Beatriz
Hierro Lopes
[Espartilho]
Coimbra,
Debout sur l’oeuf / 2015
Gostava de vestir as linhas
de um corpo mais salgado (17)
Quando eu morrer enterras-me
um pouco mais perto do sol (38)
A Poética de Beatriz Hierro
Lopes revela um apurado exercício estilístico de
múltiplos recursos dentro do panorama da Poesia Portuguesa Contemporânea,
marcada por uma visão hiperconsciente e hipersensitiva em que toda a realidade
palpável e imediata é constantemente recriada e polarizada na sua ligação com o
corpo. Temas como a memória, a morte, a família, o contexto urbano e a
consciência geracional (transmitidos em frescos narrativos de ampla nitidez e
potência sensorial) são tratados com recurso a cruzamentos de imagens
percetivas e aforismos de grande vitalidade numa unidade fragmentária pautada pela
fluidez e valorização do tecido musical do texto.
Depois de É quase Noite (2013), [Espartilho]
é o seu segundo livro. Divide-se em duas partes e reúne um conjunto de 35
poemas em que os temas centrais de Beatriz Hierro Lopes são focados mas desta
vez manifestam-se, todos, pelo lugar hegemónico que é atribuído ao corpo. Lugar
nuclear, invocado desde logo no título, o [espartilho],
e mais à frente “entre costas demasiado
afastadas” com “a verticalidade da
escrita em queda” (9). Espartilho que
serve também a imagem de uma “prosa de
coluna partida” (11), algo que não acontece na poética de Beatriz Hierro
Lopes onde temos sempre a sensação de estar (entre a fluidez e o fragmento)
numa unidade fragmentada, sem que dela tenhamos a sensação de fortes partições.
Para isto concorre o uso de uma pontuação muito própria (o ponto e vírgula, os
dois pontos, e o ponto final recorrentes) que serve a ampla expressividade de
uma sugestão rítmica ao serviço da sugestão simbólica. “Minto. Não sou montra. Nem cara feita de cera, muito embora os meus
antepassados tenham nisso investido mais do que as suas testamentárias
vontades; sou inquieta, radioactiva e frequentemente indecisa. De uma anatomia
avessa ao mar e às suas inquietudes” (33). O ponto final, por exemplo, é
usado para criar uma pausa maior, mantendo ao mesmo tempo a fluidez da oração -
sugerindo-a, pautando-a entre diferentes velocidades.
A memória,
a identidade, os afetos são visíveis pelo corpo, na imagem de um espaço total, plenamente
tangível, na aceção que Roland Barthes dá ao Prazer do Texto “o momento em que o meu corpo segue as suas
próprias ideias”, a escrita das próprias ideias do corpo, inseparáveis
dele, na sua linguagem “a respiração, o
ar que te deixa e o ar que te chega, o movimento secreto do teu peito” (p.
19) possibilita as “Coisas que o teu corpo apenas a mim me
diz”: (p. 19). Em [Espartilho] o
corpo é um epicentro do qual tudo se ramifica, do qual tudo parte e aonde tudo
retorna, (origem e fim), ele é o lugar onde bate o “sentir anatómico do tempo” (p. 40). Lugar múltiplo, orgânico, onde
tudo se reflete, ele é cruzado por memórias e é, por isso mesmo, o resultado de
diferentes trajetórias e velocidades; no texto [Violeta] por exemplo: “A
trajectória do medo no meu corpo não conhece factos ou história. Tem o nome de
uma consoante e de uma sílaba: atravessa-me e atira todas as flores da praça ao
chão” (35), através deste exercício corpo, identidade e memória
dissolvem-se, fundem-se num todo percetivo. Da memória genética que invoca a
família nos textos [antecomeço] e [lição para meninas espartilhadas] à “memória solar” (38) ou ao “involuntário desta
cidade”(15) em [Espartilho] tudo
se manifesta no corpo - tudo se passa à
sua escala e na sua dimensão. De uma anatomia
revitalizadora são feitas as seguintes imagens “o espaço do fim do indicador ao fim do polegar; o que usava em criança
para criar a metade da cúpula de um palácio de inverno” (15); anatomia que
se confunde com a paisagem, que se torna expansiva: “Tenho uma cidade em cada perna, e em cada coxa o tráfego, a espera, a
ira do taxista”, “Nego, nego tudo; e
há sinos que tocam apenas nas minhas costas, santos de olhar baço a que somente
o meu olhar dá luz” (16), ou ainda “sou
maleável e o mesmo é dizer que caio estrondosamente em qualquer calçada só pela
atracção dos meus joelhos pelas pedras”. O corpo enquanto lugar de
ampliação, “em que me multiplico em
sonhos de outros” (19), assume-se como espaço de desdobramento e multiplicação
do sujeito poético que dialoga, de forma inovadora, com a tradição modernista: “Eu, multiplicando-me no interior da água”
(p. 30). O corpo de [Espartilho] é
universalizado, colossal e espelho absoluto de todas as condições, ele é: “Novembro sorrindo-me por trás das
articulações dos ossos, dizendo-me que há tempestades no corpo que só os
tornozelos entendem por ser deles a ausência de verticalidade” (17).
