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sexta-feira, 13 de março de 2015

A Verticalidade do Desejo: recensão a [Espartilho] de Beatriz Hierro Lopes


  
Beatriz Hierro Lopes
[Espartilho]
Coimbra, Debout sur l’oeuf / 2015


Gostava de vestir as linhas de um corpo mais salgado (17)
Quando eu morrer enterras-me um pouco mais perto do sol (38)

A Poética de Beatriz Hierro Lopes revela um apurado exercício estilístico de múltiplos recursos dentro do panorama da Poesia Portuguesa Contemporânea, marcada por uma visão hiperconsciente e hipersensitiva em que toda a realidade palpável e imediata é constantemente recriada e polarizada na sua ligação com o corpo. Temas como a memória, a morte, a família, o contexto urbano e a consciência geracional (transmitidos em frescos narrativos de ampla nitidez e potência sensorial) são tratados com recurso a cruzamentos de imagens percetivas e aforismos de grande vitalidade numa unidade fragmentária pautada pela fluidez e valorização do tecido musical do texto.
Depois de É quase Noite (2013), [Espartilho] é o seu segundo livro. Divide-se em duas partes e reúne um conjunto de 35 poemas em que os temas centrais de Beatriz Hierro Lopes são focados mas desta vez manifestam-se, todos, pelo lugar hegemónico que é atribuído ao corpo. Lugar nuclear, invocado desde logo no título, o [espartilho], e mais à frente “entre costas demasiado afastadas” com “a verticalidade da escrita em queda” (9). Espartilho que serve também a imagem de uma “prosa de coluna partida” (11), algo que não acontece na poética de Beatriz Hierro Lopes onde temos sempre a sensação de estar (entre a fluidez e o fragmento) numa unidade fragmentada, sem que dela tenhamos a sensação de fortes partições. Para isto concorre o uso de uma pontuação muito própria (o ponto e vírgula, os dois pontos, e o ponto final recorrentes) que serve a ampla expressividade de uma sugestão rítmica ao serviço da sugestão simbólica. “Minto. Não sou montra. Nem cara feita de cera, muito embora os meus antepassados tenham nisso investido mais do que as suas testamentárias vontades; sou inquieta, radioactiva e frequentemente indecisa. De uma anatomia avessa ao mar e às suas inquietudes” (33). O ponto final, por exemplo, é usado para criar uma pausa maior, mantendo ao mesmo tempo a fluidez da oração - sugerindo-a, pautando-a entre diferentes velocidades.
 A memória, a identidade, os afetos são visíveis pelo corpo, na imagem de um espaço total, plenamente tangível, na aceção que Roland Barthes dá ao Prazer do Texto “o momento em que o meu corpo segue as suas próprias ideias”, a escrita das próprias ideias do corpo, inseparáveis dele, na sua linguagem “a respiração, o ar que te deixa e o ar que te chega, o movimento secreto do teu peito” (p. 19) possibilita as “Coisas que o teu corpo apenas a mim me diz”: (p. 19). Em [Espartilho] o corpo é um epicentro do qual tudo se ramifica, do qual tudo parte e aonde tudo retorna, (origem e fim), ele é o lugar onde bate o “sentir anatómico do tempo” (p. 40). Lugar múltiplo, orgânico, onde tudo se reflete, ele é cruzado por memórias e é, por isso mesmo, o resultado de diferentes trajetórias e velocidades; no texto [Violeta] por exemplo: “A trajectória do medo no meu corpo não conhece factos ou história. Tem o nome de uma consoante e de uma sílaba: atravessa-me e atira todas as flores da praça ao chão” (35), através deste exercício corpo, identidade e memória dissolvem-se, fundem-se num todo percetivo. Da memória genética que invoca a família nos textos [antecomeço] e [lição para meninas espartilhadas] à “memória solar” (38) ou ao “involuntário desta cidade”(15) em [Espartilho] tudo se manifesta no corpo  - tudo se passa à sua escala e na sua dimensão. De uma anatomia  revitalizadora são feitas as seguintes imagens “o espaço do fim do indicador ao fim do polegar; o que usava em criança para criar a metade da cúpula de um palácio de inverno” (15); anatomia que se confunde com a paisagem, que se torna expansiva: “Tenho uma cidade em cada perna, e em cada coxa o tráfego, a espera, a ira do taxista”, “Nego, nego tudo; e há sinos que tocam apenas nas minhas costas, santos de olhar baço a que somente o meu olhar dá luz” (16), ou ainda “sou maleável e o mesmo é dizer que caio estrondosamente em qualquer calçada só pela atracção dos meus joelhos pelas pedras”. O corpo enquanto lugar de ampliação, “em que me multiplico em sonhos de outros” (19), assume-se como espaço de desdobramento e multiplicação do sujeito poético que dialoga, de forma inovadora, com a tradição modernista: “Eu, multiplicando-me no interior da água” (p. 30). O corpo de [Espartilho] é universalizado, colossal e espelho absoluto de todas as condições, ele é: “Novembro sorrindo-me por trás das articulações dos ossos, dizendo-me que há tempestades no corpo que só os tornozelos entendem por ser deles a ausência de verticalidade” (17). Através da revitalização da anatomia, e da evidência dos seus milagres, Beatriz Hierro Lopes cria algumas das imagens mais consistentes e apuradas da novíssima poesia portuguesa, pelo seu equilíbrio, vitalidade e potência de visualização, pelo seu alto grau de nitidez e concreção imagética. Atentemos à seguinte passagem do poema [rio]:
“Quando o rio já não é rio, guardada na escuridão da caixa de papelão, a pinha respira, e a sua respiração que fora leve correnteza de rio, é pesada como os anos em que as mãos esquecidas das linhas pisaram as linhas de outras linhas em vão. Ela abre-a. Ao abri-la com a ponta dos dedos percorre as linhas secretas da terra, tentando recordar-se se eram as suas mãos linhas de pinhas oferecidas em tardes leves de rio, ou a memória dos anos que tornaram árida a corrente”

