Amadeo de Souza-Cardoso (1997-1918).
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Pedro Eiras: Substâncias Perigosas
Esconjuros e mentiras
Uma ciência do erro.
Sempre preferi ler textos obviamente errados mas cheios de possibilidades de
pensamento – a textos certos que só repetem o que já sei.
E o que se lê, ainda que seja errado, começa a tornar-se real, porque cada
livro reinventa o mundo.
Viver no mundo certo inventado pelo livro errado.
O que interessa, de facto, é algumas operações. Não mais matéria, menos
matéria, mais sumário, menos sumário. Interessa uma pequena operação de
pensamento: inventar uma pequena nova torção para a realidade.
Não confirmar nada: surpreender tudo.
Pedro Eiras, Substâncias Perigosas, Pedro Eiras, Livro do Dia.
José Cardoso Pires: O Delfim
Falta uma
vírgula na paisagem:
E a tarde escorre sem estremecer. Nem um golpe de ar, nem um pássaro, um ruído ao menos a a descer dos montes pela estrada. Isto, no fundo, é morte. podia-se pôr uma cegonha na torre da igreja - seria a vírgula. um pescoço longo e curvo, espalmado no ar sobre o largo. As cegonhas pensam muito nos filhos, parece. Andam de terra em terra a pensar neles.
(...)
Aí vai a dona da pensão: um mastodonte. Acaba de sair por baixo da minha
janela, carregada de gorduras e de lutos, e calculo que de boca aberta para desafogar
o seu trémulo coração. Atravessa a rua perseguindo a criada-criança, como é
hábito. Entra no café: mal cabe na porta. Tem cabecinha de pássaro, dorso de
montanha. E seios, seios e mais seios, espalhados pelo ventre, pelo cachaço,
pelas nádegas. Inclusivamente, os braços são seios atravessados por dois ossos
tenríssimos. "Jesus, o que são as coisas," queixa-se ela a todo o
momento.
Com um corpo assim não podia deixar de ser uma criatura sofredora, maternal. Vemo-la sentada, formiga-mestra duma hospedaria de caçadores: toda ela transborda generosidade. O modestíssimo cheiro a sabão amarelo, e começamos a perceber uma música gentil lá no alto - a sua voz.
Com um corpo assim não podia deixar de ser uma criatura sofredora, maternal. Vemo-la sentada, formiga-mestra duma hospedaria de caçadores: toda ela transborda generosidade. O modestíssimo cheiro a sabão amarelo, e começamos a perceber uma música gentil lá no alto - a sua voz.
PIRES, José Cardoso (1998), O Delfim, Lisboa, Publicações Dom Quixote.
André Domingues: o teu vestido
Agarro a tesoura porque estou apaixonado por tudo o que a tesoura pode fazer por mim. Num instante recordo os direitos e os deveres da tesoura. Os deveres: cortar, recortar, resumir. Os direitos: matar, magoar, interferir. Entretanto a tesoura confessa-me que está faminta. Já não corta há muito tempo, disse-me, com o olhar de lince dirigido ao teu vestido. A tesoura está mesmo desesperada, parece querer ganhar vida, faz acrobacias no ar, abre e fecha as suas pernas de bailarina e oferece a sua nudez e os seus serviços ao teu vestido. O teu vestido não fala, não se mexe, não reage porque tem medo de perder a virgindade do destino, mas, no fundo, o teu vestido já é curto e decotado o suficiente para perceber que a morte é uma alegoria, que nenhuma arma pode acrescentar nada à natureza do indivíduo e que o melhor é fechar os olhos e não resistir.
André Domingues (Inédito).
Manuel de Freitas: Nada de Nada
para
o José Carlos Soares
Um dia, logo de manhã, entraremos
num cemitério e perguntarás a Antonia
Pozzi se estar morto é mais ou menos
triste do que estes dias arduamente sepultados.
Receando que saibas a resposta, beberei
com Lowry a primeira ou a última tequila,
na certeza de que ambos os adjectivos estarão
certos (um pouco, talvez, demasiado certos).
Assim possa a chuva apagar todos
os versos que escrevemos
para nada, sobre nada, contra nada,
à sombra imensa dos jacarandás
que floriam - distraídos, quase por engano -
no Rossio. E inundavam de luz (nunca
vi uma luz tão escura) as portas
e os umbrais deste cemitério assim.
FREITAS, Manuel (2007), Terra sem Coroa, Vila Real, Teatro de Vila Real.
Um dia, logo de manhã, entraremos
num cemitério e perguntarás a Antonia
Pozzi se estar morto é mais ou menos
triste do que estes dias arduamente sepultados.
Receando que saibas a resposta, beberei
com Lowry a primeira ou a última tequila,
na certeza de que ambos os adjectivos estarão
certos (um pouco, talvez, demasiado certos).
Assim possa a chuva apagar todos
os versos que escrevemos
para nada, sobre nada, contra nada,
à sombra imensa dos jacarandás
que floriam - distraídos, quase por engano -
no Rossio. E inundavam de luz (nunca
vi uma luz tão escura) as portas
e os umbrais deste cemitério assim.
FREITAS, Manuel (2007), Terra sem Coroa, Vila Real, Teatro de Vila Real.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Guerra Junqueiro: Oração à Luz (1904)
Claro
mistério
Do
azul etéreo!
Sonho
sidéreo!
Luz!
Da
Terra dorida
Alento
e Guarida!
Fermento
da vida,
Luz!
Eucaristia
santa,
Vinho
e pão que alevanta
Homem,
rochedo e planta…
Luz!
Virgem
ígnea das sete cores,
Toda
abrasada de esplendores,
Mãe
dos heróis e mãe das flores,
Luz!
Fiat
harmónico e jucundo,
Verbo
diáfono e profundo,
Alma
do Sol, corpo do mundo,
Luz!
Luz-esp’rança,
luz rútila da aurora,
Vida
vibrando na ampliação sonora,
Vida
cantando pela vida fora,
Luz!
Luz
que nos dás o pão, ó luz amada!
Luz
que no dás o sangue, ó luz doirada!
Luz
que nos dás o olhar, luz encantada!
Bendita
sejas, luz, bendita sejas!
Sejas
bendita em nós, ó fonte de harmonia!
Sejas
bendita em nós, ó urna de alegria!
Bendito
seja o filho teu, o alvor do dia!
Perpetuamente,
ó luz, ó mãe, bendita sejas!
*
A
inabalável rocha taciturna,
Quando
a electrize o teu deslumbramento,
Acora
e sonha na mudez soturna…
Por
ti se volve areia; e num momento
A
área é lodo, é seiva, é fruto lindo,
É
carne humana, é sangue, é pensamento…
Por
ti a água exulta, anda bramindo,
Por
ti rola do monte ao sorvedoiro,
E
voa, em nuvens, pelo azul infindo…
Por
ti orvalho: Cai no trigo loiro?
É
pão e é hóstia … Cai na flor? Incenso,
Néctar,
abelha, borboleta d’oiro…
Por
ti flutua o ar, um mar imenso,
Prenhe
de vidas invisíveis, onde
Todo
o sonho da terra anda suspenso…
Ao
teu hálito, ó luz, nada se esconde:
Brilhas!
E a alma opaca da matéria
Das
entranhas do globo te responde!...
Brilhas!
E amor e dor, luto, miséria,
Doira-os
a graça, a juventude, o encanto
Do
teu manto de púrpura sidérea!
