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domingo, 1 de março de 2015

Dizia-se em Oaxaca


Falava­se em Oaxaca da tua sede e de uma menina que injectou petróleo no peito — Cristalizou na sua boca um líquido em fogo a formar­se no canto do lábio em ponto de açúcar, em ponto de sol e fuga e conjunto de limões e conjunto de homens que acedem os faróis: e descia da sua boca, pela casa, pelo chão, descendo as escadas, descendo o passeio, descendo a montanha, e pela montanha abaixo descia um sol líquido adocicado pela memória de todos — toda a memória do mundo a descer como um degelo solar pela montanha abaixo, todas as montanhas abaixo: À beira do mar pensava­se que o Vesúvio tinha irrompido. Todos saíam para os seus trabalhos e acendiam todos os faróis vermelhos que anunciam a nova era e os faroleiros entravam com uma mensagem nova, e as mulheres dos faroleiros iam aos faróis levarem um tupperware com sopa e trazer a roupa suja para lavar, e sacavam a roupa suja e voltavam a levar a roupa suja. E faziam amor com eles no cimo de todos os faróis. E da montanha descia a memória em direcção ao mar, em ponto de sol, em ponto de fuga adocicada: Fizemos um pacto com a vida e com tudo quanto flui. A santa injectou petróleo e cristalizou na sua boca um fio que caía ardente — Todo o sol, carregado de sal e doçura a entrar na veia de cada heroinómano, de todos os amantes… Iam para perto dos faróis: às seis e trinta: por baixo da ponte da Arrábida um carro estacionado com dois amantes, os vidros embaciados. Depois ele abre o vidro e acende um cigarro de haxixe, o vento do mar entra no carro e bate fresco e quente ao mesmo tempo na cara dos dois. Ela baixa­se, encosta­se contra o peito dele. Sente­lhe o coração. Leve e seguro. Ele passa­lhe suavemente as mãos pelos cabelos. Beija­lhe as orelhas. A menina em directo para a CNN a injectar leite condensado no peito para afastar todas as nuvens que são rios inteiros em forma de vapor a flutuarem. Não era o quê? Dizia­se o quê? Em Oaxaca. Falava­se de febre e limões, de beijos na boca que podem não acabar, de línguas entrelaçadas, de mãos dadas, de mergulhos no mar. Falava­se de Pedro Abelardo e Heloísa, de Mariana Alcoforado e de Alejandra Pizarnik. Diziam as raparigas de cabelo curto, com a boca cheia de cerejas negras, que o sol podia um dia não vir. Os Atlantas esperam­no, fazem um pacto com ele, nós com a vida. Creme de la creme pela montanha abaixo.

O padre de Hiroshima a apanhar o sol no fundo da montanha. O padre de Hiroshima a meter um bocado na boca. A beber o degelo: a apanhar as sombras do chão. A prendê­las com molas no estendal — e, como a mulher dos faroleiros e dos cortadores de carne, a estender também a sombra dos cogumelos e dos prédios que derreteram para o chão e a sombra dos lírios e dos corvos e a pegar fogo, com o seu isqueiro, às sombras das girafas, de todos os homens, animais, plantas e coisas: Adora, como todos a palavra «húmido»e o seu deus não é palavra e não se escreve por palavras e não sabe ler nem escrever. E ler nem escrever ajuda a encontrá­ lo e ler e escrever não é nenhum deus: Dizia­se em Oaxaca que o sol viria sempre e isso chegava aos homens que levavam os seus burros pela manhã.