Para Beatriz Hierro Lopes revitalizar a anatomia é ajustá-la pelo que ela tem de desejo. Assim, enquanto realidade totalizante, o corpo manifesta-se e transfigura-se expansivamente (inverte e reinventa a anatomia) “ao fazer-se e ao pensar-se, repensa e refaz cada um desses lugares. Inverte a anatomia e converte-a na verticalidade do desejo” (41). A recriação da realidade poética que BHL nos apresenta é não só feita, à escala do corpo, e à escala do chão, mas também à escala do Presente. Estamos assim também, tal como Manuel de Freitas salientou no prefácio à antologia Poetas sem Qualidades, perante uma poesia que valoriza o “predomínio do temporal sobre o eterno”1, marcada pela indissociabilidade entre o poeta e o seu tempo, exercício que tende assim a desconstruir a idealidade do Futuro, trazê-lo, pelo menos, um pouco mais para o chão: “o meu futuro abusa da opacidade burocrática de funcionário público. Só vira as costas quando pouso os pés no chão, que o futuro, como todas as mulheres, demora demasiado tempo a arrumar o corpo longe das rugas.” (41), quebra desse lugar de futuro idealizado também no poema [Centro], “enquanto lá fora se seca o futuro. Linhas vermelhas e brancas que servirão ao conforto de uma cama sem lados. A sagração do tempo em que o meu corpo será apenas centro” (23) e no poema [Corpo]: “E se o futuro chama ele não ouve” (41). Trata-se de mostrar a linguagem tangível, de evidenciar também a materialidade da língua: “O meu nome visto de baixo” (18),“Por carris, ao longo de subterrâneos, uma colheita de ossos finos a quem não pouparei o cansaço de haver demasiadas asas entre as palavras” (40). Sobre a língua portuguesa e o país atual fala o texto [Infâmia], um retrato apurado sobre a língua portuguesa e a condição de ser português.
O mundo da infância, enquanto memória pessoal, coletiva ou genética introduz um deslumbramento imaginativo de grande intensidade pelo que ele tem de palpável, nítido e desconectado de qualquer idealização da infância. É o caso do texto [Fonte], de onde se destaca a imagem de “Uma toupeira decapitada por uma sachola” que “serviu de adubo às raízes anorécticas de uma roseira mais velha do que eu agora, conta-se. Havia corpos de pássaros pequenos por identificar e nenhuma estátua que fizesse frente à entrada organicamente pensada de dois salgueiros cujos ramos se entrelaçavam numa estrutura de ferro” (42).
[Espartilho] assume-se, assim, como lugar gerador de transparências e constitui uma ampla afirmação de vida no panorama da novíssima poesia portuguesa, pelo seu poder de imaginação, (rapidez e deslumbramento) criado por uma das vozes mais novas da poesia portuguesa atual.

Nota
Manuel de Freitas, Poetas sem Qualidades, Lisboa, Averno, 2002, p. 11.


Nuno Brito

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Beatriz Hierro Lopes

[Infâmia]

A vadiagem de sino na mão, garrafa cortada e olhos cegos, tronco seco e polido com que bate compassivamente no chão, marcando tempos aos olhares que se desviam ou se fixam nesta marcha de miséria entre vagões no subterrâneo. De olhos fechados, cega vadia, cão vadio, latindo língua de sino, a mais fiel Portuguesa de há quantos séculos: o que deveríamos ter por hino à glória de uma nação enfileirada numa procissão de pernetas, manetas, cegos ou cancerosos, pedintes ou calados. Aos que não se enfileiram: este vagão é sala de espera, e sem que alguém saiba, carrilhão de pequeníssimos gestos, vozes cruas que, no trajecto, curvarão cabeça, corpo e dedos, baloiçando primaveras, verões inteiros entre as margens dos dentes, sem pão que haja além destas palavras de cobre dando pressa ao vagar de deus oculto em cada sinal de emergência. Trago ao peito medalha de prata, sino encabeçado por três rostos de asas pequenas; tenho a língua do ferro, e talvez por isso, talvez só por isso, saiba do cobre e da diferença multicolor entre este e a ferrugem dos ponteiros que ancoram passados à minha boca: o teu, o meu, o nosso. Sou vadia e o mesmo é dizer que nasci do fundo do mar onde naufrágios sepultam o progresso de outras vontades. Não tenho hino, glória ou fidelidade. E se tenho por língua esta língua, é dela o toque, a vibração contra a emergência de haver quem nos salve deste infame orgulho de ser português.


