sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Amadeo de Souza-Cardoso




Amadeo de Souza-Cardoso (1997-1918).

Pedro Eiras: Substâncias Perigosas

Esconjuros e mentiras

            Uma ciência do erro.

            Sempre preferi ler textos obviamente errados mas cheios de possibilidades de pensamento – a textos certos que só repetem o que já sei.

            E o que se lê, ainda que seja errado, começa a tornar-se real, porque cada livro reinventa o mundo.

            Viver no mundo certo inventado pelo livro errado.

            O que interessa, de facto, é algumas operações. Não mais matéria, menos matéria, mais sumário, menos sumário. Interessa uma pequena operação de pensamento: inventar uma pequena nova torção para a realidade.

            Não confirmar nada: surpreender tudo.


Pedro Eiras, Substâncias Perigosas, Pedro Eiras, Livro do Dia.

Lars Von Trier: Medeia




Lars Von Trier (1988), Medeia.

José Cardoso Pires: O Delfim

 Falta uma vírgula na paisagem:

 E a tarde escorre sem estremecer. Nem um golpe de ar, nem um pássaro, um ruído ao menos a a descer dos montes pela estrada. Isto, no fundo, é morte. podia-se pôr uma cegonha na torre da igreja - seria a vírgula. um pescoço longo e curvo, espalmado no ar sobre o largo. As cegonhas pensam muito nos filhos, parece. Andam de terra em terra a pensar neles.

(...)

Aí vai a dona da pensão: um mastodonte. Acaba de sair por baixo da minha janela, carregada de gorduras e de lutos, e calculo que de boca aberta para desafogar o seu trémulo coração. Atravessa a rua perseguindo a criada-criança, como é hábito. Entra no café: mal cabe na porta. Tem cabecinha de pássaro, dorso de montanha. E seios, seios e mais seios, espalhados pelo ventre, pelo cachaço, pelas nádegas. Inclusivamente, os braços são seios atravessados por dois ossos tenríssimos. "Jesus, o que são as coisas," queixa-se ela a todo o momento.
Com um corpo assim não podia deixar de ser uma criatura sofredora, maternal. Vemo-la sentada, formiga-mestra duma hospedaria de caçadores: toda ela transborda generosidade. O modestíssimo cheiro a sabão amarelo, e começamos a perceber uma música gentil lá no alto - a sua voz.


PIRES, José Cardoso (1998), O Delfim, Lisboa, Publicações Dom Quixote. 

André Domingues: o teu vestido


Agarro a tesoura porque estou apaixonado por tudo o que a tesoura pode fazer por mim. Num instante recordo os direitos e os deveres da tesoura. Os deveres: cortar, recortar, resumir. Os direitos: matar, magoar, interferir. Entretanto a tesoura confessa-me que está faminta. Já não corta há muito tempo, disse-me, com o olhar de lince dirigido ao teu vestido. A tesoura está mesmo desesperada, parece querer ganhar vida, faz acrobacias no ar, abre e fecha as suas pernas de bailarina e oferece a sua nudez e os seus serviços ao teu vestido. O teu vestido não fala, não se mexe, não reage porque tem medo de perder a virgindade do destino, mas, no fundo, o teu vestido já é curto e decotado o suficiente para perceber que a morte é uma alegoria, que nenhuma arma pode acrescentar nada à natureza do indivíduo e que o melhor é fechar os olhos e não resistir.


André Domingues (Inédito).

Manuel de Freitas: Nada de Nada

para o José Carlos Soares

Um dia, logo de manhã, entraremos
num cemitério e perguntarás a Antonia
Pozzi se estar morto é mais ou menos
triste do que estes dias arduamente sepultados.
Receando que saibas a resposta, beberei
com Lowry a primeira ou a última tequila,
na certeza de que ambos os adjectivos estarão
certos (um pouco, talvez, demasiado certos).

Assim possa a chuva apagar todos
os versos que escrevemos
para nada, sobre nada, contra nada,
à sombra imensa dos jacarandás
que floriam - distraídos, quase por engano -
no Rossio. E inundavam de luz (nunca
vi uma luz tão escura) as portas
e os umbrais deste cemitério assim.

FREITAS, Manuel (2007), Terra sem Coroa, Vila Real, Teatro de Vila Real.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Guerra Junqueiro: Oração à Luz (1904)

Claro mistério
Do azul etéreo!
Sonho sidéreo!
Luz!

Da Terra dorida
Alento e Guarida!
Fermento da vida,
Luz!

Eucaristia santa,
Vinho e pão que alevanta
Homem, rochedo e planta…
Luz!

Virgem ígnea das sete cores,
Toda abrasada de esplendores,
Mãe dos heróis e mãe das flores,
Luz!
Fiat harmónico e jucundo,
Verbo diáfono e profundo,
Alma do Sol, corpo do mundo,
Luz!

Luz-esp’rança, luz rútila da aurora,
Vida vibrando na ampliação sonora,
Vida cantando pela vida fora,
Luz!

Luz que nos dás o pão, ó luz amada!
Luz que no dás o sangue, ó luz doirada!
Luz que nos dás o olhar, luz encantada!
Bendita sejas, luz, bendita sejas!

Sejas bendita em nós, ó fonte de harmonia!
Sejas bendita em nós, ó urna de alegria!
Bendito seja o filho teu, o alvor do dia!
Perpetuamente, ó luz, ó mãe, bendita sejas!

*

A inabalável rocha taciturna,
Quando a electrize o teu deslumbramento,
Acora e sonha na mudez soturna…

Por ti se volve areia; e num momento
A área é lodo, é seiva, é fruto lindo,
É carne humana, é sangue, é pensamento…

Por ti a água exulta, anda bramindo,
Por ti rola do monte ao sorvedoiro,
E voa, em nuvens, pelo azul infindo…

Por ti orvalho: Cai no trigo loiro?
É pão e é hóstia … Cai na flor? Incenso,
Néctar, abelha, borboleta d’oiro…

Por ti flutua o ar, um mar imenso,
Prenhe de vidas invisíveis, onde
Todo o sonho da terra anda suspenso…

Ao teu hálito, ó luz, nada se esconde:
Brilhas! E a alma opaca da matéria
Das entranhas do globo te responde!...

Brilhas! E amor e dor, luto, miséria,
Doira-os a graça, a juventude, o encanto
Do teu manto de púrpura sidérea!

És tu que alumbras alegria e pranto:
No sorriso do herói clarão eterno,
Prisma de Deus na lágrima do santo.

Em teu fulgor genésico e materno
Surdem núpcias das campas viridente
E um novo abril palpita em cada Inverno…

Por ti suspiram, sem te ver, dormentes,
As almas vegetais, indefinidas
No mistério noturno das sementes…

Germinando por ti, por ti vestidas,
Sonham aroma, sonham forma e cor,
Em teu alvor magnético embebidas…

E esplêndidas de graça, enlevo e amor
Erguem-te, ó luz, um ai e luz adiante,
Aberto em beijo, idealizado em flor!...
Por teu frémito d’oiro, instante a instante,
O verme cego, enclausurado, imundo,
Gera a visão liberta e deslumbrante.

