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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Carlos de Oliveira

Águia

As águias não deviam ser aves
mas corações aduncos e com asas:

se olhares à flor dos campos e das casas
sentes o peito maior do que a amplidão:

se alguma coisa nasceu para voar
foi o teu coração.



Carlos de Oliveira. Trabalho Poético. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Carlos de Oliveira

Tempo

O tempo é um velho corvo
de olhos turvos, cinzentos.
Bebe a luz destes dias de um só sorvo
como as corujas o azeite
de lampadários bentos.

E nós sorrimos,
pássaros mortos
no fundo de um paul
dormimos.

Só lá do alto do poleiro azul
o sol doirado e verde,
o fulvo papagaio
(estou bêbado de luz,
caio ou não caio?)

nos lembra a dor do tempo que se perde.


Carlos de Oliveira, Trabalho Poético: Primeiro Volume, Lisboa, Livraria Sá da Costa.

Carlos de Oliveira

Há lágrimas nos teus olhos
e oiço sem querer o meu povo chorar:
soubesses tu que tudo o que me dizes
é a sombra do que me não podes dar.

Venço apenas a morte
quando te amo.
Mas o medo e o silêncio andam connosco
e se sofro não é a ti que chamo.

Choro por mim, por nós,
lembra-me a voz desse proscrito antigo:
morro e toda a tua grandeza,
pátria, vai comigo.


Carlos de Oliveira, Trabalho Poético: Primeiro Volume, Lisboa, Livraria Sá da Costa.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Carlos de Oliveira: Sobre o Lado esquerdo


De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa: “o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração”.

Carlos de Oliveira (1992), Obras de Carlos de Oliveira, Lisboa, Editorial Caminho.