Beatriz Hierro Lopes, [Espartilho], Coimbra, Debout Sur L’Oeuf, 2015.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Beatriz Hierro Lopes: Do sepultamento dos navios


Tenho uma janela que abre portas para o mundo: o início e o fim da minha avenida. Tenho estas horas de tédio em que me escondo nos punhos dos sobretudos que debaixo da minha janela passam. No punho, junto ao pulso, mais perto do que no peito ou do que no interior da boca, sei do que pensam, do que dizem a si mesmos, das justificações que repetem para calar este desejo de corte. Esta vontade de lâmina.
Somos este tempo e este tempo é da idade dos que vestem sobretudos e suportam o mais longo frio sobre os ombros. De olhar baixo. Voz baixa, rente à terra sobre a qual somos os pontos menores de uma costura que remedeia este ter-se nascido costeiro.
Não somos mais filhos de nossos pais, nem netos ou bisnetos de nossos avós e bisavós, não crescemos à margem da terra que vê partir, que vê chegar, os navios. Somos a memória mais presente do sepultamento da nossa própria História, a três milhas a sudoeste da costa de Portimão em Outubro de dois mil e doze.
Justificamos a noite com a ausência de um caminho. Fazemos trocadilhos com o que caminhou sobre as águas enquanto nós, marés várias, caminhamos sobre praças: uma ou outra vaga marítima lava o rosto às pedras enquanto duas gerações embalam a tristeza com o medo, desviam a revolta com silêncio, sacrificam palavras pela memória de frases não ditas. Somos disto, desta espécie de derrota vestida de negro, óculos redondos e guarda-chuva indiano num tempo em a que só os mortos dão razão. Submersos, respiramos o interior da cor e, o interior da cor, sem luz ou olhos que lhe encontrem salvação; lentos gestos afogados, lentas palavras colhidas do outro lado da trincheira. E nos punhos isto, nos pulsos isto: esta vontade imensa de quebrar. Beber toda esta água, secar o futuro no interior das mãos. Inscrever uma nova cartografia que nos faça costa sem naufrágios nem saudade.

Beatriz Hierro Lopes.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Beatriz Hierro Lopes:



da irredutibilidade

A minha família é o meu país, disse-o, despedem-se deles como se fossem para a guerra, como se ir para a guerra fosse sair deste país quando a guerra é ficar cá, continuou. Eu, que a ouvi, pouco sei de guerra. Guerra, para mim, é a voz da minha avó paterna a dizer-me daqueles dias em que o seu país fora uma casca de batata, ao falar-me da Guerra Civil Espanhola. Tão longínqua como qualquer outra. O meu país, a minha Cidade, não são cascas de batata ou a metade da cebola ou limão guardada no frigorífico. Gosto de pensar que a nacionalidade não é um electrodoméstico. Um mecanismo que serve à utilidade. Não é útil ser-se português. Imagino que nunca o tenha sido. Assim como creio que também não é útil ser-se espanhol, italiano ou grego.
Há mais de trezentos anos que a minha família materna nasce e morre no Porto. Não lhes sei o rosto, apenas nome, apelidos, profissões, datas de morte e nascença. Vieram de terras ainda mais frias. Começaram por curtir peles e fabricar velas de sebo. Desde há sete gerações que somos baptizados na mesma igreja. Subimos a mesma escadaria de Santo Ildefonso para expurgar pecados, muito embora, num dado momento da história, todas as velas que ardessem fossem nossas. Demos luz ao corpo de santos. É legítimo dizê-lo, como seria legítimo eu dizer que também a minha família é a minha cidade e o meu país.
Não acredito na utilidade da naturalidade. Nasci na freguesia da Sé, no mesmo ano de mil novecentos e oitenta e cinco em que nasceram a maioria dos novos emigrantes. Com uma excepção. Não serei portuguesa em outro país que não seja o meu. Sou deste tempo em que não há fronteiras, em que a língua se desdobra em muitas outras línguas numa promiscuidade que se quer intelectual, cosmopolita, europeia. Sou deste tempo em que quem não troca de língua alimenta a boca a migalhas. Ser-se português em Portugal é ser-se clandestino. É ser-se moralmente ilegal. Mas eu não nasci para a clandestinidade nem para a imoralidade ilegal. Talvez por isso haja quem me chame de irredutível.
Nasci nesta família e esta família ensinou-me que há gente que não se curva perante a fome e perante o medo. Que há quem não se deixe contaminar por esta imensa chantagem social que resume a vida portuguesa à sobrevivência do português. Tenho apenas uma língua. A minha fronteira é quando a razão legitima a cobardia e dá asilo à corrupção. Talvez seja cismática quando, ao fim de um ano de desemprego, digo que não passarei falsos recibos verdes. Que não admitirei que me paguem um ordenado abaixo do salário mínimo nacional. Que não sobreviverei pacatamente à sombra da reforma de quem trabalhou.
Tenho vinte e nove anos. Quero um emprego com um contrato legal e o mínimo que se paga a um licenciado. Tenho fome mas não como migalhas. Sou irredutivelmente portuguesa. O mesmo é dizer que nasci em Portugal, que nasci no Porto, e que ainda acredito que a cidade e o país que me viram mesmo antes que eu os visse, não me deixarão morrer.


