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quarta-feira, 14 de junho de 2017

André Domingues: Outro céu


Sobre a noite, sobre o suave sofrimento dos telhados,
sobre as cúpulas da alegria, o teu corpo perdia-se
numa sucessão de encontros desmesurados.
Aprendia a beber as suas próprias distâncias,
as suas mais amadas ciladas,
enquanto expulsava o blues metálico da solidão.
E não havia palavra que não estivesse diante
dessa tempestade que não se calasse.
Não havia veneno que não fosse sincero.
Não havia ciência que não reproduzisse um acaso
tremendo no centro do erro mais certo.
Não havia sequer um tecto
que não ocultasse outro céu.


André Domingues.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

André Domingues

Personagens Secundárias


Escreves o livro da tua vida com a boca colada a um manancial. O teu coração está em Madrid, algures entre a promiscuidade da selva e a tristeza do arcanjo. Fazes um esforço insano para pareceres invariável, grato, trivial, nem que seja por um instante. Aprendeste a falar mais alto. A dobrar as consoantes, a abrir as vogais. Aprendeste a conviver com a elipse, a olhar com profundidade para os vazios narrativos que arrastam o fedor e a fidelidade pelas paredes do teu pequeno quarto alugado e até o teu desespero se tornou elegante e sociável, depois de teres provado a sua ineficácia total. Sempre que o narrador te obriga a caminhar pelas ruas movimentadas da cidade, sem outro propósito que não o da pura locomoção, tu fazes ligeiras digressões interiores para escapares à prepotência mecânica da fábula e extrais dessa minúscula infracção uma radiosa e inevitável felicidade. O enredo dobra-se e desdobra-se vezes sem
conta numa sinuosa procissão de mandatos, ordens, desordens e recados, que cumpres escrupulosamente até não poderes mais. Quando anoitece e julgas que sais do trabalho, mandam-te finalmente jantar e depois regressar ao quarto, assistir a um pouco de solidão no ecrã. Mas assim que finges os protocolos do sono e crias a elipse terminal, diriges-te para a penumbra redentora de um bar, numa hora tóxica em que o diálogo reina sobre a descrição pouco apaziguada de um sofá, e ficas sentado junto de um par de pernas em chamas, com a garganta desfeita de tanto calares, um copo de uísque na mão onde o reflexo do teu rosto perdura trémulo e oxidado.
É quando te escorrem as lágrimas.
           
André Domingues. em Enfermaria 6.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

André Domingues: o teu vestido


Agarro a tesoura porque estou apaixonado por tudo o que a tesoura pode fazer por mim. Num instante recordo os direitos e os deveres da tesoura. Os deveres: cortar, recortar, resumir. Os direitos: matar, magoar, interferir. Entretanto a tesoura confessa-me que está faminta. Já não corta há muito tempo, disse-me, com o olhar de lince dirigido ao teu vestido. A tesoura está mesmo desesperada, parece querer ganhar vida, faz acrobacias no ar, abre e fecha as suas pernas de bailarina e oferece a sua nudez e os seus serviços ao teu vestido. O teu vestido não fala, não se mexe, não reage porque tem medo de perder a virgindade do destino, mas, no fundo, o teu vestido já é curto e decotado o suficiente para perceber que a morte é uma alegoria, que nenhuma arma pode acrescentar nada à natureza do indivíduo e que o melhor é fechar os olhos e não resistir.


André Domingues (Inédito).

domingo, 24 de fevereiro de 2013


Concerto de Babel


Este é o reino da minúcia, a noite e as suas estrelas fiandeiras.
A sensação de vertigem é só um sintoma a favor da hipocrisia dos espelhos.
Estou dentro da técnica do mundo, com uma expressiva sensação de inutilidade crescente. Sou metade do rosto da plateia que assiste ao concerto de babel:
Uma mulher explica como se masturba um violoncelo.
  
André Domingues

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

André Domingues

Em comunhão com ninguém


Um convento fica longe da necessidade do mundo,
mas o amor fica ainda muito para lá do convento.
É como se não houvesse estradas para amar, ou pés
suficientemente descalços sobre as incandescências
da ausência viva,
e a reclusão no amor fizesse ela própria votos
de pobreza extrema,
escrevesse um diário da ingratidão
com o desmazelo,
e chegasse a uma fórmula de desviver
honestamente em comunhão com ninguém.