Passava um carro, um camião, os dois amantes por baixo da ponte Arrábida. Vão à bomba de gasolina comprar tabaco e cerveja em lata. Voltam para o carro abraçados. Dizia­se em Oaxaca que o sol lhes ia entrar no peito: Dizia­se em Oaxaca que nós somos todos os outros. Uma roleta russa de mel, para diabéticos enquanto descem flocos de neve para dentro das bocas negras. Um nevão que cobre África. Falava­se em Oaxaca da minha vontade de te abraçar. Falava­se de um derrame na artéria do coração, um derrame de petróleo doce e branco como o leite condensado ou o leite gordo das baleias. Um petróleo injectável: Falava­se disso em Oaxaca enquanto todos os carros passavam para o trabalho. Falava­se com febre e as mãos a tremer, outras vezes com calma e com a ajuda do mezcal e tequilla. A sombra dos lírios violava a sombra dos homens. E a febre dos homens entrava nas mulheres: Dizia­se tudo isso em métrica sáfica e escrevia­se nas paredes dos cafés, das casas, das escolas e de todos os edifícios públicos, o quanto te Adoro. O Padre de Oaxaca ouvia e secava as sombras e secava os rios e esvaziava os mares com o seu balde de plástico: um trabalho como o de Sisifo. De cada vez que se contem o choro, os rios sobem mais um pouco. Falava­se em Oaxaca da febre dos búzios, de pernas entrelaçadas, de braços entrelaçados, de estrelas entrelaçadas. As mulheres dos pasteleiros acordavam a meio da noite, com as suas meias de lã grossa, para virem abrir a porta à estrela que com todas as suas pontas batia em cada porta, e entrava dentro das casas: Uma estrela feita de solidariedade, que cresce quando as pessoas se abraçam, que é só febre, sensação e calor.



quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sunset Boulevard

Ode Gente*

O tempo, perverso em não existir, conjunto de limões em fuga,
com a sua saia de séculos, a masturbar-se lentamente,
A vir-se Em todas as direcções:
Depois mais rápido moldando a cara dos lavradores
Ofegante na sua vontade circular
Cilíndrico na espera – a subir o Chiado a descer o Chiado,
A entrar em cada casa, a passear na Afurada – a saber-se coisa-nada
ele
dá-te a mão, Espera,
Pinta frescos na sala, detiora os frescos da sala
tacteia nas tuas costas uma vontade nova, muda essa vontade
cria uma nova e uma nova e uma Nova
Escreve a lápis número 3 na sua sebenta:
“Este país não é para velhos” E masturba-se devagar e
depois Rápido: E adora Cláudio Magris e toda a Antena –
e acorda com Sebald e deita-se com Sebald, viola as filhas da revolução
e é manhã e insónia a entrar em todas as tabernas
a tingir de amarelo os calendários Michelin
a crucificar este, a encher de prazeres aquele, a masturbar-se
ciclicamente até ser só Vontade de ter passado:
Tempo-Cidade, tempo-cavalo, tempo-proletário,
tempo-homem, tempo-mulher, tempo camponês que dá a mão, tempo que escreve ensaios, tempo que canoniza –

Tempo que chora leite condensado para
cima da Sebenta, com o seu rosto quadriculado que é só medo e está passado –
………………………………………………………………………………………………………
Tempo que é União e fala por nós, que tenta chorar mas só lhe sai musgo dos olhos, fresco e verde como o que cresce nas fontes de Raguzza, que dão uma água carregada de ferro (Resta-me a Sinceridade e a Saliva de todo o mundo)


***

O Tempo a cavalgar com Zaratrusta, trusta trusta,, a procurar um efeito sonoro nos seus versos: Em busca deste ou daquele recurso estilístico que dê profundidade à rima imperfeita – a Injectar no peito uma vontade nova, um Sol líquido entre dois seios que são também montanha, onde descansa o olhar –
vários olhos que vêm os estorninhos dançarem numa nuvem única, que parece uma cabeça de Medusa, em permanente mutação: Criando novas formas do cabelo, novas expressões no sorriso …………….. Uma nuvem única que faz amor consigo própria, como se fosse com um filho por cima dos Campos de Marte - uma nuvem-estorninho a acompanhar Grieg na subida e a acompanhar Grieg na descida: Nasceu uma Estrela com baton a mais –


A Torre de Babel, as torres do Aleixo
A torre latina que só espera,
a doçura do
teu queixo – À procura da T-mésis per-fei-ta
Um triângulo com as suas três pontas acesas, que bebe demais e tem medo de cair na entropia, um triângulo-cio com problemas de erecção.