Beatriz Hierro Lopes

sábado, 20 de dezembro de 2014

Beatriz Hierro Lopes

Do Espaço

O meu avô materno morreu há um ano e nove meses. A última coisa que lhe pedi foi uma salamandra. Em troca enviou-me um cheque de cem euros para comprar um aquecedor que tive a oportunidade de lhe agradecer no seu leito de morte no corredor do Hospital de Penafiel. Da herança, a coisa mais certa que deixou foi metade de um jazigo onde não quis ser sepultado por lá estarem os seus pais. A família conta agora com dois meios jazigos em dois cemitérios do Porto.
Tenho um amigo. Um novo que agora tem nome. No seu quarto não há janelas. Duas clarabóias que nada devem ao romantismo centenário: antes à necessidade de haver luz. Que, uma sorte qualquer, garantiu ao dar dias ao tempo e umas telhas de vidro que um caixote de lixo lhe guardou. Sob elas uma cama para um corpo que, se olhar em frente e, se ao olhar em frente, olhar ainda mais em frente, vê uma retrete de louça. Livre de plásticos. Na casa do meu amigo nada se esconde. Tem periodicamente duas sacas de plástico. Uma, com fruta, maioritariamente laranjas; outra com um saco de arroz, conservas, um pacote de massa e um papelinho vermelho que diz «vale mensal: 2,50» para carne, se conseguir dão-lhe dois. Hoje, ao oferecer-lhe o almoço, confessou-me a sua preferência por unhas de porco.
Horas antes, na rua da Alegria, n.º 200, uma funcionária ao ler o seu relatório médico anexo ao pedido de pensão por invalidez disse-me que não bastava. Não chegava a tuberculose, o enfisema pulmonar ou o sangue. Era preciso um cancro. Daqueles de que um gajo sabe que não se safa. – «Isto será indeferido de certeza, as Juntas médicas só as dão quando uma pessoa está quase com os pés para a cova.», disse-me. Sorrindo-me com um colar de prata ao pescoço na forma de uma lemniscata. O meu amigo espera pelo rendimento social de inserção desde Fevereiro mas perdeu-o há mais de três anos. Comeu muitos vales mensais de carne. Tem sessenta e quatro anos e cinquenta e dois quilos. Receberá, talvez, enquanto espera um «fundo de maneio» na melhor das hipóteses de setenta euros.
Na casa do meu amigo não há segredos. Há ferro velho, um fogão de um só bico eléctrico, a retrete e a gratidão ao homem que lhe deu a chave daquela casa, de onde saiu quando o telhado aluiu. Quem passar na Ilha da Merda verá em frente a sua meia casa um pequeno quintal com um único limoeiro e uma vedação feita de persianas. Agora: cento e cinquenta quilos de batatas greladas e muitas podres que encontrou na Latino Coelho e trouxe às costas, em longas viagens, para lavar comer e dar a quem quiser. – «Quer batatinhas menina? Olhe que lavadinhas e limpinhas sabem muito bem.».
Às vezes enerva-se. Quando se enerva na segurança social ou no centro de saúde, abre muito os olhos, fecha os punhos, fecha a boca de quatro metades de dentes com muita força. Chora. O choro que o embacia e ajuda à surdez serve-lhe à ausência de se imaginar longe de mulheres, colares de prata, lemniscatas ou santíssimas trindades. Somos amigos e não o deixo falar. Somos amigos e jurei-lhe que não ia deixar que ele voltasse a acordar no meio de um procedimento médico por causa da negligência do anestesista. Prometi-lhe que ele não morreria. Ele confia em mim.
Na minha família temos dois meios jazigos em dois cemitérios da cidade, um mais nobre, o outro menos. Há cinquenta anos que deixamos de morrer na casa onde há duzentos anos nascíamos, adoecíamos, recuperávamos, casávamos e morríamos. Vendeu-se a homens de lei. Onde, por riso, em nove gerações apenas houve Homens de Lei. Nos anos vinte, ao bater um mendigo à porta de casa, o meu bisavô, que se preparava para jantar uma pescada cozida mandou a criada servi-la ao homem que pedia comida. Nessa noite, conta-se, o meu bisavô não quis comer.
Se eu fosse à meia casa do meu amigo e se ele estivesse a comer dois euros e meio de unhas de porco, ele dar-mas-ia. E, nessa noite, eu saberia que ele não comeria. Nem nessa nem nas seguintes. 
O que eu talvez só lhe poderia pagar cedendo-lhe um espaço onde deixar as suas cinzas. Espaço para a morte ainda há; mas, mesmo esse, nunca se sabe: é que a minha família é muito grande.

