Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel António Pina. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel António Pina. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Manuel António Pina: Passagem



Com que palavras ou que lábios
é possível estar assim tão perto do fogo,
e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,
tão sem peso por cima do pensamento?

Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,
e não só uma voz de ninguém.
Onde, porém? Em que lugares reais,
tão perto que as palavras são de mais?

Agora que os deuses partiram,
e estamos, se possível, ainda mais sós,
sem forma e vazios, inocentes de nós,
como diremos ainda margens e como diremos rios?

Manuel António Pina. Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011. Assírio & Alvim, 2012

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Manuel António Pina


O Bilhete de Identidade de um escritor é, na realidade (não me lembro onde é que li isto), o seu bilhete de alteridade.
Manuel António Pina


 

 In «À poesia pouco mais é dado dizer do que o silêncio do mundo», entrevista por Osvaldo Manuel Silvestre e Américo António Lindeza Diogo, Ciberkiosk, nº 9, Março de 2000. (Citado a partir de Inês Fonseca Santos, A Poesia de Manuel António PinaO encontro do escritor com o seu silêncio, Lisboa, Departamento de Culturas Românicas da Faculdade de Letras de Lisboa, 2004, p. 110. Dissertação de Mestrado em Literatura Portuguesa).

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Manuel António Pina


Farewell Happy Fields

I.
Entre a minha vida e a minha morte mete-se subitamente
A Atlética Funerária, armadores, casa fundada em 1888
A esses sítios acorrem então, aflitíssimos, o teu vago sorriso
e a vaga maneira como dizes os esses;
vêm de muito longe e chegam incompletamente
ao pequeno vulnerável sítio entre
toda a minha vida e toda a minha morte,
quando a minha última recordação atirou já com a porta

e tudo está acabado, até a tua respiração
na cama ao meu lado


(…)


Manuel António Pina, Farewell Happy Fields, Porto, E.A.,1993, 

sábado, 26 de outubro de 2013

Manuel António Pina

Amor como em Casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.


Manuel António Pina (2001), Poesia Reunida, Lisboa, Assírio & Alvim.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Manuel António Pina


HEGEL, FILÓSOFO ESPORÁDICO?


 Ninguém morreu de morte tão natural como Hegel.
Alguns anos antes tinha descoberto, horrorizado,
que Deus o havia colocado, exactamente no centro de Tudo.

Morreu como um bárbaro: subitamente o seu coração
parou de bater, e inclinou levemente a cabeça sobre o lado direito.
É sempre outro que escreve. (Como poderia o Escritor, ele próprio,
mesmo quando é um Filósofo, reconhecer o que está ali para ser escrito?)

Quem escreveu o poema «A Eleusis» que Hegel, há 200 anos
dedicou a Hölderlin? Porque combateu Hegel a positividade?
A que descobertas chegou Schelling, conservador em Berlim,
entre os seus papeis? Que mão deitou fogo, em 1946, à sala dos Apócrifos
do Museu Gnóstico de Túbingen?

                   Slim da Silva, hetero-personagem de Manuel António Pina em: Aquele que quer morrer, 1978, Regra do Jogo.