domingo, 11 de janeiro de 2015

Beatriz Hierro Lopes:



da irredutibilidade

A minha família é o meu país, disse-o, despedem-se deles como se fossem para a guerra, como se ir para a guerra fosse sair deste país quando a guerra é ficar cá, continuou. Eu, que a ouvi, pouco sei de guerra. Guerra, para mim, é a voz da minha avó paterna a dizer-me daqueles dias em que o seu país fora uma casca de batata, ao falar-me da Guerra Civil Espanhola. Tão longínqua como qualquer outra. O meu país, a minha Cidade, não são cascas de batata ou a metade da cebola ou limão guardada no frigorífico. Gosto de pensar que a nacionalidade não é um electrodoméstico. Um mecanismo que serve à utilidade. Não é útil ser-se português. Imagino que nunca o tenha sido. Assim como creio que também não é útil ser-se espanhol, italiano ou grego.
Há mais de trezentos anos que a minha família materna nasce e morre no Porto. Não lhes sei o rosto, apenas nome, apelidos, profissões, datas de morte e nascença. Vieram de terras ainda mais frias. Começaram por curtir peles e fabricar velas de sebo. Desde há sete gerações que somos baptizados na mesma igreja. Subimos a mesma escadaria de Santo Ildefonso para expurgar pecados, muito embora, num dado momento da história, todas as velas que ardessem fossem nossas. Demos luz ao corpo de santos. É legítimo dizê-lo, como seria legítimo eu dizer que também a minha família é a minha cidade e o meu país.
Não acredito na utilidade da naturalidade. Nasci na freguesia da Sé, no mesmo ano de mil novecentos e oitenta e cinco em que nasceram a maioria dos novos emigrantes. Com uma excepção. Não serei portuguesa em outro país que não seja o meu. Sou deste tempo em que não há fronteiras, em que a língua se desdobra em muitas outras línguas numa promiscuidade que se quer intelectual, cosmopolita, europeia. Sou deste tempo em que quem não troca de língua alimenta a boca a migalhas. Ser-se português em Portugal é ser-se clandestino. É ser-se moralmente ilegal. Mas eu não nasci para a clandestinidade nem para a imoralidade ilegal. Talvez por isso haja quem me chame de irredutível.
Nasci nesta família e esta família ensinou-me que há gente que não se curva perante a fome e perante o medo. Que há quem não se deixe contaminar por esta imensa chantagem social que resume a vida portuguesa à sobrevivência do português. Tenho apenas uma língua. A minha fronteira é quando a razão legitima a cobardia e dá asilo à corrupção. Talvez seja cismática quando, ao fim de um ano de desemprego, digo que não passarei falsos recibos verdes. Que não admitirei que me paguem um ordenado abaixo do salário mínimo nacional. Que não sobreviverei pacatamente à sombra da reforma de quem trabalhou.
Tenho vinte e nove anos. Quero um emprego com um contrato legal e o mínimo que se paga a um licenciado. Tenho fome mas não como migalhas. Sou irredutivelmente portuguesa. O mesmo é dizer que nasci em Portugal, que nasci no Porto, e que ainda acredito que a cidade e o país que me viram mesmo antes que eu os visse, não me deixarão morrer.


Beatriz Hierro Lopes

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