Por ti um sopro anímicoo e fecundo
Penetra o lodo, a rocha, a água, o ar,
Voa de esporo a esporo, e mundo a mundo…

Por ti a asa, o lábio, a mão, o olhar…
Por ti o canto e o riso e o beijo e a ideia…
Por ti o verbo ser e o verbo amar!...

A inextrincável, a infindável teia
Do sonho do universo em luz é urdida,
Em Luz vislumbra e misteriosa ondeia…

Suspensa em luz, da mesma luz nutrida,
Vai para Deus rolando eternamente
A dor, na eterna evolução da vida…

Homem, nuvem, granito, onda, serpente,
A rocha, o ar, o abutre, a folha d’hera,
O mundo, os mundos, tudo que é vivente,

Do lodo à águia, do metal à fera,
Da fera ao anjo, do covil à cruz,
Move-se tudo, existe e reverbera,

Sonhando, amando, palpitando em luz!...
***

E o coração a arder, que das alturas
Manda perpétua luz às criaturas,
Vive às escuras!

Seus infernos de fogo a trovejar
Dão aurora e luar.

Sua angústia sem fim, que não descansa,
É mãe do beijo e mãe da esp’rança.

Dos ais candentes da sua dor
Brota o sorriso e brota a flor.

Bendito seja!

Arde por nós a toda a hora,
Sofre por nós a toda a hora,
Por nós morrendo a toda a hora,
Continuamente!

Bendito seja!

O seu tormento é o nosso alento,
Sua paixão cruel e dolorida
A nossa vida.

Bendito seja! bendito seja!

Bendito o mártir, cujo sangue a flux
Alaga os mundos de marés de luz!

Bendita a horrenda e trémula agonia,
Cujos suspiros são o alvor do dia!

Bendita a morte, em cuja essência etérea
Ondula para Deus nossa miséria!

Bendito seja!
Bendito seja!
Bendito seja!
Bendito vezes mil o fecundo esplendor,
Nossa vítima e nosso redentor!...

***

Homem!
Quando a alvorada alumie o horizonte,
Ergue-te em pé, ergue essa fronte!
Ergue-te livre, em pé, na terra escrava,
Em que hás sido mudez caliginosa
E onda e rocha e verme e fera brava…
Ergue essa fronte humana misteriosa,

Enigmática flor crepuscular,
A flor que chora que sorri, que pensa,
A flor de dor, que a natureza imensa
Milhões de anos levou a arquitetar!...
Ergue-te calmo sobre a terra obscura,
Filho de Satanás, pai de Jesus!
E no enlevo, no mimo, na candura
Da madrugada angelizada e pura,
Faz d’olhos tristes, o sinal da cruz:
Uma cruz imortal em pensamento,
Uma infinita cruz, cheia de luz,
Aberta aos mundos num deslumbramento…

Cruz, que vindo de deus,  trespasse o inferno,
Cruz abarcando toda a imensidade,
Cruz onde um Cristo, o Amor Eterno,
Chore sem fim a dor da Eternidade!...
E extático, enlevado, absorto, imerso
Na harmonia inefável amplidão,
Ébrio de Deus, Ungido de universo,
Homem, levanta à luz esta oração:

Monstro de dor nos ermos do infinito,
Ó Sol crucificado, ó Sol bendito!

Tua carne de fluidos e metais
É a carne embrião do mundo todo,
Das águas e das rochas e do lodo,
Que foram nossas mães e nossos pais!
Por isso lanças para nós teu grito,
Por isso voam para nós teus ais!

São os teus ais sem fim de moribundo
A luz, esp’rança que electriza o mundo.

O oiro divino das manhãs formosas,
Que os orbes veste de sendais e rosas,
Como se fossem pobrezinhos nus,
É o estertor e a dor do teu fadário,
É sangue a espadanar do teu calvário,
A jorrar do teu corpo e da tua cruz!

Bendito o Cristo-Sol na crua ardente,
O monstro mártir, que infinitamente
Por nós expira, soluçando luz!...

Ó luz, ó luz, o mundo que te devora,
Mas revives no mundo a toda a hora.

Morres para nascer a todo o instante,
Mais perfeita, mais pura e mais brilhante.

Sim, mais brilhante: a claridade
Vem só do amor e da verdade.

Tu revives, ó luz, mais amorosa
Na água fluida, trémula e viscosa.

Na água fecundante e conjugal,
Mãe do homem, do verme e do cristal.

Na água móvel, mágica, indecisa,
Onde a vida fermenta e fraterniza…

Por onde o sangue a e seiva, ébrios d’amor,
Circulam para a ideia ou para a flor!

Mas a água te absorve e te agradece,
Nunca te esquece, ó luz, nunca te esquece:

Almas da água, quando se casaram,
Foi com beijos de luz que se beijaram.

***

Tu revives na terra áspera e dura,
Que é leite e mel na boca da verdura.

Leite e mel da raíz, do sugadoiro,
Que mama fragas e dá frutos d’oiro.

Sim, revives mais pura, muito mais,
No granito e no lodo e nos metais.

Matéria bruta
Não vê, não fala, não escuta,

Não pode amar,
Sem se tocar.

Quando se toca é que se liga,
Tem de ser densa para ser amiga.

Na rude e baixa natureza
O amor é solidez, a afeição é dureza.

E por isso o cristal
É um verdadeiro santo mineral.

Rochedo ou bronze
Mantém na estátua o génio criador,
Porque rochedo e bronze
São dois blocos d’amor.

O sonho ideal e genial, sonho impoluto,
Não se esvaiu, porque fundiu
No sonho bruto…

Fragas imóveis, taciturnas,
Que nós pisamos, caminhando,
São almas lentas, ínfimas, nocturnas,
Cegas e surdas, que se estão beijando!...

A pedra, ó luz, te absorve e te agradece,
Nunca te esquece, ó luz, nunca te esquece:

Porque as pedras, inertes e geladas,
Já foram sóis, estrelas, alvoradas…

*
Tu revives, ó luz, mais santa,
N’alma da planta.

Alma já feita de infinitas almas,
Vida Gerada de infinitas vidas,
Mas presas todas, palpitando unidas
Numa só alma!

Almas que existem para a mesma ânsia,
Que a mesma ardente aspiração eleva…
Sonhando, amando, ouvindo-se a distância,
Folha livre no azul, raiz muda na treva…

Almas aéreas, ondulantes,
Ébrias de cor e de esplendor,
Ao Deus ignoto erguendo as verduras radiantes,
Ao Eterno evolando emanações de flor…

E flor doirada e folha verde e troncos nus
Condensam chamas, arquitectam luz!

Incorporam em luz o infindável desejo,
Edificam em luz a essência misteriosa
Que, suspiro a suspiro e beijo a beijo,
Vai do líquen ao cedro e vai do musgo à rosa!...