É só doçura a torre latina que cai, Gémea do silêncio e da solidão;
A nossa língua não é esquecida: Evoluirá até à deformação perfeita –
O Tempo a acender todos os interruptores da Calábria, a fechar os olhos aos missionários que merecem o descanso: A dar-lhes um sentido porque todas as coisas devem ter sentido, seja ele único ou múltiplo: Seja ele cavalo, cidade-industrial, pastor alemão, vidro, sebenta, aguardente, erecção, uma viagem a Nova York, a Grécia Inteira; seja ele vento, microscópio, lixívia de marca branca, rebanho de ovelhas, medo do escuro, uma canção de amigo, uns olhos verdes e tristes – Seja ele, fazer obras num talho, mudar de instalações o sapateiro, o preço da gasolina, o preço do trigo, o que o colhe, ou o que o come…

***

Aqui não há espera: Come o teu queijo gordo e guarda que o teu lamento não seja eterno ………. Abre todas as janelas e deixa que o mar entre em tua casa – Nasceu do lodo, a simetria, a Vontade nova, em tudo nova; Não lhe quis dar um nome. Por superstição, deixei-a também flutuar como fumo de um cigarro que desaparece e é só instante. Deixei-o ir acordar os camionistas que seguem por estradas sem curvas, e precisam de dormir ……………………………… O que nos é estranho é adocicado e múltiplo, o que nos é estranho é o que Entra … Digo Entrar. Entrar Verdadeiramente::
Fomos alguém à janela com as suas pernas de cimento, fomos o pão negro que comia, um país na direcção do vento: O meu trabalho é partir diamante com a boca e encher de calmantes toda a Escócia e a gente austral. O meu país é só vento e aproxima o bem do mal: O meu país faz compotas de petróleo cristalizado, compotas de moral e de cimento que acordam os seus filhos pela manhã, compotas que indicam uma rota nova, que pedem boleia aos camionista, que têm medo de não passar bem a mensagem – É sua missão passá-la … Dizem - Bom dia! – A este e aquele que passa, que tiram o chapéu educadamente; Que abrem os seus corações aos estranhos nas estações de comboio. Compotas que desejam mesmo um bom dia, a este e aquele viajante e só esperam que a sua rota seja perfeita.

***

Espero que alguém se deite comigo, e não saiba já se está acordado ou a dormir e que a fronteira entre a vigília e o descanso seja só um novelo com que brinca um gato, em tudo exílio e olhos verdes, um gato negro que entra e sai das torres latinas. Um gato com o sonho Americano e a Dormir por si adentro.
Manter vivas todas as Frentes e velar para que nunca se apaguem – Calcar um triângulo de espera - gelatinoso como o cancro da mama - Um Triângulo que incomoda os séculos, um triângulo que minga quando as pessoas se abraçam: um triângulo que acorda e cavalga, um triângulo que sabe três línguas e assassina por trás. Um triângulo-Solidão.

***

Em métrica antiga abrimos todas as portas para que o rio passasse, negro e gorduroso no seu leito, a dizer que o país não se mete em sarilhos, em cada esquina um tétrico coro canta. Em cada esquina essa perda de cabelos dourados, wireless latino e agudo, entra em todos os jardins, come os teus figos maduros, Quê?
Com uma flor na lapela que é o seu lamento,
A criar estilos, a passear o cão, a ouvir o concelho de todos, a dançar regeton

O Tempo a ouvir Sitiados
A talhar a pedra - a ser já só pedra e dados
a construir sólidos telhados num labirinto de braille


……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………...

O Coro tétrico canta:

Tudo é febre e mudança
Panteão e virilha a arder,
Tudo é promessa líquida que muda,
e manequim a ferver

Tudo é perspectiva múltipla e
nos exige a atenção,
Tudo é língua, tudo boca ,
Ode como um cão!

Esculpe-me o cabelo, o sexo e o antebraço,
Recheia de chocolate os ouriços do mar, Dá-me a solução num único abraço,

Adoça e esculpe-me os limites: Faz deles, nenhum.

