quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Eugénio de Andrade: Matéria Solar

 30.

Levei as mãos aos olhos para ver
se mesmo em ruína ainda existias,
mergulhei no sol os dedos todos,
vêm molhados das águas fatigados –
o corpo perdia-se frente aos dias.


Eugénio e Andrade. Matéria Solar. Porto: Limiar, 1980.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Beatriz Hierro Lopes

[Infâmia]

A vadiagem de sino na mão, garrafa cortada e olhos cegos, tronco seco e polido com que bate compassivamente no chão, marcando tempos aos olhares que se desviam ou se fixam nesta marcha de miséria entre vagões no subterrâneo. De olhos fechados, cega vadia, cão vadio, latindo língua de sino, a mais fiel Portuguesa de há quantos séculos: o que deveríamos ter por hino à glória de uma nação enfileirada numa procissão de pernetas, manetas, cegos ou cancerosos, pedintes ou calados. Aos que não se enfileiram: este vagão é sala de espera, e sem que alguém saiba, carrilhão de pequeníssimos gestos, vozes cruas que, no trajecto, curvarão cabeça, corpo e dedos, baloiçando primaveras, verões inteiros entre as margens dos dentes, sem pão que haja além destas palavras de cobre dando pressa ao vagar de deus oculto em cada sinal de emergência. Trago ao peito medalha de prata, sino encabeçado por três rostos de asas pequenas; tenho a língua do ferro, e talvez por isso, talvez só por isso, saiba do cobre e da diferença multicolor entre este e a ferrugem dos ponteiros que ancoram passados à minha boca: o teu, o meu, o nosso. Sou vadia e o mesmo é dizer que nasci do fundo do mar onde naufrágios sepultam o progresso de outras vontades. Não tenho hino, glória ou fidelidade. E se tenho por língua esta língua, é dela o toque, a vibração contra a emergência de haver quem nos salve deste infame orgulho de ser português.


Beatriz Hierro Lopes, [Espartilho], Coimbra, Debout Sur L’Oeuf, 2015.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Até a solidão morre um dia
Por mais que tente não consigo ver o fogo
Com as cervicais expostas e escamas e asas
O dragão pega o crânio pelos colarinhos
Cospe água fria, exige que finja
Que o peso da vida toda é menos do que o de uma pluma
Sete anos a professar um santo amortalhado em setas
A pluma não aguenta o peso da vida
Nem a vida se verte num copo de tinto.
Uma cosmogonia genital de promessas fátuas
Em dores infligidas que em ódio alastram
Cegamente esconjura reflexos, imagens.
Sete anos professados por uma barbatana espelhada
Que traiu a infância numa casa de banho
Sete vezes trezentos e sessenta e cinco despertares lancinantes
Em delírio amamentados.