Ervas, florestas, pâmpanos, rebentos,
Cálices d’oiro, bosques a noivar,
São esculturas em deslumbramentos,
Sonhos urdidos com a luz e o ar!...

*

E inda mais bela que na Primavera
Ressuscitas ó luz, num verme ou numa fera,
Que já tem sangue e tem olhar!

Luz dardejante!
Graça da cor! alvor, fulgor, esplendidez!
Tu és escuridão, és uma cega errante…
Cega nocturna e deslumbrante,
Porque alumias e não vês!

Esses olhos de estrelas vagabundos,
Olhos de luz tão viva que incendeia,
Não descobrem nem páramos, nem mundos,
Não conhecem nem flor, nem grão d’areia!
E uma alimária torva, rastejando,
Vê as nuvens e os pássaros em bando,
Vê da noite o clarão,
E na centelha exígua da pupila
Junta o braseiro d’astros que rutila,
Imensurável na amplidão!

O olho ardente
É luz prodigiosa, é luz consciente.

Olhar
É distinguir, unir, fraternizar
O sonho do universo,
Tudo o que anda disperso
Ou no lodo ou na rocha ou na água ou no ar...

E, dilatando o amor,
Dilata-se a visão, cresce a união, cresce o esplendor.

Olhos perfeitos,
D’eterna luz,
Só os olhos divinos dos eleitos.
Só os olhos de Buda ou de Jesus.
***

E ainda mais santa e mais harmoniosa
Que nos olhos da pomba ou no cálix da rosa,
Tu revives, ó luz, na música dos ninhos,
Na alegria infantil dos passarinhos.

A ave canta,
Sonorizando aurora na garganta...

Verdilhão, toutinegro, rouxinol
Declamam luz, gorjeiam sol.

Morre a canção na escuridão...

Canção alada!
Tu és a voz idealizada
Da natureza flórida e fecunda,
Ébria, bebendo oceanos d’alvorada...
Toda a alma da luz, que a terra inunda,
Todo o anseio da terra ao fulgor imortal,
Cantam na voz da cotovia,
Cristalizam na límpida harmonia
Dum beijo d’ouro ideal!...

O mundo, ó luz, te absorve e te devora,
Mas revives no mundo mais intensa,
Mais próxima de Deus a cada hora,
Nas vidas todas desta vida imensa,
Vidas sem fim, almas sem fim,
Que o segredo do amor junta e condensa,
Por meus olhos magnéticos, em mim!

Lampejam no meu corpo, humanizadas,
Mortas constelações e mortas alvoradas.

Desde que a Vida me gerou em dor
E fui éter, estrela, água, montanha e flor;

Desde que verme obscuro andei a rastros,
E lobo em pé, sob o clarão dos astros,

Ao verter uma lágrima ligeira,
Me senti homem pela vez primeira;

Quantos sóis, nebulosas, firmamentos,
Varridos já n’asa dos ventos,

Não deram luz ao lodo triste,
Que em mim, sonhando e suspirando, existe?!...

Todo o meu corpo é luz esplendorosa,
Sou um hino de luz religiosa,
Gravitando na órbita de Deus...
Milhões d’auroras riem no meu canto,
Ondas d’estrelas brilham no meu pranto,
Pélagos de luas há nos olhos meus!...

Esta carne, este sangue, esta miséria,
E este ideal imortal que me conduz,
Já foram brasas na amplidão etérea,
Por isso exultam devorando a luz...

Vive de luz minha alegria e minha mágoa,
Bate na luz meu coração,
Fulge na luz o meu olhar...
Ó luz tremente, eu bebo-te na água,

Ó luz ardente, eu como-te no pão,
E calco-te na lama e sorvo-te no ar!...
Ó luz! Luz! Luz!
Como te hei-de remir e te hei-de consolar?!...

Luz que nos enches de alegria,
Luz que desvendas a harmonia,
Que és o esplendor e a cor da natureza,
Farei de ti, luz dum só dia,
A luz perpétua da Beleza!

Luz que iluminas a existência,
Luz que propagas a evidência,
Que dissolves o erro e a escuridade,
Farei de ti, da tua essência,
A luz augista da Verdade!

Luz, onde os olhos e ond eo pensamento
Casam a estrela, o verme, a rocha, a água, o vento,
Homens e monstros, a canção e a dor,
Farei de ti, luz dum momento,
A luz eterna, a luz divina, a luz do Amor!

Farei de ti a luz do Amor, que não se apaga,
A luz que tudo alaga
E tudo vê e tudo esquece...
A luz que nos deslumbra e irradia
Dum suspiro, dum ai, duma agonia,
Dum beijo humilde ou duma prece...

A luz, em cuja glória idealizante,
O braseiro dos astros rutilante
É cinza escura e sepulcral,
E a apoteose imensa da alvorada
Uma lúgubre e lenta fumarada,
Sonho torvo da dúvida e do mal...

A luz que transfigura e que converte
O César deslumbrante em poeira inerte
E o vagabundo, a rastros, num clarão...
A luz que acende lágrimas doridas
Em estrelas eternas e floridas,
Em jardins de candura e de perdão!...

Luz onde tudo vai boiando imerso,
Luz Espírito e Alma do universo,
Sol dos sóis, incriado e criador...

Luz da misericórdia e lz de esp’rança,
Luz de infinita bem-aventurança,
Manhã que rompe da infinita dor...

Ó luz dos astros, cega luz corpórea,
Que, revivendo, és água transitória,
Fraguedo e areia, podridão e planta,
Cálix que murcha e que a nortada leva,
Olhar de brasas que se volve em treva,
Gorjeio lindo que uma hora canta,
Em meu sangue exaltada e sublimada,
Em meu divino ideal crucificada,
À paz suprema chegarás por mim:
Serás a luz do Espírito amoroso,
Serás na eterna dor o eterno gozo,
A beatitude harmónica e sem fim!

Oremus:

Cândida luz da estrela matutina,
Lágrma argântea na amplidão divina,
Abre meus olhos com o teu olhar!

Viva luz das manhãs esplendorosas,
Doira-me a fronte, inumda-me de rosas,
Para cantar!

Luz abrasando, crepitando chama,
Arde em meu sangue, meu vigor inflama,
Para lutar!

Luz das penumbras a tremer nas águas,
Vela as montanhas dum vapor de mágoas,
Para sonhar!

Luz dolorosa, branda luz da Lua,
Embala, embebe a minha dor na tua,
Para chorar!

Luz das estrelas, vaga luz silente,
Cai dos abismos do mistério ardente,
Sangra calvários infinitamente,
Para eu rezar!

E cantando,
E lutando,
E sonhando,
E chorando,
E rezando,

Farei da cega luz que me alumia
A luz espiritual do grande dia,
A luz de Deus, a luz do Amor, a luz do Bem,
A luz da glória eterna, a luz da luz, amén!