*******

Acende um Farol em cada praia. Não esperes os navios. Entra em todos os seus porões sem aviso - Recheia os capitães de Susto – Enche os Porões de riso e espasmo… Penteia-os com gel de golfinho. Sempre estive perto da loucura, se não fui ela própria, sempre quis ter bigodes púrpura e ser só a chuva lá fora –

Nunca quis ser um poeta, só quis ser um navio em chamas: Um navio violado pelo seu tio, todas as manhãs e todas as tardes, um navio que há noite lê Bataille - Um Navio que se afasta dos outros navios se não tiver cuidado, um navio que só quer ser ponte, limite e União. Um navio que com os seus óculos de Sol, escreve na sua rota: - Não existe o que se escreve nas rotas -
Um navio que mesmo assim escreve e insiste em escrever, seja no osso de uma namorada morta, seja no computador, seja em rolo de papiro, em pergaminho, em papel, em folha de gelatina, em mármore, em porta de casa de banho, em quadro (pode ser com unhas ou com dentes) em areia molhada, no braço em tatuagem, nas costas em tatuagem, num deserto mexicano, num campo relvado, a chantilly num bolo de chocolate, no lodo, na lama, no gelo com patins, na cerâmica, na argila, no fogo, desenhando um rasto de gasolina, com urina num ladrilho seco – Não interessa o suporte, mais ou menos perene, ele só prova a nossa inocência, a nossa necessidade de partilhar - A literatura, só pode ser União …………… Um navio que escreve rápido no ar e em fumo de cigarro (são precisos bons reflexos e ante-braço forte) – A Literatura tem de ser União –

Nunca quis ser um poeta, sempre quis ser um espelho colocado no centro da Austrália, sempre quis ser a “fome de gente” que os espelhos têm - Pequenos fios dourados, Guardar uma coisa qualquer, um hipermercado, um segredo, proteger essa coisa dos lobos; Ser vários cangurus espalhados pelo deserto reflectidos na minha cara fosca, de um e do outro lado, uma cara fosca que é só deserto espelhado carregado de nuvens vermelhas no vidro e na sede de ter Muitas Línguas - Deserto Compositor a Criar um Requiem em Braille para que os cegos cantem uma Osana Perfeita – Para que os cegos a vejam multiforme a Afastar todas as nuvens carregadas – Para que a Fuga seja só ficar – Deserto a vestir as suas cuequitas com motivos ursinhos, a olhar para mim, espelho que não dorme porque abre todas as gavetas, todas as vontades para tirar de lá meias de licra – Sou só a vontade dos teus olhos. A Escócia a abrir trincheiras cor de rosa, África a sonhar com um incesto – Em tudo Maior –
A calçar as All-Stars - A jogar playstaition com a boca cheia de limão* Deserto a cavalgar a abrir portas – Não interessa a escolha do caminho, mas a intensidade com que se o percorre, seja ele um ou em tudo múltiplo e comprido. Deserto a abraçar deserto, deserto a espalhar-se vermelho na perda por deserto e deserto, deserto com sede de pessoas.

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Nunca quis ser um deserto, sempre quis ser um espelho ou um conjunto de limões _ Se fosse uma mulher, paria um espelho de espuma – Sei que a espera é o próprio Inferno, senão o Diabo Inteiro, sou o arquitecto de um labirinto:

Comer o labirinto
Sair
Ficar dentro – O Arquitecto é uma sombra e quer-se perder e espalhar pela praia ao fim da tarde, Criar a Sua Perda, um labirinto doce com muros que são folhas de gelatina, um arquitecto que só te quer a ti, todas as saídas e todas as entradas. A mais doce ária que é o azeite negro a escorrer pela boca de um paralítico. Esculpe-me o cabelo, o sexo, o antebraço, dá-me um abraço triplo, tira-me todo o ar, dá-me todo o Ar:
A noite com as suas cuequitas apertadas uiva por Maiakovsky
a língua da noite adormece os pescadores

Gosto de te ver sorrir

******

O Riso é o Gerador Único do Universo,
só ele, quando, tudo o resto falha, permite que as estrelas,
(infanticidas por natureza), se mantenham vivas e não cortem as suas pontas,
Que as ligações frágeis, não percam vida e se extingam até à anorexia, perdendo luz e força,
ou se arrebentem por dentro sobre o seu próprio eixo desatinado (desatinando para aqui e para ali) Só o Riso é Deus, só ele cavalga e Molda verdadeiramente as caras,
só ele cria luz e espelhos de espuma, só ele goza a poesia, só ele fica sozinho, só ele dá vida.
Quem escreve “O Fim da História”, mais não faz do que a começar. Sou um recurso estilístico a olhar-se ao espelho, a beber chá verde pela manhã, a empapar o cabelo em gel …