Leonard Cohen: How to Speak Poetry


Take the word butterfly. To use this word it is not necessary to make the voice weigh less than an ounce or equip it with small dusty wings. It is not necessary to invent a sunny day or a field of daffodils. It is not necessary to be in love, or to be in love with butterflies. The word butterfly is not a real butterfly. There is the word and there is the butterfly. If you confuse these two items people have the right to laugh at you. Do not make so much of the word. Are you trying to suggest that you love butterflies more perfectly than anyone else, or really understand their nature? The word butterfly is merely data. It is not an opportunity for you to hover, soar, befriend flowers, symbolize beauty and frailty, or in any way impersonate a butterfly. Do not act out words. Never act out words. Never try to leave the floor when you talk about flying. Never close your eyes and jerk your head to one side when you talk about death. Do not fix your burning eyes on me when you speak about love. If you want to impress me when you speak about love put your hand in your pocket or under your dress and play with yourself. If ambition and the hunger for applause have driven you to speak about love you should learn how to do it without disgracing yourself or the material.
What is the expression which the age demands? The age demands no expression whatever. We have seen photographs of bereaved Asian mothers. We are not interested in the agony of your fumbled organs. There is nothing you can show on your face that can match the horror of this time. Do not even try. You will only hold yourself up to the scorn of those who have felt things deeply. We have seen newsreels of humans in the extremities of pain and dislocation. Everyone knows you are eating well and are even being paid to stand up there. You are playing to people who have experienced a catastrophe. This should make you very quiet.  Speak the words, convey the data, step aside. Everyone knows you are in pain. You cannot tell the audience everything you know about love in every line of love you speak. Step aside and they will know what you know because you know it already. You have nothing to teach them. You are not more beautiful than they are. You are not wiser. Do not shout at them. Do not force a dry entry. That is bad sex. If you show the lines of your genitals, then deliver what you promise. And remember that people do not really want an acrobat in bed. What is our need? To be close to the natural man, to be close to the natural woman. Do not pretend that you are a beloved singer with a vast loyal audience which has followed the ups and downs of your life to this very moment. The bombs, flame-throwers, and all the shit have destroyed more than just the trees and villages. They have also destroyed the stage. Did you think that your profession would escape the general destruction? There is no more stage. There are no more footlights. You are among the people. Then be modest. Speak the words, convey the data, step aside. Be by yourself. Be in your own room. Do not put yourself on.
This is an interior landscape. It is inside. It is private. Respect the privacy of the material. These pieces were written in silence. The courage of the play is to speak them. The discipline of the play is not to violate them. Let the audience feel your love of privacy even though there is no privacy. Be good whores. The poem is not a slogan. It cannot advertise you. It cannot promote your reputation for sensitivity. You are not a stud. You are not a killer lady. All this junk about the gangsters of love. You are students of discipline. Do not act out the words. The words die when you act them out, they wither, and we are left with nothing but your ambition.
Speak the words with the exact precision with which you would check out a laundry list. Do not become emotional about the lace blouse. Do not get a hard-on when you say panties. Do not get all shivery just because of the towel. The sheets should not provoke a dreamy expression about the eyes. There is no need to weep into the handkerchief. The socks are not there to remind you of strange and distant voyages. It is just your laundry. It is just your clothes. Don't peep through them. Just wear them.
The poem is nothing but information. It is the Constitution of the inner country. If you declaim it and blow it up with noble intentions then you are no better than the politicians whom you despise. You are just someone waving a flag and making the cheapest kind of appeal to a kind of emotional patriotism. Think of the words as science, not as art. They are a report. You are speaking before a meeting of the Explorers' Club of the National Geographic Society. These people know all the risks of mountain climbing. They honour you by taking this for granted. If you rub their faces in it that is an insult to their hospitality. Tell them about the height of the mountain, the equipment you used, be specific about the surfaces and the time it took to scale it. Do not work the audience for gasps ans sighs. If you are worthy of gasps and sighs it will not be from your appreciation of the event but from theirs. It will be in the statistics and not the trembling of the voice or the cutting of the air with your hands. It will be in the data and the quiet organization of your presence.
Avoid the flourish. Do not be afraid to be weak. Do not be ashamed to be tired. You look good when you're tired. You look like you could go on forever. Now come into my arms. You are the image of my beauty.



Leonard Cohen.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Safo



LII. 

Quem é belo é belo de ver, e basta;

mas quem é bom subitamente será belo.


Safo, Poemas e fragmentos de Safo: tradução de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1974.



Safo  de Charles Auguste Mengin



Capicua: Soldadinho



Capicua, - Sereia Louca.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Cesário Verde: Flores Velhas



Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,
Aonde tanta vez a lua nos beijou,
E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um voo.

Em tudo cintilava o límpido poema
Com ósculos rimados às luzes dos planetas;
A abelha ainda zumbia em torno da alfazema;
E ondulava o matiz das leves borboletas.

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
A imagem que inspirava os castos madrigais;
E as virações, o rio, os astros, a paisagem,
Traziam-me à memória idílios imortais.

Diziam-me que tu, no flórido passado,
Detinhas sobre mim, ao pé daquelas rosas,
Aquele teu olhar moroso e delicado,
Que fala de langor e de emoções mimosas;

E, ó pálida Clarice, ó alma ardente e pura,
Que não me desgostou nem uma vez sequer,
Eu não sabia haurir do cálix da ventura
O néctar, que nos vem dos mimos da mulher.

Falou-me tudo, tudo, em tons comovedores,
Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes;
As falas quase irmãs do vento com as flores
E a mole exalação das várzeas rescendentes.

Inda pensei ouvir aquelas coisas mansas
No ninho da afeição criado para ti,
Por entre o riso claro, e as vozes das crianças,
E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri.