JUNQUEIRO, Guerra (1997), Oração ao Pão, Oração à Luz, Porto, Lello Editores.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Émile Zola: A Taberna (1876)


 Quando chegam os días maus, estes não deixam de ser acompanhados por algumas noites agradáveis, horas em que se amam as pessoas que se detestam. 


ZOLA, Émile (1972), La Taberna, Barcelona, Credsa Ediciones. 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Fernando Sylvan: Mensagem do Terceiro Mundo

Não tenhas medo de confessar que me sugaste o sangue
E engravataste chagas no meu corpo
E me tiraste o mar do peixe e o sal do mar
E a água pura e a terra boa
E levantaste a cruz contra os meus deuses
E me calasse nas palavras que eu pensava.

Não tenhas medo de confessar que te inventasse mau
Nas torturas em milhões de mim
E que me cavas só o chão que recusavas
E o fruto que te amargava
E o trabalho que não querias
E menos da metade do alfabeto.

Não tenhas medo de confessar o esforço
De silenciar os meus batuques
E de apagar as queimadas e as fogueiras
E desvendar os segredos e os mistérios
E destruir todos os meus jogos
E também os cantares dos meus avós.

Não tenhas medo, amigo, que te não odeio.
Foi essa a minha história e a tua história.
E eu sobrevivi
Para construir estradas e cidades a teu lado
E inventar fábricas e Ciência,
Que o mundo não pode ser feito só por ti.


Fernando Sylvan (Díli 1917- Díli 1993)

T.S. Eliot: O Hipopótamo

(E quando esta epístola for lida entre vós
fazei com que seja lida também na Igreja dos
Laodiceanos)


O Hipopótamo de costas largas
Repousa sobre a barriga na lama;
Embora nos pareça tão firme
É meramente de carne e sangue.

A carne e o sangue são fracos e frágeis,
Susceptíveis de choque nervoso;
Ao passo que a verdadeira Igreja nunca falha
Porque tem por base um rochedo.

Os fracos passos de Hipopótamo podem errar
Ao compreender os fins materiais
Ao passo que a Verdadeira Igreja não passa de se mexer
Para colher os seus dividendos

O `pótamo não consegue alcançar
O mango na Mangoaeira;
mas frutos de romã e pêssego
Refrescam a Igreja vindos do ultramar.

No acasalamento a voz do hino
Denota inflexões estranhas e roucas
Mas todas as semanas nós ouvimos e louvamos
A Igreja, por ser una com Deus.

O dia do hipopótamo
É passado a dormir, à noite caça;
Deus trabalha de um modo misterioso -
A Igreja consegue dormir e comer ao mesmo tempo.

Vi o ´Popótamo levantar voo
Subindo das húmidas savanas,
E anjos implorantes à sua volta cantam
Louvores a Deus, em altos hosanas.

O sangue do Cordeiro vai lavá-lo bem limpo
E ele abrirá os braços celestiais,
No meio dos santos serám visto
Tocando numa harpa de ouro.

Será levado tão branco como a neve,
E beijado por todas as virgens mártires,
Ao passo que a Verdadeira Igreja fica cá em baixo
Embrulhada no velho nevoeiro de miasmas.


T.S. Eliot (1888-1965)

Murilo Mendes: Cantiga de Malazarte

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro o cheiro dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo,
nada me fixa nos caminhos do mundo.


MENDES, MURILO (1994), Poesia Completa e Prosa, Editora Nova Aguilar, s.l.

John Donne: A Pulga

Observa esta pulga, e repara nisto –
Quão pouco é o que me recusas -:
A mim sugou primeiro e agora suga-te a ti,
E nesta pulga nossos dois sangues se misturam.
Confessa: de tal não pode dizer-se
Que é pecado, ou vergonha, ou desfloramento,
Portanto ela goza antes de cortejar,
Saciada, incha com um sangue feito de dois,
O que, enfim, é bem mais do que ousaríamos.

Oh, espera. Três vidas poupa numa pulga,
Onde nós quase – não, mais do que – casados estamos:
Esta pulga é tu e eu, e isto aqui
É o nosso leito, o nosso templo nupcial;
Embora os pais – e tu – protestem, estamos juntos
E enclausurados nessas vivas paredes negras.
Ainda que o uso te autorize a matar-me,
A tal não se acrescente o suicídio,
E o sacrilégio: três pecados ao matar nós três.

Cruel e precipitada, já de púrpura
Manchas a tua unha com o sangue da inocência?
De que poderia esta pulga ser culpada
Senão dessa gota que chupou de ti?
Mas tu triunfaste, e afirmas que te
Não encontras, nem a mim, mais fracos agora:
            É verdade. Então aprende como são falsos os medos:
            Esta mesma dose de honra, quando a mim te renderes,
            Perderás – igual à vida que a morte desta pulga te roubou.


 DONNE, John (1995), Poemas Eróticos, Lisboa Assírio & Alvim.

A "Criação Literária" no Discurso Publicitário

 Notas sobre a atividade publicitária de Fernando Pessoa e Alexandre O´Neill

Colóquio Publicidad, Cultura y Sociedad
CELE, UNAM 2013

Este trabalho incide sobre o diálogo entre a criação literária e a publicidade, focaliza-se na relação que dois escritores e poetas  portugueses tiveram com a publicidade enquanto atividade profissional que desempenharam: Fernando Pessoa e Alexandre O´Neill. Autores de diferentes épocas, de diferentes contextos políticos e socias, mas expoentes na linha da frente de grandes movimentações literárias (mais do que movimentos acabados); Fernando Pessoa, do Primeiro Modernismo e O´Neill do Surrealismo Português. Se, na criação literária pouco os poderá ligar, para além de uma obsessão forte pelo tema do “Ser Português” e do “Ser” e “Estar no Mundo” que isso implica, na atividade profissional há um elemento comum; os dois foram publicitários. Uma atividade profissional, extraliterária mas que não pode ser vista fora de um todo biográfico.

O slogan, ou frase de efeito, é um tipo específico de mensagem verbal que pode servir diferentes objetivos. O slogan político e o slogan publicitário são frases curtas que procuram criar uma identificação forte e imediata no recetor, identificação com uma causa ou com um produto. Na sua obra “Literatura Oral e Marginal”, Arnaldo Saraiva analisou as características que favoreceram o sucesso generalizado do Slogan Político “O povo unido jamais será vencido”. Nele distingue cinco efeitos que o Slogan deve provocar no público recetor: a atenção, o interesse, a emoção, a convicção e o compromisso.