Sou a vontade, em tudo malhada, de te ver sorrir*
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Lambi o sexo a um relâmpago de virilhas acesas
os seus pintelhos tornaram-me a boca da cor do azeite,
alguns engoli e escorri para os pulmões, vi o relâmpago a lavar os dentes e a cair por cima de uma biblioteca

a literatura (a primeira morte) só serve para unir – os fios que usa são dourados,
é também dourada a sua paciência e a sua vontade de conhecer o inferno.



Ode em mutação, poema recheado de vento, poema que cavalga e é lusitano - Que é só sede e é só vento, (vontade de rir de tudo) - Poema em rima cruzada a atravessar todos os rios, relâmpago a guiar numa auto-estrada em direcção ao sul – Poema a ouvir Belle Chase Hotel com a boca cheia de cerejas negras – Ode que canta um país que não quer amanhecer, e que é brisa e triste lamento, poema que é olhos teus e se alimenta de riso. Ode cão Ode cimento.

Sempre quis ser uma cidade industrial escocesa que Turner não conseguiu pintar, sempre quis ser o acordar dos operários, que calçam as suas ceroulas, afastam o medo (Criação Absoluta e único Motor de tudo) Todos os mails não enviados que recheiam a Rede de pontas gelatinosas e fazem explodir as estrelas – De tudo o que deve ser dito com o palato aceso.
Ode Gente, Ode canção
Ode lixívia que limpa uma campa
Ode-saia e alexandrina na rima, ode com dentes podres
viciada em cocaína – Ode Gente dentro de Gente, Ode cantina,

Ode canção, perfeita no gesto – Ode hospedeira da Easy jet, Ode-gente que chove, Ode-Nuvem que tapa e destapa as cidades Belgas, Ode a abrir os frascos de mel todos, a meter-te pirilampos nos cabelos, a acender de escuridão a noite – Ode que chora quando morre o seu amigo, Ode que brilha quando morre – O Mundo começou agora e já está na sua varanda de Susto uma rapariga com a sua saia carregada de vermelho – Ode Saída a encher os pulmões de relâmpagos - Um país Ocidental que nasceu numa paralítica dança em construção.

Ode tinta num copo de espasmos, Ode de boca ao lado que precisa de um amigo,
perversa na fuga e na sua chegada,

              - O amor é como carne.

                                                                            Nuno Brito, Duplo-Poço. Lisboa: Hariemuj, 2012. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Ribossoma