Lembrei-me muito, muito, ó símbolo das santas,
Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas,
E sob aquele céu e sobre aquelas plantas
Bebemos o elixir das tardes perfumadas.

E nosso bom romance escrito num desterro,
Com beijos sem ruído em noites sem luar,
Fizeram-mo reler, mais tristes que um enterro,
Os goivos, a baunilha e as rosas de toucar.

Mas tu agora nunca ah! Nunca mais te sentas,
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
E eu não te beijarei, às horas sonolentas,
Os dedos de marfim, polidos e delgados…

Eu, por não ter sabido amar os movimentos
Da estrofe mais ideal das harmonias mudas,
Eu sinto as decepções e os grandes desalentos
E tenho um riso mau como o sorrir de Judas.

E tudo enfim passou, passou como uma pena
Que o mar leva no dorso exposto aos vendavais,
E aquela doce vida, aquela vida amena,
Ah! Nunca mais virá, meu lírio, nunca mais!

Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante!
Quando ontem eu pisei, bem magro e bem curvado,
A areia onde rangia a saia roçagante,
Que foi na minha vida o céu aurirrosado,

Eu tinha tão impresso o cunho da saudade,
Que as ondas que formei das suas ilusões
Fizeram-me enganar na minha soledade
E as asas ir abrindo às minhas impressões.

Soltei com devoção lembranças ainda escravas,
No espaço construi fantásticos castelos,
No tanque debrucei-me em que te debruçavas,
E onde o luar parava os raios amarelos.

Cuidei até sentir, mais doce que uma prece,
Suster a minha fé, num véu consolador,
O teu divino olhar que as pedras amolece,
E há muito me prendeu nos cárceres do amor.

Os teus pequenos pés, aqueles pés suaves,
Julguei-os esconder por entre as minhas mãos,
E imaginei ouvir as conversas das aves
As célicas canções dos anjos teus irmãos.

E como na minha alma a luz era uma aurora,
A aragem ao passar parece que me trouxe
O som da tua voz, metálica, sonora,
E o teu perfume forte, o teu perfume doce.

Agonizava o sol gostosa e lentamente,
Um sino que tangia, austero e com vagar,
Vestia de tristeza esta paixão veemente,
Esta doença, enfim, que a morte há-de curar.

E quando me envolveu a noite, noite fria,
Eu trouxe do jardim duas saudades roxas,
E vim a meditar em quem me cerraria,
Depois de eu morrer, as pálpebras já frouxas.

Pois que, minha adorada, eu peço que não creias
Que eu amo esta existência e não lhe queira um fim;
Há tempos que não sinto o sangue pelas veias
E a campa talvez seja afável para mim.

Portanto, eu, que não cedo às atracções do gozo,
Sem custo hei-de deixar as mágoas deste mundo,
E ó pálida mulher, de longo olhar piedoso,
Em breve te olharei calado e moribundo.

Mas quero só fugir das coisas e dos seres,
Só quero abandonar a vida triste e má
Na véspera do dia em que também morreres,
Morreres de pesar por eu não viver já.

E não virás, chorosa, aos rústicos tapetes,
Com lágrimas regar as plantações ruins;
E esperarão por ti, naqueles alegretes,
As dálias a chorar nos braços dos jasmins!



Cesário Verde, in V.A., A Saudade na Poesia Portuguesa: Seleção e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa, Portugália, 1967.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Mar Português (O Futureiro)

  
O que falta é beber água.
Mar salgado, lágrimas de Portugal,
Isto bebe-se melhor a martelo
com o Passado a arder na garganta, 
o cerejo e o vinho na queixada,
e olhar para o mar.
Olhar sempre para o mar,
 como um Encoberto (de bónus) 

no fundo do aguardente velho.

Tomaz Kim: Elegia



O teu corpo,
uma vez o meu altar e pecado,
O teu corpo
agora amarelo e viscoso,
hostil como a freira enclausurada,
é uma forma obscena ao sol.

Tu estás morta –
tu, o meu pão e vinho santo!

Tu foste
a minha dor,
o sol
            e a chuva;
Tu foste
saudade,
tudo
            e desejo
quando nós
            sofrendo,
quando nós
encontrámos
            uma nova luz
            uma nova fé!

Tu estás morta –
Tu, o meu pão e vinho santo.

V.A., A Saudade na Poesia Portuguesa: Seleção e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Lisboa, Portugália, 1967.