Beatriz Hierro Lopes

sábado, 20 de setembro de 2014

Beatriz Hierro Lopes


(…) Pedem-me uma biografia e digo-o dentro de mim: a minha biografia é o meu nome, tudo o resto são pausas, virgulações que informam a banalidade congénita de ter nascido. A simplificação absoluta de uma história mora na certeza de pai e mãe, avós e demais família. (…)


Beatriz Hierro Lopes, É quase noite, Lisboa, Averno, 2013, p. 20.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Beatriz Hierro Lopes

rio adentro


Um dia direi que soube de gente, ínsuas injectadas rio adentro, transbordando peito afora como enchentes que lavam de cinza os meus olhos, os teus olhos, os deles ou mesmo destes que nunca souberam, vidro ardendo entre pulsos na vez da lanterna de deus, ao alargar o abraço à margem costeira em que fantasmas marcham entre fogueiras, madrugadas inteiras em que eu, tu, eles ou aqueles dormem. Antes que a primeira maré nos venha salgar pés, tornozelos, pernas ou beijos, somos destes, destes que temem cada corredor, cada passo vagaroso, cada barra de aço ou simples saco de soro: o movimento involuntário do corpo ao aspergir sal sobre rosto de mães, irmãs e irmãos, filhos e mulheres. Um dia direi que soube dessa gente, ínsua injectada rio adentro, e que é meu o sal – só meu – a salina mais perfeita de que outros se alimentaram.

Beatriz Hierro Lopes,

domingo, 28 de julho de 2013

Beatriz Hierro Lopes


Respirar fundo. Arejar os olhos na roupa estendida sobre as cordas – pudesses ser simples como uma corda atravessando a noite inteira. Pousar a cabeça nos ombros de um amigo e dizer-lhe, bem fundo, um sorriso. Guardar duas mãos que seguraram o mesmo guarda-chuva. Dizer: amo-te a uma passadeira suficiente larga para encolher o horizonte dos meus passos em branco. Enterrar a infância nas raízes de um salgueiro e beijar, sem medo, boa noite mãe, boa noite pai. Dar às mãos crença maior que todo este chão. Deixar que o chão me leve até onde possa regressar e, ao regressar, ter chão que chegue para todo o tempo que trago entre as mãos. Adorar a boca num velho pregão que é garganta da rua, grito harmónico do cego por quem passo e que me diz: há tantas flores belas no meu jardim. Lavar solidões na margem do rio; dizer, nunca mais, para de seguida poder dizer, mas só mais uma vez. Rir pássaros que ficarão por aqui todo este inverno. Dar partidas e chegadas ao coração, ensinar-lhe os horários por que se vão os comboios. Deixar-lhe as palavras que chegarão para o salvar do silêncio.


                                                                                                                         Beatriz Hierro Lopes.


terça-feira, 23 de julho de 2013



As flores nunca darão boa literatura enquanto forem vivas ...


Beatriz Hierro Lopes, in É quase Noite. Lisboa: Averno, 2013.


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Beatriz Hierro Lopes


Geração do Silêncio

Somos sombras fugazes projectadas pela luz constante que ilumina a cidade. Seja nas ruas que a dividem e reencontram nas suas múltiplas encruzilhadas, onde desaguam multidões à velocidade do som dos seus passos, seja na claridade promíscua dos focos de diferentes cores numa pista de dança, fermentada ao sabor do álcool e das drogas que nos despertam os sentidos e adormecem o espírito; da televisão ininterruptamente ligada na inconstância do zapping, através da qual passam encadeamentos de imagens fragmentadas de filmes, documentários e séries cujo fim nunca é visto, na rapidez do clique para o próximo canal; do telemóvel sempre a vibrar com mensagens codificadas numa nova linguagem veloz que torna os segundos em minutos impossíveis, na impaciência dos limites de comunicação.

Nós somos o eco da dinâmica imparável da pós-modernidade! Para nós foi reinventando o conceito de tempo, e como saturninos deglutimos o presente na velocidade com que os nossos maxilares o absorvem, tornando-o numa breve memória de um passado recente. Vivemos o ritmo sonoro do mundo, na certeza que somos demasiado pequenos para o apreendermos na sede de o conhecer ou na apatia com que lhe viramos costas. Somos a geração da revolta sem revolução, herdeiros dos sonhos naufragados dos nossos antepassados próximos. Descendentes de idealistas estamos despidos de ideologias originais pela forma enciclopédica com que conhecemos o que pensaram e defenderam os que viveram antes de nós. Somos os mais frios juízes da História feita na nossa ausência.