A música mete o Céu entre as pernas enquanto a febre se enrola na cidade, a febre da cidade a subir pelos pulsos, a subir a noite dentro dos dedos, dos seus ossos finos. A luz vem‑se dentro de Cassandra — A luz vence dentro de Cassandra; percorre‑lhe o corpo em fotões ágeis, as coisas que ligam são dadas ao homem; quando as pessoas morrem transformam‑se em música, música que faz amor com tudo o que é vertical, e o silêncio é um contraceptivo que se possui a si mesmo, um meta‑silêncio que faz amor consigo mesmo sobre os campos de Marte, com os estorninhos em cima, com as nuvens em cima, por baixo um relógio suíço enterrado na areia. Mais acima a rapariga brinca enquanto o sol lhe bombeia uma vontade nova para as extremidades seguras, enquanto o coração e o céu todo bombeiam o sangue, quatrocentas vezes mais rápido que a rotação da terra sobre o seu próprio eixo. A música enrola‑se em cada célula com informação sempre nova (como ribossoma), a rapariga desenha a lápis número três a linha da costa, em sismografia perfeita, porque está dentro do eléctrico e apenas deixa o lápis em ponto morto, seguro nos dedos trémulos que com a trepidação do eléctrico desenham a costa da Córsega e da Sicília; África nasce dentro do eléctrico, e o sono percorre a Europa de uma ponta à outra, toca todos com os seus dedos finos feitos de areia que voa com o vento quente, como um piano — Como ribossoma, o silêncio come‑se a si próprio: África parte‑se ao meio por baixo da língua… A música a enrolar‑se em cada célula como se fosse deus, e por isso já o é, toda ela em movimento eterno de expansão… Todos os gestos são eternos, todos os pensamentos dão a volta ao mundo para chegarem
depois a nós outra vez com mais força, repetidos como um eco. Um eco que fuma todas as religiões e todas as crenças, o fumo que sobe dança no ar, como uma escultura em movimento, um museu volátil de fumo que adquire sempre formas novas. Rechearam as bombas e granadas, de geleia, rechearam o medo, de geleia — E agora ele treme com o seu gorro às riscas. O medo com medo de si próprio. De cair num doce sonho de pinguim para não voltar, ser já só o sonho sem a possibilidade de um acordar. Acordamos a cada segundo dando graças pela gravidade mas pedindo para subir sempre — Como um balão de hélio ao qual foi retirada toda a matéria.
A alma é unicamente orgânica. Orgânica no seu subir. Subir faz parte da força que puxa para baixo, magneticamente — todos os pólos se vão fundir, e da união nasce a alma. Como se fosse um fio elástico muito comprido, puxado por dois homens, um em cada continente, puxando o fio que atravessa o oceano (com todas as suas forças). Não rebenta o fio. Nem a morte rebenta o fio, apenas o enrola num novelo e o atira ao ar. Ele sobe sem gravidade possível. Sem chão possível, sem medo possível. A loucura toca o medo, vem timidamente arranjar‑lhe as unhas e o medo paga o serviço como se fosse apenas humano. Mas ele é animal, primário, primordial, por isso também humano e mais material do que o ferro que cria as pontes. Mais líquido do que o rio que lhe passa por baixo, mais volátil que o fumo que sobe. Sem rumo, sem razão, sem necessidade de filosofia. Sem precisar de um suporte que o legitime, porque só a luz legitima. Nenhum homem pode legitimar (seja essa legitimação uma guerra, um gesto, um beijo) apenas o faz, apenas o cria no espaço e tempo que são uma e a mesma coisa, expandindo‑se pelo Universo. O medo é uma fêmea atenta, guarda os seus filhos até ao momento em que não os pode ter mais porque o amor lhe lancetou as trompas. Mas ele continua a regar a partir de dentro, como se todos fossemos violetas com um cio impossível de controlar. O medo continua a criar deus: Ele é apenas o seu criar‑se eterno, ser criado a cada segundo é a sua matéria. O amor pinga dos braços, entrelaça‑os. Mãos, pernas, peito, tocados pelo milagre que é o Homem.
A coerência afundou‑se neste texto e agora não passa de ficção, é, foi, e será sempre ficção que contraria a natureza.
Muitos homens, com as suas meias de lã grossa tiveram um dia vontade de escrever todos os aforismos possíveis. Perceberam depois que toda a vida de um homem não chega sequer para produzir um aforismo e ele mesmo bate nas asas de uma borboleta, bate no peito de cada recém‑nascido, na pulsação da terra. Pulsar e ultrapassar a necessidade de aforismos é a nossa função. Já só a contradição é possível, a resposta a outra resposta, sempre num eco desenvolvido que ultrapassa e cresce com o anterior engrossando as pontas da estrela.
Temos sede de contar uma história hiper‑real e por isso abraçamo‑nos.
