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sexta-feira, 13 de março de 2015

Nuno Moura: Canto Nono

ainda os carteiros andavam a pé
e a água com gás era no mar e o sangue grosso diluía
estendia-se a roupa nos areais
e ainda conhecíamos as pessoas da nossa vida
ainda se entrava e saía deste país
com a ligeireza de um empregado de mesa
ainda ninguém abusava da sua posição
a não ser para lançar filhos ao ar
o homem do talho pendurava corações excelentes
há muito se tinha abandonado a ideia dos números oficiais
procuravam-se ataques de fome deitando fogo a tocas
e daí nada surgia
a não ser um maior entendimento da terra
e dos seus camaleões sonolentos
farejadores de novas estradas
havia itinerância antes de haver autocarros
e os dragões vermelhos cerimoniavam aulas fúnebres
ainda a morte não tinha conhecimento de prosa
e era comum a paixão súbita por cadelas
e explicava-se a velocidade aos filhos
sem loção solar
e as correntes de ar cheiravam à planta do café
e já admirávamos as estrelas
sentados no colo do João dos Santos
ainda pedíamos desculpa quando nos sentávamos de viés
porque aprendemos o provérbio luandino
o sábio corre de costas
ainda não havia moedas nas piscinas naturais
e já o peixe-espada preto coloria porto-moniz
e já uma mulher baralhava uma aldeia
com a doçura da roupa trocada
e se havia motoristas era para levarem resumos
éramos todos criados sem toalhetes, só com abraços
ainda os nossos festivais eram por carta
o feminino de puto era miúda e de
abundância vagem
ainda o Líbano não fazia anúncios ao turismo
nem Portugal tinha mar
ninguém tinha dito “esse dinheiro vai
levar-nos à ruína”
e os homens usavam apenas marcas
de feras perigosas e não sonhavam ainda
escrever a soberanos
nem em catálogos literários
para smart-shops
e os frigoríficos ainda não interferiam
com a rádio áfrica
e a national geographic era apenas música
e as teorias eram horários que ninguém habitava
e a presença de um filho era a pose que o amor mais admirava
e o interior e o exterior
eram as posições que essa criança ensaiava
durante o seu sono
e ainda ninguém tinha ocupado as 30 vagas

para pintar na rua.

Nuno Moura, Canto Nono, Lisboa, Mariposa Azual, 2013.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Nuno Moura. O Livro dos Livros

  
1.
Uma mulher vai na parte mais bonita da rua.


O seu gelado passa de boca em boca no passeio contrário
mas pouco dos galos a combusta.


Apetece-lhe chegar a casa e pôr a cabeça sobre os pêlos
do peito.


Ficava-lhe bem uma barba postiça lá para baixo
mas há muito tempo que não o faz.


Um cigarro antes de ir dormir.
Um beijo para acordar o charlie brown.
A camisola da ginástica perto do saco perdido de frio.


2.
Foi trágico.


O homem respondeu ao assobio para cão.


3.
Nos quartos por cima do alterne viking choque dance bar
uma mulher veste uma roupa própria para sair.


Não diz nada ao príncipe nem às colegas.


4.
Na cervejaria número noventa à esquina
em fora de horas
o feiticeiro não resiste em levar um chocolate para os
seus miúdos.


5.
A c-mais-s tinha instalações com pessoas dentro de
cadeiras
em salas abrancadas.


Como ele esperava uma aparição, tinha os olhos
vermelhos.


Acendeu o cachimbo. Atrasada como sempre ela viria
para a aula
das oito e meia.


Quando ele for o reitor, ou o governador, vai dizer que
quer governar muitos anos
e a rapariga vai dar-lhe um grande beijo entre as pernas.


Para ela é abraçar o poder.
Para ele é o cheiro do cloro que ela traz depois dos
treinos.


6.
Apanhou um táxi e disse, – um desastre quanto é?


Nuno Moura, O Livro dos Livros. Lisboa, Mariposa Azual, 2000.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Nuno Moura.


Não há nada mais lindo
do que este clube de ar puto
com o leão jonas debaixo da palmeira
cabidiando o braço no meu muro esquerdo
o que eu fazia com ele
dar-lhe a minha lapela com águia de prata.

o leão jonas disse-me querem apanhar a minha sacana
mas eu dei-lhe as chaves do apartamento
em troca de protecção.

orientar a nova tendência das dúvidas existenciais
tem os seus proveitos.

se calhar no próximo mês estaremos na dúvida
quanto à nossa bondade.

e depois se nos poderemos deitar sozinhos
só com nós próprios ao lado.


Nuno Moura, Nova Asmática Portuguesa, Lisboa, Mariposa Azual, 2013. (segunda edição). p. 48.

Nuno Moura.


“envelheço e não aconteço
bato punhetas frente ao espelho
desejando quem não conheço
marujos, tropas, desportistas

penso e não existo
juncos silvestres um bom filme
meu deus abre as pernas”

(grafito que se encontra no túnel entre o c.c.b. e o padrão dos descobrimentos, não assinado)*
*(no início - ? – de 1997, este grafito foi submerso por outros de muitas cores e menos palavras)


Nuno Moura, Nova Asmática Portuguesa, Lisboa, Mariposa Azual, 2013 (Segunda Edição). 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Nuno Moura: Stamp


stamp stamp
abraço abraço
metade do beijo no teu ombro
mais de metade na minha boca

abraço abraço
ar ar
nada de ti em cima
nada de ti em baixo

metade do beijo no teu ombro
mais de metade na tua boca



Nuno Moura, in Antologia da Cave: 25 anos de Poesia no Pinguim Café, Porto, Apuro, 2013.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Nuno Moura: Vinte e um mil metros

Comi pão e queijinho fresco, taça tinta, levo-te uma chamuça
mesmo indiana, limpei a gordura ao secador de mãos, que detestas.
Lembrei-me de pouco melhor, fiz-te uma animação, muito caía,
catorze vidas, balas pretas e bonecos inimigos, legendas.

Seres longe, obriga-me a ser lapiseira, amanhã
carteiro, depois já como queres.

Se não te doesse, não me corria.

Nuno Moura, Soluções do Problema Anterior, Lisboa: & etc, 1996.

Nuno Moura: Um poema tenrinho pode ser

  Um poema tenrinho pode ser
quando tu morreres vou tirar a carta
ou
o mosteiro dos pulmões ataca uma barriga sem grades
e nasce uma quantidade razoável de imagens
indo da agulha de cintilo
aos dentes de um morcego beija-mão.

mas pode ser escrever chamar otários
sabrões
zarpos
garôlos
altos comissários
nas paredes para as ruas
das garagens-oficina nova era automóvel.

mas pode ser amor drógádo
síque
não presta.

mas pode ser tão difícil.
mas pode ser
liga à tua antiga madrinha-de-guerra
vai ter com ela saca-a ao marido
mexe com esta merda
pá.


Nuno Moura, Poetas sem qualidades, Averno.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Nuno Moura

Há muitas viúvas em Lisboa

 
  
há muitas viúvas em lisboa
que não voltam prá terra
apanham a pensão do estado
e brincam na língua
com os push-pops dos empregados senéques.

há viúvos a preparar mais meio século
de ventres sem pálpebras em loucuras sem barriga.

todos têm na cabeça uma planta sem ossos
a lançar na seiva
a bengala da força interior.

comem na cozinha têm uma cadeira.
têm a matemática das taxas de juro num
banco de jardim.

                [Nova Asmática Portuguesa]



Nuno Moura

poetas sem qualidades
Averno