És
tu que alumbras alegria e pranto:
No
sorriso do herói clarão eterno,
Prisma
de Deus na lágrima do santo.
Em
teu fulgor genésico e materno
Surdem
núpcias das campas viridente
E
um novo abril palpita em cada Inverno…
Por
ti suspiram, sem te ver, dormentes,
As
almas vegetais, indefinidas
No
mistério noturno das sementes…
Germinando
por ti, por ti vestidas,
Sonham
aroma, sonham forma e cor,
Em
teu alvor magnético embebidas…
E
esplêndidas de graça, enlevo e amor
Erguem-te,
ó luz, um ai e luz adiante,
Aberto
em beijo, idealizado em flor!...
Por
teu frémito d’oiro, instante a instante,
O
verme cego, enclausurado, imundo,
Gera
a visão liberta e deslumbrante.
Por
ti um sopro anímicoo e fecundo
Penetra
o lodo, a rocha, a água, o ar,
Voa
de esporo a esporo, e mundo a mundo…
Por
ti a asa, o lábio, a mão, o olhar…
Por
ti o canto e o riso e o beijo e a ideia…
Por
ti o verbo ser e o verbo amar!...
A
inextrincável, a infindável teia
Do
sonho do universo em luz é urdida,
Em
Luz vislumbra e misteriosa ondeia…
Suspensa
em luz, da mesma luz nutrida,
Vai
para Deus rolando eternamente
A
dor, na eterna evolução da vida…
Homem,
nuvem, granito, onda, serpente,
A
rocha, o ar, o abutre, a folha d’hera,
O
mundo, os mundos, tudo que é vivente,
Do
lodo à águia, do metal à fera,
Da
fera ao anjo, do covil à cruz,
Move-se
tudo, existe e reverbera,
Sonhando,
amando, palpitando em luz!...
***
E
o coração a arder, que das alturas
Manda
perpétua luz às criaturas,
Vive
às escuras!
Seus
infernos de fogo a trovejar
Dão
aurora e luar.
Sua
angústia sem fim, que não descansa,
É
mãe do beijo e mãe da esp’rança.
Dos
ais candentes da sua dor
Brota
o sorriso e brota a flor.
Bendito
seja!
Arde
por nós a toda a hora,
Sofre
por nós a toda a hora,
Por
nós morrendo a toda a hora,
Continuamente!
Bendito
seja!
O
seu tormento é o nosso alento,
Sua
paixão cruel e dolorida
A
nossa vida.
Bendito
seja! bendito seja!
Bendito
o mártir, cujo sangue a flux
Alaga
os mundos de marés de luz!
Bendita
a horrenda e trémula agonia,
Cujos
suspiros são o alvor do dia!
Bendita
a morte, em cuja essência etérea
Ondula
para Deus nossa miséria!
Bendito
seja!
Bendito
seja!
Bendito
seja!
Bendito
vezes mil o fecundo esplendor,
Nossa
vítima e nosso redentor!...
***
Homem!
Quando
a alvorada alumie o horizonte,
Ergue-te
em pé, ergue essa fronte!
Ergue-te
livre, em pé, na terra escrava,
Em
que hás sido mudez caliginosa
E
onda e rocha e verme e fera brava…
Ergue
essa fronte humana misteriosa,
Enigmática
flor crepuscular,
A
flor que chora que sorri, que pensa,
A
flor de dor, que a natureza imensa
Milhões
de anos levou a arquitetar!...
Ergue-te
calmo sobre a terra obscura,
Filho
de Satanás, pai de Jesus!
E
no enlevo, no mimo, na candura
Da
madrugada angelizada e pura,
Faz
d’olhos tristes, o sinal da cruz:
Uma
cruz imortal em pensamento,
Uma
infinita cruz, cheia de luz,
Aberta
aos mundos num deslumbramento…
Cruz,
que vindo de deus, trespasse o inferno,
Cruz
abarcando toda a imensidade,
Cruz
onde um Cristo, o Amor Eterno,
Chore
sem fim a dor da Eternidade!...
E
extático, enlevado, absorto, imerso
Na
harmonia inefável amplidão,
Ébrio
de Deus, Ungido de universo,
Homem,
levanta à luz esta oração:
Monstro
de dor nos ermos do infinito,
Ó
Sol crucificado, ó Sol bendito!
Tua
carne de fluidos e metais
É
a carne embrião do mundo todo,
Das
águas e das rochas e do lodo,
Que
foram nossas mães e nossos pais!
Por
isso lanças para nós teu grito,
Por
isso voam para nós teus ais!
São
os teus ais sem fim de moribundo
A
luz, esp’rança que electriza o mundo.
O
oiro divino das manhãs formosas,
Que
os orbes veste de sendais e rosas,
Como
se fossem pobrezinhos nus,
É
o estertor e a dor do teu fadário,
É
sangue a espadanar do teu calvário,
A
jorrar do teu corpo e da tua cruz!
Bendito
o Cristo-Sol na crua ardente,
O
monstro mártir, que infinitamente
Por
nós expira, soluçando luz!...
Ó
luz, ó luz, o mundo que te devora,
Mas
revives no mundo a toda a hora.
Morres
para nascer a todo o instante,
Mais
perfeita, mais pura e mais brilhante.
Sim,
mais brilhante: a claridade
Vem
só do amor e da verdade.
Tu
revives, ó luz, mais amorosa
Na
água fluida, trémula e viscosa.
Na
água fecundante e conjugal,
Mãe
do homem, do verme e do cristal.
Na
água móvel, mágica, indecisa,
Onde
a vida fermenta e fraterniza…
Por
onde o sangue a e seiva, ébrios d’amor,
Circulam
para a ideia ou para a flor!
Mas
a água te absorve e te agradece,
Nunca
te esquece, ó luz, nunca te esquece:
Almas
da água, quando se casaram,
Foi
com beijos de luz que se beijaram.
***
Tu
revives na terra áspera e dura,
Que
é leite e mel na boca da verdura.
Leite
e mel da raíz, do sugadoiro,
Que
mama fragas e dá frutos d’oiro.
Sim,
revives mais pura, muito mais,
No
granito e no lodo e nos metais.
Matéria
bruta
Não
vê, não fala, não escuta,
Não
pode amar,
Sem
se tocar.
Quando
se toca é que se liga,
Tem
de ser densa para ser amiga.
Na
rude e baixa natureza
O
amor é solidez, a afeição é dureza.
E
por isso o cristal
É
um verdadeiro santo mineral.
Rochedo
ou bronze
Mantém
na estátua o génio criador,
Porque
rochedo e bronze
São
dois blocos d’amor.
O
sonho ideal e genial, sonho impoluto,
Não
se esvaiu, porque fundiu
No
sonho bruto…
Fragas
imóveis, taciturnas,
Que
nós pisamos, caminhando,
São
almas lentas, ínfimas, nocturnas,
Cegas
e surdas, que se estão beijando!...
A
pedra, ó luz, te absorve e te agradece,
Nunca
te esquece, ó luz, nunca te esquece:
Porque
as pedras, inertes e geladas,
Já
foram sóis, estrelas, alvoradas…
*
Tu
revives, ó luz, mais santa,
N’alma
da planta.
Alma
já feita de infinitas almas,
Vida
Gerada de infinitas vidas,
Mas
presas todas, palpitando unidas
Numa
só alma!
