Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Martins. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Martins. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Miguel Martins


Primeiro ciclo da memória

1.
Do lado de fora, tudo parece pouco.
Borborinho, intemperança. Sono.
O rosto não faz prova da memória
mas a memória testemunha a evolução do rosto,
os pares de óculos que por ali passaram,
a fome e o consolo,
a morte de cada beijo,
o milagre do seu renascimento
e por fim, o extremo cansaço,
a gloriosa vitória da derrota.

Por dentro o tempo acumula-se,
Chuva numa piscina abandonada
às sombras de um inverno
que só se interrompe ante a imensa ternura dos teus olhos
nos dias em que o fogo me consome.

2.
Nos dias em que o fogo me consome
- mínima desolação grassando na aridez –
é como se da pele fizesse cacto
para depois lhe negar a pouca água
que não se nega nem aos estuporados.

Então, revejo os símbolos e os dias
e acho apenas vento nessa remissão de pena
que nos permite viver sem estarmos lá.~

É quando tu chegas, vinda do sol e da verdura,
trazendo na mão um cântaro de luz
e, na  tua bondade,
                                   então
                                               renasço.

3.
E se, na tua bondade, então, renasço,
assemelho-me aos frutos e às sementes
no íntimo milagre dessas coisas venais
que se vendem às cestas
mas comportam em si o próprio Cristo.

Incansáveis produtores da vida,
os frutos são um pequeno poema presente
que traz dentro de si canções futuras.

E, assim, que mais fará que de ti diga
que te venero como mãe derradeira
se apenas o silêncio faz sentido
diante da imensa  porta em que te ergues.

4.
Diante da imensa porta em que te ergues,
por detrás da qual os anjos oficiam,
prostro-me,
                        caminheiro sem caminho,
e faço por merecer a paz dos loucos.

Súbito, um clarão apenas perceptível
(um pingo de chuva a mergulhar na terra?)
Assegura-me de que sempre te verei
Ainda que me adiante de mansinho.

E essa certeza basta-me e redime
até os brutos seixos pontiagudos
que rasgam os pés dos peregrinos.

5.
E rasgaram os pés dos peregrinos
como se ser-se escravo os aviltasse,
exigir ao decurso da vida algo mais que meias-solas,
borbulhar como o rio onde cai a cascata.


Miguel Martins, in Colóquio Letras nº 191, Janeiro/Abril 2016.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Miguel Martins

O taberneiro


Eu sou O TABERNEIRO-da-cintura-para-baixo e cara de cavalo relinchando aos pagodes, mijando nas traseiras de Notre Dame de Damn You, trombando uma defunta num sonho de luz branca. Vinde dizer-me agora que agora é que começa essa novíssima Volta a Portugal de que saireis vencedores-de-vozes-cristalinas-e-piscinas-nos-bolsos-resguardados...– do alto destas pirâmides, responde Napoleão, uma chuva de das Caldas vos contempla; e avoengos, trajando neve e medos, não hesitarão, sequer, no arremesso. E eis que entra um côro de gospel fumegante, ressaca bacanal já pronta para outra, e me embala menino-dos-ditos-saraivada-«tu sabes lá o que é que tás páí a dzer». «É verdade, não sei, eu sou O TABERNEIRO, li Stendhal, Sade, Camilo, Hugo e Zweig sentado numa pipa de mecha ainda acesa, pelo qu'é natural a pouca retenção; desculpem se me cago – almocei a correr e já bebi três litros de sobras clientelares.»




Miguel Martins, O Taberneiro, Poesia Incompleta, 2010.