Mário Cesariny: Discurso ao príncipe de Epaminondas, mancebo de grande futuro


Mário Cesariny: Discurso ao príncipe de Epaminondas, mancebo de grande futuro

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão      a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espelho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral rasgando-nos os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem

 Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação, Lisboa, Assírio & Alvim, 1991.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A rua mais estreita



Numa das ruas mais estreitas da cidade há velozes migrações humanas que aos pássaros parecerão demasiado rápidas, manchas confusas num movimento estranho, observadas de cima para baixo entre as duas filas de telhados que quase se tocam, ali onde um gato pode facilmente saltar para o outro lado da rua; é uma das ruas mais estreitas da cidade, a mãe que agora amamenta a filha no último andar raramente vem à janela, há também pouco sol para secar a roupa. Ali onde há pouco um se gabava de que com aquela gaja tinha sido como foder com duas focas ao mesmo tempo, onde tudo é deixado como a uma casa de penhores colossal, há poucos minutos um homem tirou do dedo o anel de casamento e deixou-o ali ficar, na rua, para sempre, em troca de outras migrações, (variantes da fome), que essa velhinha que pode ter só 37 anos procura no chão, a pedra mais pequena, mais branca da rua. Parece-se ao fantasma de uma gaivota - paralítica, sem asas e impossibilitada de olhar para cima, deverá haver um qualquer mito grego para ela, um castigo dos deuses por alta traição, a falsa previsão sobre o futuro de uma cidade que logo é queimada pelos inimigos do rei. Estar sempre na mais estreita linha que separa os homens e os animais, presa àquela rua como os fios de secar a roupa por baixo das janelas que ali são quase inúteis. Às vezes uma pequena linha de luz atravessa a janela e ri-se ao encher o quarto onde a mãe amamente a filha, uma corrente de vida que se expande e ilimita quando pensa em migrar para fora da rua, e a luz dá em cheio nas duas, no sorriso das duas, no quarto todo, corrente de luz que se ilimita e acende, mesmo depois do sol se esconder por trás das casas. Pouco tempo de exposição que não apaga nem quebra uma corrente, uma vontade, um laço - Há uma filha entre os braços - a migração dos pássaros que no fim do Verão partem para África para voltarem no ano seguinte - Em busca de calor e comida, eles não poderiam perceber as velozes migrações destas ruas, destes grupos que se formam e dissolvem à velocidade de certos sons, que se rodeiam rápido e desfazem ainda mais rápido, em círculos ou filas que se tornam manchas e desaparecem a correr - que aparecem rápido demais e caem rápido demais - que sobem e baixam rápido as escadas seguindo outras manchas que abrem as suas portas, que se aninham e encostam aos muros como dormideiras. Fiéis a esta linha entre a vida e a morte como as gaivotas às cidades marítimas. Numa das ruas mais estreitas da cidade há migrações que os pássaros não entendem – só nisso, talvez, são mais livres que os homens.


domingo, 18 de janeiro de 2015

Macedonio Fernández




Mas peço ao leitor ajuda para não me meter em incidências. Às vezes perde-se a vida num incidente, sendo a vida útil e os incidentes inúteis. Melhor é seguir praticando a longevidade.




Macedonio Fernández, Papéis do Recém-chegado.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

As mães de Ayotzinapa*



Vivos os levaram, vivos os queremos
Cartaz usado nos protestos que se seguiram ao massacre de Ayotzinapa