Se o slogan político serve diretamente uma propaganda ou ideologia política e o slogan publicitário a propaganda comercial, as suas estratégias são, no entanto, as mesmas. O slogan, ou frase de efeito, é uma frase curta destinada a ser repetida pelo maior número possível de locutores e caracteriza-se pela brevidade, pela condensação e concisão da mensagem verbal, pelo impacto direto e incisivo na memória. Pretende ter o efeito de uma comunicação imediata e é normalmente criado e apresentado no anonimato. A mensagem comercial criada com o fim de vender um produto, bem, ou serviço, apenas se associa a uma marca, entidade ou instituição. O slogan devendo provocar uma forte identificação com o produto, bem ou serviço, fica assim isento de uma responsabilidade autoral direta. Deve condensar os principais atributos de uma marca de forma bastante resumida apelando para a sua credibilidade, ou então usar uma imagem verbal de grande nitidez, criar mentalmente no destinatário uma imagem intensamente percetível, suficientemente vívida e plenamente nítida. Neste caso o Slogan publicitário pode servir-se de um conjunto amplo de figuras de estilo utilizadas sobretudo na criação literária: a enargeia, a sinestesia, a metáfora, a alegoria e a metonímia, imagens retóricas amplamente estudadas e dirigidas a públicos bastante específicos.

A mensagem verbal publicitária é normalmente complementada com todo o tipo de mensagens visuais que fortalecem a sua ação. No caso do vídeo, do painel publicitário ou da publicidade web, a informação verbal ocupa um lugar de destaque mas a sua mensagem pode passar para um lugar subalterno que apenas potencie o carácter sugestivo da visualização das imagens. As novas técnicas do olhar levam-nos a um tempo de elevada experimentação visual em que a concreção imagética domina os principais meios de comunicação. A absorção direta das imagens é no entanto potenciada com a mensagem verbal que pode servir outros fins.
A ampla circulação de imagens no mundo contemporâneo não retira à linguagem verbal, em contexto publicitário, o seu poder sugestivo, pode até algumas vezes reforçá-lo num interface comunicativo imagem-texto, sendo frequente a frase publicitária passar a servir funções mais informativas, mas normalmente, pela sua função retórica não deixa espaço para detalhes.

A palavra inglesa Slogan tem a sua origem na expressão Slaugh-Ghairn, um antigo grito de guerra usado pelos clãs escoceses. Esta mensagem apelava à união do clã, antes da batalha, procurando fortalecer o grupo através de um sentimento forte de presença e de identidade. O termo foi incorporado à linguagem comercial para exprimir com maior força o efeito que a publicidade deve exercer a nível comunicativo; provocar uma identificação rápida e impulsiva, de eficácia bastante direta, ser facilmente memorizável, tal como a frase de guerra e servir ela mesma uma guerra, ainda que comercial, pela conquista do consumidor. Quero aqui referir o exemplo do conto “O Dragão” de Vladimir Nabokov em que a publicidade surge como tema principal numa narrativa literária. O conto introduz elementos típicos da literatura fantástica. Passa-se em duas pequenas cidades industriais de Inglaterra, numa época imprecisamente definida, as quais rivalizam comercialmente entre si. Vladimir Nabokov realiza uma sátira à revolução industrial inglesa em que o capitalismo encontra um campo de expansão desequilibrado que agudiza o abismo social entre burguesia e proletariado. O autor introduz na narrativa  um dragão que começa a ser visto algumas vezes a rondar as duas cidades. O medo e a desconfiança inicial são rapidamente superados pela possibilidade de aproveitamento económico que os industriais podem retirar do animal. Rapidamente, de elemento mitológico, o dragão vai passar a servir os interesses comerciais da alta burguesia quando o diretor de uma fábrica ordena que se capture o dragão, para  lhe colocarem uma grande faixa branca. Neste processo participam quase todos os habitantes da cidade. Na faixa branca é escrito um slogan publicitário à empresa do industrial. Uma vez posto o dragão é em liberdade, o slogan publicitário torna-se móvel e voa juntamente com o dragão, permitindo um meio de publicidade aéreo, até então nunca experimentado nas duas cidades. O voo do dragão com a publicidade permite que, ao longo do seu percurso aéreo por todo o país, a publicidade chegue rapidamente a um conjunto muito mais vasto de pessoas sem qualquer custo para a empresa. Rapidamente, os industriais da cidade rival vão procurar capturar o dragão para obter o mesmo fim, retirando a faixa publicitária primitiva para colocar um slogan que sirva os seus interesses. A introdução da figura mitológica do Dragão serve, não só, a Vladimir Nabokov para produzir o efeito humorístico que advém do cruzamento dos dois tempos (um concreto e outro mitificado), mas também para criticar a busca ilimitada de novas formas de publicidade e de conjuntos apelativos que sirvam o lucro direto ao menor preço possível. Relembremos que a prática publicitária serve-se de um processo semelhante, o sistema de faixas presas a aviões, normalmente em zonas turísticas. Este exemplo mostra aproximações temáticas da publicidade à criação literária, ilustra igualmente o uso ilimitado de meios de que a publicidade se pode servir. Podíamos dizer mesmo que não há nenhum campo da atividade humana em que ela não toque ou que nela não se entranhe e que os processos para chegar ao maior número possível de pessoas estão na base de muitas das inovações técnicas e científicas, sobretudo no que diz respeito às ciências e técnicas da comunicação.

O slogan publicitário é construído tendo em vista a sua fixação duradoura na memória. Este tipo de construção serve-se de recursos estilísticos típicos da retórica literária bem como de recursos fonéticos a ela associados. Na frase comercial ou slogan todas as opções sintáticas, lexicais e semânticas devem unir-se num conjunto que sirva o eixo identificação-memória. Na sua forma, o slogan é uma construção frásica que em média usa apenas entre quatro a sete palavras gramaticais. O seu carácter curto deve condensar uma mensagem ou sugestão impactante. O uso da rima, das assonâncias e aliterações são recursos fonéticos que ajudam a que a frase se torne facilmente memorizável e que se grave mais facilmente no destinatário. Recursos como o trocadilho, a reprodução de gírias populares, com elementos que simulam a oralidade e valorizem a dicção aumentam o nível de identificação e memória.

A combinação rítmica e melódica da frase é diretamente pensada tendo em conta a sua valorização fónica. O conjunto de sons do slogan deve potenciar, por si só, o nível de sugestão e impacto. A frase publicitária procura aliar, num conjunto apelativo, a valorização do corpo sonoro da palavra ao seu corpo visual ou gráfico, a forma como ele nos é apresentado, como vemos a frase. A valorização deste corpo gráfico desenvolve-se em articulação com o uso dos processos de valorização fónica, aliteração, assonâncias, rima, uso de palavras com grafia semelhante. A valorização do corpo sonoro e visual do slogan potencia a mensagem que o corpo semântico transmite (valorização que está na base de toda a poesia simbolista). Aqui as possibilidades de expressão verbal servem-se de praticamente todos os recursos estilísticos em que se funda a criação literária. Ao uso da metáfora, da alegoria e processos de metonímia que referimos aliam-se igualmente o uso da hipérbole como forma de maximizar as qualidades de um produto, e até o uso de géneros literários como o aforismo, o silogismo ou a máxima. Do nível de identificação e afinidade do público-alvo com a mensagem publicitária depende o sucesso do slogan. Estratégias como o uso do imperativo, em que o destinatário tem a noção de estar a ser interplado diretamente, ou o uso da primeira pessoa do plural visam um maior efeito de aproximação, afinidade e identificação. O uso do plural coletivo pode ser usado de formas indiretas, muitas vezes associadas à apologia do popular, do autêntico, das raízes. Neste caso, a identificação passa sobretudo pelo nacionalismo, pelas formas do slogan chamar à sua mensagem algo que une uma comunidade inteira com as suas tradições mais autênticas. Atualmente grande parte dos slogans publicitários (o sector das bebidas alcoólicas é um bom exemplo), integram diretamente o nome do país onde são difundidos ou fazem uma associação, mais ou menos direta, a um símbolo nacional, como a bandeira, o hino ou monumentos arquitetónicos emblemáticos. Música, formas de vestir e gastronomias são invocadas apelando ao sentimento de afinidade nacional, a uma identificação mais plena. Neste sentido a publicidade reproduz estereótipos nacionais, lugares comuns que associamos a toda uma cultura coletiva. O uso do kilt escocês em grande parte dos anúncios de Whisky é, disso mesmo, um exemplo.

