Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge de Sena. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge de Sena. Mostrar todas as mensagens

sábado, 12 de setembro de 2020

Jacques Prévert: Bairro Livre


Pus o boné na gaiola
saí com o pássaro na cabeça
E então
já não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
já não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bem
desculpe julguei que se fazia
disse o comandante
Não há de quê toda a gente pode enganar-se
disse o pássaro.

Jacques Prévert. em Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Porto: Edições ASA, 2003.




terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Jorge de Sena: A personagem total

A personagem total – aquela cuja vida é provàvelmente a soma das vidas de todas, quase todas, as outras, pelo menos, a sua vida nelas, sem que, em qualquer dos casos, elas tenham por isso uma vida menos verdadeira, uma existência menos real, uma unidade própria menos completa. Mas, porque não há geométricas fronteiras entre os espíritos, nunca se poderá saber até que ponto vai a interdependência deles e até como e quando será lícito considerá-los fosforecências de uma unidade comum.
Se os pensamentos não tivessem origem, talvez isto pudesse ser verdade.

Jorge de Sena, Monte Cativo e outros projectos de ficção.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Jorge de Sena - Conheço o Sal


 Conheço o sal da tua pele seca
Depois que o estio se volveu inverno
De carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
Quando das bocas se estreitavam lábios
E o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
Os louros ou cinzentos que se enrolam
Neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
Como nas praias o perfume fica
Quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
Da tua língua, o sal de teus mamilos,
E o da cintura se encurvando de ancas.

A todo sal conheço que é só teu,
Ou é de ti em mim ou é de mim em ti,
Um cristalino pó de amantes enlaçados.

                                                                                         Jorge de Sena