Há as que nunca desligam a televisão para ver os filhos pintados em todas as faixas das manifestações e numa delas ver escrito a fundo negro que Um País que semeias corpos colhe tempestades. Há as que as já apagaram para sempre e agora servem de prateleira aos últimos retratos dos filhos. A vida foi ali deixá-las nos troncos mais finos como pulsos onde estão gravados os nomes dos filhos. A fina pele dos barcos, os seus nomes nos pulsos. Há ainda os corpos que se estendem nas pontes pedonais que atravessam as estradas do norte, os coyotes e a peregrinação das mulas, os pés inchados de caminhar no deserto, tapetados por baixo com erva de marijuana para não deixar pegadas no deserto. Podia imitar aqui essa subida frágil para norte, como uma árvore, vista de cima, a fila dos homens, o tronco grosso e central na linha férrea da Bestia, o comboio que começa em El Salvador, até os troncos mais finos do norte, cada vez mais finos quando atravessam o deserto de Sinaloa ou a Baixa Califórnia, e os que já muito finos e quebrados se dividem ou partem em Tijuana, os homens que se perdem no deserto, como paus finos partidos, os que chocam num muro uni-nacional, como tangerinas atiradas contra a parede, os troncos que ficam no rio e não chegam a ser molhados. Há os que chegam, os que tiveram filhos, ramificações que nunca vão regressar, os que mesmo partidos desistiram de voltar à raiz, porque nascidos da mesma semente não voltariam a pisar uma terra que semeia corpos. Há também os que foram forçados a regressar - depois de limpar os bares mais sujos de Las Vegas, a esta alegoria débil de uma árvore forte, onde todas as folhas estão acesas, entrelaçadas de luzes e celebração até na morte Há as mães de Ayotzinapa, que quando querem desistir, bebem mais um pouco de pulque, com outros filhos nos braços. Trabalham sem falar, não falam espanhol -falam mixteco e falam sempre no presente. Mesmo depois das evidências da fossa comum, dos corpos queimados com gasolina, uma delas diz a apontar para uma cama de ferro: Esta é a cama dele, Eu estou à espera que regresse, todos os dias estou à espera que regresse. Uma ou outra compra qualquer jornal sensacionalista para ver uma cara que seja sua, uma impressão que reconheça, uma pegada, em qualquer deserto que seja, que desminta um país que semeia corpos. Falam em mixteco, desconhecem o espanhol e como em quase todas as línguas indígenas o passado é um tempo pouco usado - Há uma língua do presente porque há um passado sempre pronto para ser dissolvido.
A mãe aponta para a cama e diz: Esta é a cama dele, o meu filho dorme aqui.


*O Massacre de Ayotzinapa deu-se em 26 de Setembro de 2014 quando 43 estudantes se dirigiam para uma manifestação contra o abuso do poder local, alguns dos corpos foram queimados e arderam durante várias horas até as cinzas serem atiradas ao rio, outros foram enterrados numa fossa comum. O governador de Ayotzinapa deu a ordem do massacre que foi levado a cabo por grupos de narcotraficantes fortemente militarizados. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015


Os poemas sobre barcos

Falamos de barcos e gerações sem falar de barcos e gerações, porque os símbolos já se partiram em certos olhares.

Talvez os textos mais perfeitos do nosso tempo estejam a ser escritos na nossa língua e falem do sepultamento dos navios, talvez só possamos falar sobre barcos, de países inteiros que se sentam à volta de uma mesa, de bandeiras que se abraçam.

Talvez só possamos falar de barcos numa cama, nas traseiras de um livro, com o Livro de Cesário Verde como mastro, vela e capitão do olhar, Guardador de Rebanhos todo sublinhado a verde - A minha pátria é a língua portuguesa e a minha família é o meu país – e talvez não haja Portugal, mas sim uma mistura ignóbil de "estrangeiros do interior" a governar-nos e a estropiar-nos o resto do que somos. (Pessoa, Carta a um herói estúpido) - Talvez esteja apenas cruel, frenético, exigente e só já não queira ver mais sofrimento, em nenhuma cara do meu país, que é sempre a bandeira do meu país – Olhamos em diagonal, quase a meia haste – uns dentro dos outros – Sabemos sempre do que falamos quando falamos de amor, só não podemos perceber – quando o coração acelera, porque é que essa bandeira chora, bebe e treme, porque é que ela nos abandona, porque é que não a abraçamos no tempo certo. 