Almas
que existem para a mesma ânsia,
Que
a mesma ardente aspiração eleva…
Sonhando,
amando, ouvindo-se a distância,
Folha
livre no azul, raiz muda na treva…
Almas
aéreas, ondulantes,
Ébrias
de cor e de esplendor,
Ao
Deus ignoto erguendo as verduras radiantes,
Ao
Eterno evolando emanações de flor…
E
flor doirada e folha verde e troncos nus
Condensam
chamas, arquitectam luz!
Incorporam
em luz o infindável desejo,
Edificam
em luz a essência misteriosa
Que,
suspiro a suspiro e beijo a beijo,
Vai
do líquen ao cedro e vai do musgo à rosa!...
Ervas,
florestas, pâmpanos, rebentos,
Cálices
d’oiro, bosques a noivar,
São
esculturas em deslumbramentos,
Sonhos
urdidos com a luz e o ar!...
*
E
inda mais bela que na Primavera
Ressuscitas
ó luz, num verme ou numa fera,
Que
já tem sangue e tem olhar!
Luz
dardejante!
Graça
da cor! alvor, fulgor, esplendidez!
Tu
és escuridão, és uma cega errante…
Cega
nocturna e deslumbrante,
Porque
alumias e não vês!
Esses
olhos de estrelas vagabundos,
Olhos
de luz tão viva que incendeia,
Não
descobrem nem páramos, nem mundos,
Não
conhecem nem flor, nem grão d’areia!
E
uma alimária torva, rastejando,
Vê
as nuvens e os pássaros em bando,
Vê
da noite o clarão,
E
na centelha exígua da pupila
Junta
o braseiro d’astros que rutila,
Imensurável
na amplidão!
O
olho ardente
É
luz prodigiosa, é luz consciente.
Olhar
É
distinguir, unir, fraternizar
O
sonho do universo,
Tudo
o que anda disperso
Ou
no lodo ou na rocha ou na água ou no ar...
E,
dilatando o amor,
Dilata-se
a visão, cresce a união, cresce o esplendor.
Olhos
perfeitos,
D’eterna
luz,
Só
os olhos divinos dos eleitos.
Só
os olhos de Buda ou de Jesus.
***
E
ainda mais santa e mais harmoniosa
Que
nos olhos da pomba ou no cálix da rosa,
Tu
revives, ó luz, na música dos ninhos,
Na
alegria infantil dos passarinhos.
A
ave canta,
Sonorizando
aurora na garganta...
Verdilhão,
toutinegro, rouxinol
Declamam
luz, gorjeiam sol.
Morre
a canção na escuridão...
Canção
alada!
Tu
és a voz idealizada
Da
natureza flórida e fecunda,
Ébria,
bebendo oceanos d’alvorada...
Toda
a alma da luz, que a terra inunda,
Todo
o anseio da terra ao fulgor imortal,
Cantam
na voz da cotovia,
Cristalizam
na límpida harmonia
Dum
beijo d’ouro ideal!...
O
mundo, ó luz, te absorve e te devora,
Mas
revives no mundo mais intensa,
Mais
próxima de Deus a cada hora,
Nas
vidas todas desta vida imensa,
Vidas
sem fim, almas sem fim,
Que
o segredo do amor junta e condensa,
Por
meus olhos magnéticos, em mim!
Lampejam
no meu corpo, humanizadas,
Mortas
constelações e mortas alvoradas.
Desde
que a Vida me gerou em dor
E
fui éter, estrela, água, montanha e flor;
Desde
que verme obscuro andei a rastros,
E
lobo em pé, sob o clarão dos astros,
Ao
verter uma lágrima ligeira,
Me
senti homem pela vez primeira;
Quantos
sóis, nebulosas, firmamentos,
Varridos
já n’asa dos ventos,
Não
deram luz ao lodo triste,
Que
em mim, sonhando e suspirando, existe?!...
Todo
o meu corpo é luz esplendorosa,
Sou
um hino de luz religiosa,
Gravitando
na órbita de Deus...
Milhões
d’auroras riem no meu canto,
Ondas
d’estrelas brilham no meu pranto,
Pélagos
de luas há nos olhos meus!...
Esta
carne, este sangue, esta miséria,
E
este ideal imortal que me conduz,
Já
foram brasas na amplidão etérea,
Por
isso exultam devorando a luz...
Vive
de luz minha alegria e minha mágoa,
Bate
na luz meu coração,
Fulge
na luz o meu olhar...
Ó
luz tremente, eu bebo-te na água,
Ó
luz ardente, eu como-te no pão,
E
calco-te na lama e sorvo-te no ar!...
Ó
luz! Luz! Luz!
Como
te hei-de remir e te hei-de consolar?!...
Luz
que nos enches de alegria,
Luz
que desvendas a harmonia,
Que
és o esplendor e a cor da natureza,
Farei
de ti, luz dum só dia,
A
luz perpétua da Beleza!
Luz
que iluminas a existência,
Luz
que propagas a evidência,
Que
dissolves o erro e a escuridade,
Farei
de ti, da tua essência,
A
luz augista da Verdade!
Luz,
onde os olhos e ond eo pensamento
Casam
a estrela, o verme, a rocha, a água, o vento,
Homens
e monstros, a canção e a dor,
Farei
de ti, luz dum momento,
A
luz eterna, a luz divina, a luz do Amor!
Farei
de ti a luz do Amor, que não se apaga,
A
luz que tudo alaga
E
tudo vê e tudo esquece...
A
luz que nos deslumbra e irradia
Dum
suspiro, dum ai, duma agonia,
Dum
beijo humilde ou duma prece...
A
luz, em cuja glória idealizante,
O
braseiro dos astros rutilante
É
cinza escura e sepulcral,
E
a apoteose imensa da alvorada
Uma
lúgubre e lenta fumarada,
Sonho
torvo da dúvida e do mal...
A
luz que transfigura e que converte
O
César deslumbrante em poeira inerte
E
o vagabundo, a rastros, num clarão...
A
luz que acende lágrimas doridas
Em
estrelas eternas e floridas,
Em
jardins de candura e de perdão!...
Luz
onde tudo vai boiando imerso,
Luz
Espírito e Alma do universo,
Sol
dos sóis, incriado e criador...
Luz
da misericórdia e lz de esp’rança,
Luz
de infinita bem-aventurança,
Manhã
que rompe da infinita dor...
Ó
luz dos astros, cega luz corpórea,
Que,
revivendo, és água transitória,
Fraguedo
e areia, podridão e planta,
Cálix
que murcha e que a nortada leva,
Olhar
de brasas que se volve em treva,
Gorjeio
lindo que uma hora canta,
Em
meu sangue exaltada e sublimada,
Em
meu divino ideal crucificada,
À
paz suprema chegarás por mim:
Serás
a luz do Espírito amoroso,
Serás
na eterna dor o eterno gozo,
A
beatitude harmónica e sem fim!
Oremus:
Cândida
luz da estrela matutina,
Lágrma
argântea na amplidão divina,
Abre
meus olhos com o teu olhar!
Viva
luz das manhãs esplendorosas,
Doira-me
a fronte, inumda-me de rosas,
Para
cantar!
Luz
abrasando, crepitando chama,
Arde
em meu sangue, meu vigor inflama,
Para
lutar!
Luz
das penumbras a tremer nas águas,
Vela
as montanhas dum vapor de mágoas,
Para
sonhar!
Luz
dolorosa, branda luz da Lua,
Embala,
embebe a minha dor na tua,
Para
chorar!
