo punha à vista o puro
princípio do prazer que caminhava
carnal e nobre e lúcido e seguro
com qualquer coisa de uma orquídea brava

e nas ruas da baixa pombalina
sua blusa encarnada era a bandeira
e o grito da revolta na retina
de quem fosse atrás dela a vida inteira.