Beatriz Hierro Lopes: Do sepultamento dos navios


Tenho uma janela que abre portas para o mundo: o início e o fim da minha avenida. Tenho estas horas de tédio em que me escondo nos punhos dos sobretudos que debaixo da minha janela passam. No punho, junto ao pulso, mais perto do que no peito ou do que no interior da boca, sei do que pensam, do que dizem a si mesmos, das justificações que repetem para calar este desejo de corte. Esta vontade de lâmina.
Somos este tempo e este tempo é da idade dos que vestem sobretudos e suportam o mais longo frio sobre os ombros. De olhar baixo. Voz baixa, rente à terra sobre a qual somos os pontos menores de uma costura que remedeia este ter-se nascido costeiro.
Não somos mais filhos de nossos pais, nem netos ou bisnetos de nossos avós e bisavós, não crescemos à margem da terra que vê partir, que vê chegar, os navios. Somos a memória mais presente do sepultamento da nossa própria História, a três milhas a sudoeste da costa de Portimão em Outubro de dois mil e doze.
Justificamos a noite com a ausência de um caminho. Fazemos trocadilhos com o que caminhou sobre as águas enquanto nós, marés várias, caminhamos sobre praças: uma ou outra vaga marítima lava o rosto às pedras enquanto duas gerações embalam a tristeza com o medo, desviam a revolta com silêncio, sacrificam palavras pela memória de frases não ditas. Somos disto, desta espécie de derrota vestida de negro, óculos redondos e guarda-chuva indiano num tempo em a que só os mortos dão razão. Submersos, respiramos o interior da cor e, o interior da cor, sem luz ou olhos que lhe encontrem salvação; lentos gestos afogados, lentas palavras colhidas do outro lado da trincheira. E nos punhos isto, nos pulsos isto: esta vontade imensa de quebrar. Beber toda esta água, secar o futuro no interior das mãos. Inscrever uma nova cartografia que nos faça costa sem naufrágios nem saudade.

Beatriz Hierro Lopes.

Thomas Pynchon: Celebridade


- Ele disse algum coisa?
- Não.
Absolutamente nada?
O doutor sacudiu a cabeça mecanicamente e agregou uma nova entoação à sua canção fúnebre de todas as tardes. E na realidade não me inclino muito a crer que o fará.
- Nunca?
- Essa é a minha opinião.
- Mas às vezes vocês enganam-se. Não é assim? Quero dizer que às vezes o cancro desaparece sem razão. É certo? – Sim – Admitiu Witt -. E às vezes de repente os cegos começam a ver, os surdos a ouvir e os coxos a caminhar. Os tontos escrevem poemas. Há um prémio novel esperando o idiota que defina a palavra “milagre”.




Thomas Pynchon, Celebridade.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A última fábrica de fósforos


 Um retrato é sempre parcial, a sua força é ser incompleto, capta quanto muito o instante-luz de uma vida, recriada por outra. O outro sob a luz de Eros, aguarelas que nunca serão as mesmas, corrente de uma vida que por uns segundos é observada no seu movimento e por isso nunca o retrato está parado. Nem sequer entre dois instantes ele é fixo. Este pode ser feito por quem está no quinto andar (traseiras), ali onde ele fuma um cigarro, uma ponta acesa que se vê ao longe, de cima para baixo, ali onde cai a cinza: a ilha – que também ele não sabe por onde se entra, quem vive nas suas traseiras, entre o som dos galos que ocupam, como os homens, algumas pequenas hortas abandonadas, entre casitas e casitas, zinco, telhas, construções para trás, tubos de exaustão de restaurante, mosaicos azuis de casas centenárias onde pousam as gaivotas, o som de uma festa brasileira, gatos malhados e negros, hortas com um triciclo, ao lado, uma criança que brinca sempre sozinha. Ali onde cai a cinza, onde a roupa seca e escorre, onde algumas marquises e varandas fechadas foram tapadas com móveis, tábuas de passar a ferro, mecanismos velhos, caixas de diferentes cores, a máquina de lavar, coisas amontoadas por gerações que forram agora, num mosaico aleatório os vidros traseiros. Porque para ali já há muito que se desistiu de olhar, para onde pinga a roupa de muitos andares, a cinza da festa brasileira, do (homem ou mulher do quinto) Ali a parte de trás, da nossa cidade, o lado B do nosso país: a ilha. Parcelada quando a cinza cai e o velho dos gatos que sai da ilha entre outras coisas para recolher picas do chão - vê no quinto andar traseiras o brilho do cigarro, sem ver quem o fuma, ao longe, de baixo para cima, o cigarro parece um farol – intermitente, ao longe, em Gaia, para quem está quase em Espinho, perto da antiga fábrica de fósforos. E, entre os dedos, esse pequeno farol ilumina-se às vezes com uma vida maior, acelerado, no instante em que o fumo é puxado rápido para os pulmões e parece uma estrela prestes a explodir para apagar-se para sempre, fumada até ao fim, apagada. Pode não ser um homem, pode ser uma mulher, a brasileira, o romeno, a travesti negra, nisso a falta de luz nivela, só faróis a tremer ao fundo, no fim dos braços, na pedra, nas varandas, sem luz não se percebe onde acabam as traseiras e começa a ilha, onde acaba a terra e começa o mar, onde é céu ou onde é água. Onde é cidade e onde é a parte de trás. Nisto, o passado confunde-se - O velho dos gatos, acumula anos de trabalho num armazém de pirotecnia, outros tantos na extinta fábrica de fósforos de Espinho, e ele veio entre tantos ocupar, entre outros, a ilha onde cai a cinza e os pingos gordos da roupa, uma ou outra rodilha que cai no zinco, um ou outro pacote vermelho de comida chinesa.
É visto todos os dias, fora da ilha, nas ruas visíveis da cidade. No grande contentor do lixo ao lado da frutaria podemos vê-lo apanhar, entre tangerinas podres e outras que se aproveitam menos mal, grandes ananases que dará para aproveitar mais de metade, feios de mais para estarem nas caixas, fruta que já vem pisada e que os fornecedores não aceitam como devolução – Dará para a sobrinha. Os mesmos contentores onde ao lado recolheu todo o seu mobiliário, três cadeiras onde amontoa alguns casacos que também o lixo e a caridade lhe ofereceram, e uma fotografia da mulher, que enquanto viva, fazia bolacha americana para venderem nas praias de Espinho e depois de Leça. A sua sobrinha ainda sabe a receita e os dois não abandonariam o ofício, não fosse terem de se esconder por causa da fiscalização alimentar, um crime público de que têm de fugir só por ter sido a Europa a cometê-lo, a sobrinha que vai entrar agora nas aulas de empreendedorismo obrigatório – para suster o núcleo com dignidade, dois, será difícil não dizer, quando alguém ao lado do contentor se demora a despejar garrafas no vidrão e o observa, que a fruta não é para ele, que é para os animais. E em que animais pensará? De cima para baixo ou de baixo para cima, como um farol trémulo entre os dedos, o retrato será sempre parcial - o mais parcial. Capta quanto muito um movimento orgânico. Nem sequer entre dois instantes ele é fixo.