O slogan usa inclusivamente passagens literárias das mais variadas épocas. A citação de Shakespeare “Somos feitos da matéria do Sonhos”, por exemplo, serviu de slogan a uma marca de automóveis.
Sendo a publicidade uma atividade extraliterária, a mensagem verbal que utiliza, através do slogan, pode ser enquadrada numa área da literatura marginal que serve um fim comercial, político ou religioso.

O slogan religioso usa as mesmas técnicas de expressão retórica que as frase de propaganda publicitária ou política, e é anterior a estes dois. Ele não deve ser confundido com a oração ou a prece, o slogan religioso serve a propaganda religiosa usada em fins distintos. Aparece escrito nas fachadas exteriores das igrejas e no seu interior, serve de legenda a pinturas de motivos católicos. Potencializa a sua mensagem através do interface com a linguagem visual, os retábulos com os passos da vida de Cristo ou representações dos mártires, complementa também toda uma literatura gráfica de motivos religiosos em locais de culto. Ao contrário da oração, o slogan religioso é uma forma direta de transmitir uma mensagem a cada um dos crentes individualmente, desempenha o papel de máxima, mais do que de aforismo. É exemplo disto o slogan “És pó e pó voltarás a ser” que aparece escrito numa grande quantidade de locais de culto. Representa uma frase fechada que interpela diretamente cada um dos fiéis: estratégia típica do slogan comercial. É constituído por sete palavras, o número máximo teorizado publicitariamente para a imediata e permanente memorização.

A repetição da palavra como palavra-rima interna reforça a mensagem, amplamente utilizada neste caso, de que os fiéis devem desprezar os prazeres do corpo (que afinal não passam de pó eterno) e tudo o que é material e terreno na sua condição humana. Mensagem de recusa e negatividade, propaganda de uma ideia através da repetição e do reforço. O slogan serve assim diferentes fins através de estratégias comuns.
No caso de Fernando Pessoa e Alexandre O’Neill, a contribuição na área da publicidade constituiu, em fases da sua vida, uma atividade contínua. Passemos, por isso, à análise desta atividade exercida por estes dois criadores literários portugueses. Ambos realizaram produções publicitárias, tendo esses trabalhos constituído um recurso de subsistência, uma atividade profissional. Os seus contributos passaram, não só pela criação de slogans, como tambem pela elaboração de trabalhos gráficos.

Fernando Pessoa desempenhou quase toda a sua atividade profissional extra literária na  área do comércio. Nasceu em Lisboa em 1888. Com apenas cinco anos morre o seu pai, dois anos depois a mãe casa-se com o Cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul. O casamento da mãe obriga Fernando Pessoa a viajar com a família aos sete anos para a África do Sul. Após a instrução primária ingressa no Liceu de Durban e mais tarde na Commercial School of Durban onde adquire competências na área comercial. Em 1905, com dezassete anos, Fernando Pessoa regressa a Portugal para se estabelecer definitivamente em Lisboa. Em 1908 inicia a sua atividade de correspondente estrangeiro na área comercial. Começa então a produzir alguns estudos de economia internacional mais tarde reunidos nos dois volumes das Páginas de pensamento político. Torna-se um dos diretores da Revista de Comércio e Contabilidade e desenvolve estudos na área da sociologia do comércio. Em 1925, com 37 anos, Fernando Pessoa inicia a sua atividade criativa regular na área da publicidade após conhecer Manuel Martins da Hora, o fundador da primeira agência de publicidade em Portugal. Pessoa escreve então um texto teórico sobre uma campanha publicitária destinada a fomentar o turismo na Costa do Sol, publicado pela primeira vez muito depois da sua morte, em 1968, na obra “Fernando Pessoa – O Comércio e a Publicidade” de António Mega Ferreira, livro que integra vários textos até então inéditos de Pessoa sobre a área do comércio e da publicidade e que é fundamental para compreender as suas atividades e estudos teóricos extraliterários.
O texto de Pessoa “A Propaganda, no sentido lato, de um lugar como a Costa do Sol” introduz-nos na área do seu pensamento teórico sobre a prática publicitária. Neste domíniol, a atividade publicitária de Pessoa passa, não só pela produção de conteúdos publicitários criativos, mas também pela sua reflexão no campo do discurso publicitário.