Através da revitalização da anatomia, e da evidência dos seus milagres, Beatriz
Hierro Lopes cria algumas das imagens mais consistentes e apuradas da novíssima
poesia portuguesa, pelo seu equilíbrio, vitalidade e potência de visualização, pelo seu alto grau de
nitidez e concreção imagética. Atentemos à seguinte passagem do poema [rio]:
“Quando
o rio já não é rio, guardada na escuridão da caixa de papelão, a pinha respira,
e a sua respiração que fora leve correnteza de rio, é pesada como os anos em
que as mãos esquecidas das linhas pisaram as linhas de outras linhas em vão. Ela
abre-a. Ao abri-la com a ponta dos dedos percorre as linhas secretas da terra,
tentando recordar-se se eram as suas mãos linhas de pinhas oferecidas em tardes
leves de rio, ou a memória dos anos que tornaram árida a corrente”
Para Beatriz Hierro Lopes
revitalizar a anatomia é ajustá-la pelo que ela tem de desejo. Assim, enquanto
realidade totalizante, o corpo manifesta-se e transfigura-se expansivamente (inverte
e reinventa a anatomia) “ao fazer-se e ao
pensar-se, repensa e refaz cada um desses lugares. Inverte a anatomia e
converte-a na verticalidade do desejo” (41). A recriação da realidade
poética que BHL nos apresenta é não só feita, à escala do corpo, e à escala do
chão, mas também à escala do Presente. Estamos assim também, tal como Manuel de
Freitas salientou no prefácio à antologia Poetas
sem Qualidades, perante uma poesia que valoriza o “predomínio do temporal
sobre o eterno”1, marcada pela indissociabilidade entre o poeta e o
seu tempo, exercício que tende assim a desconstruir a idealidade do Futuro,
trazê-lo, pelo menos, um pouco mais para o chão: “o meu futuro abusa da opacidade burocrática de funcionário público. Só
vira as costas quando pouso os pés no chão, que o futuro, como todas as
mulheres, demora demasiado tempo a arrumar o corpo longe das rugas.” (41),
quebra desse lugar de futuro idealizado também no poema [Centro], “enquanto lá fora se seca o futuro. Linhas vermelhas e
brancas que servirão ao conforto de uma cama sem lados. A sagração do tempo em
que o meu corpo será apenas centro” (23) e no poema [Corpo]: “E se o futuro chama
ele não ouve” (41). Trata-se de
mostrar a linguagem tangível, de evidenciar também a materialidade da língua: “O meu nome visto de baixo” (18),“Por carris, ao longo de subterrâneos, uma
colheita de ossos finos a quem não pouparei o cansaço de haver demasiadas asas
entre as palavras” (40). Sobre a língua portuguesa e o país atual fala o
texto [Infâmia], um retrato apurado
sobre a língua portuguesa e a condição de ser português.
O mundo da infância, enquanto memória
pessoal, coletiva ou genética introduz um deslumbramento imaginativo de grande
intensidade pelo que ele tem de palpável, nítido e desconectado de qualquer
idealização da infância. É o caso do texto [Fonte],
de onde se destaca a imagem de “Uma toupeira decapitada por uma sachola” que “serviu de adubo às raízes anorécticas de uma
roseira mais velha do que eu agora, conta-se. Havia corpos de pássaros pequenos
por identificar e nenhuma estátua que fizesse frente à entrada organicamente
pensada de dois salgueiros cujos ramos se entrelaçavam numa estrutura de ferro”
(42).
[Espartilho]
assume-se, assim, como lugar
gerador de transparências e constitui uma ampla afirmação de vida no panorama
da novíssima poesia portuguesa, pelo seu poder de imaginação, (rapidez e
deslumbramento) criado por uma das vozes mais novas da poesia portuguesa atual.
Nota
Manuel
de Freitas, Poetas sem Qualidades,
Lisboa, Averno, 2002, p. 11.
Nuno Brito