Luz
das estrelas, vaga luz silente,
Cai
dos abismos do mistério ardente,
Sangra
calvários infinitamente,
Para
eu rezar!
E
cantando,
E
lutando,
E
sonhando,
E
chorando,
E
rezando,
Farei
da cega luz que me alumia
A
luz espiritual do grande dia,
A
luz de Deus, a luz do Amor, a luz do Bem,
JUNQUEIRO,
Guerra (1997), Oração ao Pão, Oração à
Luz, Porto, Lello Editores.
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Émile Zola: A Taberna (1876)
Quando chegam os
días maus, estes não deixam de ser acompanhados por algumas noites agradáveis,
horas em que se amam as pessoas que se detestam.
ZOLA,
Émile (1972), La
Taberna, Barcelona, Credsa Ediciones.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Fernando Sylvan: Mensagem do Terceiro Mundo
Não tenhas medo de
confessar que me sugaste o sangue
E engravataste
chagas no meu corpo
E me tiraste o mar
do peixe e o sal do mar
E a água pura e a
terra boa
E levantaste a
cruz contra os meus deuses
E me calasse nas
palavras que eu pensava.
Não tenhas medo de
confessar que te inventasse mau
Nas torturas em
milhões de mim
E que me cavas só
o chão que recusavas
E o fruto que te
amargava
E o trabalho que
não querias
E menos da metade
do alfabeto.
Não tenhas medo de
confessar o esforço
De silenciar os
meus batuques
E de apagar as
queimadas e as fogueiras
E desvendar os
segredos e os mistérios
E destruir todos
os meus jogos
E também os
cantares dos meus avós.
Não tenhas medo,
amigo, que te não odeio.
Foi essa a minha
história e a tua história.
E eu sobrevivi
Para construir
estradas e cidades a teu lado
E inventar
fábricas e Ciência,
Que o mundo não
pode ser feito só por ti.
Fernando Sylvan (Díli 1917- Díli 1993)
T.S. Eliot: O Hipopótamo
(E quando esta epístola for lida entre vós
fazei com que seja lida também na Igreja dos
Laodiceanos)
O Hipopótamo de costas largas
Repousa sobre a barriga na lama;
Embora nos pareça tão firme
É meramente de carne e sangue.
A carne e o sangue são fracos e frágeis,
Susceptíveis de choque nervoso;
Ao passo que a verdadeira Igreja nunca falha
Porque tem por base um rochedo.
Os fracos passos de Hipopótamo podem errar
Ao compreender os fins materiais
Ao passo que a Verdadeira Igreja não passa de se mexer
Para colher os seus dividendos
O `pótamo não consegue alcançar
O mango na Mangoaeira;
mas frutos de romã e pêssego
Refrescam a Igreja vindos do ultramar.
No acasalamento a voz do hino
Denota inflexões estranhas e roucas
Mas todas as semanas nós ouvimos e louvamos
A Igreja, por ser una com Deus.
O dia do hipopótamo
É passado a dormir, à noite caça;
Deus trabalha de um modo misterioso -
A Igreja consegue dormir e comer ao mesmo tempo.
Vi o ´Popótamo levantar voo
Subindo das húmidas savanas,
E anjos implorantes à sua volta cantam
Louvores a Deus, em altos hosanas.
O sangue do Cordeiro vai lavá-lo bem limpo
E ele abrirá os braços celestiais,
No meio dos santos serám visto
Tocando numa harpa de ouro.
Será levado tão branco como a neve,
E beijado por todas as virgens mártires,
Ao passo que a Verdadeira Igreja fica cá em baixo
Embrulhada no velho nevoeiro de miasmas.
Laodiceanos)
O Hipopótamo de costas largas
Repousa sobre a barriga na lama;
Embora nos pareça tão firme
É meramente de carne e sangue.
A carne e o sangue são fracos e frágeis,
Susceptíveis de choque nervoso;
Ao passo que a verdadeira Igreja nunca falha
Porque tem por base um rochedo.
Os fracos passos de Hipopótamo podem errar
Ao compreender os fins materiais
Ao passo que a Verdadeira Igreja não passa de se mexer
Para colher os seus dividendos
O `pótamo não consegue alcançar
O mango na Mangoaeira;
mas frutos de romã e pêssego
Refrescam a Igreja vindos do ultramar.
No acasalamento a voz do hino
Denota inflexões estranhas e roucas
Mas todas as semanas nós ouvimos e louvamos
A Igreja, por ser una com Deus.
O dia do hipopótamo
É passado a dormir, à noite caça;
Deus trabalha de um modo misterioso -
A Igreja consegue dormir e comer ao mesmo tempo.
Vi o ´Popótamo levantar voo
Subindo das húmidas savanas,
E anjos implorantes à sua volta cantam
Louvores a Deus, em altos hosanas.
O sangue do Cordeiro vai lavá-lo bem limpo
E ele abrirá os braços celestiais,
No meio dos santos serám visto
Tocando numa harpa de ouro.
Será levado tão branco como a neve,
E beijado por todas as virgens mártires,
Ao passo que a Verdadeira Igreja fica cá em baixo
Embrulhada no velho nevoeiro de miasmas.
T.S. Eliot (1888-1965)
Murilo Mendes: Cantiga de Malazarte
Eu sou o olhar que penetra nas
camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro o cheiro dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo,
nada me fixa nos caminhos do mundo.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro o cheiro dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo,
nada me fixa nos caminhos do mundo.
MENDES, MURILO (1994), Poesia Completa e Prosa, Editora Nova Aguilar, s.l.
John Donne: A Pulga
Observa esta pulga, e repara nisto –
Quão pouco é o que me recusas -:
A mim sugou primeiro e agora
suga-te a ti,
E nesta pulga nossos dois sangues
se misturam.
Confessa: de tal não pode dizer-se
Que é pecado, ou vergonha, ou
desfloramento,
Portanto ela goza antes de
cortejar,
Saciada, incha com um sangue feito de dois,
Saciada, incha com um sangue feito de dois,
O que, enfim, é bem mais do que
ousaríamos.
Oh, espera. Três vidas poupa numa
pulga,
Onde nós quase – não, mais do que –
casados estamos:
Esta pulga é tu e eu, e isto aqui
É o nosso leito, o nosso templo
nupcial;
Embora os pais – e tu – protestem,
estamos juntos
E enclausurados nessas vivas paredes negras.
E enclausurados nessas vivas paredes negras.
Ainda que o uso
te autorize a matar-me,
A tal não se
acrescente o suicídio,
E o sacrilégio:
três pecados ao matar nós três.
Cruel e precipitada, já de púrpura
Manchas a tua unha com o sangue da
inocência?
De que poderia esta pulga ser
culpada
Senão dessa gota que chupou de ti?
Mas tu triunfaste, e afirmas que te
Não encontras, nem a mim, mais
fracos agora:
É
verdade. Então aprende como são falsos os medos:
Esta
mesma dose de honra, quando a mim te renderes,
Perderás
– igual à vida que a morte desta pulga te roubou.