Entre outras linhas de força este pequeno texto valoriza questões específicas como o estudo do público-alvo; público que Pessoa, para esta campanha publicitária específica, a de promoção de um destino turístico relativamente caro, a Costa do Sol, divide em três “(a) o público em geral, o vago público possível, qualquer que seja e sem que se determine nele divisão ou classificação alguma; (b) o público rico e luxuoso (…)  e (c) o público especial composto de elites, artistas, intelectuais, e outros assim, que, se per si, não vale muito, vale todavia a influência que dele irradia sobre o público rico, em primeiro lugar, sobre todo o público em segundo.”. Aqui é de salientar a preocupação não só com uma publicidade direta mas também uma segunda, que ele define como publicidade indireta, ou seja que incidindo sobre as elites culturais, artísticas e intelectuais que dada a sua grande visibilidade social e grau de exposição se repercutem sobre uma camada de população mais generalizada. Ao serviço deste tipo de publicidade, Pessoa acrescenta uma outra estratégia “a publicidade indireta, isto é, jornalística, representada por anúncios insertas em publicações estrangeiras pois que a estrangeiros principalmente se dirige”. Pessoa dedica especial atenção a este público estrangeiro de classe alta, como privilegiado na campanha de promoção da zona turística da Costa do Sol o que revela também uma estratégia de publicidade que passe não como publicidade direta, mas inserida em artigos jornalísticos de promoção turística. Neste pequeno texto, Pessoa estrutura não só um projeto para uma campanha publicitária de promoção a uma zona turística, (muito provavelmente encomendada por um conjunto de hotéis ou uma organização de condomínios de luxo), mas reflete também sobre o sentido mais amplo da publicidade como atividade comercial em constante aperfeiçoamento. Áreas do domínio do marketing e da produção de conteúdos teóricos em publicidade eram já alvo de uma grande atenção neste estudo.
Fernando Pessoa termina o texto afirmando que toda a publicidade “deve ser feita em obediência a três princípios: (a) o primeiro, que é o princípio essencial da publicidade, deve ser de esconder o mais possível, ou de tornar o mais agradável possível, o intuito publicitário; (b) o segundo é que a publicidade deve ser feita em línguas separadas. Nunca um folheto deve ser impresso em mais que uma língua (…), (c) o terceiro é de que toda a publicidade, seja qual for, deve fazer o possível por cingir-se de um âmbito de elegância, o que em certo modo quer dizer (…) o disfarce da publicidade” – Nestes três pontos Pessoa aponta uma característica bastante técnica, a de que o folheto publicitário não deve ser bilingue porque isso afasta muitas vezes o público da sua leitura ao tomar contacto visual com uma mensagem noutra língua ”Nada há mais antipático que o poliglótico impresso. Repugna já em obras técnicas, que muitos se vêm forçados a ler; quanto mais não repugnará em folhetos que se deseja que leiam!”. Esta especificidade técnica que faz alusão direta ao suporte publicitário e à sua apresentação é complementada com as outras duas que implicam um conceção genérica sobre os princípios da publicidade, deve esconder o mais possível, ou tornar o mais agradável possível o objeto publicitado e principalmente deve pautar-se pela elegância, valor atributivo fundamental que relaciona com o “disfarce da publicidade”. O disfarce e o esconder o mais possível apontam para estratégias inovadoras que se generalizaram na publicidade em todo o tipo de meios e suportes e que nos referem estratégias indiretas de passar uma linguagem sugestiva, ampla, subliminar, através de elipses que ficam sugeridas no subtexto, apelando mais para o uso de registos sedutores do que persuasões demasiado diretas “a publicidade deve esconder o mais possível…..”.

A reflexão de uma estratégia publicitária em sentido lato com base nos seus princípios essenciais e com a atenção à categorização detalhada do público-alvo revelam o elevado interesse e atenção que Fernando Pessoa deu à área publicitária e ao estudo comercial em geral como área que coexistiu com a sua criação literária. Segundo António Mega Ferreira, em 1925 Fernando Pessoa começou a trabalhar na agência publicitária de Martins da Hora, a “Agência Central de Publicidade de Lisboa” onde passou a colaborar na elaboração de textos para anúncios de imprensa até 1935. Paralelamente ao trabalho criativo desenvolvido na agência de publicidade Fernando Pessoa publica textos na Revista Comércio e Contabilidade onde destaca a importância de estudos psicológicos, económicos e sociais com a finalidade de um conhecimento profundo dos diferentes tipos de público e para um efetivo conhecimento dos seus gostos e interesses que ditam as suas inclinações comerciais.

Entre os slogans escritos por Fernando Pessoa destaca-se, como o mais conhecido, o  escrito em 1928 que serviu de lançamento à Coca-Cola em Portugal “PRIMEIRO ESTRANHA-SE, DEPOIS ENTRANHA-SE”.
Foneticamente assistimos à consonância dos sons que constituem um conjunto harmónico: a aliteração, a assonância e a rima potenciam a sua fixação na memória. A vírgula que separa a oração inicia uma pausa que reforça o sentido da segunda parte: “o estranhamento”. Este conceito serve semanticamente uma grande sugestão sensorial, algo que se entranha, que apela para a união dos diferentes sentidos (o tacto e o sabor por exemplo). Algo que seja absorvido completamente, que se entranhe em todo o ser e espirito, mas acima de tudo um apelo à memória, àquilo que fique para sempre dentro, depois de um estranhamento inicial (fica reforçado um atributo sensorial e um outro, oculto e espiritual, da bebida). Assistimos assim à estratégia que Pessoa esboçou de ocultamento. Nesta frase comercial qualquer tipo de alusão direta a questões como o sabor da bebida ficam sugeridos, passam através do subtexto e da sugestão potenciada com a valorização fono-simbólica da frase.
Mais de 80 anos depois esta mensagem possui ainda estes valores essenciais e permanece de grande atualidade, entranhada no imaginário coletivo. O registo sedutor da mensagem é aumentado pelo carácter breve (apenas 4 palavras) e o equilibro perfeito entre a sugestão semântica e fónica.
Vemos neste slogan marcas da criação poética de Pessoa; o estranhamento e o ato de entranhar são usados direta ou indiretamente (através das suas redes semânticas) como tema que serve motivos sensoriais de captação da cidade ou estados de desconforto emocional, de grande vitalidade em passagens com referências à metafísica na sua poética.
O slogan viria a provocar uma grande polémica. A suspeita de que a bebida continha extratos de folha de coca levantou as dúvidas das autoridades médicas. O então diretor de saúde de Lisboa ordenou uma investigação à bebida alegando a sua possível toxicidade. A publicação do slogan escrito por Fernando Pessoa aumentou ainda mais as suspeitas das autoridades médicas, uma vez que o reconhecimento publicitário desse estranhamento inicial sugeria a existência de estupefacientes usados na fabricação da bebida. A bebida foi proibida em Portugal o que implicou prejuízos financeiros elevados para a Coca-Cola. O regime fascista que Portugal viveu até 1974 proibiu a bebida e só em 1977, três anos depois da revolução de Abril, a Coca-Cola voltou a entrar no país.

Por essa altura Pessoa criou outras campanhas publicitárias, algumas delas para a marca de tintas Berry/Loid. Estas baseavam-se sobretudo no humor e na forma bastante direta de exposição das qualidades desta marca de tintas. A campanha apresentava um diálogo entre dois homens à volta da marca; um homem apresentava ao seu amigo Bastos o problema “Bastos Amigo quero pintar o meu carro de gente. Quero pintá-lo com um esmalte que fique lá, com um esmalte fiel e indivorciável” e o amigo anunciava a solução “Com Berry/Loid, respondeu o Bastos e só uma criatura muito ignorante é que tem necessidade de me vir maçar com uma pergunta a que responderia o mesmo o primeiro chauffeur que soubesse a diferença entre um automóvel e uma lata de sardinha”. A presença do humor, sobretudo através da resposta de Bastos, usa um dos esquemas mais comuns em publicidade, a apresentação simples de um problema (a pintura do automóvel) e a sua solução (a apresentação das qualidades da marca, simples, direta e concreta), que é do senso comum (qualquer um responderia o mesmo, apenas o possível consumidor tem ainda as suas dúvidas). A própria marca de tintas é personificada por Pessoa, “quero pintar o meu carro de gente”, as características concretas da tinta são também elas personificadas para referir a durabilidade da pintura, um esmalte “fiel e indivorciável”. A tinta humanizada aumenta a possibilidade de uma maior identificação do consumidor. A oração “quero pintar o meu carro de gente” induz uma sensação de estranhamento inicial que agarra e prende o destinatário à sua leitura.
Durante o período em que Pessoa se dedicou mais a esta prática é de referir, também de vital importância, a sua criação de novas estratégias publicitárias.

