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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Eugénio de Andrade

Procuro-te

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.



ANDRADE, Eugénio de. Poesia. Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005.

domingo, 19 de abril de 2015

Eugénio de Andrade

XXIII. A uma cerejeira em flor

Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira,
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja:
sentir o tempo, fibra a fibra,

a tecer o coração de uma cereja. 


Eugénio de Andrade, Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos, Os Amantes Sem Dinheiro, Porto, Limiar,1978.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Eugénio de Andrade: Matéria Solar

 30.

Levei as mãos aos olhos para ver
se mesmo em ruína ainda existias,
mergulhei no sol os dedos todos,
vêm molhados das águas fatigados –
o corpo perdia-se frente aos dias.


Eugénio e Andrade. Matéria Solar. Porto: Limiar, 1980.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Eugénio de Andrade. Mar de Setembro



Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
Fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
doceis, leves, só
alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam;
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto,
puríssimo, doirado.

Eugénio de Andrade, Coração do Dia – Mar de Setembro, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.

domingo, 6 de abril de 2014

Eugénio de Andrade

MATÉRIA SOLAR

5.
Claro que os desejas, esses corpos
onde o tempo não enterrou ainda
os cornos fundos – não é o desejo
o amigo mais íntimo do sol?
Que os desejas, como se cada um
deles fosse o último, último corpo
que o teu corpo tivesse para amar.

13.
Aqui me tens, conivente com o sol
neste incêndio do corpo até ao fim:
as mãos tão ávidas no seu voo,
a boca que se esquece no teu peito
de envelhecer e sabe ainda recusar.

18.
Eu amei esses lugares
onde o sol
secretamente se deixava acariciar.

Onde passaram lábios,
Onde as mãos correram inocentes,
O silêncio queima.

Amei como quem rompe a pedra,
ou se perde
na vagarosa floração do ar.

25.
Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.


28.
Dormíamos nus
 no interior dos frutos.

É o que temos: sono
e a estiagem subitamente
até ao fim.

Amargos.

Pela humidade descia-se
às fontes – lembro-me.
Dos lábios.

46.
Olha. Já nem sei de meus dedos
roídos de desejo, tocava-te a camisa,
desapertava um botão,
adivinhava-te o peito cor de trigo,
de pombo bravo, dizia eu,
o verão quase no fim,
o vento nos pinheiros, a chuva
pressentia-se nos flancos,
a noite, não tardaria a noite,
eu amava o amor, essa lepra.

Eugénio de Andrade – Matéria Solar (1980).

domingo, 25 de agosto de 2013

Eugénio de Andrade

Sobre as Sílabas

O assédio do verão, as rolas
dos pinheiros, a risca de sal
das areias; às vezes
chovia – então um barco
de borco era o abrigo
era o amigo; a chuva abria
o aroma dos fenos, não tardava
o sol em cada sílaba.

Eugénio de Andrade – Rente ao Dizer (1992).