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segunda-feira, 17 de março de 2014

Roberto Piva: Manifesto da selva mais próxima


Abolição de toda a convicção que dure mais que um estado de espírito
Alvaro de Campos
Os produtos químicos, a industria farmacêutica & os
miasmas roerão teus ossos até a medula/ cadáver rico
em vitaminas/ rodopios no rio da indústria/ burocratas
ideológicos morrendo de rir/ marxistas que depois que
arrancaram a próstata tomaram o poder/ vastos
desertos no Cérebro/ políticos estatísticas câncer no
rosto vazio das avenidas da Noite/ Mulheres agarrando
garotos selvagens para enquadrá-los no Bom Caminho/
assobios & fome do verdadeiro caralho fumegante/
Robert Graves, Brillat-Savarin & o refrão dos meus
desejos/ Feiticeira Ecológica no Liquidificador
Minotauro/ hortaliças incineradas por mercúrio/
botinadas da KGB & canções lancinantes/ Tempo no
osso/ Televisão/ Centauro na rota da Revolta/
Estrelas penduradas na fuligem/ Catecismo da
Perseverança Industrial/ Os governos existem pra te
deixar com esse ar de cachorro batido/ os governos
existem pra preparar a sopa do General Esfinge/ Os
governos existem para você pensar em política & esquecer
o Tesão/ Batuque Nuclear Anjo-Fornalha/ poesia
urbana-industrial em novo ritmo/ Cidade esgotada na
feiúra pré-Colapso/ recriar novas tribos/ renunciar aos
trilhos/ Novos mapas de realidade/ roteiro erótico
roteiro poético/ Horácio & Lester Young/ Tribos de
garotos nas selvas/ tambores chamando pra Orgia/
fogueiras & plantas afrodisíacas/ abandonar as
cidades/ rumo às prais salpicadas de esqueletos de
Monstros/ rumo aos horizontes bêbados como anjos
fora de rota/ Terra minha irmã/ entraremos na chuva
que faz inclinar a nossa passagem os Guaimbês/
Delinquência sagrada dos que vivem situações-limite/
É do Caos/ da Anarquia Social que nasce a luz
enlouquecedora da Poesia/ Criar novas religiões, novas
formas físicas/ novos anti-sistemas políticos, novas
formas de vida/ Ir à deriva no rio da Existência

Roberto Piva, Hora Cósmica da Águia, São Paulo, 1984.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Paranóia (1963)


Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci
onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo seus olhos com
lágrimas invulneráveis
onde crianças católicas oferecem limões para pequenos paquidermes
que saem escondidos das tocas
onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros para os telhados
estéreis e incendeiam internatos
onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam
a descarga sobre o mundo
onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em festa e a noite caminha
no seu hálito
onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei o Outono de sua
última janela
onde o nosso desprezo fez nascer uma lua inesperada no horizonte
branco
onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela fotografia de peixe
escurecendo a página
onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das
beatas
onde os mortos se fixam na noite e uivam por um punhado de fracas
penas
onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da
imaginação



Roberto Piva


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Roberto Piva



O coração gelado do pavão na noite
ouvindo estrelas
no vazio de um grande piano
não me surpreende agora
o sorriso de sua doce anatomia
as pernas quentes no meio da rua
todo meu rosto deslizando em lágrimas no
espelho
o negro animal do amor morreu de
fome nos acordes
finais de um peito nebuloso não outra vez
loiros fantasmas fornicando em meu olho

Roberto Piva: Lá Fora o vento espera – Piazas.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Roberto Piva

Poema XIV

 
vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
                  coxas imberbes & brancas.
         vou dilapidar a riqueza de tua
                  adolescência. vou queimar teus
                  olhos com ferro em brasa.
              vou incinerar teu coração de carne &
                            de tuas cinzas vou fabricar a
                            substância enlouquecida das
                                     cartas de amor.


Roberto Piva, 20 Poemas com Brócoli, 1981.