A "Criação Literária" no Discurso Publicitário
Notas
sobre a atividade publicitária de Fernando Pessoa e Alexandre O´Neill
Colóquio Publicidad, Cultura y Sociedad
CELE, UNAM 2013
Este
trabalho incide sobre o diálogo entre a criação literária e a publicidade,
focaliza-se na relação que dois escritores e poetas portugueses tiveram com a publicidade
enquanto atividade profissional que desempenharam: Fernando Pessoa e Alexandre
O´Neill. Autores de diferentes épocas, de diferentes contextos políticos e
socias, mas expoentes na linha da frente de grandes movimentações literárias (mais
do que movimentos acabados); Fernando Pessoa, do Primeiro Modernismo e O´Neill
do Surrealismo Português. Se, na criação literária pouco os poderá ligar, para
além de uma obsessão forte pelo tema do “Ser
Português” e do “Ser” e “Estar no Mundo” que isso implica, na
atividade profissional há um elemento comum; os dois foram publicitários. Uma
atividade profissional, extraliterária mas que não pode ser vista fora de um
todo biográfico.
O slogan,
ou frase de efeito, é um tipo específico de mensagem verbal que pode servir
diferentes objetivos. O slogan político e o slogan publicitário são frases
curtas que procuram criar uma identificação forte e imediata no recetor,
identificação com uma causa ou com um produto. Na sua obra “Literatura Oral e Marginal”, Arnaldo Saraiva analisou as
características que favoreceram o sucesso generalizado do Slogan Político “O povo unido jamais será vencido”. Nele distingue cinco efeitos que o Slogan
deve provocar no público recetor: a atenção, o interesse, a emoção, a convicção
e o compromisso.
Se
o slogan político serve diretamente uma propaganda ou ideologia política e o slogan
publicitário a propaganda comercial, as suas estratégias são, no entanto, as
mesmas. O slogan, ou frase de efeito, é
uma frase curta destinada a ser repetida pelo maior número possível de
locutores e caracteriza-se pela brevidade, pela condensação e concisão da mensagem
verbal, pelo impacto direto e incisivo na memória. Pretende ter o efeito de uma
comunicação imediata e é normalmente criado e apresentado no anonimato. A
mensagem comercial criada com o fim de vender um produto, bem, ou serviço,
apenas se associa a uma marca, entidade ou instituição. O slogan devendo
provocar uma forte identificação com o produto, bem ou serviço, fica assim
isento de uma responsabilidade autoral direta. Deve condensar os principais
atributos de uma marca de forma bastante resumida apelando para a sua
credibilidade, ou então usar uma imagem verbal de grande nitidez, criar mentalmente
no destinatário uma imagem intensamente percetível, suficientemente vívida e
plenamente nítida. Neste caso o Slogan publicitário pode servir-se de um
conjunto amplo de figuras de estilo utilizadas sobretudo na criação literária: a
enargeia, a sinestesia, a metáfora, a
alegoria e a metonímia, imagens retóricas amplamente estudadas e dirigidas a
públicos bastante específicos.
A
mensagem verbal publicitária é normalmente complementada com todo o tipo de
mensagens visuais que fortalecem a sua ação. No caso do vídeo, do painel
publicitário ou da publicidade web, a informação verbal ocupa um lugar de
destaque mas a sua mensagem pode passar para um lugar subalterno que apenas
potencie o carácter sugestivo da visualização das imagens. As novas técnicas do
olhar levam-nos a um tempo de elevada experimentação visual em que a concreção
imagética domina os principais meios de comunicação. A absorção direta das
imagens é no entanto potenciada com a mensagem verbal que pode servir outros
fins.
A
ampla circulação de imagens no mundo contemporâneo não retira à linguagem
verbal, em contexto publicitário, o seu poder sugestivo, pode até algumas vezes
reforçá-lo num interface comunicativo imagem-texto, sendo frequente a frase
publicitária passar a servir funções mais informativas, mas normalmente, pela
sua função retórica não deixa espaço para detalhes.
A
palavra inglesa Slogan tem a sua origem na expressão Slaugh-Ghairn, um antigo grito de guerra usado pelos clãs escoceses.
Esta mensagem apelava à união do clã, antes da batalha, procurando fortalecer o
grupo através de um sentimento forte de presença e de identidade. O termo foi
incorporado à linguagem comercial para exprimir com maior força o efeito que a
publicidade deve exercer a nível comunicativo; provocar uma identificação
rápida e impulsiva, de eficácia bastante direta, ser facilmente memorizável,
tal como a frase de guerra e servir ela mesma uma guerra, ainda que comercial,
pela conquista do consumidor. Quero aqui referir o exemplo do conto “O Dragão” de Vladimir Nabokov em que a
publicidade surge como tema principal numa narrativa literária. O conto
introduz elementos típicos da literatura fantástica. Passa-se em duas pequenas
cidades industriais de Inglaterra, numa época imprecisamente definida, as quais
rivalizam comercialmente entre si. Vladimir Nabokov realiza uma sátira à
revolução industrial inglesa em que o capitalismo encontra um campo de expansão
desequilibrado que agudiza o abismo social entre burguesia e proletariado. O
autor introduz na narrativa um dragão
que começa a ser visto algumas vezes a rondar as duas cidades. O medo e a
desconfiança inicial são rapidamente superados pela possibilidade de
aproveitamento económico que os industriais podem retirar do animal.
Rapidamente, de elemento mitológico, o dragão vai passar a servir os interesses
comerciais da alta burguesia quando o diretor de uma fábrica ordena que se
capture o dragão, para lhe colocarem uma
grande faixa branca. Neste processo participam quase todos os habitantes da
cidade. Na faixa branca é escrito um slogan publicitário à empresa do
industrial. Uma vez posto o dragão é em liberdade, o slogan publicitário torna-se
móvel e voa juntamente com o dragão, permitindo um meio de publicidade aéreo,
até então nunca experimentado nas duas cidades. O voo do dragão com a
publicidade permite que, ao longo do seu percurso aéreo por todo o país, a
publicidade chegue rapidamente a um conjunto muito mais vasto de pessoas sem
qualquer custo para a empresa. Rapidamente, os industriais da cidade rival vão
procurar capturar o dragão para obter o mesmo fim, retirando a faixa
publicitária primitiva para colocar um slogan que sirva os seus interesses. A
introdução da figura mitológica do Dragão serve, não só, a Vladimir Nabokov
para produzir o efeito humorístico que advém do cruzamento dos dois tempos (um
concreto e outro mitificado), mas também para criticar a busca ilimitada de
novas formas de publicidade e de conjuntos apelativos que sirvam o lucro direto
ao menor preço possível. Relembremos que a prática publicitária serve-se de um
processo semelhante, o sistema de faixas presas a aviões, normalmente em zonas
turísticas. Este exemplo mostra aproximações temáticas da publicidade à criação
literária, ilustra igualmente o uso ilimitado de meios de que a publicidade se
pode servir. Podíamos dizer mesmo que não há nenhum campo da atividade humana
em que ela não toque ou que nela não se entranhe e que os processos para chegar
ao maior número possível de pessoas estão na base de muitas das inovações
técnicas e científicas, sobretudo no que diz respeito às ciências e técnicas da
comunicação.
O slogan
publicitário é construído tendo em vista a sua fixação duradoura na memória. Este
tipo de construção serve-se de recursos estilísticos típicos da retórica
literária bem como de recursos fonéticos a ela associados. Na frase comercial ou
slogan todas as opções sintáticas, lexicais e semânticas devem unir-se num
conjunto que sirva o eixo identificação-memória. Na sua forma, o slogan é uma
construção frásica que em média usa apenas entre quatro a sete palavras
gramaticais. O seu carácter curto deve condensar uma mensagem ou sugestão
impactante. O uso da rima, das assonâncias e aliterações são recursos fonéticos
que ajudam a que a frase se torne facilmente memorizável e que se grave mais
facilmente no destinatário. Recursos como o trocadilho, a reprodução de gírias
populares, com elementos que simulam a oralidade e valorizem a dicção aumentam
o nível de identificação e memória.