Definidos pelas conquistas tecnológicas com as quais crescemos somo rotulados como “Geração Y”, “Geração Net” e “Geração Boomerang”. Os que antes de nós vieram e depois de nós se erguem, questionam o nosso valor. Quanto vales? Perguntam-nos, sem que a sua interrogação tenha a leveza de uma curiosidade ou a rispidez de um interrogatório. À sua semelhança pergunto-te qual o peso do teu valor singular, respondes-me: I have too much blood in my alcool. Sei que o corre hoje nas nossas veias é veneno, premiado pelas mais diversas marcas, engarrafado em vidros fumados de diferentes cores.

Qual é a tua cor? É o verde que te oferece viagens quase sonhadoras enquanto os teus olhos permanecem abertos? Ou o transparente lúcido da água que te ferve as vísceras e te engole o espírito? A dor absoluta da Vodka ou o devaneio do Absinto? Preferirás a mistura em shots sempre cheios como o poço estreito onde te afundas ou a elegância do copo alto borbulhante de Champanhe? Fala-me das tuas preferências, entusiasma-te com as tuas marcas e saberei ver em ti, o espectáculo da degradação dos nossos ossos. Farás o apelo mudo à abstinência. Mas nós somos os sequiosos. Os esfomeados, que devoram o Mundo em dentadas sôfregas de desejo. Aquele que o sexo não sabe silenciar.

Somos a boca sempre aberta na dilaceração comestível das palavras, o crânio recheado de rios que premeiam os sonhos com o cheiro a morte. Os ouvidos que reconhecem em todos os Requiem’s a fragilidade com que se quebram os espíritos. Errantes que vagueiam pelas montanhas despidas de roupas, sem nunca encontrar beleza igual a do olhar da mulher que naquele momento pára, na sacralidade do tempo que se esgota entre os seus dedos. A esfinge do eterno ponto entre o Passado e Futuro. O Presente encerrado na tosca configuração da nossa carne. Numa Humanidade sem tempo, sem memórias, sem antes nem depois, nós somos os seus mais adoráveis bastardos.

Todos os discursos, teorias e conversas sobre a morte conhecem em nós, o som oco do punho contra o muro. Ninguém pode ensinar um morto a temer a morte. Não enterramos apenas os nossos antepassados, não sepultamos como todas as gerações os nossos sonhos no solo propicio as colheitas dos que virão depois de nós, nem choramos o fim dos que por momentos amamos.

Procurem o nosso espírito debaixo das pedras - é esse o seu berço.Comprimidos entre a terra lamacenta e o frio do granito. Nascemos mortos por isso vivemos mais do que qualquer outro vivo. Não há amor possível à vida. Sabe-lo. Violamo-la como exímios soldados perdidos no enredo de uma guerra que não é a sua. Não honraremos os princípios do luto monocórdico, não consolaremos carpideiras de ocasião, não escreveremos belas peças sobre o mistério do corpo em putrefacção. Seremos não a Ira do Homem sobre Deus, mas a revolta dos Deuses sobre os Homens. Porque a Perfeição está nos nossos olhos e os nossos membros desgastados movem-se na dança imparável do Universo, sem medo, sem tonturas, sem amarras. Somos de peito nu, o Enforcado e a nossa corda é a trança com que interligamos o que fomos e seremos, no altar do que somos.

Chamam-nos perdidos, em analogia as sombras. Sentenciam-nos a juventude e amaldiçoam-nos a velhice. Não sabem eles que a Sombra que se ergue atrás de nós iluminada pelas luzes eléctricas de todas as cidades, é da altura da escadaria que conduz ao Inferno das Mil Luzes, que como bons proscritos descemos todas as noites, para alimentar o nosso espírito da sede de fogo. Vejam-nos altos. Soberbos. Tiranos de narizes escondidos nas páginas de um Moleskine. A Genialidade não se banha em nós, não resiste ao nosso olhar. Génios existiram e génios morreram. Nós somos apenas os seus coveiros e os criminosos que os desterram, arquivistas dos seus traços, guardiões das suas pequenas revelações. O único caminho possível é o das pedras, das tíbias e caveiras, é sobre ele que nos elevamos e é nele que nos assassinamos. Nada de suicídio: Nostálgico feminino. O adeus ao mundo que nos vira as costas. Só o assassinato é digno. Somos a vitima agarrada à ilusão da vida e o maldito que a degola na sabedoria da morte.

No fim, apenas o esquecimento nos aguarda. Por isso bebemos até que não reste uma única gota no copo de plástico do bar a que vamos, fumamos até que os nossos pulmões não consigam consumir mais oxigénio e drogamo-nos até que as sensações nos corrompam despertando selvajaria das emoções. E todos os nossos actos parecem gritar: Je me crois en enfer, donc j’y suis! Nós que vivemos todas as noites tal como a Nuit de L’Enfer, de Jean-Arthur Rimbaud. Porque sabemos que apenas vivendo o inferno podemos atingir o céu, só mergulhando nas chamas que nos dilaceram a carne poderemos ver a anatomia dos nossos ossos e redescobrir na configuração que se prende além dele, o vazio que narra a dissolução do eu.