É da autoria de Fernando Pessoa a invenção dos Advertising Crosswords. Este processo constitui um jogo de palavras cruzadas, ou sopa de letras, inserido em secções lúdicas dos jornais e publicações periódicas. O leitor deveria encontrar as palavras que se escondiam no conjunto das letras, sendo estas palavras o nome das marcas e produtos publicitados. Isto permitia ao leitor interagir diretamente no processo publicitário através do jogo[1]. Tratava-se de um outro nível criativo de formulação da mensagem que passava por processos indiretos e que oferecia ao público um produto lúdico, o jogo interagido com a mensagem. Este processo criado por Pessoa revela uma ampla experimentação nas formas de cativar e seduzir o público. A atenção que Pessoa conferiu ao público, nos seus estudos reflexivos na área do comércio, foi  de uma grande atualidade e inovação e pautada por uma procura inteligente de formas criativas para seduzir um público que detinha, cada vez mais, um conjunto alargado de opções comerciais, e por isso mesmo deveria ser tomado em maior conta e estudado em conjunto pelas diferentes ciências sociais, entre elas a sociologia e a psicologia.
Ao contrário de Fernando Pessoa, a atividade publicitária de Alexandre O’Neill restringiu-se a uma ação criativa que foi a sua atividade profissional ao longo de uma fase alargada da sua vida.

O carácter de anonimato, um dos princípios básicos do slogan e da publicidade em geral não nos permitem nem no caso de Pessoa nem de O’Neill saber todos os slogans que terão sido criados pelos mesmos. No caso de Alexandre O’Neill sabe-se da autoria de alguns deles através do estudo realizado por Maria Antónia Oliveira na sua obra “Alexandre O´Neill: Uma Biografia Literária”. Nesta obra a autora enumera dez slogans da autoria de O´Neill, e destes nem todos foram aceites pelas agências de publicidade ou pelas empresas clientes. Conhecem-se então alguns slogans de que foram feitas mais de uma versão. É o caso das variantes “GASDCILA NA COZINHA É UM DESCANSO” e “GASDCILA, O GÁS DA CIDADE”. Entre os slogans que não singraram encontra-se o de uma marca de colchões “COM COLCHÕES LUSOESPUMA VOCÊ DÁ DUAS QUE PARECEM UMA!” e a sua variante “COM LUSOESPUMA DÁ-SE CADA UMA” e o slogan proposto numa reunião com a administração do Metro de Lisboa “VÁ DE METRO, SATANÁS” em que O’Neill revitaliza de forma humorística o provérbio “vá de retro satanás”. O uso do trocadilho é uma das suas opções poéticas mais constantes ao serviço da reprodução de uma linguagem popular e do tom humorístico bastante direto.
No caso de O’Neill torna-se plenamente visível que as suas criações publicitárias são por vezes um espelho da sua criação poética. A reforçá-lo estão as próprias declarações que deixou em vários textos. Em 1968, numa entrevista ao jornal A Capital, O’Neill refere “Sou parecidíssimo com a minha poesia. Mesmo no dia-a-dia, no próprio trabalho. Entre a minha expressão coloquial e a minha expressão poética não há distância. A diferença será de intensidade, ou ao que se pode chamar intensidade.”
Temos aqui presente a apologia do quotidiano, do humor, da arte como vida e indissociável dela em que o ser poético igual ao ser na vida aponta para a transparência, claridade e sinceridade como ideologia literária e ideologia de vida.

Quando o autor refere “mesmo (…) no próprio trabalho” integra a sua criação publicitária num todo orgânico em que as marcas poéticas estão espelhadas. “Entre a minha expressão coloquial e a minha expressão poética não há diferença”. As marcas da linguagem coloquial, do humor e da reprodução da gíria popular são transferidas para a produção do seu discurso publicitário.
Entre os slogans de O’Neill encontra-se ainda o célebre “HÁ MAR E MAR, HÁ IR E VOLTAR” encomendado pelo Instituto de Socorros a Náufragos com vista a uma campanha para prevenir os afogamentos nas praias portuguesas, que contou também com uma outra versão “PASSE UM VERÃO DESAFOGADO”.
No primeiro temos a valorização da dicção através da repetição da palavra mar que simula o próprio movimento circular das ondas e marés. A rima e a estrutura paralelística reforçam a memorização. O sucesso deste slogan foi tal que ainda hoje permanece no imaginário popular como provérbio ou máxima popular. No segundo vemos o adjetivo desafogado que significa em sentido literal não ter problemas financeiros e viver sem grandes restrições de dinheiro, mas que O’Neill revitaliza por metonímia para servir a ideia de não se deixar afogar.
Da autoria de O’Neill é ainda a frase “BOSH É BOM”, slogan utilizado durante muito tempo como campanha da marca Bosh. O uso da paronímia é de grande simplicidade e é essa mesma simplicidade da aproximação fónica que o faz ficar na memória durante longo tempo. A variante deste mesmo slogan “BOSH É BROM” que a nível semântico não acrescenta nada à mensagem, introduz um elemento humorístico e uma valorização do seu valor de dicção através do trocadilho e trava-línguas; elemento humorístico que potencia a memorização, princípio fundamental de qualquer slogan, sirva ele a publicidade, a política ou a religião.
                                                                                                                
BIBLIOGRAFIA

NABOKOV, Vladimir (2003), Contos Completos Vol. I, trad. de Telma Costa, Lisboa, Teorema.
OLIVEIRA, Maria Antónia (2007), Alexandre O’Neill: Uma Biografia Literária, Lisboa, Dom Quixote.
SARAIVA, Arnaldo (1975), Literatura Marginal / Marginalizada, Porto, E.A.
Jornal “A Capital”, Lisboa, edição de 2 de Maio de 1968.

GALHARDO, Andreia (s.d), Sobre as práticas e reflexões publicitárias de Fernando Pessoa, Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – UFP, Biblioteca Digital:

PESSOA, Fernando (s.d.), A Propaganda, no sentido lato, de um lugar como a Costa do Sol, Lisboa, Arquivo Pessoa, obra édita: facsimile:
http://arquivopessoa.net/textos/4503

ANDRADE, Ana Elis Magalhães (2005), Polifonia em Slogans, Revista Letra Magna: Revista Eletrónica de Divulgação Científica em Língua Portuguesa, Ano 2, nº 2:

               Nuno Brito, 2013.
                                        


[1]  Como exemplo da criação de outra atividade lúdica extraliterária, alguns autores apontam a possibilidade de ter sido Fernando Pessoa quem inventou o célebre jogo popular de matraquilhos, pois existem apontamentos de Pessoa sobre a ideia de criar um jogo de futebol de mesa, com jogadores articulados unidos num ferro e que descrevia com exatidão o que viria a ser este jogo.