segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O CAPITÃO SONINHO





Ver com os
sentidos todos juntos, como se ver não exigisse
crença nenhuma. Como a música.
Rosa Maria Martelo, Matéria.

O Capitão Soninho veio com uma estrela debaixo do braço e os planetas rodavam à volta dele, ouvia-se um coração a bater ao lado da estrela (na almofada) e os planetas adormeciam quando não lhes dava o sol e acordavam quando lhes davam os raios em cheio. Mas havia sempre alguém acordado do outro lado, o Capitão Soninho com a estrela debaixo do braço e o coração a bater ao lado da estrela - Amor nos dedos e nas mãos, atrás das orelhas um sopro contínuo que o sol iniciou - Aqui no chão seres lançados para a vida agarram, abraçam, prolongam - criam sempre outra, unidos na mesma que está a começar agora, apanhados a meio num documentário sempre incompleto sobre a Ilha dos Amores – De um qualquer ângulo, ao fundo, pode alguém perguntar, ao sair ou ao entrar na Estrela dos Penhores: Como podem as nossas vidas serem vistas da ponte, de baixo, de cima, do último tabuleiro – na outra margem, nesta ou no meio? Apanhados a meio de um documentário, que quase parece um país - Acelerados por um olhar quente, seja ele um fio, seja ele o riso sincero dos trabalhadores da luz. Todo, cheio / Em cheio. A dar aqui no chão onde as pessoas se abraçam como faróis, caem como faróis / fazem planos para o futuro, como faróis, a meio da subida, paisagem acelerada pelo beijo dos amantes, banhistas felizes, bolacha americana. Há ainda um fio, um fio que nos une, porta, ponta, estrela caída, braços sabor a subida, diários abertos, chaves, planos, um herói de carne e osso que nos faz adormecer, dois anjinhos abraçados, agora mesmo, a dormir, numa expressão do renascimento, as cabeças juntas na mesma respiração e um dedo pequenino de criança dentro da narina da mãe, que sem acordar, afasta a cabeça num leve reflexo de sono. Aqui no chão onde as ondas batem, onde o sol chega, onde, nivelados, os homens se deixam ver - Foi-nos dado remar e remar é a nossa forma de ver - O aviãozinho a Portugal, A vida de Marinheiro, esses braços que sobem como penínsulas pelo meu peito e o bater do sol agora dentro - Futuro, enfim, num único símbolo resumido: o seu vínculo de luz com tudo. Peço então esse riso-estrela, gerador único do universo, que não deixe de bater no teu coração, que te abrace em todas as subidas, que não te deixe – não te vai deixar nunca - sem que a luz do coração se expanda. Peço então o riso, cheio, porque só ele permite que as estrelas (infanticidas por natureza) se mantenham vivas e não cortem as suas pontas, que as ligações frágeis e seguras não percam vida ou se extingam até à anorexia, perdendo luz e força, ou se arrebentem por dentro sobre o seu próprio eixo – Porque só ele é deus, só ele cavalga e molda verdadeiramente as caras, só ele cria luz e espelhos de espuma, e no fim, só ele goza a poesia. Quem escreve “O Fim da História” mais não faz do que a começar.

Sou a vontade em tudo malhada de te ver sorrir*

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