Ambicionamos apenas o inalcançável - Le silence est impossible. C’est pourquoi nous le désirons -, nunca a afirmação de Maurice Blanchot definiu com tanta precisão uma geração como a nossa. Nós, a Geração do Silêncio. Atulhados em roupas de marcas conhecidas, sempre a par das últimas novidades do mundo da música. Excitados pela forma como os nomes de autores nos percorrem a boca, edificamos analogias em que as nossas experiências pessoais recriam as alucinações das suas personagens.

Trazemos para a realidade a ficção, seja na maneira como a nossa identidade virtual se dilui na veracidade com que nos mascaramos quotidianamente ou na heresia com que transgredimos a moralidade socialmente aceite. Dormentes vivemos a superficialidade, sem que o excesso nos permita esquecer: ¿Qué es la vida? Una ilusión, una sombra, una ficción, y el mayor bien es pequeño: que toda la vida es sueño y los sueños, sueños son, no poema de Calderón de la Barca, que renasce das profundezas de um século XVII hispânico. A eutopia da nossa geração é a possibilidade de existência no não-tempo, o imortal aqui e agora, o ponto fixo da encruzilhada onde o passado, presente e futuro se interpenetram no silêncio que abarca tudo. Possuídos e possuidores de uma plenitude inalcançável.

Perguntam-nos, pois, quanto valemos.

O nosso peso é o das estrelas que nos iluminam e recordam que o Anjo não é apenas Terrível, o Anjo é a Blasfémia do Mundo Moderno e a Libertação do Silêncio. Existimos e existimos como nenhuma outra geração existiu antes de nós. Somos únicos porque somos os receptáculos de tudo o que foi novo e será novo, na musicalidade dos anos que se desdenharam depois da nossa morte.

Somos a rapariga órfã e violada pelo seu tio, a deglutir em tragos largos a garrafa de Whisky roubada num supermercado, a dançar sem música sobre a campa 902 do Cemitério do Prado do Repouso aos gritos: Só se é imortal enquanto se vive. Somos a menina de 16 anos a mergulhar a mão na água benta da Sé Catedral depois de experimentar LSD - Vês? Vês, Beatriz, os demónios que vivem na água? Vamos morrer e o meu corpo vai ser velado na Igreja da minha terra. Somos o poeta bêbado e cocainómano, na fragmentação do seu espírito - Hoje sei que as minhas asas de Anjo não servem para voar mas para escavar a terra e mergulhar o meu corpo nas chamas do inferno. O Anjo é diabólico só assim pode ser celestial. Somos o advogado com a garrafa de Porto à frente de uma Macieira, de rosto enegrecido pelas fagulhas da fogueira, a saborear o vento: Only throught time time is conquered, de T.S. Eliot.

Quanto Vales? - Pergunto à tua sombra. Em silêncio respondes-me: Menos que nada e mais que tudo.


                                                           Beatriz Hierro Lopes, Criatura nº 1.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Beatriz Hierro Lopes

Ossos


Os ossos dos pássaros mortos como relíquias de santos: usá-los-ia a todos se com isso achasse encontrar boa sorte. E se me perguntassem que ossos seriam aqueles que levaria ao peito, diria que são dos santos mais poluentes desta terra onde já não moram só gaivotas.

Mas não lhes conheço milagres: notícias de pássaros que curem vagabundos de cegueira, diabetes ou simples bebedeira. O seu propósito, destituído e substituído pelo quedar do olhar sobre o alcatrão; toda a mortalidade ali, e ainda assim a cegueira sem cura, que por não serem bichos religiosos não sabem abençoar os olhos aos que passam; nem ouvir deus recitando horários e mandamentos às rotinas. Acho que todos devíamos levar salmos nos bolsos, coisas de fácil digestão nos intervalos entre os subterrâneos.

Só à face das pedras os pombos revelam o seu lado mais secreto, por lhes conhecerem a natureza perversa com que provocam acidentes aos que as atravessam no inverno.

Desconfio dos pássaros por só os encontrar mortos. Tão pobremente mortos que nem sepultura, só os veios estreitos entre as pedras de granito até que se somem debaixo das solas dos sapatos ou na terra que dá às pedras a ilusão da unidade. Nisso lembram-me pessoas.

Divido-as por ordem poética: se uma elegia é uma gaivota à sombra, imaginando ser um abutre em áfrica, um soneto é um canário enclausurado numa gaiola demasiadamente espaçosa para a fome do gato, e uma redondilha é um pardal de pata partida encontrando conforto nas mãos de uma criança que, sem querer, o asfixia enquanto corre para o ir mostrar à sua mãe.