A
combinação rítmica e melódica da frase é diretamente pensada tendo em conta a
sua valorização fónica. O conjunto de sons do slogan deve potenciar, por si só,
o nível de sugestão e impacto. A frase publicitária procura aliar, num conjunto
apelativo, a valorização do corpo sonoro da palavra ao seu corpo visual ou
gráfico, a forma como ele nos é apresentado, como vemos a frase. A valorização
deste corpo gráfico desenvolve-se em articulação com o uso dos processos de
valorização fónica, aliteração, assonâncias, rima, uso de palavras com grafia
semelhante. A valorização do corpo sonoro e visual do slogan potencia a
mensagem que o corpo semântico transmite (valorização que está na base de toda a
poesia simbolista). Aqui as possibilidades de expressão verbal servem-se de
praticamente todos os recursos estilísticos em que se funda a criação
literária. Ao uso da metáfora, da alegoria e processos de metonímia que
referimos aliam-se igualmente o uso da hipérbole como forma de maximizar as
qualidades de um produto, e até o uso de géneros literários como o aforismo, o
silogismo ou a máxima. Do nível de identificação e afinidade do público-alvo
com a mensagem publicitária depende o sucesso do slogan. Estratégias como o uso
do imperativo, em que o destinatário tem a noção de estar a ser interplado
diretamente, ou o uso da primeira pessoa do plural visam um maior efeito de
aproximação, afinidade e identificação. O uso do plural coletivo pode ser usado
de formas indiretas, muitas vezes associadas à apologia do popular, do
autêntico, das raízes. Neste caso, a identificação passa sobretudo pelo
nacionalismo, pelas formas do slogan chamar à sua mensagem algo que une uma
comunidade inteira com as suas tradições mais autênticas. Atualmente grande
parte dos slogans publicitários (o sector das bebidas alcoólicas é um bom
exemplo), integram diretamente o nome do país onde são difundidos ou fazem uma
associação, mais ou menos direta, a um símbolo nacional, como a bandeira, o
hino ou monumentos arquitetónicos emblemáticos. Música, formas de vestir e
gastronomias são invocadas apelando ao sentimento de afinidade nacional, a uma
identificação mais plena. Neste sentido a publicidade reproduz estereótipos
nacionais, lugares comuns que associamos a toda uma cultura coletiva. O uso do
kilt escocês em grande parte dos anúncios de Whisky é, disso mesmo, um exemplo.
O
slogan usa inclusivamente passagens literárias das mais variadas épocas. A
citação de Shakespeare “Somos feitos da
matéria do Sonhos”, por exemplo, serviu de slogan a uma marca de
automóveis.
Sendo
a publicidade uma atividade extraliterária, a mensagem verbal que utiliza,
através do slogan, pode ser enquadrada numa área da literatura marginal que
serve um fim comercial, político ou religioso.
O
slogan religioso usa as mesmas técnicas de expressão retórica que as frase de
propaganda publicitária ou política, e é anterior a estes dois. Ele não deve
ser confundido com a oração ou a prece, o slogan religioso serve a propaganda
religiosa usada em fins distintos. Aparece escrito nas fachadas exteriores das
igrejas e no seu interior, serve de legenda a pinturas de motivos católicos.
Potencializa a sua mensagem através do interface com a linguagem visual, os
retábulos com os passos da vida de Cristo ou representações dos mártires,
complementa também toda uma literatura gráfica de motivos religiosos em locais
de culto. Ao contrário da oração, o slogan religioso é uma forma direta de
transmitir uma mensagem a cada um dos crentes individualmente, desempenha o papel
de máxima, mais do que de aforismo. É exemplo disto o slogan “És pó e pó voltarás a ser” que aparece
escrito numa grande quantidade de locais de culto. Representa uma frase fechada
que interpela diretamente cada um dos fiéis: estratégia típica do slogan
comercial. É constituído por sete palavras, o número máximo teorizado
publicitariamente para a imediata e permanente memorização.
A repetição da palavra pó como palavra-rima interna reforça a mensagem, amplamente utilizada neste caso, de que os fiéis devem desprezar os prazeres do corpo (que afinal não passam de pó eterno) e tudo o que é material e terreno na sua condição humana. Mensagem de recusa e negatividade, propaganda de uma ideia através da repetição e do reforço. O slogan serve assim diferentes fins através de estratégias comuns.
No
caso de Fernando Pessoa e Alexandre O’Neill, a contribuição na área da
publicidade constituiu, em fases da sua vida, uma atividade contínua. Passemos,
por isso, à análise desta atividade exercida por estes dois criadores
literários portugueses. Ambos realizaram produções publicitárias, tendo esses
trabalhos constituído um recurso de subsistência, uma atividade profissional.
Os seus contributos passaram, não só pela criação de slogans, como tambem pela
elaboração de trabalhos gráficos.
Fernando
Pessoa desempenhou quase toda a sua atividade profissional extra literária
na área do comércio. Nasceu em Lisboa em
1888. Com apenas cinco anos morre o seu pai, dois anos depois a mãe casa-se com
o Cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul. O casamento da mãe obriga
Fernando Pessoa a viajar com a família aos sete anos para a África do Sul. Após
a instrução primária ingressa no Liceu de Durban e mais tarde na Commercial
School of Durban onde adquire competências na área comercial. Em 1905, com
dezassete anos, Fernando Pessoa regressa a Portugal para se estabelecer
definitivamente em Lisboa. Em 1908 inicia a sua atividade de correspondente
estrangeiro na área comercial. Começa então a produzir alguns estudos de
economia internacional mais tarde reunidos nos dois volumes das Páginas de pensamento político. Torna-se
um dos diretores da Revista de Comércio e
Contabilidade e desenvolve estudos na área da sociologia do comércio. Em 1925, com 37 anos, Fernando Pessoa
inicia a sua atividade criativa regular na área da publicidade após conhecer
Manuel Martins da Hora, o fundador da primeira agência de publicidade em
Portugal. Pessoa escreve então um texto teórico sobre uma campanha publicitária
destinada a fomentar o turismo na Costa do Sol, publicado pela primeira vez
muito depois da sua morte, em 1968, na obra “Fernando
Pessoa – O Comércio e a Publicidade” de António Mega Ferreira, livro que
integra vários textos até então inéditos de Pessoa sobre a área do comércio e
da publicidade e que é fundamental para compreender as suas atividades e
estudos teóricos extraliterários.
O
texto de Pessoa “A Propaganda, no sentido
lato, de um lugar como a Costa do Sol” introduz-nos na área do seu
pensamento teórico sobre a prática publicitária. Neste domíniol, a atividade
publicitária de Pessoa passa, não só pela produção de conteúdos publicitários
criativos, mas também pela sua reflexão no campo do discurso publicitário.