Uma borboleta pousa‑te nos braços como se fosse uma catedral, (muda, muda de gestos). As facas só servirão para cortar melancias — o riso permite que as estrelas não expludam… A música feita de fotões rápidos atravessa o corpo, nada por ele, com a sua língua fluorescente — a velocidade é a sua única salvação (como quando se patina sobre gelo fino).
Com os teus pés na água aqueces o lago, adiantas o degelo, um degelo que sonha com um andar seguro e líquido, um degelo que cobre a cidade, os diários do quinto andar ficam molhados, os poemas ficam molhados, quem os iria ler fica também molhado da água que os teus pés aqueceram…
A música mete deus entre as pernas (não que ele seja um mergulho, mas cair bem fundo dentro de cada artéria é a sua necessidade), por baixo das suas saias; o céu — uma aparição mariana dentro de cada célula ,em cada uma um Big‑Bang, um grande Início — sinfonia nuclear para dois búzios e um cavalo marinho. O coração bombeia a música para todo o lado, o planeta dá o sinal e treme — inconscientemente sabemos o nosso caminho, como uma abelha ou um rio, polinizar ou descer até ao mar, assim é a natureza humana com sede de caminho, a beber o futuro, e ela sabe‑a inteira, através do tacto como um cego — o riso é o próprio deus, ele vira os girassóis para o céu; com a sede de contar uma história hiper‑real temos os pés em dois continentes opostos, embrulhámos canções de amigo em papel de rebuçado em ponto de açúcar; o futuro cai nas línguas, está quente, elas entrelaçam‑se, as dos tocadores de sino, dos montadores de andaimes, dos antiquários, das mulheres dos antiquários, dos fabricantes de aquários, dos pescadores, das que criam a rede… A música é mãe de deus e filha do Homem; não que os intervale com o oceano pelo meio, mas liga‑os pelo riso — por uma guerra mais doce encherão os canhões de leite condensado, os aviões só poderão disparar esguichos de leite doce e gordo, choverá leite condensado sobre toda a Ásia menor, aqueles a quem chamaram terroristas ficarão pegajosos, tudo estará coberto por um manto branco, os ditadores ficarão recheados de susto e, com uma gula que não se sacia, lamberão o chão até tudo voltar a ser deserto outra vez.
O teu maxilar segura a fronteira entre o bem e o mal (ela não existe, por isso segura) o desejo permite que ela esteja viva. A música com os seus pés feitos de espasmos permite que as estelas não expludam, enrola‑se em cada célula como um big‑bang contínuo em tudo contínuo e irmão do esquecimento que tudo enrola e que mete sede nos copos, despejam‑se os copos, forma‑se um lago com todas as chaves das casas no fundo, com pneus no fundo, com homens que não pagaram as suas dívidas no fundo, no fundo estão também todos os que acreditam… O Sol lambe a música, com a sua língua de fogo, em movimento eterno… Dentro de cada célula, o Universo com sede de futuro bombeado por duas gémeas filhas da anestesia.
Uma abelha alimenta‑se de sono e de uma violeta, a luz está unicamente nos olhares; o sonho de um ditador africano. A fome de gente sobe pelos pulsos, é injectada por um futuro enfermeiro ainda por nascer. O sonho era real como uma imersão da ficção na realidade, a vigília vem do mar, como que soprada por um corno que percorre toda a América e acorda os que dormem. O futuro vem‑se dentro da memória, o futuro vence dentro da memória…
As tuas saias são os séculos a virem, a tua língua, futuro líquido em expansão (será falada pela gente a vir) … O sol lambe os pulsos da verdade, apalpa‑a, abraça‑a, possui‑a debaixo de água… O degelo com os seus pés quentes com veias azuis, passeará por cima de nós, extremamente devagar — O sol nada dentro dos teus olhos.
Os seus sexos são sinfonias a serem compostas por criadores ainda por nascer; Os seus dedos ainda por formar na barriga da mãe, os amantes ainda por se conhecerem. E toda a cidade chama por ti, como se a cidade toda fosse uma só pessoa, um Orfeu‑cidade que brilha no escuro. Um Orfeu‑cidade recheado de riso que sustem os prédios. Uma arquitectura Maior feita unicamente de alegria. Uma cidade que adora tudo o que é múltiplo e húmido. Uma cidade que adora a transpiração dos que passam no metro e é humilde como a paciência dos cactos… O útero da memória está recheado de música.
Os seus filhos serão outras melodias: Melodias que se sentarão dentro dos guardas florestais e dos bombeiros, melodias-bombeiras que voam dentro do fogo, que ardem no interior do peito: melodias que queimam os seus melhores poemas, ou fumam os seus melhores poemas; os seus melhores poemas são apenas tácteis e feitos de calor:
O futuro vem‑se dentro de Cassandra — o futuro vence dentro de Cassandra.
Ela escreve na areia molhada com um pequeno pau: Quando as pessoas morrem transformam‑se em música?

Vem uma onda apaga a pergunta. É a forma da água responder.

                                                                                       Nuno Brito, Duplo-Poço. Lisboa: Hariemuj, 2012