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sexta-feira, 20 de junho de 2014

Andreia C. Faria

O meu tronco nu

A outra metade seria 
a sereia enrugada, à venda
numa banca do mercado em Samarcanda
A sereia ressequida e embrulhada
em papel de jornal

O erotismo póstumo de uma sereia
a quem levantassem a saia, ou a colhesse
o arpão pela cintura. O meu
tronco nu seria a praia
onde a vinha encontrar um mercador

Anelar, dividida ao estertor
por um marinheiro bravo, ressente-se
a sereia de sémen e suor, mas alicerça o canto

mais acima, na prefloração da pelve
em guelra ou maçã-de-adão,
na várzea isquémica onde morre o peixe
e restolha o sangue como a brisa entre a folhagem 

Retirado de Enfermaria 6


Andreia C. Faria


O outro lembrava a infância com marcas
de sal nos olhos tudo
tem um preço mesmo o que está
por demais perdido tem um preço o próprio
sal tem um preço lera na lombada
das mulheres
Também ele se enrolava e lapidava como
pedra em forma decorativa seixo
que ao mar não doía engolir
ficava a vê-las os dedos dedilhando
a inflexão da noite longa


Andreia C. Faria, De haver relento, Cosmorama, 2008.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Andreia C. Faria

Atropelamento

Quando eles dizem
"morreu rebentada por dentro"
querem dizer
que o coração
se moveu do esquerdo
ao lado direito do peito
que o impacto se sentiu no pulmão
onde o coração entrou e ficou escondido
palpável à língua
Que o fígado acidulado por um último jantar
se lançou em espuma contra as costas
e negra da noite ao avesso
a caixa torácica perdeu o abaule
o orgulho
as flores como pétalas de osso quebraram
por todo o dentro de cinco sentidos
Em todo o caso o corpo
ficou incólume
sentado na estrada
desviado apenas do lugar
onde esteve o baque da alma

Andreia C. Faria, Flúor, Textura, 2014.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Andreia C. Faria


Houve ainda gente na intersecção houve
quem viesse e se erguesse
em penumbras e paredes para lhe decifrar
a mais funda verdade -
chamava-se Estar só.
Ou não fosse
estar só já tão seu para ser nomeado
´Star só
um nome em sobressalto duas
sílabas e uma elipse
caminhando-a na noite


Mas houve gente fluindo do mar
subiram os gatos e com eles
as gaivotas
tão cruéis que para haver
crueldade era preciso quem visse


(Foi no remanso do verão como quem
regressa de viagem e não
sabe a qual porta bater
Os grilos trilhavam caminhos e as alfaces
cresciam na proximidade da lua
Era cidade, mas dos gatos nasciam quintais
na lentidão de o tempo os não encontrar
Eram os gatos o oposto do granito,
o quão frágil é tudo que é eterno!
Os gatos rodearam duas mulheres
de uma vaidade a que se chama
família)


Andreia C. Faria, De Haver relento, Cosmorama.