Entre
outras linhas de força este pequeno texto valoriza questões específicas como o
estudo do público-alvo; público que Pessoa, para esta campanha publicitária
específica, a de promoção de um destino turístico relativamente caro, a Costa
do Sol, divide em três “(a) o público em
geral, o vago público possível, qualquer que seja e sem que se determine nele
divisão ou classificação alguma; (b) o público rico e luxuoso (…) e (c) o público especial composto de elites,
artistas, intelectuais, e outros assim, que, se per si, não vale muito, vale
todavia a influência que dele irradia sobre o público rico, em primeiro lugar,
sobre todo o público em segundo.”. Aqui é de salientar a preocupação não só
com uma publicidade direta mas também uma segunda, que ele define como
publicidade indireta, ou seja que incidindo sobre as elites culturais,
artísticas e intelectuais que dada a sua grande visibilidade social e grau de
exposição se repercutem sobre uma camada de população mais generalizada. Ao
serviço deste tipo de publicidade, Pessoa acrescenta uma outra estratégia “a publicidade indireta, isto é,
jornalística, representada por anúncios insertas em publicações estrangeiras
pois que a estrangeiros principalmente se dirige”. Pessoa dedica especial
atenção a este público estrangeiro de classe alta, como privilegiado na
campanha de promoção da zona turística da Costa do Sol o que revela também uma
estratégia de publicidade que passe não como publicidade direta, mas inserida
em artigos jornalísticos de promoção turística. Neste pequeno texto, Pessoa
estrutura não só um projeto para uma campanha publicitária de promoção a uma
zona turística, (muito provavelmente encomendada por um conjunto de hotéis ou
uma organização de condomínios de luxo), mas reflete também sobre o sentido mais
amplo da publicidade como atividade comercial em constante aperfeiçoamento.
Áreas do domínio do marketing e da produção de conteúdos teóricos em publicidade
eram já alvo de uma grande atenção neste estudo.
Fernando
Pessoa termina o texto afirmando que toda a publicidade “deve ser feita em obediência a três princípios: (a) o primeiro, que é
o princípio essencial da publicidade, deve ser de esconder o mais possível, ou
de tornar o mais agradável possível, o intuito publicitário; (b) o segundo é
que a publicidade deve ser feita em línguas separadas. Nunca um folheto deve
ser impresso em mais que uma língua (…), (c) o terceiro é de que toda a
publicidade, seja qual for, deve fazer o possível por cingir-se de um âmbito de
elegância, o que em certo modo quer dizer (…) o disfarce da publicidade” –
Nestes três pontos Pessoa aponta uma característica bastante técnica, a de que
o folheto publicitário não deve ser bilingue porque isso afasta muitas vezes o
público da sua leitura ao tomar contacto visual com uma mensagem noutra língua ”Nada há mais antipático que o poliglótico
impresso. Repugna já em obras técnicas, que muitos se vêm forçados a ler;
quanto mais não repugnará em folhetos que se deseja que leiam!”. Esta
especificidade técnica que faz alusão direta ao suporte publicitário e à sua
apresentação é complementada com as outras duas que implicam um conceção
genérica sobre os princípios da publicidade, deve esconder o mais possível, ou tornar o mais agradável possível
o objeto publicitado e principalmente deve pautar-se pela elegância, valor
atributivo fundamental que relaciona com o “disfarce
da publicidade”. O disfarce e o
esconder o mais possível apontam para estratégias inovadoras que se
generalizaram na publicidade em todo o tipo de meios e suportes e que nos
referem estratégias indiretas de passar uma linguagem sugestiva, ampla,
subliminar, através de elipses que ficam sugeridas no subtexto, apelando mais
para o uso de registos sedutores do que persuasões demasiado diretas “a publicidade deve esconder o mais possível…..”.
A
reflexão de uma estratégia publicitária em sentido lato com base nos seus
princípios essenciais e com a atenção à categorização detalhada do público-alvo
revelam o elevado interesse e atenção que Fernando Pessoa deu à área publicitária
e ao estudo comercial em geral como área que coexistiu com a sua criação
literária. Segundo António Mega Ferreira, em 1925 Fernando Pessoa começou a
trabalhar na agência publicitária de Martins da Hora, a “Agência Central de
Publicidade de Lisboa” onde passou a colaborar na elaboração de textos para
anúncios de imprensa até 1935. Paralelamente ao trabalho criativo desenvolvido
na agência de publicidade Fernando Pessoa publica textos na Revista Comércio e Contabilidade onde destaca a
importância de estudos psicológicos, económicos e sociais com a finalidade de um
conhecimento profundo dos diferentes tipos de público e para um efetivo
conhecimento dos seus gostos e interesses que ditam as suas inclinações
comerciais.
Entre
os slogans escritos por Fernando Pessoa destaca-se, como o mais conhecido,
o escrito em 1928 que serviu de
lançamento à Coca-Cola em Portugal “PRIMEIRO ESTRANHA-SE, DEPOIS ENTRANHA-SE”.
Foneticamente
assistimos à consonância dos sons que constituem um conjunto harmónico: a aliteração,
a assonância e a rima potenciam a sua fixação na memória. A vírgula que separa
a oração inicia uma pausa que reforça o sentido da segunda parte: “o
estranhamento”. Este conceito serve semanticamente uma grande sugestão
sensorial, algo que se entranha, que apela para a união dos diferentes sentidos
(o tacto e o sabor por exemplo). Algo que seja absorvido completamente, que se
entranhe em todo o ser e espirito, mas acima de tudo um apelo à memória, àquilo
que fique para sempre dentro, depois de um estranhamento inicial (fica
reforçado um atributo sensorial e um outro, oculto e espiritual, da bebida).
Assistimos assim à estratégia que Pessoa esboçou de ocultamento. Nesta frase comercial qualquer tipo de alusão direta a
questões como o sabor da bebida ficam sugeridos, passam através do subtexto e
da sugestão potenciada com a valorização fono-simbólica da frase.
Mais
de 80 anos depois esta mensagem possui ainda estes valores essenciais e
permanece de grande atualidade, entranhada no imaginário coletivo. O registo
sedutor da mensagem é aumentado pelo carácter breve (apenas 4 palavras) e o
equilibro perfeito entre a sugestão semântica e fónica.
Vemos
neste slogan marcas da criação poética de Pessoa; o estranhamento e o ato de
entranhar são usados direta ou indiretamente (através das suas redes
semânticas) como tema que serve motivos sensoriais de captação da cidade ou
estados de desconforto emocional, de grande vitalidade em passagens com
referências à metafísica na sua poética.
O
slogan viria a provocar uma grande polémica. A suspeita de que a bebida
continha extratos de folha de coca levantou as dúvidas das autoridades médicas.
O então diretor de saúde de Lisboa ordenou uma investigação à bebida alegando a
sua possível toxicidade. A publicação do slogan escrito por Fernando Pessoa
aumentou ainda mais as suspeitas das autoridades médicas, uma vez que o reconhecimento
publicitário desse estranhamento inicial
sugeria a existência de estupefacientes usados na fabricação da bebida. A
bebida foi proibida em Portugal o que implicou prejuízos financeiros elevados
para a Coca-Cola. O regime fascista que Portugal viveu até 1974 proibiu a
bebida e só em 1977, três anos depois da revolução de Abril, a Coca-Cola voltou
a entrar no país.