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O CAPITÃO SONINHO





Ver com os
sentidos todos juntos, como se ver não exigisse
crença nenhuma. Como a música.
Rosa Maria Martelo, Matéria.

O Capitão Soninho veio com uma estrela debaixo do braço e os planetas rodavam à volta dele, ouvia-se um coração a bater ao lado da estrela (na almofada) e os planetas adormeciam quando não lhes dava o sol e acordavam quando lhes davam os raios em cheio. Mas havia sempre alguém acordado do outro lado, o Capitão Soninho com a estrela debaixo do braço e o coração a bater ao lado da estrela - Amor nos dedos e nas mãos, atrás das orelhas um sopro contínuo que o sol iniciou - Aqui no chão seres lançados para a vida agarram, abraçam, prolongam - criam sempre outra, unidos na mesma que está a começar agora, apanhados a meio num documentário sempre incompleto sobre a Ilha dos Amores – De um qualquer ângulo, ao fundo, pode alguém perguntar, ao sair ou ao entrar na Estrela dos Penhores: Como podem as nossas vidas serem vistas da ponte, de baixo, de cima, do último tabuleiro – na outra margem, nesta ou no meio? Apanhados a meio de um documentário, que quase parece um país - Acelerados por um olhar quente, seja ele um fio, seja ele o riso sincero dos trabalhadores da luz. Todo, cheio / Em cheio. A dar aqui no chão onde as pessoas se abraçam como faróis, caem como faróis / fazem planos para o futuro, como faróis, a meio da subida, paisagem acelerada pelo beijo dos amantes, banhistas felizes, bolacha americana. Há ainda um fio, um fio que nos une, porta, ponta, estrela caída, braços sabor a subida, diários abertos, chaves, planos, um herói de carne e osso que nos faz adormecer, dois anjinhos abraçados, agora mesmo, a dormir, numa expressão do renascimento, as cabeças juntas na mesma respiração e um dedo pequenino de criança dentro da narina da mãe, que sem acordar, afasta a cabeça num leve reflexo de sono. Aqui no chão onde as ondas batem, onde o sol chega, onde, nivelados, os homens se deixam ver - Foi-nos dado remar e remar é a nossa forma de ver - O aviãozinho a Portugal, A vida de Marinheiro, esses braços que sobem como penínsulas pelo meu peito e o bater do sol agora dentro - Futuro, enfim, num único símbolo resumido: o seu vínculo de luz com tudo. Peço então esse riso-estrela, gerador único do universo, que não deixe de bater no teu coração, que te abrace em todas as subidas, que não te deixe – não te vai deixar nunca - sem que a luz do coração se expanda. Peço então o riso, cheio, porque só ele permite que as estrelas (infanticidas por natureza) se mantenham vivas e não cortem as suas pontas, que as ligações frágeis e seguras não percam vida ou se extingam até à anorexia, perdendo luz e força, ou se arrebentem por dentro sobre o seu próprio eixo – Porque só ele é deus, só ele cavalga e molda verdadeiramente as caras, só ele cria luz e espelhos de espuma, e no fim, só ele goza a poesia. Quem escreve “O Fim da História” mais não faz do que a começar.