Os pássaros, como a poesia e como as pessoas, só servem para mostrar que a morte habita cada rua. E eu usaria um colar de ossos de finas asas, onde se gravassem os poemas de que mais gosto, se achasse que isso serviria para mudar a minha sorte de velório.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Beatriz Hierro Lopes

Como fome

Fosse cinza, antes cinza, mas não. Nem cinza. Que não há cinza que chegue para cobrir de branco as ruas, as ruas que conheceste (ainda te lembras das ruas que conheceste?) levando vestido o lado avesso da cinza, que já não é o cinza branco em que cresceste, não, outro cinza de negro investido. E as ruas, as ruas que chamaste, como mulheres, e é já velha a memória, como braços pernas jardins de olhos amendoados, canteiros de ervas ruivas que eram ruivas ao sol, via-las ruivas com o rosto na relva de quando caias de bicicleta, e agora, agora, sem braços sem pernas os olhos perdendo a amêndoa figos secos engelhados negros como os canteiros que alguém deixou à fome. E há fome nesta rua. Nesta rua que, lembras-te?, já foi tua. As floristas sem flores, de portas fechadas e lá dentro, (espreita, espreita à janela) os vasos sem terra só cinza vestida de negro e aranhas de pernas estendidas no ar, viram-se de costas as aranhas e os insectos moscas varejas sem alimento, enchendo o fundo do vaso. Os plásticos de cores berrantes enrolados à volta dos cilindros de metal, soterrados pelo pó como os palhaços, sim, as caras pintadas dos palhaços, que agora, bem visto, que eram velhos no teu tempo, agora mortos, que é do teu tempo a morte dos palhaços que viste no circo dos teus cinco anos.
As portas fechadas. Todas as portas fechadas, a verde, a azul que tanto gostavas por ser um azul mais denso que o azul a que estavas habituada, a vermelha, a vermelha também, que na tua rua havia uma porta vermelha e tu pequena com medo da porta vermelha, porque não era humano aquele vermelho mais aberto que o sangue, vermelho medo de mal pisado aos pés daquele homem, que era santo, e de cujo nome não te lembras mas sabes, sim sabes, que dele havia estátua na igreja do teu colégio e que tinhas medo medo de o olhar porque o homem que pisava o vermelho mal tinha uns olhos estranhos que reflectiam o branco da lança. Olhos todos brancos, tu perguntando à tua mãe, Mãe é possível ter brancos os olhos?, e a tua mãe respondendo-te que não, que só os mortos tem brancos os olhos. E tu imaginando que o homem que matava o vermelho caixão aberto era um morto e que só por ser morto podia matar a morte vermelha aberta como a porta que na tua meninice estava sempre aberta (não não espreites) e agora fechada, com o vermelho desbotando-se num tom de castanho que te dá mais medo do que dava quando eras criança, e sem querer pensas que a morte naquele lugar é a morte mais morte do mundo porque tem a cor da terra seca em que as flores morrem.
E em que as floristas desaparecem. E sabes de cor o nome de cada uma. O tom da voz com que te dava os bons dias, sem voz, vestindo de negro cinza as montras de aranhas estendidas, pensas que tudo se encerra onde começou, que há um ponto na rua, que é a tua, em que tudo começa e acaba. Lá, depois dos olhos que eram amendoados e dos canteiros de cabelos ruivos, sobre o crânio da rua separado por grades, e por momentos vês a rua a rua que a tua história te deixou, viúva. Rua de negro cintando-lhe o ventre e a garganta que sempre as imaginaste assim, viúvas de vestido longo e gola comprida, sem pele a não ser a do rosto e das mãos. Quanto mais morte menos corpo, disse-te a tua mãe. Estás no fim da rua e ao olhares para o início vês toda a rua, vestido longo de luto, e acreditas como acreditavas ao olhares os olhos brancos daquele que pisava matava o vermelho aberto, que talvez o luto da tua rua tenha descido dos teus olhos. Que os levas brancos memória velha da rua cinza branca. Como o avesso do negro. Tudo o que te morreu. A ti. Que a levavas ao peito como a flor que roubavas aos canteiros quando te portavas mal e querias pedir desculpa a tua mãe, Desculpe mãezinha, olhe é para si.
No fim da rua olhando o início. Os canteiros sem flor, tu sem flor, vestindo um negro mais negro que o da rua, o tempo em que os palhaços, as floristas, os santos, te olham com o olhar branco, do fundo da sepultura que se abre na bainha do teu vestido. Tudo o que te cai, tu caindo, e para trás, lá bem atrás, a relva de quando caias de bicicleta, sem bicicleta só escuridão pouco corpo, de pé, olhando o chão como se levasses o rosto caído no chão sob o peso dos teus pés que já não são os pés doces algodão do teus doze anos. Frios, aranhas de pernas estendidas de costas olhando o rebordo do vaso, que sim, era branco, sempre branco, porcelana branca. Como dentes. Os dentes que te caíram de leite e que tos guardaram na caixa de pó de arroz da tua bisavó. E, por instantes, sentes falta dos teus dentes de leite pequenos e pedes, dentro de ti, como fome, Dê-me mãe dê-me de volta os meus dentes brancos de quando os palhaços eram vivos e havia flores nos canteiros.