Por
essa altura Pessoa criou outras campanhas publicitárias, algumas delas para a
marca de tintas Berry/Loid. Estas baseavam-se sobretudo no humor e na forma
bastante direta de exposição das qualidades desta marca de tintas. A campanha
apresentava um diálogo entre dois homens à volta da marca; um homem apresentava
ao seu amigo Bastos o problema “Bastos
Amigo quero pintar o meu carro de gente. Quero pintá-lo com um esmalte que
fique lá, com um esmalte fiel e indivorciável” e o amigo anunciava a
solução “Com Berry/Loid, respondeu o
Bastos e só uma criatura muito ignorante é que tem necessidade de me vir maçar
com uma pergunta a que responderia o mesmo o primeiro chauffeur que soubesse a
diferença entre um automóvel e uma lata de sardinha”. A presença do humor, sobretudo
através da resposta de Bastos, usa um dos esquemas mais comuns em publicidade,
a apresentação simples de um problema (a pintura do automóvel) e a sua solução
(a apresentação das qualidades da marca, simples, direta e concreta), que é do
senso comum (qualquer um responderia o mesmo, apenas o possível consumidor tem
ainda as suas dúvidas). A própria marca de tintas é personificada por Pessoa, “quero pintar o meu carro de gente”, as
características concretas da tinta são também elas personificadas para referir
a durabilidade da pintura, um esmalte “fiel
e indivorciável”. A tinta humanizada aumenta
a possibilidade de uma maior identificação do consumidor. A oração “quero pintar o meu carro de gente”
induz uma sensação de estranhamento inicial que agarra e prende o destinatário
à sua leitura.
Durante
o período em que Pessoa se dedicou mais a esta prática é de referir, também de
vital importância, a sua criação de novas estratégias publicitárias.
É da
autoria de Fernando Pessoa a invenção dos Advertising
Crosswords. Este processo constitui um jogo de palavras cruzadas, ou sopa
de letras, inserido em secções lúdicas dos jornais e publicações periódicas. O
leitor deveria encontrar as palavras que se escondiam no conjunto das letras,
sendo estas palavras o nome das marcas e produtos publicitados. Isto permitia
ao leitor interagir diretamente no processo publicitário através do jogo[1].
Tratava-se de um outro nível criativo de formulação da mensagem que passava por
processos indiretos e que oferecia ao público um produto lúdico, o jogo
interagido com a mensagem. Este processo criado por Pessoa revela uma ampla
experimentação nas formas de cativar e seduzir o público. A atenção que Pessoa
conferiu ao público, nos seus estudos reflexivos na área do comércio, foi de uma grande atualidade e inovação e pautada
por uma procura inteligente de formas criativas para seduzir um público que
detinha, cada vez mais, um conjunto alargado de opções comerciais, e por isso
mesmo deveria ser tomado em maior conta e estudado em conjunto pelas diferentes
ciências sociais, entre elas a sociologia e a psicologia.
Ao
contrário de Fernando Pessoa, a atividade publicitária de Alexandre O’Neill
restringiu-se a uma ação criativa que foi a sua atividade profissional ao longo
de uma fase alargada da sua vida.
O carácter de anonimato, um dos princípios básicos do slogan e da publicidade em geral não nos permitem nem no caso de Pessoa nem de O’Neill saber todos os slogans que terão sido criados pelos mesmos. No caso de Alexandre O’Neill sabe-se da autoria de alguns deles através do estudo realizado por Maria Antónia Oliveira na sua obra “Alexandre O´Neill: Uma Biografia Literária”. Nesta obra a autora enumera dez slogans da autoria de O´Neill, e destes nem todos foram aceites pelas agências de publicidade ou pelas empresas clientes. Conhecem-se então alguns slogans de que foram feitas mais de uma versão. É o caso das variantes “GASDCILA NA COZINHA É UM DESCANSO” e “GASDCILA, O GÁS DA CIDADE”. Entre os slogans que não singraram encontra-se o de uma marca de colchões “COM COLCHÕES LUSOESPUMA VOCÊ DÁ DUAS QUE PARECEM UMA!” e a sua variante “COM LUSOESPUMA DÁ-SE CADA UMA” e o slogan proposto numa reunião com a administração do Metro de Lisboa “VÁ DE METRO, SATANÁS” em que O’Neill revitaliza de forma humorística o provérbio “vá de retro satanás”. O uso do trocadilho é uma das suas opções poéticas mais constantes ao serviço da reprodução de uma linguagem popular e do tom humorístico bastante direto.
No
caso de O’Neill torna-se plenamente visível que as suas criações publicitárias
são por vezes um espelho da sua criação poética. A reforçá-lo estão as próprias
declarações que deixou em vários textos. Em 1968, numa entrevista ao jornal A Capital, O’Neill refere “Sou
parecidíssimo com a minha poesia. Mesmo no dia-a-dia, no próprio trabalho.
Entre a minha expressão coloquial e a minha expressão poética não há distância.
A diferença será de intensidade, ou ao que se pode chamar intensidade.”
Temos aqui presente a apologia do quotidiano, do
humor, da arte como vida e indissociável dela em que o ser poético igual ao ser na
vida aponta para a transparência, claridade e sinceridade como ideologia
literária e ideologia de vida.
Quando o autor refere “mesmo (…) no próprio trabalho” integra a sua criação publicitária
num todo orgânico em que as marcas poéticas estão espelhadas. “Entre a minha expressão coloquial e a minha
expressão poética não há diferença”. As marcas da linguagem coloquial, do
humor e da reprodução da gíria popular são transferidas para a produção do seu
discurso publicitário.
Entre os slogans de O’Neill encontra-se ainda o
célebre “HÁ MAR E MAR, HÁ IR E VOLTAR” encomendado pelo Instituto de Socorros a
Náufragos com vista a uma campanha para prevenir os afogamentos nas praias
portuguesas, que contou também com uma outra versão “PASSE UM VERÃO DESAFOGADO”.
No primeiro temos a valorização da dicção
através da repetição da palavra mar que
simula o próprio movimento circular das ondas e marés. A rima e a estrutura
paralelística reforçam a memorização. O sucesso deste slogan foi tal que ainda
hoje permanece no imaginário popular como provérbio ou máxima popular. No
segundo vemos o adjetivo desafogado
que significa em sentido literal não ter problemas
financeiros e viver sem grandes restrições de dinheiro, mas que O’Neill
revitaliza por metonímia para servir a ideia de não se deixar afogar.
Da autoria de O’Neill é ainda a frase “BOSH É
BOM”, slogan utilizado durante muito tempo como campanha da marca Bosh. O uso
da paronímia é de grande simplicidade e é essa mesma simplicidade da aproximação
fónica que o faz ficar na memória durante longo tempo. A variante deste mesmo
slogan “BOSH É BROM” que a nível semântico não acrescenta nada à mensagem,
introduz um elemento humorístico e uma valorização do seu valor de dicção
através do trocadilho e trava-línguas; elemento humorístico que potencia a
memorização, princípio fundamental de qualquer slogan, sirva ele a publicidade,
a política ou a religião.
BIBLIOGRAFIA
NABOKOV, Vladimir
(2003), Contos Completos Vol. I, trad.
de Telma Costa, Lisboa, Teorema.
OLIVEIRA, Maria Antónia (2007), Alexandre
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em Língua Portuguesa, Ano 2, nº 2:
Nuno Brito, 2013.
[1] Como exemplo da criação de
outra atividade lúdica extraliterária, alguns autores apontam a possibilidade
de ter sido Fernando Pessoa quem inventou o célebre jogo popular de
matraquilhos, pois existem apontamentos de Pessoa sobre a ideia de criar um
jogo de futebol de mesa, com jogadores articulados unidos num ferro e que
descrevia com exatidão o que viria a ser este jogo.
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