Sou a vontade em tudo malhada de te ver sorrir*

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domingo, 11 de janeiro de 2015

Beatriz Hierro Lopes:



da irredutibilidade

A minha família é o meu país, disse-o, despedem-se deles como se fossem para a guerra, como se ir para a guerra fosse sair deste país quando a guerra é ficar cá, continuou. Eu, que a ouvi, pouco sei de guerra. Guerra, para mim, é a voz da minha avó paterna a dizer-me daqueles dias em que o seu país fora uma casca de batata, ao falar-me da Guerra Civil Espanhola. Tão longínqua como qualquer outra. O meu país, a minha Cidade, não são cascas de batata ou a metade da cebola ou limão guardada no frigorífico. Gosto de pensar que a nacionalidade não é um electrodoméstico. Um mecanismo que serve à utilidade. Não é útil ser-se português. Imagino que nunca o tenha sido. Assim como creio que também não é útil ser-se espanhol, italiano ou grego.
Há mais de trezentos anos que a minha família materna nasce e morre no Porto. Não lhes sei o rosto, apenas nome, apelidos, profissões, datas de morte e nascença. Vieram de terras ainda mais frias. Começaram por curtir peles e fabricar velas de sebo. Desde há sete gerações que somos baptizados na mesma igreja. Subimos a mesma escadaria de Santo Ildefonso para expurgar pecados, muito embora, num dado momento da história, todas as velas que ardessem fossem nossas. Demos luz ao corpo de santos. É legítimo dizê-lo, como seria legítimo eu dizer que também a minha família é a minha cidade e o meu país.
Não acredito na utilidade da naturalidade. Nasci na freguesia da Sé, no mesmo ano de mil novecentos e oitenta e cinco em que nasceram a maioria dos novos emigrantes. Com uma excepção. Não serei portuguesa em outro país que não seja o meu. Sou deste tempo em que não há fronteiras, em que a língua se desdobra em muitas outras línguas numa promiscuidade que se quer intelectual, cosmopolita, europeia. Sou deste tempo em que quem não troca de língua alimenta a boca a migalhas. Ser-se português em Portugal é ser-se clandestino. É ser-se moralmente ilegal. Mas eu não nasci para a clandestinidade nem para a imoralidade ilegal. Talvez por isso haja quem me chame de irredutível.
Nasci nesta família e esta família ensinou-me que há gente que não se curva perante a fome e perante o medo. Que há quem não se deixe contaminar por esta imensa chantagem social que resume a vida portuguesa à sobrevivência do português. Tenho apenas uma língua. A minha fronteira é quando a razão legitima a cobardia e dá asilo à corrupção. Talvez seja cismática quando, ao fim de um ano de desemprego, digo que não passarei falsos recibos verdes. Que não admitirei que me paguem um ordenado abaixo do salário mínimo nacional. Que não sobreviverei pacatamente à sombra da reforma de quem trabalhou.
Tenho vinte e nove anos. Quero um emprego com um contrato legal e o mínimo que se paga a um licenciado. Tenho fome mas não como migalhas. Sou irredutivelmente portuguesa. O mesmo é dizer que nasci em Portugal, que nasci no Porto, e que ainda acredito que a cidade e o país que me viram mesmo antes que eu os visse, não me deixarão morrer.


Beatriz Hierro Lopes